divisão do saber

Aristóteles e, em seguida, S. Tomás nos deixaram uma teoria da organização do saber que, a despeito de algumas incertezas, é sólida em suas grandes linhas.

A divisão mais geral do saber é a que se encontra na Metafísica (E, c. I), exposta também em outros lugares: ciências especulativas, práticas e técnicas (literalmente “poiéticas”, de poiein, fazer). As ciências especulativas ou teoréticas são aquelas que não têm outro fim senão o puro conhecimento. As ciências práticas e as ciências técnicas são ordenadas à ação. As ciências práticas concernem à ação humana ou moral (ação imanente, dir-se-á, porque tal ação não sai do sujeito) e, as técnicas, à atividade exterior ou à fabricação (ação transitiva, quer dizer que sai do sujeito para um objeto). Essas ciências técnicas são, no sentido mais geral dado aqui a este têrmo, as artes. Assim aparecem, em Aristóteles, as divisões supremas do saber. Como se vê, é o ponto de vista da finalidade do saber que as diferencia.

S. Tomás adotou essa divisão geral unificando, às vezes, os dois últimos grupos, uma vez que, um e outro tendo uma finalidade prática, têm uma afinidade particular. Porém no primeiro livro de seu comentário sobre as Éticas, em um texto notável, ele distingue uma quarta ordem de conhecimentos filosóficos, a rationalis philosophia (lógica). Aristóteles não a havia mencionado em sua classificação, sem dúvida porque a considerava mais como o instrumento geral, organon, da filosofia, do que como uma uma de suas partes. De qualquer forma, eis o que diz S. Tomás:

“É próprio do sábio pôr ordem nas coisas.

A razão disso é que a sabedoria é a perfeição suprema da razão e o próprio da razão é conhecer a ordem…

Ora, uma ordem pode relacionar-se com a razão de quatro maneiras diferentes.

Há uma ordem que a razão não estabelece, mas apenas conhece e considera: é a ordem das coisas da natureza.

Há uma outra que a própria razão, ao mesmo tempo que a conhece, a estabelece (considerando facit), dentro de sua própria atividade: é quando, por exemplo, ela ordena seus conceitos uns com relação aos outros, bem como os símbolos desses conceitos, que são palavras dotadas de significação.

A terceira ordem é aquela em que a razão, ao mesmo tempo que a conhece, a estabelece, desta vez nas operações da vontade.

A quarta ordem, enfim, é a que a razão, ao mesmo tempo que conhece, estabelece, nas coisas exteriores de que ela própria é causa: um armário, uma casa, por exemplo.

Ora, como a atividade da razão só se torna perfeita por um hábito, conclui-se que as diversas ciências se dividem exatamente segundo essas diferentes ordens que a razão considera como algo que lhe é próprio.

Com efeito, cabe à filosofia da natureza tomar como objeto a ordem que a razão humana considera mas não estabelece.

A ordem que a razão humana conhece e estabelece em seu próprio ato, constitui a filosofia racional (lógica)…

A ordem das ações voluntárias pertence às especulações da filosofia moral…

A ordem, finalmente, que a razão estabelece quando conhece, nas coisas que lhes são exteriores, constitui as artes mecânicas”.

Deixando de lado o caso da lógica, que pode ser encarado seja como instrumento de toda a filosofia (Aristóteles, habitualmente), seja como uma ciência especial (S. Tomás no texto precedente), este quadro corresponde bem à divisão tripartida clássica do aristotelismo, e nós poderemos, em definitivo, adotar a classificação seguinte:

Rationalis philosophia vel Logica (Ciência ou Organon)
Philosophia speculativa
Philosophia practica (Activa: Moralis philosophia; Factiva: Artes)

Não menos importante é a subdivisão, feita por Aristóteles, das ciências teoréticas ou especulativas em três partes, segundo o que se chama os três graus de abstração. Essa divisão não tem por princípio a distinção exterior ou material dos objetos, mas uma distinção de estrutura inteligível ou noética: o grau de imaterialidade. Quanto mais um objeto de ciência é imaterial, quer dizer, elevado acima das condições da matéria, mais ele é inteligível em si, mais o conhecimento que se tem dele é de um grau elevado. Na filosofia de S. Tomás, o fundamento profundo e a razão própria da inteligibilidade como, aliás, da capacidade intelectual, é a imaterialidade. Os homens, assim, são mais elevados do que os animais na escala dos seres dotados de conhecimento. E os anjos, por sua vez, o são mais do que os homens.

