===== TEORIA DA ANALOGIA ===== O emprego da [[lexico:a:analogia:start|analogia]] é constante, tanto no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:v:vulgar:start|vulgar]] como nas especulações das ciências. São ditas análogas as realidades que apresentam entre si algumas similitudes. Mas nem toda similitude é suficiente para fundar uma verdadeira analogia filosófica; assim, importa antes de tudo explicitar e precisar o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] desta. No [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]], a doutrina da analogia vai-nos [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] de início como uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da [[lexico:l:logica:start|lógica]] [[lexico:g:geral:start|geral]] que restará apenas aplicar ao caso notável do [[lexico:s:ser:start|ser]]. - [[lexico:n:nocao:start|Noção]] de analogia. De maneira habitual, [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] apresenta a analogia como um [[lexico:m:modo:start|modo]] de [[lexico:a:atribuicao:start|atribuição]] lógica, intermediário entre a atribuição unívoca e a atribuição equívoca. O [[lexico:t:termo:start|termo]] [[lexico:u:univoco:start|unívoco]] se reporta aos seus inferiores segundo uma mesma [[lexico:s:significacao:start|significação]]; o termo ou o [[lexico:n:nome:start|nome]] [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]] convém às [[lexico:c:coisas:start|coisas]] às quais é atribuído segundo [[lexico:s:significacoes:start|significações]] inteiramente diversas; o termo [[lexico:a:analogo:start|análogo]] diz-se dos seus inferiores segundo uma significação parcialmente’ diferente e parcialmente [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]]. "As atribuições analógicas nos aparecem manifestamente como intermediárias entre as atribuições unívocas e as atribuições equívocas. No caso da [[lexico:u:univocidade:start|univocidade]], com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], um mesmo nome é atribuído a diversos sujeitos segundo uma [[lexico:r:razao:start|razão]] ou uma significação semelhante, assim o termo [[lexico:a:animal:start|animal]], reportado ao cavalo e ao boi significa [[lexico:s:substancia:start|substância]] animada [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]. No caso da [[lexico:e:equivocidade:start|equivocidade]], um mesmo nome vê-se atribuído a diversos sujeitos segundo uma razão totalmente diferente, como aparece evidentemente para o nome cão, atribuído ao astro e a uma certa [[lexico:e:especie:start|espécie]] animal. No que concerne às noções ditas analogicamente, um mesmo nome é atribuído a diversos sujeitos segundo uma razão parcialmente a mesma e parcialmente diferente: diferente pelos diversos modos de [[lexico:r:relacao:start|relação]]: a mesma por aquilo a que se reporta a relação... In his [[lexico:v:vero:start|vero]] quae proedicto modo dicuntur, idem nomen de diversis praedicatur secundum rationem partim eamdem, partim diversam. Diversam quidem quantum ad diversos modos relationis. Eamdem vero quantum ad id ad [[lexico:q:quo:start|quo]] fit relatio". Metaph., XI, l. 3, n. 2197 Que [[lexico:e:elementos:start|elementos]] vêm, pois, integrar exatamente esta noção de analogia, que um primeiro [[lexico:d:discernimento:start|discernimento]] nos levou a situar entre a univocidade do [[lexico:u:universal:start|universal]] [[lexico:l:logico:start|lógico]] e a equivocidade das denominações puramente convencionais? Segundo sua significação primitiva, a analogia designa uma relação, uma conveniência, uma proporção: toda [[lexico:d:denominacao:start|denominação]] analógica se refere portanto a uma relação ou a [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre certos seres Esta [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] da analogia pode ser considerada, seja do lado das realidades, que são referidas umas às outras, isto é, aos analogados, seja do lado do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] no qual o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] se esforça por unificar a [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] que tem assim diante dos olhos. Acrescentemos que a analogia implica sempre uma certa [[lexico:o:ordem:start|ordem]], e esta supõe um [[lexico:p:principio:start|princípio]] unificador. Para que haja analogia verdadeira é preciso, pois, que haja uma [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] de realidades referidas umas às outras, segundo uma certa ordem, e que o espírito se esforce para unificá-las em um só