===== BERGSON ===== BERGSON (Henri), [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] francês de [[lexico:o:origem:start|origem]] judaica (Paris 1859 — id. 1941). Fêz estudos brilhantes, foi recebido na [[lexico:e:escola:start|escola]] [[lexico:n:normal:start|normal]] [[lexico:s:superior:start|superior]] aos dezenove anos, tornou-se doutor em letras aos trinta. Professor do Colégio de França de 1900 a 1914, foi eleito para a [[lexico:a:academia:start|Academia]] francesa em 1914 e recebeu o prêmio Nobel em 1928. Suas reflexões sobre o [[lexico:m:misticismo:start|misticismo]] anunciavam sua [[lexico:c:conversao:start|conversão]] ao catolicismo, mas tendo irrompido a [[lexico:g:guerra:start|guerra]] de 1939, preferiu permanecer solidário de seus correligionários perseguidos pelos alemães. Sucumbiu de pneumonia, depois de [[lexico:t:ter:start|ter]] [[lexico:e:estado:start|Estado]] horas na fila para obtenção de tickets de alimentação. Sua [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] [[lexico:p:parte:start|parte]] de uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] do [[lexico:e:eu:start|eu]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] (Ensaio sobre os dados imediatos da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], 1889; [[lexico:m:materia-e-memoria:start|Matéria e memória]], 1896), aprofunda-se numa [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] da [[lexico:v:vida:start|vida]] (A [[lexico:e:evolucao-criadora:start|evolução criadora]], 1907), expande-se finalmente numa [[lexico:f:filosofia-do-espirito:start|Filosofia do Espírito]] (As duas fontes da [[lexico:m:moral:start|moral]] e da [[lexico:r:religiao:start|religião]], 1932). Sua [[lexico:t:teoria:start|teoria]] do "eu [[lexico:p:profundo:start|profundo]]" subjacente à [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] "[[lexico:s:social:start|social]]", e idêntica à [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] interior da [[lexico:d:duracao:start|duração]], sua moral "aberta" dos gênios criadores, ficaram célebres. Diversos artigos, principalmente sobre a "intuição filosófica", a "[[lexico:p:percepcao:start|percepção]] da [[lexico:m:mudanca:start|mudança]]", como também análises profundas e originais sobre as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] e a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], foram reunidos em O [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] e o movente. Bergson também exprimiu a reflexão filosófica certamente mais justa sobre a [[lexico:t:teoria-da-relatividade:start|teoria da relatividade]], confirmada nas longas conversações que pôde manter com [[lexico:e:einstein:start|Einstein]] (Duração e [[lexico:s:simultaneidade:start|simultaneidade]], 1922). Inicialmente admirado sem reserva, depois criticado da mesma maneira, Bergson reassumiu hoje seu justo [[lexico:l:lugar:start|lugar]] como [[lexico:c:classico:start|clássico]] na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] francesa. Sobre Bergson leia-se um [[lexico:b:belo:start|belo]] [[lexico:e:estudo:start|estudo]] de Thibaudet e a Filosofia de Bergson de V. Jankelevitch. **A. Procedência e particularidades.** Henri Bergson (1859-1941) é o representante mais conceituado e original da nova "[[lexico:f:filosofia-da-vida:start|filosofia da vida]]", a qual dele recebeu a [[lexico:f:forma:start|forma]] mais acabada. Contudo, embora mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] se tenha posto à testa do [[lexico:m:movimento:start|movimento]], [[lexico:n:nao:start|não]] se pode dizer que tenha sido ele o seu fundador. Na própria França, a Action de [[lexico:b:blondel:start|Blondel]] precedeu o Essai sur les données immédiates de la conscience de Bergson, e também [[lexico:l:le-roy:start|Le Roy]], que mais tarde seria discípulo de Bergson, já anteriormente se havia manifestado contra o [[lexico:m:mecanicismo:start|mecanicismo]]. [[lexico:t:todo:start|todo]] este movimento está em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] espiritualista, voluntarista e personalista da filosofia francesa, que, iniciada por [[lexico:m:maine-de-biran:start|Maine de Biran]], foi em seguida representada por Félix [[lexico:r:ravaisson-mollien:start|Ravaisson-Mollien]] (1813-1900), Jules [[lexico:l:lachelier:start|Lachelier]] (1832-1918) e Emile Boutroux (1845-1921), de [[lexico:q:quem:start|quem]] Bergson foi discípulo. Contudo, Bergson não se deixou influenciar somente por estes filósofos, mas também pela "critica da ciência". [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, tomou igualmente muitas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] das teorias evolucionistas e militaristas inglesas; ele [[lexico:p:proprio:start|próprio]] confessa que, de início, só a filosofia de Herbert [[lexico:s:spencer:start|Spencer]] lhe parecia ajustar-se à [[lexico:r:realidade:start|realidade]], e sua própria filosofia proveio da tentativa de aprofundar os fundamentos do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] spenceriano. Contudo, [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] levou-o finalmente a repudiar completamente o spencerismo, que não cessou de combater daí em diante. A [[lexico:a:atividade:start|atividade]] especulativa de Bergson exerceu-se, sobretudo, em [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] obras que mostram claramente sua [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] espiritual. O Essai sur les données immédiates