Isto posto, vejamos como se definem os três graus de abstração e, por este mesmo fato, as três grandes partes da filosofia teórica que lhes correspondem. O primeiro esfôrço da inteligência abstrativa consiste em considerar as coisas sensíveis independentemente de seus caracteres individuais: o homem, por exemplo, sem o que é próprio a cada homem em particular. Neste caso, eu abstraio de “tal matéria” ou da “matéria individual”, a matéria signata vel individuali, conservando os caracteres sensíveis comuns, materia sensibilis. A este primeiro grau de abstração corresponde a filosofia da natureza ou cosmologia, a física de Aristóteles. O segundo esfôrço da inteligência abstrativa consiste em considerar as coisas independentemente de suas qualidades sensíveis e de seus movimentos, para reter tão somente as determinações de ordem quantitativa, figura geométrica, relações numéricas, etc . . . Mantém-se, entretanto, ainda neste nível, o que na matéria se relaciona com a ordem quantitativa: a matéria inteligível, materia intelligibilis. A este segundo grau de abstração correspondem as ciências matemáticas. Finalmente, a inteligência abstrativa considera as coisas independentemente de toda matéria, não retendo senão as suas determinações absolutamente imateriais: abstração separativa da matéria inteligível e do movimento: a materia intelligibili et motu. Ao terceiro grau de abstração corresponde a metafísica (filosofia primeira ou teologia conforme as designações de Aristóteles). E S. Tomás conclui (Metafísica, VI, 1. 1, n.o 1166): “Há, portanto, três partes na filosofia teorética: a matemática, a física e a teologia, que é a filosofia primeira”. “… tres ergo sunt partes philosophiae theoricae, scilicet mathematica, physica et theologia quae est philosophia prima.” [Gardeil]


Aristóteles e, em seguida, S. Tomás nos deixaram uma teoria da organização do saber que, a despeito de algumas incertezas, é sólida em suas grandes linhas.

A divisão mais geral do saber é a que se encontra na Metafísica (E, c. I), exposta também em outros lugares: ciências especulativas, práticas e técnicas (literalmente “poiéticas”, de poiein, fazer). As ciências especulativas ou teoréticas são aquelas que não têm outro fim senão o puro conhecimento. As ciências práticas e as ciências técnicas são ordenadas à ação. As ciências práticas concernem à ação humana ou moral (ação imanente, dir-se-á, porque tal ação não sai do sujeito) e, as técnicas, à atividade exterior ou à fabricação (ação transitiva, quer dizer que sai do sujeito para um objeto). Essas ciências técnicas são, no sentido mais geral dado aqui a este têrmo, as artes. Assim aparecem, em Aristóteles, as divisões supremas do saber. Como se vê, é o ponto de vista da finalidade do saber que as diferencia.

S. Tomás adotou essa divisão geral unificando, às vezes, os dois últimos grupos, uma vez que, um e outro tendo uma finalidade prática, têm uma afinidade particular. Porém no primeiro livro de seu comentário sobre as Éticas, em um texto notável, ele distingue uma quarta ordem de conhecimentos filosóficos, a rationalis philosophia (lógica). Aristóteles não a havia mencionado em sua classificação, sem dúvida porque a considerava mais como o instrumento geral, organon, da filosofia, do que como uma uma de suas partes. De qualquer forma, eis o que diz S. Tomás:

“É próprio do sábio pôr ordem nas coisas.

A razão disso é que a sabedoria é a perfeição suprema da razão e o próprio da razão é conhecer a ordem…

Ora, uma ordem pode relacionar-se com a razão de quatro maneiras diferentes.

Há uma ordem que a razão não estabelece, mas apenas conhece e considera: é a ordem das coisas da natureza.

Há uma outra que a própria razão, ao mesmo tempo que a conhece, a estabelece (considerando facit), dentro de sua própria atividade: é quando, por exemplo, ela ordena seus conceitos uns com relação aos outros, bem como os símbolos desses conceitos, que são palavras dotadas de significação.