conceito. - [[lexico:d:divisao:start|Divisão]] da analogia. Tomás de Aquino, em um [[lexico:t:texto:start|texto]] a que se faz alusão frequentemente (I Sent., d. 19, q. 5, a. 2, ad 1), e Caietano, no seu De nominum analogia, propuseram uma divisão tripartida da analogia; mas como a analogia secundum [[lexico:e:esse:start|esse]] et non secundum intentionem do primeiro, e a analogia inaequalitas do segundo correspondem, na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], a um conceito unívoco (diversamente participado somente), está-se de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] para reter somente dois grandes tipos de analogia: a analogia de atribuição (dita, em Tomás de Aquino, de proporção) e analogia de proporcionalidade. A analogia de atribuição. É a que encontramos de modo mais [[lexico:e:explicito:start|explícito]] em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] e que ele [[lexico:p:proprio:start|próprio]] aplicou ao caso notável do ser, [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Neste [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de analogia, a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] se dá quando se reporta os diversos analogados considerados em relação a um mesmo termo. Retomando o [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] [[lexico:c:classico:start|clássico]], diremos que neste sentido, esta urina é sã, este alimento é são, esta medicina é sã, porque estas diversas coisas têm relação de [[lexico:s:sinal:start|sinal]] ou de [[lexico:c:causa:start|causa]] relativamente à saúde, a qual só se encontra evidentemente de modo próprio no animal. Precisemos que na analogia de atribuição, há sempre um analogado principal, que é o [[lexico:u:unico:start|único]] a possuir intrinsecamente a "razão" significada pelo termo considerado. Os outros analogados são qualificados segundo esta "razão" somente por uma [[lexico:s:simples:start|simples]] denominação; a saúde, no exemplo citado, só existe formalmente e como tal no animal. Em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], diremos em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]] que a [[lexico:f:forma:start|forma]] considerada é una, de uma unidade numérica, encontrando-se apenas em um só analogado; em segundo lugar, que esta forma deve figurar na [[lexico:d:definicao:start|definição]] dos outros analogados; enfim que estes analogados derivados [[lexico:n:nao:start|não]] podem ser representados por um só conceito, mas somente por uma pluralidade de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], implicando-se de uma certa maneira uns aos outros. Convém acrescentar que entre os analogados deste tipo há uma certa ordem de gradação, segundo estejam em uma proximidade maior ou menor do analogado. A analogia de proporcionalidade. Neste caso, a unidade dos analogados não se dá mais devido às relações que teriam relativamente a um termo único, primeiro analogado, mas devido às suas proporções mútuas. Dir-se-á, por exemplo, que há uma analogia, do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista [[lexico:a:atividade:start|atividade]] de [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], entre a [[lexico:v:visao:start|visão]] e a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]], porque a visão está para o olho assim como a intelecção está para a [[lexico:a:alma:start|alma]], o que se figurará com o próprio Tomás de Aquino, sob forma de proporção: visão/olho = intelecção/alma não esquecendo contudo que o [[lexico:s:simbolismo:start|simbolismo]] matemático não deve ser tomado aqui num sentido rigoroso, as duas relações em [[lexico:p:presenca:start|presença]] não estando ligadas por uma [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] pura. O que distingue profundamente este tipo de analogia do precedente é que a "razão" significada pelo termo se encontra intrinsecamente ou formalmente em cada um dos analogados. Não há, pois, neste caso, um primeiro analogado que seria o único a possuir esta "razão". O [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]] desta analogia não é mais simplesmente uma relação extrínseca, mas uma comunidade profunda entre os diferentes termos: visão e intelecção são verdadeiramente, uma e outra, atos de conhecimento. Segue-se daí que, nesta analogia, um dos termos não se encontra implicado necessariamente na definição dos outros termos e que todos os termos podem de uma certa maneira, ser representados por um conceito único, conceito imperfeitamente unificado contudo, e do qual precisaremos as condições especiais mais adiante. Tomás de