de la conscience (1889) contém a sua [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]]; Matière et Mémoire (1896) sua [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], L’Évolution créatrice (1907) sua metafísica fundada na [[lexico:b:biologia:start|biologia]] especulativa, Les deux sources de la Morale et de la Religion (1932) sua [[lexico:e:etica:start|ética]] e [[lexico:f:filosofia-da-religiao:start|filosofia da religião]]. Tôdas estas obras tiveram êxito [[lexico:e:extraordinario:start|extraordinário]], que se explica não só porque Bergson expunha uma filosofia realmente nova e que correspondia às necessidades mais prementes da [[lexico:e:epoca:start|época]], mas também porque a exprimia numa [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] de rara [[lexico:b:beleza:start|beleza]]. Por [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:m:motivo:start|motivo]] lhe foi atribuído, em 1927, o prêmio Nobel de [[lexico:l:literatura:start|literatura]]. A uma prodigiosa clareza, a uma artística matização das expressões e a uma impressionante [[lexico:p:potencia:start|potência]] de [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]], alia ele extraordinária gravidade filosófica e uma acuidade [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] sem par. Além disso, suas obras apoiam-se em conhecimentos sólidos, adquiridos à custa de amplas e árduas pesquisas. Por tudo isto, Bergson foi capaz de [[lexico:s:superar:start|superar]], a um [[lexico:t:tempo:start|tempo]], o [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] e o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] do século XIX :é um dos pioneiros do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] novo de nosso tempo. **B. Duração e intuição.** Segundo a concepção do [[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]], admitida igualmente pela ciência, as propriedades do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] são a [[lexico:e:extensao:start|extensão]], a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] numérica e o [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]] causal. O mundo compõe-se de corpos sólidos extensos, cujas partes se encontram espacialmente justapostas; é caracterizado por um [[lexico:e:espaco:start|espaço]] totalmente homogêneo e por separações precisas, e todos os acontecimentos são de antemão determinados por leis "invariáveis. A ciência da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] nunca considera o movimento, mas só as posições sucessivas dos corpos; nunca as forças, mas só os seus efeitos; a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] do mundo traçada pela [[lexico:c:ciencia-natural:start|ciência natural]] carece de [[lexico:d:dinamismo:start|dinamismo]] e de vida; o tempo, tal como o encara a ciência, não é, em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], senão espaço; e quando a ciência [[lexico:n:natural:start|natural]] pretende medir o tempo, na realidade não mede senão o espaço. Todavia, podemos descobrir em nós mesmos, embora com [[lexico:e:esforco:start|esforço]], uma realidade inteiramente diferente. Esta realidade possui uma [[lexico:i:intensidade:start|intensidade]] puramente qualitativa, compõe-se de [[lexico:e:elementos:start|elementos]] absolutamente heterogêneos, que, entretanto, se interpenetram, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] discriminá-los claramente uns dos outros; e, por [[lexico:u:ultimo:start|último]], esta realidade interior é livre. Não é espacial nem calculável; de [[lexico:f:fato:start|fato]], não somente ela dura, senão que é duração pura, e, como tal, completamente diferente do espaço e do tempo das ciências da natureza. É um agir [[lexico:u:unico:start|único]] e indivisível, um alor (élan) e um [[lexico:d:devir:start|devir]] que não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] medido. Esta realidade encontra-se, em [[lexico:p:principio:start|princípio]], em constante fluir, nunca é, mas perpetuamente devem. A [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] humana que corresponde à [[lexico:m:materia:start|matéria]] espacial é a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], e esta caracteriza-se por sua exclusiva [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] para a [[lexico:a:acao:start|ação]]. É a ação que comanda, sem mais, a forma da inteligência. Como para a ação necessitamos de [[lexico:c:coisas:start|coisas]] exatamente definidas, o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] principal da inteligência é o fixo corpóreo, inorganizado, fragmentário; a inteligência não concebe claramente senão o imóvel. Seu domínio é a matéria. Ela a capta para transformar os corpos em instrumentos; é o [[lexico:o:orgao:start|órgão]] do [[lexico:h:homo-faber:start|homo faber]] e subordinado, essencialmente, à construção de instrumentos. Dentro do domínio da matéria e graças à sua [[lexico:a:afinidade:start|afinidade]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] com a matéria, a inteligência não só capta os fenômenos, como também a [[lexico:e:essencia:start|essência]] das coisas. Bergson abandona o [[lexico:f:fenomenismo:start|fenomenismo]] de [[lexico:k:kant:start|Kant]] e dos positivistas, e confere à inteligência, no domínio do corpóreo, a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de penetrar na essência das coisas. Segundo êle, a inteligência é também [[lexico:a:analitica:start|analítica]], ou seja, capaz