A terceira ordem é aquela em que a razão, ao mesmo tempo que a conhece, a estabelece, desta vez nas operações da vontade.

A quarta ordem, enfim, é a que a razão, ao mesmo tempo que conhece, estabelece, nas coisas exteriores de que ela própria é causa: um armário, uma casa, por exemplo.

Ora, como a atividade da razão só se torna perfeita por um hábito, conclui-se que as diversas ciências se dividem exatamente segundo essas diferentes ordens que a razão considera como algo que lhe é próprio.

Com efeito, cabe à filosofia da natureza tomar como objeto a ordem que a razão humana considera mas não estabelece.

A ordem que a razão humana conhece e estabelece em seu próprio ato, constitui a filosofia racional (lógica)…

A ordem das ações voluntárias pertence às especulações da filosofia moral…

A ordem, finalmente, que a razão estabelece quando conhece, nas coisas que lhes são exteriores, constitui as artes mecânicas”.

Deixando de lado o caso da lógica, que pode ser encarado seja como instrumento de toda a filosofia (Aristóteles, habitualmente), seja como uma ciência especial (S. Tomás no texto precedente), este quadro corresponde bem à divisão tripartida clássica do aristotelismo, e nós poderemos, em definitivo, adotar a classificação seguinte:

Rationalis philosophia vel Logica (Ciência ou Organon)
Philosophia speculativa
Philosophia practica (Activa: Moralis philosophia; Factiva: Artes)

Não menos importante é a subdivisão, feita por Aristóteles, das ciências teoréticas ou especulativas em três partes, segundo o que se chama os três graus de abstração. Essa divisão não tem por princípio a distinção exterior ou material dos objetos, mas uma distinção de estrutura inteligível ou noética: o grau de imaterialidade. Quanto mais um objeto de ciência é imaterial, quer dizer, elevado acima das condições da matéria, mais ele é inteligível em si, mais o conhecimento que se tem dele é de um grau elevado. Na filosofia de S. Tomás, o fundamento profundo e a razão própria da inteligibilidade como, aliás, da capacidade intelectual, é a imaterialidade. Os homens, assim, são mais elevados do que os animais na escala dos seres dotados de conhecimento. E os anjos, por sua vez, o são mais do que os homens.

Isto posto, vejamos como se definem os três graus de abstração e, por este mesmo fato, as três grandes partes da filosofia teórica que lhes correspondem. O primeiro esfôrço da inteligência abstrativa consiste em considerar as coisas sensíveis independentemente de seus caracteres individuais: o homem, por exemplo, sem o que é próprio a cada homem em particular. Neste caso, eu abstraio de “tal matéria” ou da “matéria individual”, a matéria signata vel individuali, conservando os caracteres sensíveis comuns, materia sensibilis. A este primeiro grau de abstração corresponde a filosofia da natureza ou cosmologia, a física de Aristóteles. O segundo esfôrço da inteligência abstrativa consiste em considerar as coisas independentemente de suas qualidades sensíveis e de seus movimentos, para reter tão somente as determinações de ordem quantitativa, figura geométrica, relações numéricas, etc . . . Mantém-se, entretanto, ainda neste nível, o que na matéria se relaciona com a ordem quantitativa: a matéria inteligível, materia intelligibilis. A este segundo grau de abstração correspondem as ciências matemáticas. Finalmente, a inteligência abstrativa considera as coisas independentemente de toda matéria, não retendo senão as suas determinações absolutamente imateriais: abstração separativa da matéria inteligível e do movimento: a materia intelligibili et motu. Ao terceiro grau de abstração corresponde a metafísica (filosofia primeira ou teologia conforme as designações de Aristóteles). E S. Tomás conclui (Metafísica, VI, 1. 1, n.o 1166): “Há, portanto, três partes na filosofia teorética: a matemática, a física e a teologia, que é a filosofia primeira”. “… tres ergo sunt partes philosophiae theoricae, scilicet mathematica, physica et theologia quae est philosophia prima.”

As classificações modernas e a escolástica.

