Diógenes Laércio ou de Laerte, cidade de Cilicia na qual nasceu, provavelmente viveu no início do século III d.C.: de fato, ele não cita nenhum autor posterior a Saturnino (gnóstico do século II) nem menciona o neoplatonismo em Vidas, Doutrinas e Sentenças dos Filósofos Ilustres de cada Seita. Embora tradicionalmente se costumem ressaltar as insuficiências de método e a total ausência de senso crítico de seu autor, também se reconhece de bom grado que essas Vidas constituem uma fonte insubstituível de conhecimento da filosofia grega. Diógenes Laércio não poupa detalhes e tradições: sua obra apresenta-se como uma vasta compilação de todas as anedotas e tudo o que foi dito sobre os filósofos. Compõe-se de dez livros, cujo conjunto é dividido — segundo curioso procedimento de origem alexandrina — em duas partes nitidamente distintas e de importância desigual: os sete primeiros livros, logo depois de evocar as figuras dos sete Sábios (liv. I), vinculam Sócrates (liv. II), Platão e sua escola (liv. III e liv. IV), Aristóteles (liv. V), os cínicos (liv. VI) e os estóicos (liv. VII) a uma linhagem “jônica” que remontaria aos milésios (Anaximandro e seu mestre Tales); enquanto os três últimos tratam de uma “escola itálica” que derivaria de Pitágoras (liv. VIII) para desembocar… nos céticos (liv. IX) e em Epicuro (liv. X). Apesar de todos esses defeitos, Vidas constitui uma verdadeira mina de informações sobre a história da filosofia antiga: nela R. Hope enumerou 1186 referências explícitas a 250 autores! Além disso, Diógenes geralmente vai buscar suas informações em bons historiadores (Sótio de Alexandria, Hermipo, Antigono de Caristo, Díocles de Magnésia, Favorino etc.) e tem o mérito de utilizar frequentemente documentos originais (cartas de filósofos, minutas do processo de Sócrates…); assim, no livro X, ficamos conhecendo, além do testamento de Epicuro, três cartas suas (a Heródoto, a Pitocles e a Meneceu) e suas Máximas Fundamentais; o livro VII (cujo fim está faltando) também dá preciosas indicações sobre os estóicos. Compreende-se então por que qualquer tentativa de filiar Diógenes Laércio a uma escola filosófica e não a outra parece bem duvidosa (Gassendi e outros depois dele quiseram fazer de Diógenes Laércio um epicurista): pode-se apenas identificar que em boa parte ele parece encerrar, ao mesmo tempo, Platão, Pirro e [296] Epicuro. Diógenes publicou também uma coletânea de epigramas (intitulada Psammetron = versos de metros diversos) que conhecemos apenas pelos excertos que ele apresenta ocasionalmente em Vidas. (DHDF)