de decompor segundo qualquer [[lexico:l:lei:start|lei]] ou sistema e de recompor de novo. Suas características são a clareza e a capacidade de distinguir. Mas, ao mesmo tempo, a inteligência caracteriza-se igualmente pelo fato de, por natureza, lhe ser [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a duração [[lexico:r:real:start|real]], a vida. Constituída de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com a matéria, ela transfere as formas materiais, extensivas, calculáveis, claras e determinadas, ao mundo da duração; interrompe a corrente vital única e introduz nela a descontinuidade, o espaço e a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]]. Não pode sequer compreender o [[lexico:s:simples:start|simples]] movimento local, como o provam os paradoxos de [[lexico:z:zenao:start|Zenão]]. Só podemos conhecer a duração graças à intuição; mas com ela conhecemo-la diretamente e como algo íntimo. A intuição distingue-se por características que se contrapõem às características da inteligência, órgão do homo sapiens, a intuição não está ao serviço da prática; seu objeto é o fluente, o [[lexico:o:organico:start|orgânico]], o que está em marcha; só ela pode captar a duração. Enquanto a inteligência analisa, decompõe, para preparar a ação, a intuição é uma simples [[lexico:v:visao:start|visão]], que não decompõe nem compõe, mas vive a realidade da duração. Não se adquire facilmente a intuição; tão habituados estamos ao [[lexico:u:uso:start|uso]] da inteligência que se torna necessária uma viragem íntima violenta, contrária a nossas inclinações naturais, para podermos exercitar a intuição, e só em momentos favoráveis e fugazes somos capazes de o fazer. Em resumo, existem dois domínios: de um lado, o domínio da matéria espacial e rígida, subordinado à inteligência prática; de [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, o domínio da vida e da consciência que dura, ao qual corresponde a intuição. Sendo a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] da inteligência exclusivamente prática, a filosofia não pode utilizar senão a intuição. Os conhecimentos, obtidos por este [[lexico:m:meio:start|meio]], não podem ser expressos em ideias claras e precisas, nem tampouco são possíveis as demonstrações. A só [[lexico:c:coisa:start|coisa]], que o filósofo pode fazer, é ajudar os outros a experimentarem uma intuição semelhante à dele. Assim se explica a [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]] de imagens sugestivas que as obras de Beegson oferecem. **C. A teoria do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] e a psicologia.** Bergson aplicou seu [[lexico:m:metodo:start|método]] intuitivo em primeiro lugar aos problemas da teoria do conhecimento. Tais problemas, diz ele, receberam até ao presente três soluções clássicas: o [[lexico:d:dualismo:start|dualismo]] corrente, o [[lexico:k:kantismo:start|kantismo]] e o idealismo. Contudo, estas três soluções estribam totalmente na falsa [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de que a percepção e a [[lexico:m:memoria:start|memória]] são puramente especulativas, independentes da ação, quando na realidade são completamente práticas, subordinadas à ação. Por sua vez, o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] não é mais do que um centro de ação. Destes [[lexico:p:principios:start|princípios]] se infere que a percepção não abarca senão uma parte da realidade; ela consiste, de fato, numa [[lexico:s:selecao:start|seleção]] de imagens, das que são necessárias para cumprir a ação. O idealismo engana-se; os objetos, de que o mundo se compõe, são "imagens verdadeiras" e não unicamente elementos da consciência. Tanto o [[lexico:r:realismo:start|realismo]] habitual como o de Kant cometem [[lexico:e:erro:start|erro]] ainda maior, ao situarem entre a consciência e a realidade [[lexico:e:exterior:start|exterior]] o espaço homogêneo, que consideram como indiferente. De fato, o espaço é só urna forma subjetiva, em [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] unicamente com a ação humana. Bergson consolida sua teoria do conhecimento mediante uma psicologia definida. Em primeiro lugar, repudia o [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]], que tira toda sua [[lexico:f:forca:start|força]] do fato de a consciência depender do corpo — [[lexico:c:como-se:start|como se]], do fato de um vestido oscilar e cair com o gancho a que está suspenso, tivéssemos de concluir que o vestido e o gancho são idênticos. Entre os fenômenos psicológicos e os fisiológicos não existe sequer um paralelismo, o qual, aliás, [[lexico:n:nada:start|nada]] provaria. A [[lexico:p:prova:start|prova]] disto é a memória pura. