===== DRAMA ===== [[lexico:c:cultura:start|cultura]], seja ela um [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:n:nome:start|nome]] do [[lexico:p:projeto:start|projeto]], ou só uma [[lexico:p:projecao:start|projeção]] sua no [[lexico:e:espaco:start|espaço]] multifuncional em que [[lexico:h:homem:start|homem]] e [[lexico:m:mundo:start|mundo]] se correlacionam, é drama, [[lexico:n:nexo:start|nexo]] dramático em cujo [[lexico:a:argumento:start|argumento]] se oculta o Projeto, enquanto as personagens se ignoram como tais, enquanto [[lexico:n:nao:start|não]] sabem que só desempenham papéis que lhes foram distribuídos e, por isso mesmo, julgam [[lexico:t:ter:start|ter]] a iniciativa da [[lexico:a:acao:start|ação]]: por mais breves [[lexico:p:palavras:start|palavras]], enquanto não sabem que representam um drama cuja intriga nenhum deles estaria capacitado de tecer. Não sabe da [[lexico:e:existencia:start|existência]] de um Projeto [[lexico:q:quem:start|quem]] de nenhum [[lexico:m:modo:start|modo]] veio a [[lexico:s:saber:start|saber]] que foi jogado em [[lexico:j:jogo:start|jogo]] cujas regras nem ele nem outro de seus parceiros inventou. [[lexico:b:bem:start|Bem]] [[lexico:v:ver:start|ver]] que não lhe pertence a iniciativa da ação, que perdeu essa iniciativa, ou mesmo que nunca a teve, é mais um ganho do que uma [[lexico:p:perda:start|perda]]. Pelo menos, até certo [[lexico:p:ponto:start|ponto]], e o ponto certo é este: o aperceber-se de que foi jogado num jogo resulta de se ver jogado em outro. Mas este, [[lexico:a:agora:start|agora]], é o que tem por [[lexico:r:regra:start|regra]] de todas as regras a exigência de se aceitar a cultura como jogo, de consentir no prosseguimento do jogo com pleno e total [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] de que ela é jogo. Por aí mais se eleva o ganho, que se [[lexico:c:cifra:start|cifra]] em que alguns homens guardam na mais recôndita intimidade de si mesmos um segredo, que o é porque, decerto, nem a todos foi confiado. Há bem poucos! Pouquíssimos são os que podem desdobrar-se em um que joga, sabendo que joga jogo alheio, e outro que joga o que supõe [[lexico:s:ser:start|ser]] jogo seu. É claro que, dos dois, só o primeiro está no segredo do Projeto, sabe do Projeto, sabe que pertence ao Projeto, sabe que já se encontra bem instalado no Projeto, mesmo antes que ele se projete. Pior de todas as situações é a de quem não sabe nem quer saber que a cultura é jogo que tem de [[lexico:j:jogar:start|jogar]], saiba ou não de onde ou do que procedem as regras. É, enfim, a [[lexico:s:situacao:start|situação]] paradoxal de quem suponha que o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] homem cria a cultura que o criou, da maneira como foi, da maneira como é, da maneira como será, e que, no mesmo gesto criador, criou o mundo do homem que foi tal como foi, outro mundo do homem que é tal como é, e outro mundo ainda que será o do homem que a ser venha tal como venha a ser. [EudoroMito:39-40] A [[lexico:v:vida:start|vida]] do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], quando vista no seu [[lexico:t:todo:start|todo]] e em [[lexico:g:geral:start|geral]], quando apenas seus traços mais significativos são enfatizados, é realmente uma [[lexico:t:tragedia:start|tragédia]]; porém, percorrida em detalhes, possui o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de [[lexico:c:comedia:start|comédia]], pois as labutas e vicissitudes do dia, os incômodos incessantes dos momentos, os desejos e temores da semana, os acidentes de cada hora, sempre produzidos por diatribes do [[lexico:a:acaso:start|acaso]] brincalhão, são puras cenas de comédia. Mas os desejos nunca satisfeitos, os esforços malogrados, as esperanças pisoteadas cruelmente pelo [[lexico:d:destino:start|destino]], os erros desafortunados de toda a vida junto com o [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]] crescente e a [[lexico:m:morte:start|morte]] ao [[lexico:f:fim:start|fim]], sempre nos dão uma tragédia. Assim, [[lexico:c:como-se:start|como se]] o destino ainda quisesse adicionar à penúria de nossa existência a zombaria, nossa vida tem de conter todos os lamentos e dores da tragédia, sem, no entanto, podermos afirmar a nossa [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]] de pessoas trágicas; ao contrário, nos detalhes da vida, desempenhamos inevitavelmente o papel tolo de [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] cômicos. [SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Primeiro Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 414-415] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}