Dedos

MÃOS — DEDOS

Jean Canteins: A VIA DAS LETRAS
A mão compreende cinco dedos. O número cinco é assim o primeiro número característico da mão: em árabe um dos nomes da mão é khams, que quer dizer cinco.

Os cinco dedos da mão constituíram o embrião da aritmética, que, primitivamente, não individualizou senão os cinco primeiros números — e por vezes menos ainda —, os outros números tendo há muito tempo procedido dos primeiros (por exemplo: VI — V + I). Esta numeração quinária se estendeu progressivamente a todos os dedos para chegar à Década. A aritmologia conservou um traço desta prática não dando forma particular senão às nove primeiras cifras e ao zero e investindo a Década de uma importância toda especial não somente nos pitagóricos mas nos sistemas decimais elaborados como aqueles da Índia e da China (onde este sistema coexiste com o sistema duodecimal).

Quer se trate de reforçar uma declaração ou uma oração, a junção das mãos tem por efeito elevar do número cinco ao número dez. Ora, a Década assim obtida não constitui senão um outro aspecto da Unidade da qual ela é de certa maneira uma extensão. Este reporte da Unidade à Década é concretizado pelo fato que o número 10 é formado a partir do número 1. O gênio e a superioridade lógica do sistema decimal são manifestos nos dez dedos das duas mãos e na faculdade que têm de se unir. Juntando as mãos o orador ou o orante transpõe sobre o plano gestual o que os pitagórico exprimem por meio da Tetraktys.

A série de 1 a 10, tão perfeita em sua totalidade, não esgota, no entanto, a estrutura numeral da mão que permanece aberta a outros números característicos.

Os cinco dedos contam ao todo catorze falanges: dois por polegar e três para cada um dos quatro outros dedos. Catorze é um número importante. Por um lado, como o número cinco, é um número da mão: em árabe como em hebreu a mão se diz yad, palavra que tem por valor numérico 14 (10 + 4). Por outro lado, é um número chave da ciência das letras no contexto árabe e evocamos alguns aspectos a respeito de Taha. O alfabeto árabe contando 28 letras (huruf), o número 14 o partilha em duas metades. O fato de poder repartir sobre as falanges a totalidade das huruf em duas séries iguais pôde inspirar a ideia de fazer das mãos o receptáculo das huruf. Este receptáculo é condicionado pelas significações da esquerda e da direita. Pode-se, por exemplo, observar que a respeito da discriminação entre huruf “luminosos” e “obscuros” assim como a respeito de sua repartição entre as 28 mansões da lua, é dito que as 14 “luminosas” são postas em relação com as mansões invisíveis do hemisfério sul e as 14 “obscuras” com as mansões visíveis do hemisfério norte. Uma tal correspondência é coerente com uma repartição sobre as duas mãos direita e esquerda. Com efeito, a mão direita, universalmente considerada de bom auguro, está em ligação com o sul: o termo yamin recobrindo, em árabe como em hebreu, a dupla noção de (mão) “direita” e de “sul”. Inversamente, a mão esquerda, de mau auguro, está em ligação com o norte: shimal. Não somente há coerência mas a bipolaridade direita-sul e esquerda-norte pôde contribuir à localização dos huruf e notadamente, a sua repartição no macrocosmo entre seus hemisférios respectivos cujas falanges das duas mãos — espécies de mansões predispostas — constituem uma réplica microcósmica.

No contexto das huruf árabes, os números 14 e 28 significam a metade e o inteiro.



MÃOS — DEDOS

Jean Canteins: A VIA DAS LETRAS
A mão compreende cinco dedos. O número cinco é assim o primeiro número característico da mão: em árabe um dos nomes da mão é khams, que quer dizer cinco.

Os cinco dedos da mão constituíram o embrião da aritmética, que, primitivamente, não individualizou senão os cinco primeiros números — e por vezes menos ainda —, os outros números tendo há muito tempo procedido dos primeiros (por exemplo: VI — V + I). Esta numeração quinária se estendeu progressivamente a todos os dedos para chegar à Década. A aritmologia conservou um traço desta prática não dando forma particular senão às nove primeiras cifras e ao zero e investindo a Década de uma importância toda especial não somente nos pitagóricos mas nos sistemas decimais elaborados como aqueles da Índia e da China (onde este sistema coexiste com o sistema duodecimal).

Quer se trate de reforçar uma declaração ou uma oração, a junção das mãos tem por efeito elevar do número cinco ao número dez. Ora, a Década assim obtida não constitui senão um outro aspecto da Unidade da qual ela é de certa maneira uma extensão. Este reporte da Unidade à Década é concretizado pelo fato que o número 10 é formado a partir do número 1. O gênio e a superioridade lógica do sistema decimal são manifestos nos dez dedos das duas mãos e na faculdade que têm de se unir. Juntando as mãos o orador ou o orante transpõe sobre o plano gestual o que os pitagórico exprimem por meio da Tetraktys.

A série de 1 a 10, tão perfeita em sua totalidade, não esgota, no entanto, a estrutura numeral da mão que permanece aberta a outros números característicos.