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], importa distinguir dois tipos de memória: uma memória [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]], corporal, que consiste unicamente na [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] de uma [[lexico:f:funcao:start|função]] tornada automática, e a memória pura, que reside nas imagens da lembrança. Neste caso, não se pode [[lexico:f:falar:start|falar]] de uma [[lexico:l:localizacao:start|localização]] no cérebro, [[lexico:a:argumento:start|argumento]] principal aduzido pelos materialistas. Se houvesse uma tal localização exata, deveriam perder-se porções inteiras da memória por [[lexico:c:causa:start|causa]] de certas lesões cerebrais; na realidade muitas vezes só se verifica um enfraquecimento [[lexico:g:geral:start|geral]] da memória. Mais acertadamente talvez se pudesse [[lexico:c:comparar:start|comparar]] o cérebro a uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de gabinete destinado a transmitir sinais. Sua função não é a vida propriamente espiritual. Por seu turno, a memória não é uma percepção atenuada, mas um [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] essencialmente diferente. A psicologia associacionista estriba no duplo erro de conceber a duração como um espaço e o eu como um conjunto de coisas decalcadas pela matéria. Estes mesmos erros conduzem ao determinismo psicológico, que concebe os [[lexico:m:motivos:start|motivos]] como coisas simultâneas e o tempo como um [[lexico:c:caminho:start|caminho]] no espaço, donde se infere, naturalmente, a [[lexico:n:negacao:start|negação]] da [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]. Na realidade, nossas [[lexico:a:acoes:start|ações]] provêm de nossa personalidade toda; a [[lexico:d:decisao:start|decisão]] cria algo de novo, o [[lexico:a:ato:start|ato]] sai do eu, unicamente do eu e, portanto, é inteiramente livre. O fato de a liberdade ser negada tão frequentemente, apesar de sua [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] imediata, deve-se a que a inteligência forma um eu superficial, [[lexico:a:analogo:start|análogo]] ao corpo, e encobre dessa maneira o eu real mais profundo, que não é senão [[lexico:c:criacao:start|criação]] e duração. **D. Vida e evolução.** As duas doutrinas clássicas, pelas quais se pretendeu [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a vida, a mecanicista e a teleológica, erram por igual, visto ambas negarem radicalmente a duração. Segundo a primeira, o [[lexico:o:organismo:start|organismo]] é uma [[lexico:m:maquina:start|máquina]] de antemão determinada por leis calculáveis, e, de acordo com a segunda, existe um [[lexico:p:plano:start|plano]] acabado do mundo. Ambas, sob certo [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]], ampliam demasiado a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de inteligência; a inteligência é para operar e não para conhecer a vida. A filosofia precisa superar estas duas doutrinas, especialmente o mecanicismo que nega simplesmente fatos evidentes. Do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] que no [[lexico:p:problema:start|problema]] psicofísico, também no problema da vida é possível observar um fenômeno que mostra a [[lexico:f:falsidade:start|falsidade]] do mecanicismo. Este fenômeno consiste na produção de órgãos estruturalmente análogos em linhas evolutivas muito diferentes; assim, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], o olho nos moluscos e nos vertebrados, cujas linhas de evolução devem ter-se separado muito antes do [[lexico:m:momento:start|momento]] em que adquiriram a vista. Servindo-se deste fato e de muitas outras observações, Bergson repele o mecanicismo darwinista e neodarwinista e, em geral, a concepção mecanicista do órgão vivo. O órgão vivo deve ser considerado como a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] complexa de uma função simples; pode ser comparado a um quadro [[lexico:c:composto:start|composto]] de milhares de traços, mas que expressa a inspiração simples do [[lexico:a:artista:start|artista]]. Sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], o organismo contém um [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]], parece até ser um mecanismo. Mas assim como num arco dividido em minúsculos segmentos, estes segmentos coincidem aparentemente com a tangente, assim também a vida examinada em suas minúcias com os métodos das ciências da natureza parece ser um mecanismo, mas não o é. A vida como um todo não é nenhuma [[lexico:a:abstracao:start|abstração]]. Em determinado momento surgiu em certos [[lexico:l:lugares:start|lugares]] do espaço uma corrente vital que, através dos organismos desenvolvidos, vai passando de um germe a outro. A corrente vital procura vencer os obstáculos que a matéria lhe opõe; a materialidade de um organismo representa a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] dos obstáculos contornados pela vida. A vida não procede logicamente, erra de quando em quando, acumula-se em becos sem saída ou até volta para trás. Contudo, o ímpeto vital geral persiste. A [[lexico:f:fim:start|fim]] de poder desdobrar-se, o alor vital (élan vital) divide-se em várias direções. Assim, surgiu, em primeiro lugar, a grande [[lexico:d:divisao:start|divisão]] do [[lexico:r:reino:start|reino]] [[lexico:v:vegetal:start|vegetal]] e do reino [[lexico:a:animal:start|animal]]: as plantas acumulam diretamente a [[lexico:e:energia:start|energia]], para que os animais possam hauri-la nelas e disponham da mesma como de matéria explosiva para a ação livre. As plantas estão ligadas à [[lexico:t:terra:start|Terra]] e nelas a consciência ainda se encontra entorpecida; só desperta no mundo animal. O élan vital subdivide-se ainda no mundo animal em duas direções diferentes, como se experimentasse dois métodos: numa direção culmina nos insetos sociais, na outra encontra seu acabamento no [[lexico:h:homem:start|homem]]. Na primeira direção, a vida busca mobilidade e flexibilidade mediante o [[lexico:i:instinto:start|instinto]], ou seja, mediante a capacidade de utilizar ou até mesmo de [[lexico:c:criar:start|criar]] instrumentos orgânicos; o instinto conhece seus objetos por [[lexico:s:simpatia:start|simpatia]], desde dentro, e age de modo infalível mas sempre [[lexico:u:uniforme:start|uniforme]]. Ao invés, nos vertebrados desenvolve-se a inteligência, isto é, a faculdade de fabricar e utilizar instrumentos anorgânicos. Por sua essência profunda, a inteligência não se orienta para as coisas, mas para as relações, para as formas; conhece seu objeto só por fora. Contudo, suas formas vazias podem encher-se de inumeráveis objetivos e indefinidamente. A inteligência perfeita ultrapassa suas fronteiras primitivas e pode até encontrar aplicação fora do [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:p:pratico:start|prático]], para o qual foi propriamente criada. Finalmente, aparece no homem, embora só em forma de fugazes arranques, a intuição, na qual o instinto se tornou desinteressado e capaz de refletir sobre [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. Além disso, o homem é livre. Todo este curso evolutivo conduz, portanto, à [[lexico:l:libertacao:start|libertação]] da consciência do homem, e este aparece como o fim último da organização vital sobre o nosso planeta. **E. Metafísica.** Se o filósofo consente em mergulhar no oceano de vida que nos cerca, pode tentar conceber a [[lexico:g:genese:start|gênese]] dos corpos e da inteligência. Esta intuição mostra que não só a vida e a consciência, mas a realidade inteira é um devir. Não existem coisas, mas somente ações, e o ser é essencialmente devir. "O devir encerra mais do que o ser". Só a nossa inteligência e, por conseguinte, a ciência nos representam os corpos como rígidos. Na realidade, o próprio mundo material é movimento, alor, embora certamente em descenso e dispersão. Com efeito existem no mundo duas espécies de movimento, um movimento ascendente — o da vida — e outro movimento descendente — o da matéria. A lei da matéria é a lei da degradação da energia; a vida [[lexico:l:luta:start|luta]] contra esta lei, sem contudo poder aboli-la; quando muito, consegue retardar-lhe os efeitos. Poderíamos compreender este [[lexico:p:processo:start|processo]], comparando-o ao vapor que sai em jatos pelas fendas de um vaso. Este vapor em contato com o [[lexico:a:ar:start|ar]] livre condensa-se em pequenas gotas que caem. Mas uma pequena parte do vapor não se condensa imediatamente e esforça-se por elevar as gotas que caem. De modo [[lexico:i:identico:start|idêntico]], do imenso reservatório da vida saem incessantemente uns como que jatos, cada um dos quais caindo forma um mundo; as gotas que caem são a matéria. Ou, para empregar outra imagem, o mundo com o movimento vital é comparável a um braço erguido que torna a cair, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] do relaxamento dos músculos: a matéria é como que um gesto criador que se desfaz. Mas estas imagens são insuficientes, porque a vida é do domínio psicológico e é inespacial. Processo idêntico se passa na consciência. A intuição tem a mesma direção que a vida, a inteligência tem a direção contrária. Por isso a inteligência está essencialmente coordenada à matéria. A intuição, pelo contrário, mostra-nos a verdadeira realidade, na qual aparece a vida como onda gigantesca que se espraia e logo em seguida é contida em quase toda sua amplitude. Só num [[lexico:p:ponto:start|ponto]] foi vencido o [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] e o [[lexico:i:impulso:start|impulso]] encontra livre saída. Esta liberdade aparece na forma humana. Pelo que, não sem [[lexico:r:razao:start|razão]], a filosofia afirmou a liberdade do espírito em geral, sua independência relativamente à matéria e sua [[lexico:p:provavel:start|provável]] [[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]] após a [[lexico:m:morte:start|morte]]. Entretanto, a filosofia extraviou-se, por haver utilizado a inteligência e seus [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]]. Valendo-se de minuciosas análises, Bergson mostra como surgiu a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] da [[lexico:d:desordem:start|desordem]] (a [[lexico:s:saber:start|saber]], da [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] das duas ordens possíveis, a vital e a geométrica) e como se formou a ideia do nada, que é propriamente uma pseudo-ideia. Beegson investe contra os mais importantes sistemas filosóficos do passado. A metafísica de [[lexico:p:platao:start|Platão]] e de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], seguindo a [[lexico:p:propensao:start|propensão]] natural da inteligência, consequência dos conceitos que não fazem mais do que imitar a linguagem, subjugou a duração. Outro tanto acontece fundamentalmente, embora com diferenças de pormenor, nos sistemas modernos, como os de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]], [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], no [[lexico:c:criticismo:start|criticismo]] de Kant e principalmente em Spencer. Neste último é onde se manifesta com [[lexico:p:particular:start|particular]] evidência o [[lexico:c:carater:start|caráter]] cinematográfico de nosso pensamento: pretende captar e [[lexico:r:representar:start|representar]] a evolução por uma [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] de estados do ser que se desenvolve, e desconhece assim totalmente a verdadeira duração. **F. Ética.