MITO
(do gr. mythos, lenda). Da raiz my (mu), a mesma de “mistério” e que tinha o sentido de “silêncio”, guardar silêncio; ou seja, refere-se a algo que se nega a ser expresso em palavras, só admitindo o uso de figura, imagem, alegoria, metáfora, ou a forma imaginária de mitos, fábulas, estórias.
(do gr. mythos, fábula), narrativa dos tempos fabulosos e heroicos, objeto da mitologia. — A reflexão sobre os mitos e a mitologia empenha-se em descobrir o nascimento das religiões, pois o mito constitui uma primeira forma de explicação das coisas e do universo, uma explicação que é da ordem do sentimento, não da razão. A reflexão sobre os mitos como método de um conhecimento aprofundado do homem e das religiões foi preconizada e praticada por Schelling, J. Bachofen, E. Cassirer, K. Jaspers e P. Ricoeur.
a) É o relato simbólico que não revela imediatamente qualquer reflexão sobre fatos realizados por agentes impessoais ou forças da natureza, mas representados por seres pessoais. Esses relatos constituem, em suma, a mitologia, acrescentando-se neles as crenças respectivas.
b) A exposição de uma ideia ou doutrina sob a forma predominantemente poética, portanto metafórica e alegoricamente, como o mito da caverna de Platão (v. mito em Platão).
c) Uma crença mais ou menos geral que não tem nenhuma consciência histórica, como o “mito da greve geral” para instaurar a revolução social, defendida pelos socialistas revolucionários e sindicalistas. Vide utopia.
Chama-se mito a um relato de algo fabuloso que se supõe que aconteceu num passado remoto e quase sempre impreciso. Os mitos podem referir-se a grandes feitos heroicos que, com frequência são considerados como fundamento e o começo da história de uma comunidade ou do gênero humano em geral. Podem ter como conteúdo fenômenos naturais, e nesse caso costumam ser apresentados alegoricamente. Muitas vezes, os mitos comportam a personificação de coisas ou acontecimentos.
Quando o mito é tomado alegoricamente, converte-se num relato com dois aspectos, ambos igualmente necessários: o fictício e o real. O fictício consiste em que, de fato, não aconteceu o que o relato mítico diz. O real consiste em que, de certo modo, o que diz o relato mítico corresponde à realidade. O mito é como um relato daquilo que poderia ter acontecido se a realidade coincidisse com o paradigma da realidade. Na antiguidade, alguns, como os sofistas, separaram o mito da razão, mas nem sempre para sacrificar inteiramente o primeiro, pois com frequência admitiram a narração mitológica como envoltura da verdade filosófica. Esta concepção foi retomada por Platão, especialmente quando considerou o mito como modo de expressar certas verdades que escapam ao raciocínio. Neste sentido, o mito não pode ser eliminado da filosofia platônica, pois desapareceriam então dela a doutrina do mundo, da alma e de Deus, Bem como parte da teoria das ideias. O mito é para Platão, muitas vezes, algo mais que uma opinião provável. Mas, ao mesmo tempo, o mito aparece nele como o modo de expressar o reino do devir.
Na antiguidade e na idade média, deu-se particular atenção ao próprio conteúdo dos mitos e ao seu poder explicativo. Desde o Renascimento, abriu-se passagem a um problema que, embora já tratado na antiguidade, tinha ficado um pouco à margem: o problema da realidade, e, por conseguinte, o problema da verdade ou grau de verdade, dos mitos.. Muitos autores modernos negaram-se a considerar os mitos como dignos de menção. A verdadeira história, proclamaram eles, não tem nada de mítico. Contudo, à medida que se procurou estudar a história empiricamente, verificou-se que os mitos podem não ser verdadeiros no que contam, mas são verdadeiros noutro sentido: em que contam algo que realmente aconteceu na história, isto é, a crença em mitos. por outras palavras, os mitos foram considerados como fatos históricos: a sua verdade é uma verdade histórica.
Na época contemporânea, prevaleceu o estudo do mito como elemento possível, e em todo o caso ilustrativo, da história humana e de certas formas de comunidade humana. O mito não é mero objeto de pura investigação empírico-descritiva, nem tão pouco é manifestação histórica de nenhum absoluto: é modo de ser ou forma de uma consciência: a “consciência mítica”. Esta consciência tem um princípio que se pode investigar mediante um tipo de análise que não é nem empírica nem metafísica, mas - em sentido muito lato - epistemológico. Mas como, ao mesmo tempo, a consciência mítica é uma das formas da consciência humana, o exame dos mitos ilumina a estrutura dessa consciência. O que se investiga deste modo é a função dos mitos na consciência e na cultura. A formação de mitos obedece a uma espécie de necessidade: a necessidade da consciência cultural. Os mitos podem ser considerados como supostos culturais.
Devido à sua origem e à sua história, a noção de mito, que herdamos dos gregos, pertence a uma tradição de pensamento peculiar ao Ocidente, na qual o mítico é definido por aquilo de que se diferencia: numa dupla relação de oposição com o real, por um lado (o mito é ficção), e com o racional, por outro (o mito é absurdo). É precisamente nessa linha de pensamento, no âmbito dessa tradição, que devemos situar, para poder compreendê-lo, o desenvolvimento dos estudos modernos sobre o mito. Ao buscar procedimentos interpretativos e técnicas de decifração capazes de conferir sentido ao que, à primeira vista, poderia parecer uma confusão de fábulas bizarras, fomos levados a questionar as concepções antigas e a nos interrogar sobre a verdadeira natureza do que era designado pelo nome de mito. Qual é o status social e intelectual desse tipo de relato? Em que medida ele constitui um modo específico de expressão, dotado de uma linguagem, um pensamento e uma lógica particulares? Como situar o mito no conjunto da vida coletiva de uma sociedade e diferenciá-lo das crenças e dos ritos religiosos, de todos os elementos da tradição oral: contos de fadas, provérbios, folclore, ficções propriamente literárias? E, colocando-nos numa perspectiva antropológica, que lugar lhe atribuiremos no indivíduo e no grupo, que dimensão humana lhe reconheceremos? [Jean-Pierre Vernant, MITO]