Aquino, em um texto sobre o qual costuma-se apoiar para estabelecer esta doutrina, subdivide a analogia de proporcionalidade em analogia metafórica e em analogia própria (De Veritate, q. 11, a. 2). Na analogia própria, que é aquela que definimos, a "razão" significada pelo termo se encontra formalmente e verdadeiramente em cada um dos analogados. Na analogia metafórica, nós a encontramos propriamente só em um dos dois, os outros só a compreendem a modo de similitude; assim, o [[lexico:r:riso:start|riso]], que convém propriamente ao [[lexico:h:homem:start|homem]], só é atribuído à campina por similitude. Esta última forma de pensamento tem um emprego [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] e a própria [[lexico:t:teologia:start|teologia]] faz dele [[lexico:u:uso:start|uso]] frequente; entretanto, devido à sua impropriedade, tal analogia não deve ser mantida em metafísica. - Unidade e [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] do conceito [[lexico:a:analogico:start|analógico]]. Este ponto é extremamente importante, pois o conceito analógico está numa [[lexico:s:situacao:start|situação]] bastante especial. A [[lexico:q:questao:start|questão]] que se coloca é a seguinte: como um conceito pode conseguir unificar uma diversidade sem excluir, com efeito, esta própria diversidade? Notemos desde já que esta questão não se coloca no que diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à analogia metafórica e à analogia de atribuição; nestes casos, não há um conceito único que envolveria todos os analogados, mas sim um conceito principal unívoco, que corresponde ao analogado principal, e, para os analogados derivados, conceitos especiais em relação, entretanto, com o conceito principal. A saúde, para voltar ao nosso exemplo, é atribuída propriamente e univocamente ao animal, o alimento são, a medicina sã, etc... correspondem a conceitos distintos referidos ao conceito do primeiro analogado. Na analogia de proporcionalidade, que é a forma fundamental da analogia metafísica, a razão exprimida pelo termo analógico estando intrinsecamente compreendida em cada um dos analogados, pode-se, pelo contrário, [[lexico:f:falar:start|falar]] de um conceito analógico único: a substância, a [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]], a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]], a relação, etc . . . são formalmente ser e se encontram portanto todas compreendidas na unidade da [[lexico:n:nocao-de-ser:start|noção de ser]]. Mas como um conceito pode guardar uma verdadeira unidade, se deve ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] exprimir uma diversidade? Se se trata de um conceito unívoco, de uma noção genérica, por exemplo, a unidade de significação é manifesta: os termos ser vivo, animal, têm um conteúdo preciso e determinado e a passagem aos termos inferiores, às espécies, se faz pela intervenção de diferenças específicas exteriores ao [[lexico:g:genero:start|gênero]] e que estavam neste somente em [[lexico:p:potencia:start|potência]]. O conceito unívoco é formalmente [[lexico:u:uno:start|uno]], e divisível em potência. No caso do conceito analógico, unidade e diversidade se realizam de modo diferente. Os termos sujeitos, os analogados, não podem ser excluídos do conceito, encontram-se pois aí representados, mas de modo [[lexico:i:implicito:start|implícito]] somente e dentro de uma certa confusão, como todos os homens de uma [[lexico:m:multidao:start|multidão]] que considero são [[lexico:b:bem:start|Bem]] compreendidos na visão que tenho desta multidão, sem que me detenha a olhar algum deles em [[lexico:p:particular:start|particular]]. A unidade de um tal conceito não será aquela de uma forma abstrata, mas uma unidade proporcional, fundada sobre a conveniência [[lexico:r:real:start|real]] que os analogados mantêm entre si. O conceito analógico é um conceito uno, de uma unidade proporcional, envolvendo implicitamente ou de modo confuso a diversidade dos seus analogados. Deste conceito único e confuso passamos ao conhecimento distinto de cada analogado, tornando .explícito o modo que lhe corresponde; temos então um conhecimento preciso, mas é bem evidente que passamos do conceito analógico geral para o conceito particular de um analogado, da noção de ser, por exemplo, à de substância ou de relação. Esta [[lexico:a:analise:start|análise]] do conceito analógico deixa-nos já entrever que a metafísica, cujas noções primeiras são deste tipo, terá um [[lexico:e:estatuto:start|estatuto]] científico e um [[lexico:m:metodo:start|método]] de [[lexico:f:fato:start|fato]] especiais. - Ordem