** Segundo Bergson, há duas espécies de moral, a moral fechada e a [[lexico:m:moral-aberta:start|moral aberta]]. A moral fechada deriva dos fenômenos mais gerais da vida; consiste numa pressão exercida pela [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]], e as ações que lhe correspondem são levadas a cabo de modo automático, instintivamente. Só em casos excepcionais se trava luta entre o eu individual e o social. A moral fechada é [[lexico:i:impessoal:start|impessoal]] e triplamente fechada: visa a conservação dos [[lexico:c:costumes:start|costumes]] sociais, faz coincidir quase inteiramente o individual com o social, de sorte que a [[lexico:a:alma:start|alma]] se move constantemente dentro do mesmo [[lexico:c:circulo:start|círculo]], e, por último, é sempre função de um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] limitado e nunca pode ser válida para a [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] inteira, porque a coesão social, da qual é função, repousa em grande parte na necessidade de autodefesa. A par desta moral fechada, que obriga absolutamente, existe a moral aberta. Esta aparece encarnada em personalidades eminentes, em santos e heróis, e não é moral social, mas humana e [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]]. Não consiste numa pressão, mas num apelo; não.é fixa, mas essencialmente progressiva e criadora. Ê aberta no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] que abarca a vida inteira no [[lexico:a:amor:start|amor]], proporciona até o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] da liberdade e coincide com o próprio princípio da vida. Procede de uma [[lexico:e:emocao:start|emoção]] profunda que, do mesmo modo que o sentimento provocado pela [[lexico:m:musica:start|música]], carece de objeto. Todavia, na realidade nem a moral fechada nem a moral aberta se apresentam em forma pura; toda [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]] procura consolidar-se numa [[lexico:o:obrigacao:start|obrigação]] e esta, por sua vez, procura captar a aspiração. Estas duas forças, das quais uma é in-fra-intelectual e outra supra-intelectual, operam no campo da inteligência, e por isso o moral é uma vida [[lexico:r:racional:start|racional]]. Como quer que seja, a moral fechada e a aberta constituem duas manifestações complementares do mesmo [[lexico:v:valor:start|valor]] vital. **G. Filosofia da religião.** A mesma divisão que se fêz na moral se aplica igualmente à religião: há uma religião estática e uma religião [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]]. A religião estática consiste numa [[lexico:r:reacao:start|reação]] defensiva da natureza contra os efeitos da atividade da inteligência, que ameaçam oprimir o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] ou dissolver a sociedade. A religião estática prende o homem à vida e o indivíduo à sociedade mediante fábulas que se assemelham a canções de berço. A religião é [[lexico:o:obra:start|obra]] da "função fabuladora" da inteligência. A inteligência, em sentido [[lexico:e:estrito:start|estrito]], ameaça desfazer a coesão social, e a natureza não pode opor-lhe o instinto, cujo lugar foi precisamente substituído no homem pela inteligência. Mas a natureza ajuda-se mediante a produção da função fabuladora. Se o homem sabe, pela inteligência, que tem de morrer, coisa que o animal não sabe, e se a inteligência lhe ensina que entre a tentativa e o êxito desejado existe o espaço desanimador do insondável, a natureza volta a ajudá-lo a suportar este conhecimento amargo, fabricando, graças à sua função fabuladora, [[lexico:d:deuses:start|deuses]]. O papel da função fabuladora nas sociedades humanas corresponde ao do instinto nas sociedades animais. A religião dinâmica, o misticismo, é algo inteiramente diferente. Resulta de um [[lexico:r:retorno:start|retorno]] na direção donde procede o élan vital, e nasce da pressentida captação do inacessível a que a vida aspira. Este misticismo é próprio somente de homens extraordinários. Não se manifestou ainda entre os velhos gregos, como nem em forma perfeita na índia, onde não deixou de ser puramente especulativo. Contudo surgiu entre os grandes místicos cristãos, que possuíam uma saúde espiritual que se pode qualificar de perfeita. A religião cristã aparece como a cristalização deste misticismo, mas, por outro lado, constitui o seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]], porque os místicos são todos imitadores originais, embora imperfeitos, daquele que nos deixou o Sermão da Montanha. A experiência dos místicos permite-nos defender não só a [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] das concepções relativas à origem do élan vital, como também a afirmação da [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]], que não se pode provar com argumentos lógicos. Os místicos ensinam também que [[lexico:d:deus:start|Deus]] é o amor, e nada impede que os filósofos desenvolvam a ideia, sugerida por eles, de o mundo não ser mais do que um aspecto palpável deste amor e da necessidade divina de amor. À base da experiência dos místicos, corroborada pelas conclusões da psicologia, pode igualmente afirmar-se, com uma probabilidade que toca nas raias da [[lexico:c:certeza:start|certeza]], a sobrevivência após a morte. Henri Bergson, nascido em Paris em 1859, professor na Escola Normal Superior e no Colégio de França, morreu na mesma [[lexico:c:cidade:start|cidade]] em 1941. Carreira e caráter equiparam-se pela natureza e pela elevação. As grandes filosofias, como já vimos demasiadas vezes, valem pelo seu lado crítico ou [[lexico:n:negativo:start|negativo]] e, quando passam a construir, por maiores que sejam o seu brilho ou a sua profundeza, devem resignar-se a uma deficiência