===== ANAXIMANDRO ===== [[lexico:p:provavel:start|Provável]] discípulo de Tales, Anaximandro nasceu por volta de fins do século VII a.C e morreu no início da segunda metade do século VI. Elaborou um tratado Sobre a [[lexico:n:natureza:start|natureza]], do qual nos chegou um fragmento. Trata-se do primeiro tratado filosófico do Ocidente e do primeiro [[lexico:e:escrito:start|escrito]] [[lexico:g:grego:start|grego]] em [[lexico:p:prosa:start|prosa]]. A nova [[lexico:f:forma:start|forma]] de composição literária tornava-se necessária pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de que o [[lexico:l:logos:start|Logos]] devia [[lexico:e:estar:start|estar]] livre do vínculo da métrica e do verso para corresponder plenamente às suas próprias instâncias. Anaximandro foi ainda mais ativo do que Tales na [[lexico:v:vida:start|vida]] [[lexico:p:politica:start|política]]: com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], se tem [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] de que chegou até a "comandar a colônia que migrou de Mileto para Apolônia". Com Anaximandro, a [[lexico:p:problematica:start|problemática]] do [[lexico:p:principio:start|princípio]] se aprofundou: ele sustenta que a água já é algo derivado e que, ao contrário, o "princípio" (arché) é o [[lexico:i:infinito:start|infinito]], ou seja, uma natureza ([[lexico:p:physis:start|physis]]) infinita e in-definida da qual provêm todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que existem. O [[lexico:t:termo:start|termo]] usado por Anaximandro é a-peiron, que significa aquilo que éprivado de limites, tanto externos (ou seja, aquilo que é infinito espacialmente e, portanto, quantitativamente) como internos (ou seja, aquilo que é qualitativamente [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]]). E precisamente por [[lexico:s:ser:start|ser]] quantitativa e qualitativamente i-limitado é que o princípio-apeiron pode dar [[lexico:o:origem:start|origem]] a todas as coisas, de-limitando-se de varios modos. [[lexico:e:esse:start|esse]] princípio abarca e circunda, governa e sustenta tudo, justamente porque, como de-limitação e de-terminação dele, todas as coisas dele se geram, nele consistindo e sendo. Esse infinito "parece-se com o [[lexico:d:divino:start|divino]], pois é imortal e indestrutível". Anaximandro [[lexico:n:nao:start|não]] só atribui ao seu princípio as prerrogativas que Homero e a [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] antiga atribuíam aos [[lexico:d:deuses:start|deuses]], ou seja, a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] e o poder de sustentar e governar tudo, mas vai ainda [[lexico:a:alem:start|além]], precisando que a imortalidade do princípio deve ser tal a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de não apenas não admitir um [[lexico:f:fim:start|fim]], mas tampouco um início. Os deuses antigos não morriam, mas nasciam. Já o divino de Anaximandro, da mesma forma como não morre, também não nasce. Desse [[lexico:m:modo:start|modo]], como já se acenou a propósito de Tales, de um só golpe é derrubada a base sobre a qual se erguiam as teo-gonias, ou seja, as genealogias dos deuses como entendidas no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] que as queria a [[lexico:m:mitologia:start|mitologia]] tradicional dos gregos. Desse modo, pode-se [[lexico:c:compreender:start|compreender]] ainda melhor o que já dissemos antes. Esses primeiros filósofos [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]] são "naturalistas" no sentido de que não vêem o divino (o princípio) como algo diferente do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], mas como a [[lexico:e:essencia:start|essência]] do mundo. Entretanto, não têm [[lexico:n:nada:start|nada]] a [[lexico:v:ver:start|ver]] com concepções do [[lexico:t:tipo:start|tipo]] materialista-ateizante. Em Anaximandro, portanto, [[lexico:d:deus:start|Deus]] torna-se o princípio, ao passo que os deuses tornam-se os [[lexico:m:mundos:start|mundos]], os universos que, como veremos, são numerosos — os quais, porém, nascem e perecem ciclicamente. Tales não se havia proposto a [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] sobre o como e o por que da derivação de todas as coisas do princípio. Mas Anaximandro se propôs essa pergunta. E o fragmento do seu tratado que chegou até nós contém precisamente a resposta para esse [[lexico:p:problema:start|problema]]: "De onde as coisas extraem o seu nascimento aí também é onde se cumpre a sua dissolução segundo a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]]; com efeito, reciprocamente sofrem o castigo e a [[lexico:c:culpa:start|culpa]] da injustiça, segundo a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do [[lexico:t:tempo:start|tempo]]." Provavelmente, Anaximandro pensava no fato de que o mundo é constituído de contrários, que tendem a predominar um sobre o [[lexico:o:outro:start|outro]] (calor e frio, seco e úmido etc.). A injustiça consistiria