filosofia e ciências

A filosofia é uma ciência, mas há outras disciplinas que merecem este título: a matemática ou a física, por exemplo. Como estas formas de saber se distinguem umas das outras?

Para Aristóteles, a diferença procede de que a filosofia não explica pelas mesmas causas que as ciências particulares. As causas formam, com efeito, uma ordem, uma hierarquia; existem causas inferiores e causas de grau mais elevado. Uma vez que eu descobri uma causa, posso procurar a causa dessa causa, e assim sucessivamente. . . É desta maneira que eu explicaria sucessivamente o eclipse pela interposição da lua, a interposição pelas leis mecânicas do sistema solar, estas leis pela gravitação, a gravitação, talvez, pela estrutura da matéria, e a matéria por Deus. A filosofia é, nessa linha de procura, a explicação pelas causas mais elevadas, pelas causas primeiras, quer dizer, por causas que se bastam a si mesmas e além das quais nada mais há a procurar. Tal é a razão formal pela qual a filosofia se distingue das ciências particulares. Rigorosamente falando, esta definição só convém, de maneira adequada, à metafísica. Entretanto, ela pode ser estendida a todos os domínios do saber, lógica, cosmologia, psicologia etc., por onde, independentemente do caminho trilhado, se tem acesso também ao nível superior de explicação.

Pode-se observar, aliás, que as causas mais elevadas são ao mesmo tempo as mais universais: a gravitação, por exemplo, explica mais fatos do que tal lei particular de mecânica celeste e Deus, que está no ápice, explica tudo. Portanto, absolutamente nada há que não esteja compreendido no objeto da filosofia, a qual tem, desta forma, o máximo de extensão. Assim é que podemos dizer, em conclusão, que “a filosofia é o conhecimento pelas causas primeiras e universais”: “Sapientia est cognitio per primas et universales causas”.

Encontrar-se-á uma exposição desenvolvida desta doutrina no início da Metafísica (A, C. 1-2; cf. Coment. de S. T., 1, 1. 1-3) . Ela se acha excelentemente condensada neste texto da Suma contra os Gentios (III, e. 25): “Há em todo homem um desejo natural de conhecer a causa daquilo que percebe. É, portanto, em consequência da admiração sentida em face dos objetos, mas cuja causa lhe permanece escondida, que o homem se põe a filosofar. Uma vez descoberta a causa, seu espírito se tranquiliza. Mas a busca não cessa até que se tenha chegado à primeira causa, porque só quando esta é conhecida é que se considera conhecer de uma maneira perfeita.”

“Naturaliter inest omnibus hominibus desiderium cognoscendi causas eorum quae videntur: unde propter admirationem eorum quae videbantur, quorum causa latebant, homines primo philosophari caeperunt; invenientes causam quiescebant. Nec sistit inquisitio quousque perveniamus ad primam causam, et tunc perfecte nos scire arbitramur quando primam causam cognoscimus”.

Tendo distinguido filosofia e ciências, resta-nos precisar suas respectivas relações. Esta questão, por demais complexa, não pode ser convenientemente elucidada em uma simples introdução. Digamos em síntese que, por um lado, a filosofia, a título de sabedoria, tem um certo poder de organização superior, e mesmo de apreciação dos resultados, ou de julgamento, em face das ciências inferiores; e que, por outro lado, estas ciências guardam no interior de seu domínio próprio sua autonomia, quanto ao método que empregam e sua realização. Esta solução, observa Maritain, é ainda um meio-têrmo entre as afirmações extremas daqueles que colocam, como Descartes, as ciências particulares em continuidade imediata com a filosofia, e daqueles para quem a filosofia nada teria de comum com as ciências.

De fato, a linha de divisão da filosofia e das ciências está longe de permanecer constante. Na antiguidade e na Idade Média, a filosofia teve tendência a absorver o conjunto dos conhecimentos científicos. Todas as ciências da natureza lhe pertenciam. Somente as matemáticas e, em um outro domínio, as artes técnicas, podiam se prevalecer de uma existência relativamente independente. No corpo unificado do saber científico, a metafísica tem evidentemente um lugar eminente, pois ela constitui a Filosofia primeira, a física tendo por sua vez, em Aristóteles, o lugar de Filosofia segunda. Depois da Renascença o saber ficou mais fragmentado. Ao lado dos filósofos, aparecem os sábios, no sentido moderno da palavra e, independentemente da filosofia, se multiplicam disciplinas particulares pretendendo estabelecer-se por si mesmas. Depois das matemáticas, foram em seguida as ciências da natureza que reivindicaram um estatuto autônomo. Hoje, com a constituição de uma psicologia ou de uma sociologia científica, a especialização atingiu o próprio domínio das coisas do espírito. (Gardeil)


A filosofia é uma ciência, mas há outras disciplinas que merecem este título: a matemática ou a física, por exemplo. Como estas formas de saber se distinguem umas das outras?

