===== POSSIBILIDADE ===== A possibilidade de um [[lexico:e:ente:start|ente]], ou seja, sua [[lexico:p:potencia:start|potência]] objetiva, pode [[lexico:s:ser:start|ser]] considerada em si (= possibilidade intrínseca) ou em [[lexico:r:relacao:start|relação]] à potência ativa ou passiva de que depende (= possibilidade extrínseca). A possibilidade intrínseca é própria de tudo aquilo que [[lexico:n:nao:start|não]] inclui [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. A possibilidade extrínseca compete a tudo quanto pode ser produzido por uma [[lexico:c:causa:start|causa]]. As ciências não-filosóficas apreciam a possibilidade e a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] unicamente segundo as [[lexico:c:causas:start|causas]] próximas, acessíveis à [[lexico:e:experiencia:start|experiência]]; a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] deve tomar também em consideração a causa suprema inacessível à experiência ([[lexico:o:onipotencia:start|onipotência]], [[lexico:m:milagre:start|milagre]]). Pertencem à [[lexico:o:ordem:start|ordem]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] não só os seres algum dia existentes, como também em [[lexico:g:geral:start|geral]] todos os seres capazes de [[lexico:e:existir:start|existir]], embora nunca existam (o meramente [[lexico:p:possivel:start|possível]], os puros possíveis; contra [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] e os panteístas). Os possíveis não são o [[lexico:n:nada:start|nada]] [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], pois o nada absoluto não pode existir, nem ser definido, nem ser diferenciado de [[lexico:o:outro:start|outro]] nada por características determinadas, ao passo que acerca do possível se podem formular estas afirmações. Tampouco os possíveis são meros entes de [[lexico:r:razao:start|razão]], uma vez que por sua [[lexico:e:essencia:start|essência]] também podem ser reais fora da [[lexico:m:mente:start|mente]]. Todavia aos possíveis não compete [[lexico:p:por-si:start|por si]] qualquer [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:e:existencia:start|existência]] diminuída, visto que entre existir e não existir não há [[lexico:t:termo:start|termo]] médio. Os possíveis têm seu [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] em [[lexico:d:deus:start|Deus]], que se encontra fora da [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do [[lexico:p:puro:start|puro]] possível, porque nele coincidem a possibilidade e a [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. A esfera do possível não depende da ordem do ser facticamente realizado, nem de nosso [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]], mas de Deus, cujo ser é a [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] ser [[lexico:f:finito:start|finito]], e cuja [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] constitui a [[lexico:m:medida:start|medida]] de todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Pelo que, a possibilidade intrínseca não é pura possibilidade [[lexico:l:logica:start|lógica]] (contra [[lexico:k:kant:start|Kant]]), mas é também possibilidade metafísica de existir. Ao logicamente possível ou pensável opõe Kant o realmente possível ou o intuitivo. Kant não conhece uma possibilidade não [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]] e todavia [[lexico:r:real:start|real]]. Embora a possibilidade extrínseca do ser finito se funde na onipotência de Deus, todavia esta não é o fundamento último da possibilidade intrínseca (contra [[lexico:o:occam:start|Occam]]). Também a possibilidade intrínseca não depende da [[lexico:v:vontade:start|vontade]] ou do arbítrio de Deus (contra [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]). Pelo contrário, a onipotência e a vontade eletiva de Deus) pressupõem a possibilidade intrínseca do ser finito. A razão, pela qual o possível pertence à ordem [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]], é a essência imutável de Deus, ou seja, a vinculação do possível com o ser [[lexico:n:necessario:start|necessário]]. Pelo contrário, a marca do possível com a peculiaridade correspondente a cada caso estriba no [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], a um [[lexico:t:tempo:start|tempo]], criador e necessário de Deus, que pode exprimir sua [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] na [[lexico:i:imagem:start|imagem]] do finito, de maneiras infinitamente novas ([[lexico:i:ideia:start|ideia]]). — [[lexico:b:brugger:start|Brugger]]. Este [[lexico:c:conceito:start|conceito]] foi examinado amiúde em relação com o conceito de realidade. A [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:r:respeito:start|respeito]], manifestaram-se duas posições extremas: segundo uma delas o que antes de mais o possível, de [[lexico:m:modo:start|modo]] que o real só se pode definir enquanto estiver dentro do [[lexico:l:limite:start|limite]] de uma possibilidade prévia; a filosofia de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] pode