precisamente nessa predominância. O tempo é visto como juiz, à [[lexico:m:medida:start|medida]] que estabelece um [[lexico:l:limite:start|limite]] a cada um dos contrários, pondo fim no predomínio de um em favor de outro e vice-versa. Mas está claro que "injustiça" não é apenas a alternância dos contrários, mas também o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] fato de serem contrários, pois para cada um deles o nascimento implica imediatamente na [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] ao outro contrário. E, como o mundo nasce da cisão dos contrários, nisso se identifica a primeira injustiça, que deve ser expiada com a [[lexico:m:morte:start|morte]] (o fim) do próprio mundo, que, depois, renasce ainda segundo determinados ciclos de tempo, infinitamente. Assim, como alguns estudiosos notaram com agudeza, há dupla injustiça e, consequentemente, dupla necessidade de [[lexico:e:expiacao:start|expiação]]: a) por um lado, o nascimento do mundo através da cisão da [[lexico:u:unidade:start|unidade]] do princípio em opostos; b) "por outro lado, a tentativa que cada um dos opostos realiza depois da cisão no sentido de usurpar, com ódio pelo outro, a [[lexico:c:condicao:start|condição]] de [[lexico:u:unico:start|único]] sobrevivente e dominador, que seria, ao mesmo tempo, uma usurpação do [[lexico:l:lugar:start|lugar]] e dos direitos do divino imortal e indestrutível" (R. Mondolfo). Nessa concepção (como muitos estudiosos notaram), parece inegável uma infiltração de concepções religiosas de sabor [[lexico:o:orfico:start|órfico]]. Como vimos, a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de uma culpa original e de sua expiação e, portanto, a ideia da [[lexico:j:justica:start|justiça]] equilibradora, é uma ideia central do [[lexico:o:orfismo:start|orfismo]]. Nesse ponto, o logos de Anaximandro também toma a ideia central emprestada das representações religiosas. Já o seu discípulo [[lexico:a:anaximenes:start|Anaxímenes]], como veremos, tentaria dar uma resposta puramente [[lexico:r:racional:start|racional]] também para essa [[lexico:q:questao:start|questão]]. Assim como o princípio é infinito, também infinitos são os mundos, como já notamos, tanto no sentido de que este nosso mundo nada mais é do que um dos inumeráveis mundos em tudo semelhantes aos que os precederam e que os seguirão (pois cada mundo tem nascimento, vida e morte) como no sentido de que este nosso mundo coexiste ao mesmo tempo com uma [[lexico:s:serie:start|série]] infinita de outros mundos (e todos eles nascem e morrem de modo [[lexico:a:analogo:start|análogo]]). Eis como é explicada a [[lexico:g:genese:start|gênese]] do cosmos: de um [[lexico:m:movimento:start|movimento]], que é [[lexico:e:eterno:start|eterno]], geraram-se os primeiros dois contrários fundamentais, o frio e o calor; originalmente de natureza líquida, o frio teria sido em [[lexico:p:parte:start|parte]] transformado pelo fogo-calor, que formava a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] periférica, no [[lexico:a:ar:start|ar]]; a esfera do [[lexico:f:fogo:start|fogo]] se teria dividido em três, originando a esfera do [[lexico:s:sol:start|sol]], a esfera da lua e a esfera dos astros; o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] líquido teria se recolhido às cavidades da [[lexico:t:terra:start|Terra]], constituindo os mares. Imaginada como tendo forma cilíndrica, a terra "fica suspensa sem ser sustentada por nada, mas permanece firme por [[lexico:c:causa:start|causa]] da igual distância de todas as partes", ou seja, por uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de equilíbrio de forças. Sob a [[lexico:a:acao:start|ação]] do sol, deveriam nascer do elemento líquido os primeiros animais, de [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] elementar, dos quais, pouco a pouco, se teriam desenvolvido os animais mais complexos. O leitor superficial estaria errando ao sorrir diante disso, considerando pueril essa [[lexico:v:visao:start|visão]], pois, como os estudiosos já ressaltaram há muito tempo, ela é fortemente antecipadora. Basta [[lexico:p:pensar:start|pensar]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], na arguta [[lexico:r:representacao:start|representação]] da terra sem necessitar de uma sustentação material (para Tales, ela "flutuava", ou seja, se apoiava na água), sustentando-se em um equilíbrio de forças. Além disso constate-se também a "modernidade" da ideia de que a origem da vida tenha ocorrido com animais aquáticos e, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], o brilhantismo da ideia de [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] das espécies vivas (embora concebida de modo extremamente [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]]). Isso é suficiente para mostrar [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] que o logos já havia avançado para além do [[lexico:m:mito:start|mito]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}