===== CLASSICISMO ===== [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] é um grande [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], como [[lexico:p:platao:start|Platão]], [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], [[lexico:k:kant:start|Kant]]. Se por [[lexico:c:classico:start|clássico]] se entende somente um elogio de grande magnitude, é claro que [[lexico:s:santo:start|santo]] Tomás o merece sobejamente. Mas [[lexico:e:eu:start|eu]] entendo o [[lexico:a:adjetivo:start|adjetivo]] "clássico" [[lexico:n:nao:start|não]] só, nem principalmente, como um elogio [[lexico:v:vago:start|vago]] e [[lexico:g:geral:start|geral]], mas num [[lexico:s:sentido:start|sentido]] muito determinado e até mesmo [[lexico:c:concreto:start|concreto]]. A [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] do clássico não denota somente [[lexico:b:bondade:start|bondade]] e [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] de um escritor ou pensador; denota, sobretudo, a meu entender, um [[lexico:m:modo:start|modo]] especial do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] e do [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]], uma determinada e precisa [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] na maneira de [[lexico:s:ser:start|ser]] do [[lexico:s:sistema-filosofico:start|sistema filosófico]] de Santo Tomás. Qual é essa [[lexico:m:modalidade:start|modalidade]] propriamente clássica? É o que vou tentar [[lexico:e:explicar:start|explicar]] nesta lição. Clássico costuma, em geral, contrapor-se a romântico, e ambos adjetivos soem aplicar-se principalmente às obras literárias. É na [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:l:literatura:start|literatura]] que encontramos períodos clássicos e românticos, poetas, dramaturgos, novelistas clássicos e românticos. [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:m:mundo:start|mundo]] chama a Espronceda romântico e a Cervantes clássico. Os historiadores da literatura se esforçam, com diversa [[lexico:f:fortuna:start|fortuna]] e variável clareza, para definir o que seja o classicismo e o [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]]. Na [[lexico:c:critica:start|crítica]] literária os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] de clássico e romântico não têm, pois, um sentido simplesmente ponderativo ou encomiástico, mas encerram uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] mais precisamente fixada e concretizada. Todavia, por desgraça, [[lexico:e:esse:start|esse]] sentido do [[lexico:t:termo:start|termo]] "clássico" não é ainda, nem sequer na história literária, tão claro, preciso e definido como seria de desejar, sobretudo para aplicá-lo a temas de tanta determinação como os filosóficos, dos quais hão de [[lexico:e:estar:start|estar]] ausentes a imprecisão, a [[lexico:a:adivinhacao:start|adivinhação]] [[lexico:s:sentimental:start|sentimental]], a infundada qualificação. Se, pois, queremos [[lexico:v:ver:start|ver]] [[lexico:a:agora:start|agora]] em que consiste o classicismo de Santo Tomás tomos que começar por definir nitidamente esse termo, tirando-o das imprecisões literárias para dar-lhe um sentido [[lexico:e:estrito:start|estrito]] e inequívoco que possa ser aplicado como [[lexico:c:criterio:start|critério]] às matérias filosóficas diversas em diversos pensadores. Seria muito longo e não pouco complicado expor aqui as razões que me levaram à [[lexico:d:definicao:start|definição]] que vou dar do clássico. Deixemo-las de lado, pois, e, abandonando para [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:l:lugar:start|lugar]] e oportunidade o esclarecimento das vias que levam a esta definição, digamos simplesmente que o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] do clássico pode reduzir-se a três notas características: primeira, predomínio da [[lexico:a:atencao:start|atenção]] ao diverso e diferencial sôbxe a atenção ao comum e geral; segunda, [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] das hierarquias [[lexico:d:dominantes:start|dominantes]] nas distintas formas de [[lexico:r:realidade:start|realidade]]; e terceira, [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]]. Consideremos a primeira dessas três notas: predomínio da atenção ao diverso sobre a atenção ao comum e geral. As múltiplas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que constituem a realidade têm entre si diferenças e semelhanças; parecem-se muito umas com as outras e distinguem-se também umas das outras. Por isso podemos classificá-las e distribuí-las em gêneros e espécies. Por isso também podemos fixar nossa atenção no comum a muitas, no [[lexico:i:identico:start|idêntico]] entre muitas e obter assim conhecimentos gerais. Como podemos, pelo contrário, fixar a atenção no [[lexico:p:proprio:start|próprio]] e peculiar de cada uma e obter assim conhecimentos particulares e individuais. Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]; haverá pessoas que se inclinem mais a prestar atenção ao que há de comum, de genérico, de idêntico entre muitas coisas; outras pessoas, pelo contrário, terão mais [[lexico:g:gosto:start|gosto]] e inclinação para o diferencial e próprio e peculiar de cada [[lexico:c:coisa:start|coisa]] ou de pequenos grupos de coisas. As primeiras são românticas; as segundas serão clássicas. O clássico possui um olhar agudo e penetrante para o ti pico, o diferencial, o próprio. Ao contrário, o romântico procurará sob as diferenças o comum, o geral e idêntico. Na crítica literária costuma definir-se o clássico como a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] resoluta de manter e marcar as diferenças entre os distintos gêneros literários; ao contrário, o romantismo [[lexico:m:mistura:start|mistura]] os gêneros, funde e confunde numa mistura indigesta o [[lexico:c:comico:start|cômico]] com o [[lexico:t:tragico:start|trágico]], o sério com o frívolo, o grave com o ridículo, o grande com o pequeno; afirmando que na realidade da [[lexico:v:vida:start|vida]] tudo isto está unido, junto, fundido e confundido. O clássico, por sua vez, sustenta que se na vida tudo está de [[lexico:f:fato:start|fato]] misturado e fundido, todavia isso é muito diverso entre si, e o cômico não é o trágico, embora às vezes estejam realmente juntos, e o grave não é o ridículo, embora em ocasiões se encontrem muito próximos, e assim o clássico, respeitando o diferente mais que o comum, pretende refletir o que cada coisa é, mais que a vida geral em que cada coisa e [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]]. Dentro de um [[lexico:i:instante:start|instante]] veremos que também na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] há pensadores clássicos que quando contemplam a realidade se detêm no diferencial dela, nos seres reais mais que na realidade total e também filósofos românticos que acentuam preferentemente o idêntico e comum a todos os seres, a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] absoluta do ser. A segunda [[lexico:n:nota:start|nota]] com que queremos definir o classicismo é a intuição das hierarquias dominantes nas diversas formas de realidade. Também aqui o romântico propende a apagar as diferenças de [[lexico:v:valor:start|valor]] hierárquico. O romântico considera que tudo tem o mesmo valor — muito ou nenhum; que não há coisas mais perfeitas e valiosas que outras; que não há valores superiores a outros, nem valores — nem valor — supremos; que tanto faz estar acima como abaixo, tanto faz mandar como obedecer; que todos somos iguais; que todos os seres valem o mesmo. Mas diante desta [[lexico:n:negacao:start|negação]] romântica das hierarquias entre coisas e valores, o clássico afirma, pelo contrário, a variedade de valor entre os seres; o clássico possui uma intuição muito aguda das diferenças hierárquicas, da distinta [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] que as coisas têm, de seus distintos valores; o clássico reconhece que certos valores, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], os valores da [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]], são inferiores aos da [[lexico:b:beleza:start|beleza]], que estes por sua vez são inferiores aos da [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]], e que todos se subordinam à supremacia dos valores religiosos, visto que [[lexico:d:deus:start|Deus]] é o supremo valor. A terceira nota [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] no classicismo não é senão a [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] das duas anteriores. Chamá-la-íamos respeito à objetividade O clássico é [[lexico:h:homem:start|homem]] de pensamento e sentimento objetivos’; não finge, não inventa a realidade, mas a acata e recebe respeitosamente; o clássico não projeta na realidade seus próprios gostos, seus próprios desejos, suas próprias vontades, sua própria [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]], mas antes, respeitando a realidade, inclina-se diante dela, justamente porque percebe muito bem o peculiar e próprio de cada coisa e as diferenças hierárquicas entre os valores próprios de cada coisa. Melhor que respeito chamaríamos [[lexico:h:humildade:start|humildade]] a essa [[lexico:a:atitude:start|atitude]] do clássico, que se rende e se entrega ante a objetividade do [[lexico:r:real:start|real]]. O clássico é pensador humilde, O romântico, pelo contrário, é pensador soberbo, que julga que o mundo é sua [[lexico:o:obra:start|obra]], obra do seu próprio pensamento, [[lexico:p:produto:start|produto]] das leis íntimas do [[lexico:p:pensar:start|pensar]] [[lexico:h:humano:start|humano]], mundo [[lexico:r:racional:start|racional]], submetido ao [[lexico:e:eu-pensante:start|eu pensante]], que é como que o administrador supremo da [[lexico:r:razao:start|razão]] A humildade do clássico, pelo contrário, se afiança no seu [[lexico:o:objetivismo:start|objetivismo]], na sua atitude reverente ante a realidade, tomando nota dela, conhecendo-a e descobrindo-a tal e como ela é, às vezes racional e [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], às vezes [[lexico:i:irracional:start|irracional]] e acessível tãosomente por vias que não são as do estrito pensamento científico. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}