Os cinco dedos contam ao todo catorze falanges: dois por polegar e três para cada um dos quatro outros dedos. Catorze é um número importante. Por um lado, como o número cinco, é um número da mão: em árabe como em hebreu a mão se diz yad, palavra que tem por valor numérico 14 (10 + 4). Por outro lado, é um número chave da ciência das letras no contexto árabe e evocamos alguns aspectos a respeito de Taha. O alfabeto árabe contando 28 letras (huruf), o número 14 o partilha em duas metades. O fato de poder repartir sobre as falanges a totalidade das huruf em duas séries iguais pôde inspirar a ideia de fazer das mãos o receptáculo das huruf. Este receptáculo é condicionado pelas significações da esquerda e da direita. Pode-se, por exemplo, observar que a respeito da discriminação entre huruf “luminosos” e “obscuros” assim como a respeito de sua repartição entre as 28 mansões da lua, é dito que as 14 “luminosas” são postas em relação com as mansões invisíveis do hemisfério sul e as 14 “obscuras” com as mansões visíveis do hemisfério norte. Uma tal correspondência é coerente com uma repartição sobre as duas mãos direita e esquerda. Com efeito, a mão direita, universalmente considerada de bom auguro, está em ligação com o sul: o termo yamin recobrindo, em árabe como em hebreu, a dupla noção de (mão) “direita” e de “sul”. Inversamente, a mão esquerda, de mau auguro, está em ligação com o norte: shimal. Não somente há coerência mas a bipolaridade direita-sul e esquerda-norte pôde contribuir à localização dos huruf e notadamente, a sua repartição no macrocosmo entre seus hemisférios respectivos cujas falanges das duas mãos — espécies de mansões predispostas — constituem uma réplica microcósmica.

No contexto das huruf árabes, os números 14 e 28 significam a metade e o inteiro.


Para os dogons, o dedo indicador (index) é o dedo da vida; o dedo médio, o da morte. O médio da mão esquerda é a única parte visível do corpo do defunto, todo ele escondido e atado numa cobertura ritual. Os dogons dizem que é com a ajuda desse dedo que o morto fala aos vivos. Mas o índex é também o dedo “do senhor da palavra (valor numérico 7), e o médio o dedo da própria palavra (valor numérico 2).

O polegar é símbolo de poder para os bambaras, entre os quais os chefes usam no polegar um anel ornado com o signo do raio: quando dão uma ordem balançando a mão, ameaçam, desse modo, com o raio, o interlocutor. Em oposição a esse dedo, e simbolizando o poder social, o auricular ou mínimo, sempre para os bambaras, que o denominam filho dos outros dedos, é detentor da nyama, i.e., da força vital dos outros dedos. Eles o empregam para a adivinhação e para lançar as sortes. O dedo mínimo do pé, como o auricular, simboliza a pessoa inteira e é, por vezes, enfeitado com um anel de prata, símbolo do verbo que habita a totalidade do corpo humano, da cabeça aos pés. Um gesto feito com o auricular é sinal de aquiescência total e compromete a pessoa inteira.

O intervalo que separa o dedão do pé do dedo seguinte tem uma significação sexual para os bambaras. Eles consideram, com efeito, que ali se encontra um dos centros nervosos do corpo humano, o qual governa as cordas, i.e., os nervos do sexo e do ânus. Ele é, então, o reflexo das funções de locomoção, de reprodução e de evacuação do corpo humano. Numerosas práticas, esclarece M. Zahan, põem essa relação em evidência. Assim, diz-se da mulher que tem esse vão muito aberto que ela tem fortes apetites sexuais e uma certa tendência à libertinagem. Por outro lado, é costume prender ao dedão do pé de cada um dos recém-casados um fio de algodão: isso ajuda o homem na defloração e ajuda a mulher a suportar as dores.

Ainda para os bambaras, o polegar encarna a força, não somente física mas mental. Esse dedo, prolongamento da atividade da alma, representa igualmente o trabalho.

Os dogons atribuem também ao polegar os valores numéricos 3 e 6 (GRIE), valor triplicemente masculino, uma vez que o n.° 3 é o signo da masculinidade. O indicador é o dedo do juízo, da decisão, do equilíbrio, do silêncio, i.e., do autodomínio. O dedo médio, “pai de todos”, simboliza a afirmação da personalidade; o anular e o auricular estilo ligados às funções de sexualidade, aos desejos e apetites; mas o símbolo do anular é mais nitidamente sexual que o do outro; o do auricular, mais esotérico: ele é o dedo dos desejos secretos, dos poderes ocultos, da adivinhação.

O padre Dupeyrat constatou que as mulheres da Papuásia (Nova Guiné) cortavam uma falange em sinal de luto quando lhes morria o marido. Alfred Métraux registra o mesmo costume entre os indígenas do delta do Paraná, no Brasil.

Segundo o sistema de correspondências planetárias do microcosmo, a astrologia tradicional faz do polegar o dedo de Vénus; do indicador, o de Júpiter; do médio, o de Saturno; do anular, o dedo solar; e do auricular, o dedo de Mercúrio. (DS)