Na filosofia moderna, a questão da classificação das ciências se complicou e se desenvolveu consideravelmente. Está inteiramente fora de nossas pretensões nos determos na história desta renovação. Entretanto, não podemos aqui nos desinteressar totalmente de algumas concepções que, provindo de sistemas mais recentes, acabaram por agir de modo bastante profundo sobre a doutrina tradicional que expusemos, resultando numa verdadeira transformação desta.

Na origem da evolução a respeito da qual vamos falar, deve ser lembrada a influência principal da classificação do filósofo alemão Wolff (século XVIII). Wolff, em seus famosos manuais, distinguia inicialmente três grandes gêneros de conhecimento: o conhecimento histórico (experimental), o conhecimento filosófico e o conhecimento matemático. As matemáticas se viam assim excluídas da filosofia. Depois, considerando que nossa alma tem duas faculdades principais, a inteligência e a vontade, e que elas podem igualmente falhar, ele designa duas outras partes da filosofia para dirigi-Ia: a lógica, para a razão, e a filosofia prática para a vontade. Finalmente, observando que existem noções gerais comuns a toda a filosofia, ele coloca ainda à parte uma secção especial, a ontologia. As principais partes da filosofia são portanto, na ordem em que convém estudá-las: a lógica, a ontologia, a física, a cosmologia, a teologia natural, a filosofia prática. Haveria muito a dizer a respeito desta classificação e sobre os princípios que a inspiraram. Basta aqui observar que ela introduz duas importantes inovações: a divisão da física em uma cosmologia e em uma psicologia nitidamente separadas, e a da metafísica em ontologia e em teodiceia. Daí por diante, numerosos manuais, mesmo em filosofia aristotélica, adotarão essas subdivisões e esses títulos.

Na época contemporânea, novos domínios do saber filosófico tiveram a tendência de se constituir de maneira independente; pensamos especialmente na sociologia, que muito se desenvolveu e, na teoria crítica do conhecimento. Ainda aqui, a escolástica julgou dever-se mostrar receptiva.

Que devemos pensar, em tomismo autêntico, dessa evolução da classificação recebida dos antigos? Certamente, nada impede que se façam subdivisões e mesmo que se multipliquem nos grandes planos do saber; porém, algumas destas subdivisões podem ser feitas de uma maneira inoportuna, correndo o risco de comprometer a solidez do edifício.

Não há dúvida, por exemplo, de que a constituição universalmente recebida agora, de uma psicologia separada da filosofia da natureza, se ela se justifica, tem o inconveniente de encobrir a continuidade não menos real destas duas disciplinas. De consequência mais deplorável ainda, apresenta-se o desmembramento da metafísica, a única sabedoria dos antigos, em ontologia, teodiceia e, algumas vezes, em crítica. Neste ponto pelo menos, o uso, que tem sua origem em Wolff, deve ser abandonado. Uma única ciência suprema, a metafísica, tem valor crítico, e terminando em Deus como em seu têrmo natural. Levando-se em conta essas observações, pode-se organizar da maneira seguinte uma exposição moderna da filosofia de S. Tomás:

I. Lógica (ciência propedêutica)
II. Filosofia da natureza – psicologia (em continuidade)
III. Metafísica (incluindo Teodiceia e Crítica)
IV. Moral e Sociologia (Gardeil)


Aristóteles e, em seguida, S. Tomás nos deixaram uma teoria da organização do saber que, a despeito de algumas incertezas, é sólida em suas grandes linhas.

A divisão mais geral do saber é a que se encontra na Metafísica (E, c. I), exposta também em outros lugares: ciências especulativas, práticas e técnicas (literalmente “poiéticas”, de poiein, fazer). As ciências especulativas ou teoréticas são aquelas que não têm outro fim senão o puro conhecimento. As ciências práticas e as ciências técnicas são ordenadas à ação. As ciências práticas concernem à ação humana ou moral (ação imanente, dir-se-á, porque tal ação não sai do sujeito) e, as técnicas, à atividade exterior ou à fabricação (ação transitiva, quer dizer que sai do sujeito para um objeto). Essas ciências técnicas são, no sentido mais geral dado aqui a este têrmo, as artes. Assim aparecem, em Aristóteles, as divisões supremas do saber. Como se vê, é o ponto de vista da finalidade do saber que as diferencia.

