===== CONSTITUIÇÃO ===== O vocábulo “constituição” tem significados muito diferentes que, embora centrados na [[lexico:a:acao:start|ação]] de fundar, oscilam entre a [[lexico:c:criacao:start|criação]] e a [[lexico:s:simples:start|simples]] ordenação dos dados. Isto acontece sobretudo quando o [[lexico:a:ato:start|ato]] de constituir e o [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:c:constitutivo:start|constitutivo]] se referem a certas formas de [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] e o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] apreendido por este. [[lexico:k:kant:start|Kant]] chama, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], constitutivos aos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] puros do entendimento ou [[lexico:c:categorias:start|categorias]] porquanto constituem “fundam, estabelecem” o objeto do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]; a [[lexico:f:funcao:start|função]] das categorias é, portanto, a de fazer do [[lexico:d:dado:start|dado]] algo constituído “disposto, ordenado” em objeto de conhecimento em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do que nele é estabelecido. Em contrapartida, as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] - em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] kantiano - são reguladoras; [[lexico:n:nao:start|não]] constituem o mencionado objeto por funcionar no [[lexico:v:vazio:start|vazio]], mas são diretrizes mediante as quais pode prosseguir-se até ao [[lexico:i:infinito:start|infinito]] a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]]. As categorias estão situadas entre as intuições e as ideias; as primeiras são necessárias ao conhecimento; porque são sua [[lexico:c:condicao:start|condição]]; as segundas não facilitam o conhecimento, porquanto não são leis da [[lexico:r:realidade:start|realidade]], mas permitem que o conhecimento possa apresentar os seus problemas e solucioná-los dentro dos limites traçados pelo [[lexico:u:uso:start|uso]] [[lexico:r:regulador:start|regulador]]. Esta [[lexico:s:significacao:start|significação]] primeiramente gnoseológica, da constituição levanta problemas de tal índole que, a partir de Kant especialmente dentro do [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] [[lexico:p:pos-kantiano:start|pós-kantiano]], a [[lexico:q:questao:start|questão]] torna-se decididamente [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que prime o construtivismo do [[lexico:e:eu-transcendental:start|eu transcendental]] e em que se acentue, como em [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], o [[lexico:p:primado:start|primado]] do estabelecido sobre o dado, o constituir não será já só o estabelecer o objeto enquanto objeto. Neste sentido, podemos dizer que o construtivismo idealista fez aproximar a constituição da criação. O [[lexico:p:problema:start|problema]] da constituição e do constitutivo converteu-se desde então num problema [[lexico:c:capital:start|capital]] para muitas correntes filosóficas, mesmo para aquelas que rejeitaram explicitamente as bases construtivas do idealismo. Por exemplo, as investigações de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] têm em conta a questão do [[lexico:s:significado:start|significado]] do estabelecido do objeto na [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] e, por conseguinte, destacam o problema levantado pela constituição da realidade. E isso a tal [[lexico:p:ponto:start|ponto]] que o livro segundo das ideias é consagrado uma [[lexico:s:serie:start|série]] de “investigações fenomenológicas para a constituição”, no decurso das quais se procede a uma [[lexico:d:descricao:start|descrição]] da constituição da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] material, da natureza [[lexico:a:animal:start|animal]], da realidade anímica através do [[lexico:c:corpo:start|corpo]], da realidade anímica na [[lexico:e:empatia:start|empatia]] e do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] espiritual. O problema da constituição foi examinado também - embora num sentido predominantemente epistemológico - nos debates em torno do primado do constitutivo ou do regulador que tiveram [[lexico:l:lugar:start|lugar]], explícita ou implicitamente, em várias correntes filosóficas contemporâneas, desde as neokantianas às pragmatistas, dando assim [[lexico:o:origem:start|origem]] a duas opiniões opostas: o [[lexico:r:realismo:start|realismo]] metafísico-gnoseológico da constituição e o [[lexico:n:nominalismo:start|nominalismo]] quase radical da pura regulação e convenção. A [[lexico:r:reducao:start|redução]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], que não infringe o [[lexico:p:principio:start|princípio]] da [[lexico:e:evidencia:start|evidência]], não abandona o [[lexico:p:plano:start|plano]] da [[lexico:e:essencia:start|essência]] em benefício da [[lexico:e:existencia:start|existência]]. Tratar-se-á sempre de uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] «[[lexico:e:essencial:start|essencial]]», permitindo desenvolver sistematicamente todas as estruturas [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] do [[lexico:v:vivido:start|vivido]], sendo dado que a exploração do [[lexico:e:eidos:start|eidos]], do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] tem por [[lexico:c:corolario:start|corolário]] a do mundo. Esta exploração, tendo em vista que a [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]] é um ato, Husserl designá-la-á também «constituição». A [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] transcendental é constituição transcendental de todos os sentidos de [[lexico:s:ser:start|ser]] dos objetos existentes: «[[lexico:q:quem:start|quem]] quer que seja que se oponha a mim como objeto existente recebeu para mim... [[lexico:t:todo:start|todo]] o seu sentido de ser da minha intencionalidade efetuante e não haverá o mais pequeno [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] deste sentido que permaneça subtraído à minha intencionalidade. Explicitar esta intencionalidade é tornar compreensível o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] sentido a partir do caráter original da efetuação que constitui o sentido» (Logique, p. 315). Uma das consequências mais notáveis do princípio da constituição — que nunca é construção ou produção reais, mas «produção» na evidência — é a nova [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] que a fenomenologia transcendental confere à [[lexico:a:analise:start|análise]] [[lexico:i:intencional:start|intencional]]. [Schérer] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}