servir de [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]. Segundo outra, só pode falar-se como [[lexico:s:sentido:start|sentido]] do real; a realidade é composta de puras atualidades; esta [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] é defendida por autores como [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]], [[lexico:b:bergson:start|Bergson]]. O mais comum foi, contudo, uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] a entre estes depois extremos. Assim acontece com [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]; com ele, há diversos termos em relação com o nosso [[lexico:p:problema:start|problema]] e diferentes interpretações desses termos. Por exemplo, a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de possibilidade está em íntima relação com a de potência e a noção de [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] está ligada á de possibilidade. Aristóteles define ,o possível dizendo que “algo é possível se, ao passar ao [[lexico:a:ato:start|ato]] do qual se diz que este algo tem a potência, não resultar daí nenhuma impossibilidade” (METAFÍSICA). Segundo ele, possível significa logicamente possível, e, nesse caso a possibilidade é equivalente à não [[lexico:r:repugnancia:start|repugnância]] lógica. Segundo outro [[lexico:s:significado:start|significado]], possível significa “realmente possível”, e, nesse caso, a possibilidade é equivalente à potência. Esta [[lexico:d:distincao:start|distinção]] foi aceite e elaborada pela maior [[lexico:p:parte:start|parte]] dos escolásticos medievais. Embora o possível se defina muitas vezes como aquilo que pode ser e não ser e também como aquilo que não é e pode ser, esse poder entende-se, em certas ocasiões, em sentido [[lexico:l:logico:start|lógico]] e, noutras, em sentido real. juntamente como esta distinção há que mencionar outras. A mais importante é a que se realiza entre a possibilidade absoluta ou intrínseca e a relativa ou extrínseca, porque estes dois termos são fundamentais em relação ao problema da essência e ao modo de [[lexico:e:estar:start|estar]] das [[lexico:e:essencias:start|essências]] na mente divina. Uma essência diz-se intrinsecamente possível quando as suas notas internas não são contraditórias, e extrinsecamente possível quando necessita de uma causa que a leve à existência. O problema da relação entre as essências possíveis e a divindade suscitou duas respostas fundamentais: Segundo uma, sustentada por S. Tomás, entre outros, essas essências dependem, fundamentalmente, da existência divina e, formalmente, do entendimento [[lexico:d:divino:start|divino]]. Nesse sentido, não pode dizer-se que os possíveis dependem da [[lexico:v:vontade-de-deus:start|vontade de Deus]]; aqui entendem-se as essências como intrinsecamente possíveis. Segundo a outra, sustentada por Duns Escoto e Descartes, as essências possíveis dependem da vontade divina; o seu ser é-lhes [[lexico:d:dado:start|dado]] de fora e por isso as essências são aqui extrinsecamente possíveis. Estas questões voltar-se-ão a [[lexico:p:por:start|pôr]] na [[lexico:e:epoca:start|época]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]], pelo menos durante o século dezassete, mas, juntamente com elas, renasceu o velho problema da relação entre o real e o possível. Alguns autores defenderam teses que consideravam próximas da [[lexico:t:tese:start|tese]] platônica das [[lexico:i:ideias:start|ideias]]: as “entidades possíveis” não existem como existem as coisas físicas, mas pode dizer-se delas que são e o seu ser consiste em residir num entendimento [[lexico:s:superior:start|superior]] ou [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] do qual são extraídas para se atualizarem; Leibniz não estava longe desta posição. Em contrapartida, Hobbes nega toda a inserção do possível no real e sustenta que o não real não é possível. O [[lexico:s:suposto:start|suposto]] fundamental desta opinião é a identificação do possível com o possível meramente lógico e o seu [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]] da vinculação que a possibilidade mantém com alguma [[lexico:f:forma:start|forma]] de potência. Outros autores, como Espinosa, Admitem que as [[lexico:c:coisas-reais:start|coisas reais]] são reais na medida em que foram possíveis. Por seu lado, Kant tentou mediar entre a tese que negou a possibilidade e a que a converteu em fundamento do real. O possível fica então situado no [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]. Por isso, para Kant, o possível é “aquilo que concorda com as condições formais da experiência (quanto à [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] e quanto aos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]]). Era [[lexico:n:natural:start|natural]] que, ao ser rejeitada a [[lexico:c:coisa:start|coisa]] em si, [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] e [[lexico:s:schelling:start|Schelling]] convertessem a possibilidade em [[lexico:p:principio:start|princípio]] de qualquer ser. Mas esta possibilidade