S. Tomás adotou essa divisão geral unificando, às vezes, os dois últimos grupos, uma vez que, um e outro tendo uma finalidade prática, têm uma afinidade particular. Porém no primeiro livro de seu comentário sobre as Éticas, em um texto notável, ele distingue uma quarta ordem de conhecimentos filosóficos, a rationalis philosophia (lógica). Aristóteles não a havia mencionado em sua classificação, sem dúvida porque a considerava mais como o instrumento geral, organon, da filosofia, do que como uma uma de suas partes. De qualquer forma, eis o que diz S. Tomás:

“É próprio do sábio pôr ordem nas coisas.

A razão disso é que a sabedoria é a perfeição suprema da razão e o próprio da razão é conhecer a ordem…

Ora, uma ordem pode relacionar-se com a razão de quatro maneiras diferentes.

Há uma ordem que a razão não estabelece, mas apenas conhece e considera: é a ordem das coisas da natureza.

Há uma outra que a própria razão, ao mesmo tempo que a conhece, a estabelece (considerando facit), dentro de sua própria atividade: é quando, por exemplo, ela ordena seus conceitos uns com relação aos outros, bem como os símbolos desses conceitos, que são palavras dotadas de significação.

A terceira ordem é aquela em que a razão, ao mesmo tempo que a conhece, a estabelece, desta vez nas operações da vontade.

A quarta ordem, enfim, é a que a razão, ao mesmo tempo que conhece, estabelece, nas coisas exteriores de que ela própria é causa: um armário, uma casa, por exemplo.

Ora, como a atividade da razão só se torna perfeita por um hábito, conclui-se que as diversas ciências se dividem exatamente segundo essas diferentes ordens que a razão considera como algo que lhe é próprio.

Com efeito, cabe à filosofia da natureza tomar como objeto a ordem que a razão humana considera mas não estabelece.

A ordem que a razão humana conhece e estabelece em seu próprio ato, constitui a filosofia racional (lógica)…

A ordem das ações voluntárias pertence às especulações da filosofia moral…

A ordem, finalmente, que a razão estabelece quando conhece, nas coisas que lhes são exteriores, constitui as artes mecânicas”.

Deixando de lado o caso da lógica, que pode ser encarado seja como instrumento de toda a filosofia (Aristóteles, habitualmente), seja como uma ciência especial (S. Tomás no texto precedente), este quadro corresponde bem à divisão tripartida clássica do aristotelismo, e nós poderemos, em definitivo, adotar a classificação seguinte:

Rationalis philosophia vel Logica (Ciência ou Organon)
Philosophia speculativa
Philosophia practica (Activa: Moralis philosophia; Factiva: Artes)

Não menos importante é a subdivisão, feita por Aristóteles, das ciências teoréticas ou especulativas em três partes, segundo o que se chama os três graus de abstração. Essa divisão não tem por princípio a distinção exterior ou material dos objetos, mas uma distinção de estrutura inteligível ou noética: o grau de imaterialidade. Quanto mais um objeto de ciência é imaterial, quer dizer, elevado acima das condições da matéria, mais ele é inteligível em si, mais o conhecimento que se tem dele é de um grau elevado. Na filosofia de S. Tomás, o fundamento profundo e a razão própria da inteligibilidade como, aliás, da capacidade intelectual, é a imaterialidade. Os homens, assim, são mais elevados do que os animais na escala dos seres dotados de conhecimento. E os anjos, por sua vez, o são mais do que os homens.