e princípio na analogia. Deixamos até aqui na sombra um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] da analogia sobre o qual o acordo dos principais comentadores de Tomás de Aquino não é perfeitamente realizado. A analogia de atribuição, nós o vimos, somente tem significação se se refere aos analogados secundários a um analogado principal que se encontra necessariamente compreendido na definição destes termos secundários; ela implica pois, na sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]] mesma, uma ordenação a um princípio [[lexico:c:concreto:start|concreto]]. Alguns, no rastro de Silvestre de Ferrara, se perguntam se esta [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] não deve ser estendida à analogia de proporcionalidade. Encontram-se notadamente encorajados a marchar nesta via, ao considerarem que Tomás de Aquino parece falar equivalentemente de atribuição analógica e de atribuição graduada per prius e per posterius. Em toda analogia, portanto, existe uma ordem entre os analogados o que supõe evidentemente que existe um princípio de ordem, o qual só pode ser um primeiro analogado concretamente determinado. É difícil negar que, mesmo na analogia de proporcionalidade, há uma graduação e, portanto, um certo princípio de ordem. Mas pode-se perguntar se este princípio é numérica e concretamente uno e, portanto, se há neste caso um [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] primeiro analogado, ou se se trata somente de um princípio proporcionalmente uno, obtido pelo relacionamento dos analogados em questão. Para tomar o exemplo maior do ser (análogo, como o veremos, de uma analogia de proporcionalidade), deve-se dizer que a [[lexico:a:analogia-do-ser:start|analogia do ser]] pode ou não pode se encontrar realizada sem [[lexico:r:referencia:start|referência]] explícita ao ser primeiro? Isto é, não abandonando a ordem das suas modalidades participadas? Deve-se responder que é [[lexico:p:possivel:start|possível]] formar uma certa noção analógica, sem se reportar a um primeiro analogado; [[lexico:t:ter:start|ter]], em particular, uma noção analógica do ser que não implique relação explícita ao ser [[lexico:p:por-si:start|por si]]. Mas é evidente que a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] mais profunda da ordem considerada não se manifesta senão na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que a unidade da noção venha se fundar sobre a de um primeiro termo real: a [[lexico:m:metafisica-do-ser:start|metafísica do ser]] só está acabada no [[lexico:m:momento:start|momento]] em que o ser criado nos aparece na sua dependência [[lexico:e:essencial:start|essencial]] em relação ao ser que se basta a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. Observar-se-á, contudo, que no caso em questão (o do ser), os seguidores das duas opiniões se encontram para afirmar um primeiro analogado; mas uns pretendem atingi-lo pelos únicos meios da analogia de proporcionalidade, enquanto outros requerem para este [[lexico:f:fim:start|fim]] o concurso da analogia de atribuição. Conviria ainda precisar que este primeiro analogado, que é o princípio de ordem na analogia de atribuição, pode-se encontrar segundo as diversas linhas de [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]. Tomás de Aquino enumera habitualmente a este propósito as causalidades materiais, eficientes, e finais, às quais acrescenta, algumas vezes, a causalidade [[lexico:e:exemplar:start|exemplar]]. Não se ficará, portanto, surpreendido de constatar que, para as mesmas noções, pode-se tratar de várias ordens e, portanto, de vários [[lexico:p:principios:start|princípios]] de analogia. É notadamente o que terá lugar com o ser. Na linha da causalidade material ou subjetiva, as modalidades do ser se ordenarão com relação à substância, [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] primeiro e [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]: é o ponto de vista de Aristóteles na Metafísica. Na ordem da causalidade extrínseca, nos é [[lexico:n:necessario:start|necessário]], para reencontrar o primeiro analogado, remontar até [[lexico:d:deus:start|Deus]], causa [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] ser criado. Tomás de Aquino, ordinariamente, se situa nesta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] que, em definitivo, domina a precedente, o ser não sendo mais aqui considerado como sujeito, mas como esse, isto é, segundo sua [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] última. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}