final. No momento em que Bergson surgiu, uma tarefa urgente se impunha no domínio do pensamento: era preciso desembaraçar o espírito e reintegrá-lo na [[lexico:p:posse:start|posse]] dos seus direitos. A relação entre o fisiológico e o psicológico tornara-se uma relação causai mais ou menos confessada, ou pelo menos pretendia-se que as [[lexico:o:operacoes-do-espirito:start|operações do espírito]] não se pudessem realizar sem uma ação ou determinadas modificações do cérebro. Era o sistema das localizações cerebrais. Bergson mostrou que a [[lexico:c:correlacao:start|correlação]] não era tão rigorosa e que se um ponto do cérebro sofria uma lesão, tornando-se incapaz de exercer a função que se lhe atribuía, uma "[[lexico:s:suplencia:start|suplência]]" podia surgir em outro ponto; noutras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], que a inteligência se serve do sistema nervoso, mas não é [[lexico:p:produto:start|produto]] dele nem tampouco lhe está ligada necessariamente ou como uma natureza a [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] da mesma natureza. Tal é o [[lexico:t:tema:start|tema]] do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência e de Matéria e memória, obras que apareceram respectivamente em 1889 e 1896. 0 que nelas se estabelece é essa [[lexico:p:presenca:start|presença]] e essa independência do espírito cujos dados fundamentais, se nos chegam através dos sentidos, nem por isso são menos imediatos e reveladores. O corpo não é uma simples duplicata do espírito, nem tampouco o engendra; é antes o seu ordenador e distribuidor. A memória é um todo que se conserva integralmente mas que não aparece de súbito e por inteiro, e que o cérebro tem a missão de filtrar, por assim dizer, e de organizar, ao sabor do tempo e das circunstâncias, garantindo destarte, conforme as palavras do próprio filósofo, "essa materialização crescente do imaterial que é [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] da atividade vital..." Existe, pois, de fato um "imaterial" e um "espírito". Que vem a ser esse espírito assim reintegrado, donde vem ele e por que vias, quais sãos os seus próprios caminhos e a sua destinação? É em primeiro lugar, no fundo do nosso ser, esta força primeira que nos constitui e forma o nosso eu, este eu-profundo que, assim qualificado, indica a nossa [[lexico:f:fonte:start|fonte]]; é essa mesma força que, propagando-se através do espaço e do tempo, através da matéria e dos povos, os organiza, distribui-se entre eles e mostra-se sob essas aparências que são as nossas e em que é mister aprendamos a sentir e a conhecer uma energia sempre [[lexico:a:atuante:start|atuante]] e oculta. "Ímpeto vital", "evolução criadora" — título, esta última, de uma obra — eis as fórmulas bergsonianas por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]], cujo sentido [[lexico:b:bem:start|Bem]] compreendemos. O mundo é um efeito do espírito em marcha, em fluxo perene, e tudo que vemos representa aproximações sucessivas, um avanço criador e livre rumo a um [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de criação e de liberdade. Nossos erros provêm de uma armadilha que nós mesmos preparamos e onde caímos, de um [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]] a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] da nossa própria atividade. Ao nos exprimirmos em termos de espaço, congelamo-nos e imobilizamo-nos; inteiriçamo-nos no [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]], esquecendo o [[lexico:c:concreto:start|concreto]] que permanecia [[lexico:l:latente:start|latente]] no fundo das nossas afirmações. A verdadeira realidade nos escapava porque pretendíamos vê-la nesses conceitos que eram o fruto da nossa [[lexico:o:operacao:start|operação]] intelectual e que não faziam mais do que formulá-la, — nesses conceitos, em [[lexico:s:suma:start|suma]], que eram um [[lexico:s:sinal:start|sinal]] e um [[lexico:t:termo:start|termo]]. A realidade é bem diferente; ela não é um [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] vocal, a expressão inerte de uma linguagem que não passa de mera [[lexico:t:traducao:start|tradução]]; é "movência" e movimento; descora-se e pára, isto é, petrifica-se e morre, justamente ao ser expressa. E com efeito, é além ou aquém do nosso [[lexico:d:discurso:start|discurso]] ou dos nossos exercícios discursivos que cumpre procurar-nos, a saber: no movimento dessa realidade, única subsistente e atuante, que os produziu. Temos confundido o tempo e a duração. De acordo com a [[lexico:f:formula:start|fórmula]] justa de Aristóteles, o tempo é a [[lexico:m:medida:start|medida]] do movimento; a duração é ainda outra coisa: é uma continuidade, a nossa própria continuidade viva, uma continuidade [[lexico:s:substancial:start|substancial]] e, numa [[lexico:p:palavra:start|palavra]], o próprio "estofo" da vida. Como se vê, esta filosofia — e nisto reside a sua [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]], o seu método — é uma [[lexico:s:substituicao:start|substituição]] do [[lexico:e:estatico:start|estático]] pelo [[lexico:d:dinamico:start|dinâmico]], por vezes uma composição de ambos. Era o que declarava expressamente a última e belíssima obra de Bergson, publicada em 1932: As duas fontes da moral e da religião. Oferece-nos ela a moral tão esperada do nosso autor, e esta moral é significativa. Duas forças se exercem no interior do corpo social, como aliás do próprio indivíduo, duas forças que os guiam, os formam