Isto posto, vejamos como se definem os três graus de abstração e, por este mesmo fato, as três grandes partes da filosofia teórica que lhes correspondem. O primeiro esfôrço da inteligência abstrativa consiste em considerar as coisas sensíveis independentemente de seus caracteres individuais: o homem, por exemplo, sem o que é próprio a cada homem em particular. Neste caso, eu abstraio de “tal matéria” ou da “matéria individual”, a matéria signata vel individuali, conservando os caracteres sensíveis comuns, materia sensibilis. A este primeiro grau de abstração corresponde a filosofia da natureza ou cosmologia, a física de Aristóteles. O segundo esfôrço da inteligência abstrativa consiste em considerar as coisas independentemente de suas qualidades sensíveis e de seus movimentos, para reter tão somente as determinações de ordem quantitativa, figura geométrica, relações numéricas, etc . . . Mantém-se, entretanto, ainda neste nível, o que na matéria se relaciona com a ordem quantitativa: a matéria inteligível, materia intelligibilis. A este segundo grau de abstração correspondem as ciências matemáticas. Finalmente, a inteligência abstrativa considera as coisas independentemente de toda matéria, não retendo senão as suas determinações absolutamente imateriais: abstração separativa da matéria inteligível e do movimento: a materia intelligibili et motu. Ao terceiro grau de abstração corresponde a metafísica (filosofia primeira ou teologia conforme as designações de Aristóteles). E S. Tomás conclui (Metafísica, VI, 1. 1, n.o 1166): “Há, portanto, três partes na filosofia teorética: a matemática, a física e a teologia, que é a filosofia primeira”. “… tres ergo sunt partes philosophiae theoricae, scilicet mathematica, physica et theologia quae est philosophia prima.”

As classificações modernas e a escolástica.

Na filosofia moderna, a questão da classificação das ciências se complicou e se desenvolveu consideravelmente. Está inteiramente fora de nossas pretensões nos determos na história desta renovação. Entretanto, não podemos aqui nos desinteressar totalmente de algumas concepções que, provindo de sistemas mais recentes, acabaram por agir de modo bastante profundo sobre a doutrina tradicional que expusemos, resultando numa verdadeira transformação desta.

Na origem da evolução a respeito da qual vamos falar, deve ser lembrada a influência principal da classificação do filósofo alemão Wolff (século XVIII). Wolff, em seus famosos manuais, distinguia inicialmente três grandes gêneros de conhecimento: o conhecimento histórico (experimental), o conhecimento filosófico e o conhecimento matemático. As matemáticas se viam assim excluídas da filosofia. Depois, considerando que nossa alma tem duas faculdades principais, a inteligência e a vontade, e que elas podem igualmente falhar, ele designa duas outras partes da filosofia para dirigi-Ia: a lógica, para a razão, e a filosofia prática para a vontade. Finalmente, observando que existem noções gerais comuns a toda a filosofia, ele coloca ainda à parte uma secção especial, a ontologia. As principais partes da filosofia são portanto, na ordem em que convém estudá-las: a lógica, a ontologia, a física, a cosmologia, a teologia natural, a filosofia prática. Haveria muito a dizer a respeito desta classificação e sobre os princípios que a inspiraram. Basta aqui observar que ela introduz duas importantes inovações: a divisão da física em uma cosmologia e em uma psicologia nitidamente separadas, e a da metafísica em ontologia e em teodiceia. Daí por diante, numerosos manuais, mesmo em filosofia aristotélica, adotarão essas subdivisões e esses títulos.

Na época contemporânea, novos domínios do saber filosófico tiveram a tendência de se constituir de maneira independente; pensamos especialmente na sociologia, que muito se desenvolveu e, na teoria crítica do conhecimento. Ainda aqui, a escolástica julgou dever-se mostrar receptiva.

Que devemos pensar, em tomismo autêntico, dessa evolução da classificação recebida dos antigos? Certamente, nada impede que se façam subdivisões e mesmo que se multipliquem nos grandes planos do saber; porém, algumas destas subdivisões podem ser feitas de uma maneira inoportuna, correndo o risco de comprometer a solidez do edifício.

Não há dúvida, por exemplo, de que a constituição universalmente recebida agora, de uma psicologia separada da filosofia da natureza, se ela se justifica, tem o inconveniente de encobrir a continuidade não menos real destas duas disciplinas. De consequência mais deplorável ainda, apresenta-se o desmembramento da metafísica, a única sabedoria dos antigos, em ontologia, teodiceia e, algumas vezes, em crítica. Neste ponto pelo menos, o uso, que tem sua origem em Wolff, deve ser abandonado. Uma única ciência suprema, a metafísica, tem valor crítico, e terminando em Deus como em seu têrmo natural. Levando-se em conta essas observações, pode-se organizar da maneira seguinte uma exposição moderna da filosofia de S. Tomás:

I. Lógica (ciência propedêutica)
II. Filosofia da natureza – psicologia (em continuidade)
III. Metafísica (incluindo Teodiceia e Crítica)
IV. Moral e Sociologia (Gardeil)