VIDE gr. aisthesis
Ora é neste prolongamento e nas diversas tentativas para dar resposta à questão emergente «o que é então a justiça» (ou a coragem, ou a temperança, etc.) que o problema simultaneamente se adensa e se complica.
É que, na verdade, tal prolongamento permitirá mostrar que a facticidade da excelência é uma facticidade assaz paradoxal: paradoxal, por um lado, porque, dando-se muito embora como um facto, não parece justamente muito fácil indicar «fatos» de excelência, uma vez que dela não se disponibilizam instâncias perfeitas e acabadas. Mas mais paradoxal ainda, por outro lado, porque não se disponibiliza sequer aquela instância muito particular de excelência em que ela se esclarece, qual é o enunciado que a própria questão «o que é» procura .
E é aqui que propriamente se coloca o problema e a aporia do saber. Com efeito, se é constitutivo do saber a sua expressão discursiva, estranha–se que aqueles que sabem a excelência, pelo menos como um facto, não a saibam dizer; mas, principalmente, se a excelência é na verdade um factum da experiência, estranha-se muito mais que em nenhum facto concretamente atestável ela se possa experimentar completamente.
É esta evidente insuficiência da experiência comum que conduz Sócrates a dirigir-se à experiência de outro modo e num sentido diverso; em concreto, a dirigir-se à experiência dos experimentados. Tal não radica apenas, no entanto, num suposto falhanço prévio de outras pesquisas, mais diretas e ingênuas, de que eventualmente não sobraria testemunho; tal deve-se, pelo contrário, a uma determinação radical da própria excelência.
Com efeito, a excelência tem esta característica particular, em relação a outros possíveis tópicos de discussão, de se instanciar empiricamente não em puros «objetos» de experiência (se se permite o anacronismo), mas necessariamente em «sujeitos» de experiência .
Neste sentido, o campo de experiência possível da excelência coincide necessariamente, pela mesma razão, com o campo dos «experimentados»; e daí que Sócrates recorra imediatamente, nos diálogos, à investigação junto destes, procurando saber a coragem junto dos corajosos (Laques e Nícias), a temperança junto do temperante (Cármides), a piedade junto do piedoso (Êutifron), o saber e a excelência junto dos sábios e mestres da excelência (Protágoras, Górgias, Hípias, Eutidemo e Dionosodoro), a amizade, enfim, junto dos amigos (Lísis e Menexeno), porque é neles que, alegadamente, a excelência se dá a experimentar.
Não há nenhuma ironia, cremos nós, neste recurso: a ironia está toda, ao que parece, nos seus resultados.
Ora tal recurso constitui a justificação da segunda exigência fundamental da pesquisa, i. e., a exigência de que o interlocutor participe já, de algum modo, do que se busca saber: pois que tal participação é desde logo a condição prévia de um eventual sucesso, qual é a de partir da experiência, i. e., no caso, dos «experimentados».
Afigura-se por este motivo perfeitamente legítimo, de uma parte, alargar as referências expressas de Sócrates a esta exigência (no Cármides e no Lísis) a todos os diálogos socráticos e, de outra, tomar o contacto privilegiado de Sócrates com alegados corajosos, piedosos ou sábios como um corresponder à mesma exigência: pois que, nas duas situações, se trata de uma idêntica obediência ao primado da experiência. Mas mais do que isso: as últimas reflexões permitem-nos simultaneamente explicar por que razão aquela exigência só surge explicitada precisamente naqueles dois diálogos: porque nos restantes Sócrates lida já com reconhecidos casos das excelências, expressão pela qual devemos entender a consciência que de si mesmos tais sujeitos possuem e o modo pelo qual, merecida ou imerecidamente, ganharam notoriedade pública. [MesquitaPlatão:50-52]