e lhes marcam o [[lexico:r:ritmo:start|ritmo]] [[lexico:h:historico:start|histórico]]. Por uma delas, essencialmente restritiva e inibitória, o [[lexico:a:adquirido:start|adquirido]] tende [[lexico:a:a-se:start|a se]] conservar, ergue-se uma barreira contra toda inovação que tenda a comprometer um equilíbrio sempre precário, a abalar as instituições estabelecidas, a modificar os hábitos ou a subverter a escala de valores — a inovar, em suma. É a religião estática ou a forma estática da religião, e é também a guerra aberta, uma guerra sem quartel, contra o espírito revolucionário. A outra é a reivindicação deste mesmo espírito, são as suas audácias, os seus triunfos, os seus reveses, o ímpeto irresistível das forças novas, a necessidade que têm os seres originais de se manifestarem, de se imporem, o meio, enfim, de satisfazer esta outra necessidade que quer que as coisas envelheçam, morram e sejam substituídas. Bem sabemos que a [[lexico:h:historia:start|história]] dos homens é feita desse ataque e dessa defesa, que ambos são legítimos mas, por nossa desgraça, não se podem acomodar pacificamente, pois as ruínas resistem com obstinação e o [[lexico:d:desejo:start|desejo]] de reconstruir leva a brandir o camartelo com demasiado açodamento contra muros que ainda se mantinham muito bem de pé... O espírito, por outro lado, não trabalha apenas sobre dados materiais ou matemáticos. Possui uma capacidade não pequena para construir [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] e trabalha sobre o imaginário com o mesmo [[lexico:e:entusiasmo:start|entusiasmo]], pelo menos, e com a mesma destreza que sobre o real. Possui uma "função fabuladora" e a exerce; é capaz de fazer deuses e não abdica dessa capacidade. E com esta afirmação encerra-se o livro: que o [[lexico:u:universo:start|universo]] é uma "máquina de fabricar deuses". Estas palavras bastante perturbadoras nos levam a expressar nossas reservas, que são graves, no tocante a esta prestigiosa filosofia. [[lexico:e:espiritos:start|Espíritos]] maldosos poderão [[lexico:p:pensar:start|pensar]] que se o universo "faz" deuses, seria bem possível que ele "fizesse" também Deus, e que a criatura tivesse inventado assim o seu criador. Que pensa a respeito o Pe. Sertillanges, que tão generosos esforços envidou para aproximar Bergson do catolicismo? A dizer [[lexico:v:verdade:start|verdade]], ficamos um pouco decepcionados quando consideramos a doutrina com algum sangue-frio, defendendo-nos dos prestígios a que me referi, fascinação do [[lexico:e:estilo:start|estilo]] e graças sutis do pensamento. Bergson, por certo, teve ganho de causa contra o materialismo e o idealismo, contra os sistemas que suprimem o espírito e contra aqueles que o evaporam pretendendo que tudo seja espírito. Mostrou também os abusos do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] [[lexico:p:puro:start|puro]], conquanto tenha exagerado talvez o [[lexico:v:vazio:start|vazio]] do conceito, e lembrou com razão que o pensamento se torna uma coisa ilusória e oca logo que perde o contato com a vida, isto é, com o sentimento e o movimento. Mas que vinha a ser exatamente esse espírito cujas fulgura-ções criam [[lexico:m:mundos:start|mundos]] e essa duração que assumia visos de divindade? Existem objetos que duram, mas a duração que é? E se existe ou se pode imaginar um Deus bergsoniano, que Deus será esse? Bem o compreenderam os teólogos. É um Deus infinitamente pouco pessoal, todo diluído, se assim se pode dizer, e [[lexico:i:imanente:start|imanente]], um Deus que parece distanciado de toda [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] e que foge à medida que o buscamos. No pensamento de Bergson, tudo nos escorrega entre os dedos quando julgamos apanhá-lo; fica apenas o [[lexico:f:fogo:start|fogo]] de artifício desse espírito cuja [[lexico:s:substancia:start|substância]] escapa incoercivelmente. Não é pequeno, entretanto, o [[lexico:m:merito:start|mérito]] de Bergson: arrancou a filosofia da rodeira científico-materialista em que se atolara, prestando-lhe assim [[lexico:r:relevante:start|relevante]] serviço. Se, por um lado, correu o [[lexico:r:risco:start|risco]] de dar uma nova forma a essa doutrina da evolução que já fora obrigada a confessar a sua deficiência, por outro lado voltou a um espírito desembaraçado das condições corporais a que se pretendera avassalá-lo e das quais se quisera derivá-lo, e instituiu uma "experiência" desse espírito. Introduziu ou reintroduziu na [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] essa vida que a filosofia clássica era acusada de ter estancado e que os nossos atuais fenomenologistas se jactam com tanta satisfação de ter encontrado também, esquecendo que só o fizeram depois dele. Bergson é, enfim, um momento e um [[lexico:h:heroi:start|herói]] da história da filosofia. Após ter conhecido o esplendor que se sabe e exercido uma acentuada [[lexico:i:influencia:start|influência]] sobre a psicologia, a moral, as ideias correntes e a literatura, o [[lexico:b:bergsonismo:start|bergsonismo]] entrou subitamente numa espécie de crepúsculo que lhe mascara a importância e os méritos, e convém acrescentar que ele se ressente também do ruído que fazem atualmente as doutrinas da [[lexico:m:moda:start|moda]], ruído que abafa qualquer outro. Teve mestres de subido valor em Edmond Le Roy, sucessor de Bergson no Colégio de França, e em Segond, autor de um livro sutil sobre A oração. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}