vai então indissoluvelmente ligada à noção de potência e significa propriamente a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] positiva do Absoluto. Bergson tentou mostrar como é uma [[lexico:f:falacia:start|falácia]] perguntar-se [[lexico:c:como-se:start|como se]] pode entender que haja um ser e não um nada. Ora, segundo Bergson, não só não pode entender-se o real como algo fundado no possível, mas o possível tem que ser explicado pelo real. Assim, em vez de se [[lexico:f:falar:start|falar]] do [[lexico:f:futuro:start|futuro]] como algo possível, deve falar-se num futuro que “terá sido possível”, pois o possível não é senão o real a que se acrescentam atos do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. Por conseguinte, o real é aquilo que se torna possível e não o possível que se converte em real. A última [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] desta [[lexico:n:negacao:start|negação]] a fundamentar a realidade partindo da possibilidade é a eliminação de qualquer [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] na consideração do real, racionalismo que se insinua sempre que se faz do real um dos muitos resultados em que o possível pode desembocar. Mas essa noção não exclui a ideia de possível como a mera indicação de uma [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de obstáculos para que algo aconteça; precisamente nesta confusão do possível como [[lexico:s:simples:start|simples]] não haver [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] com a possibilidade como fundamento da realidade, radicam algumas das dificuldades mais típicas na [[lexico:a:analise:start|análise]] do real. N. [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] considera que a possibilidade é, com a realidade e a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]], um modo de ser. Segundo Hartmann, não são a mesma coisa a possibilidade e a possibilidade real: “aquela reclama, com razão, o amplo [[lexico:c:campo:start|campo]] de uma [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de possibilidades, mas não pode cumprir com a velha exigência de chegar a uma realidade; esta, em contrapartida, mostra-se como uma rigorosa [[lexico:r:referencia:start|referência]] a uma [[lexico:s:serie:start|série]] de condições reais e assim se converte em [[lexico:e:expressao:start|expressão]] de uma relação real. Ambas as classes de ser possível têm desse modo o [[lexico:c:carater:start|caráter]] tradicional de ser um [[lexico:e:estado:start|Estado]] do ente”. São tantas as formas de possibilidade como são as formas de realidade. Um modo de entender a noção de possibilidade de forma diferente dos anteriores é o que liga a noção de possibilidade ao problema da existência Humana. [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] entendeu o ser possível como um modo de ser do [[lexico:h:homem:start|homem]] pelo qual este se projecta a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] no seu ser. Como se vê, ficam à margem as propostas tradicionais. Inclusivamente quando Heidegger diz que “a possibilidade é mais alta que a realidade” não está a falar num [[lexico:r:reino:start|reino]] de possibilidades mais amplo do que o real e de que este último é só uma parte - a parte atualizada - do primeiro; significa que o ser possível é um poder-se, enquanto que “fazer- se a si [[lexico:p:proprio:start|próprio]]”. Por outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], a possibilidade é primeiramente, para Heidegger, possibilidade [[lexico:e:existencial:start|existencial]]. As análises anteriores são principalmente de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] ontológica, mas a noção de possibilidade também foi examinada do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista lógico. a possibilidade ontológica refere-se a um termo [[lexico:s:singular:start|singular]] (como se vê na [[lexico:f:frase:start|frase]] “este cão amarelo que está em cima da minha mesa e possível”), enquanto a possibilidade lógica se refere a proposições (como se vê na frase “é possível que um cão amarelo seja um [[lexico:b:bom:start|Bom]] caçador”). A forma como é usada a expressão é possível que, na lógica [[lexico:m:modal:start|modal]], não elimina todos os problemas levantados pela noção do possível. Por isso, muitos autores, sem a~abandonarem as bases lógicas, puseram novamente problemas ontológicos. Cabe destacar, a este respeito, a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das descrições de [[lexico:r:russell:start|Russell]]. Comum a todo este [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de tentativas é a exploração de todos os problemas de natureza lógica e [[lexico:s:semantica:start|semântica]] antes de avançar posições ontológicas. Alem disso, reconhece-se usualmente que quando se dá uma solução ontológica, esta depende de um a [[lexico:d:decisao:start|decisão]] prévia adoptada na [[lexico:d:disputa-dos-universais:start|disputa dos universais]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}