Para Aristóteles, a diferença procede de que a filosofia não explica pelas mesmas causas que as ciências particulares. As causas formam, com efeito, uma ordem, uma hierarquia; existem causas inferiores e causas de grau mais elevado. Uma vez que eu descobri uma causa, posso procurar a causa dessa causa, e assim sucessivamente. . . É desta maneira que eu explicaria sucessivamente o eclipse pela interposição da lua, a interposição pelas leis mecânicas do sistema solar, estas leis pela gravitação, a gravitação, talvez, pela estrutura da matéria, e a matéria por Deus. A filosofia é, nessa linha de procura, a explicação pelas causas mais elevadas, pelas causas primeiras, quer dizer, por causas que se bastam a si mesmas e além das quais nada mais há a procurar. Tal é a razão formal pela qual a filosofia se distingue das ciências particulares. Rigorosamente falando, esta definição só convém, de maneira adequada, à metafísica. Entretanto, ela pode ser estendida a todos os domínios do saber, lógica, cosmologia, psicologia etc., por onde, independentemente do caminho trilhado, se tem acesso também ao nível superior de explicação.

Pode-se observar, aliás, que as causas mais elevadas são ao mesmo tempo as mais universais: a gravitação, por exemplo, explica mais fatos do que tal lei particular de mecânica celeste e Deus, que está no ápice, explica tudo. Portanto, absolutamente nada há que não esteja compreendido no objeto da filosofia, a qual tem, desta forma, o máximo de extensão. Assim é que podemos dizer, em conclusão, que “a filosofia é o conhecimento pelas causas primeiras e universais”: “Sapientia est cognitio per primas et universales causas”.

Encontrar-se-á uma exposição desenvolvida desta doutrina no início da Metafísica (A, C. 1-2; cf. Coment. de S. T., 1, 1. 1-3) . Ela se acha excelentemente condensada neste texto da Suma contra os Gentios (III, e. 25): “Há em todo homem um desejo natural de conhecer a causa daquilo que percebe. É, portanto, em consequência da admiração sentida em face dos objetos, mas cuja causa lhe permanece escondida, que o homem se põe a filosofar. Uma vez descoberta a causa, seu espírito se tranquiliza. Mas a busca não cessa até que se tenha chegado à primeira causa, porque só quando esta é conhecida é que se considera conhecer de uma maneira perfeita.”

“Naturaliter inest omnibus hominibus desiderium cognoscendi causas eorum quae videntur: unde propter admirationem eorum quae videbantur, quorum causa latebant, homines primo philosophari caeperunt; invenientes causam quiescebant. Nec sistit inquisitio quousque perveniamus ad primam causam, et tunc perfecte nos scire arbitramur quando primam causam cognoscimus”.

Tendo distinguido filosofia e ciências, resta-nos precisar suas respectivas relações. Esta questão, por demais complexa, não pode ser convenientemente elucidada em uma simples introdução. Digamos em síntese que, por um lado, a filosofia, a título de sabedoria, tem um certo poder de organização superior, e mesmo de apreciação dos resultados, ou de julgamento, em face das ciências inferiores; e que, por outro lado, estas ciências guardam no interior de seu domínio próprio sua autonomia, quanto ao método que empregam e sua realização. Esta solução, observa Maritain, é ainda um meio-têrmo entre as afirmações extremas daqueles que colocam, como Descartes, as ciências particulares em continuidade imediata com a filosofia, e daqueles para quem a filosofia nada teria de comum com as ciências.

De fato, a linha de divisão da filosofia e das ciências está longe de permanecer constante. Na antiguidade e na Idade Média, a filosofia teve tendência a absorver o conjunto dos conhecimentos científicos. Todas as ciências da natureza lhe pertenciam. Somente as matemáticas e, em um outro domínio, as artes técnicas, podiam se prevalecer de uma existência relativamente independente. No corpo unificado do saber científico, a metafísica tem evidentemente um lugar eminente, pois ela constitui a Filosofia primeira, a física tendo por sua vez, em Aristóteles, o lugar de Filosofia segunda. Depois da Renascença o saber ficou mais fragmentado. Ao lado dos filósofos, aparecem os sábios, no sentido moderno da palavra e, independentemente da filosofia, se multiplicam disciplinas particulares pretendendo estabelecer-se por si mesmas. Depois das matemáticas, foram em seguida as ciências da natureza que reivindicaram um estatuto autônomo. Hoje, com a constituição de uma psicologia ou de uma sociologia científica, a especialização atingiu o próprio domínio das coisas do espírito. (Gardeil)