animus

gr. noûs distinto da alma em Lucrecio, noesis 14; ver também espírito (FEPeters)


Se representarmos a psique como por, podemos imaginar a consciência pensante como a luz refletida na água e penetrando nela, pelo menos até uma certa profundidade. Essa imagem tem o mérito de mostrar que o pensamento é imanente à psique, mas distinto dela porque não é água. Essa luz psíquica nos parece corresponder ao termo latino animus, e nós a chamaremos de alma mental. R. Guénon ressaltou que a palavra mental (do latim mens) inclui a raiz indo-europeia men ou man, que designa o homem. De fato, a consciência mental caracteriza o homem como tal e o distingue de todos os outros seres.

Não é fácil definir a alma mental. Ela é a modalidade cognitiva da psique. Usaremos a imagem de um espelho para descrevê-la, porque a natureza específica desse conhecimento nos parece ser seu caráter indireto. A mente “reflete” o que sabe, ou então, para ela, saber é refletir seu objeto de conhecimento. A mente (ou pensamento) não penetra no objeto em sua própria essência, mas é o objeto que a “penetra”, não como tal, mas como uma abstração. O objeto “informa” a alma cognitiva, mas ao receber essa informação, a alma a reveste com sua própria natureza sutil. Sejamos claros: o que é conhecido não é a abstração, mas o objeto; mas esse objeto é conhecido por meio da abstração. Se preferir, a mente é o “meio de refração” pelo qual o objeto passa a ser conhecido.

O conhecimento é, portanto, alcançado pela “impressão mental”; a mente é o espelho refletor do mundo. Como já observamos em relação à cultura, esse caráter indireto ou reflexivo do conhecimento humano introduz entre o homem e o mundo o que Ruyer chama de “distância psíquica”1 que sustenta a possibilidade do símbolo. O inteligível, ou melhor, nesse nível, deveríamos dizer o concebível, existe não apenas nas coisas, mas também, de certa forma, “em si mesmo”, graças ao conhecimento humano, que pode ser dito, de certa forma, que atualiza, em um estado separado, a modalidade inteligível das coisas. Não se trata apenas de “pensar algo”, mas de pensar em algo, ou sobre algo. Essa possibilidade do símbolo é essencialmente realizada na linguagem, que não consiste primariamente em expressar algo, que é o que o animal faz, mas em falar sobre algo, o que nenhum animal é capaz de fazer (Op. cit., p. 95). Todas as discussões sobre a linguagem animal são baseadas em um mal-entendido ou em um desejo de surpreender os ignorantes). E, como falar de algo é falar de algo que está “ausente” e que, por essa razão, representamos, vemos que o conhecimento mental envolve não apenas o pensamento conceitual, mas também a memória e a imaginação, uma função da ausência no tempo e no espaço. Tudo isso é animus.


ALMA — ANIMUS

Jean Borella
Excertos traduzidos por Antonio Carneiro de «La Charité profanée»

Se representarmos o psiquismo pela água, poder-se-á figurar a consciência pensante como uma luz refletida na água penetrando-a pelo menos até certo grau de profundidade. Esta imagem tem o mérito de mostrar que o pensamento é imanente ao psiquismo, e, no entanto, é nisso que se distingue, uma vez que não é de água. Esta luz psíquica nos parece corresponder ao termo latim: “animus”, que chamaremos: alma mental. R. Guénon sublinhou que a palavra mental (do latim “mens”) compreende a raiz indo-europeia “men” ou “man”, que designa homem. Com efeito, a consciência mental caracteriza o homem como tal e o distingue de todos os outros seres.

Não é fácil definir a alma mental. Trata-se de modalidade cognitiva do psiquismo. Utilizaremos para descrevê-la a imagem do espelho, pois, a natureza específica deste conhecimento nos parece ser seu caráter indireto. O mental « reflete » o que conhece, ou ainda, conhecer para ele é refletir seu objeto de conhecimento. O mental (ou o pensamento) não penetra no objeto na sua própria essência, mas, é de preferência o objeto que « penetra » nele, não em tanto quanto tal, mas, como uma abstração. O objeto « informa » a alma cognitiva, mas, recebendo nela esta informação a alma a reveste de sua própria natureza sutil. Entendamos bem: o que é conhecido, não é a abstração, é o objeto; mas, esse objeto é conhecido pelo modo de abstração. Se preferir, o mental é o « meio de refração » que atravessa o objeto para ser conhecido.

O conhecimento se efetua então pela « impressão mental »; o mental é o espelho refletidor do mundo. Assim como havíamos já observado a propósito da cultura, esse caráter indireto ou refletidor do conhecimento humano introduz entre o homem e o mundo o que Ruyer chama uma « distância psíquica » [[1. Cf. R. Ruyer, L’Animal, l’Homme et la Fonction symbolique, Gallimard, 1964 (vide: L’œuvre et la pensée de Raymond Ruyer par Alain de Benoist).]] que estabelece a possibilidade do símbolo. O inteligível, ou de preferência, a esse nível, seria necessário dizer o concebível, não existe somente nas coisas, mas, também de algum modo, « em si mesmo », graças ao conhecimento humano, o qual se pode dizer, de certa maneira, que atualiza ao estado separado, a modalidade inteligível das coisas. Não se trata somente de « pensar alguma coisa », mas de pensar em alguma coisa, ou sobre alguma coisa. Esta possibilidade do símbolo se realiza essencialmente na linguagem, que não consiste principalmente em exprimir alguma coisa, o que faz o animal, mas, em falar de alguma coisa, o que nenhum animal é capaz [[2. Op. cit., p. 95. Todas as discussões sobre a linguagem animal repousa, seja sobre um mal-entendido, seja sobre o desejo de surpreender os ignorantes.
]]. E, mais que falar de alguma coisa, é falar de alguma coisa que está « ausente » e que, por esta razão, se representa, se vê que o conhecimento mental implica não somente o pensamento conceitual, mas, ainda a memória e a imaginação, função da ausência no tempo e no espaço. Tudo isso, é “animus”.


  1. Cf. R. Ruyer, L’Animal, l’Homme et la Fonction symbolique, Gallimard, 1964. ↩