===== VONTADE ===== (gr. [[lexico:b:boulesis:start|boulesis]]; lat. voluntas; in. Will; fr. Volunté; al. Wille; it. Volonta). [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] foi usado com dois significados fundamentais: 1) como [[lexico:p:principio:start|princípio]] [[lexico:r:racional:start|racional]] da [[lexico:a:acao:start|ação]]; 2) como princípio da ação em [[lexico:g:geral:start|geral]]. Ambos os significados, porém, pertencem à [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] tradicional e à [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] oitocentista, porque ligados à [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]], ou poderes originários da [[lexico:a:alma:start|alma]] que se combinaram para produzir as manifestações do [[lexico:h:homem:start|homem]] (v. faculdade). Mas hoje nem a filosofia nem a psicologia interpretam desse [[lexico:m:modo:start|modo]] a [[lexico:c:conduta:start|conduta]] do homem. As noções de [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] e de [[lexico:f:forma:start|forma]], [[lexico:b:bem:start|Bem]] como a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] funcionalista da psicologia, [[lexico:n:nao:start|não]] permitem [[lexico:f:falar:start|falar]] de "[[lexico:p:principios:start|princípios]]" da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] humana e, portanto, a [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] intelecto-vontade ou intelecto-sentimento-vontade perderam o [[lexico:s:significado:start|significado]] literal. Às vezes, o termo vontade é conservado, mas unicamente para indicar determinados tipos de conduta ou certos aspectos da conduta. É nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]] que devem [[lexico:s:ser:start|ser]] entendidas as referenciais à psicologia contemporânea contidas neste verbete. 1) O primeiro significado é o da filosofia clássica: para ela, a vontade é [[lexico:a:apetite:start|apetite]] racional ou compatível com a [[lexico:r:razao:start|razão]], distinto do [[lexico:a:apetite-sensivel:start|apetite sensível]], que é o [[lexico:d:desejo:start|desejo]]. A [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre estas duas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] está em [[lexico:p:platao:start|Platão]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] retores e tiranos não fazem o que querem, embora façam o que lhes agrada ou parece, visto que fazer o que se quer significa fazer o que se mostra [[lexico:b:bom:start|Bom]] ou [[lexico:u:util:start|útil]]. e isso é agir racionalmente ([[lexico:g:gorg:start|Górg]]., 466 ss.). [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] definiu a vontade como "[[lexico:a:apeticao:start|apetição]] que se move de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] racional" (Dean., III, 10, 433 a 23); o termo voluntário é usado por Aristóteles para definir a [[lexico:e:escolha:start|escolha]], que seria "a apetição voluntária das coisas que dependem de nós" (Et. Nic, III, 3, 1113 a 10). Os estoicos concordaram com esse [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de vontade, por eles definida como "apetição racional" (Dióg. L., VII, 116). Cícero referia-se a essas doutrinas afirmando que "a vontade é um desejo compatível com a razão, enquanto o desejo oposto à razão, ou demasiado violento para ela, é a libidinagem ou a cupidez desenfreada que se encontra em todos os insensatos" (Tusc, IV, 6, 12). Esta concepção prevalece durante toda a Idade Média e é repetida por [[lexico:a:alberto-magno:start|Alberto Magno]] (S. Th., I, q. 7, a. 2), [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] ([[lexico:s:suma-teologica:start|Suma Teológica]], I, q. 80, a. 2), Duns Scot ([[lexico:r:republica:start|República]] Par., III, d. 17, q. 2, n. 3; Op. Ox., III, d. 33, q. 1, n. 9) e Ockham (In Sent., IV, 9, 14 G). Todas são repetições liberais do conceito tradicional de vontade como apetite racional. Menos liberal é a [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] desse conceito em [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]], que entende por vontade "a faculdade de afirmar ou de negar, e não o desejo.- faculdade graças à qual a [[lexico:m:mente:start|mente]] afirma ou nega o que é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] ou o que é [[lexico:f:falso:start|falso]], e não desejo com que a mente deseja ou repele as coisas" (Et., II, 48, scol.). Entretanto, ainda literal é a repetição desse conceito por [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] (chama-se "vontade o apetite racional que nasce da [[lexico:r:representacao:start|representação]] distinta do bem", Psicol. empírica, § 880) e pelo [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:k:kant:start|Kant]], que entende por vontade a [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]], isto é, a "faculdade de agir segundo a representação de regras" (Grundlegung der Metaphysik der Sitten, II). [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] não pensava em [[lexico:n:nada:start|nada]] muito diferente ao afirmar que a vontade é a faculdade "de efetuar com [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] a passagem da [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]] para a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]]": faculdade que a razão teórica obriga a [[lexico:p:pensar:start|pensar]] que existe (Sittenlehre, § 14). Em sentido [[lexico:a:analogo:start|análogo]], [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] afirma que a vontade é [[lexico:u:universal:start|universal]], "no sentido de universal como ‘[[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]]’" (Fil. do dir., § 24). A distinção de [[lexico:c:croce:start|Croce]] entre a forma [[lexico:e:economica:start|econômica]], utilitária, e a forma [[lexico:e:etica:start|ética]] ou [[lexico:m:moral:start|moral]] da atividade prática corresponde à distinção tradicional entre desejo e vontade. Segundo Croce, a forma econômica seria volição do [[lexico:p:particular:start|particular]], ou seja, do útil; a forma moral seria volição do universal, ou seja, apetição racional (Filosofia della pratica, 1909, pp. 217 ss.). Na noção de vontade como apetite racional também pode ser integrada a tendência da psicologia [[lexico:m:moderna:start|moderna]] a fazer distinção entre vontade e [[lexico:i:impulso:start|impulso]] e a considerar a vontade condicionada por uma manipulação de [[lexico:s:simbolos:start|símbolos]]. G. Murphy, p. ex., diz: "vontade é o [[lexico:n:nome:start|nome]] com o qual se designa um [[lexico:c:complexo:start|complexo]] [[lexico:p:processo:start|processo]] interior que influencia nosso comportamento de tal modo que nos toma presa menos fácil da pura [[lexico:f:forca:start|força]] bruta dos impulsos. Falamos com nós mesmos, introduzimos modos diferentes de expressar nossa [[lexico:s:situacao:start|situação]], imaginamos as consequências dos vários tipos de resposta e procuramos avaliar quanto cada um deles nos agradará" (Introduction to Psychology, 1950, cap. IX, trad. it., p. 163). O que a psicologia moderna chama de "elaboração de símbolos" é o mesmo que na [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] tradicional se chamava "processo racional". Finalmente, a mesma noção de vontade está implícita nas expressões vontade pura, [[lexico:b:boa-vontade:start|boa vontade]], vontade geral, vontade de crer. Segundo Kant, vontade pura é a vontade determinada apenas por princípios [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], por leis racionais, e não por [[lexico:m:motivos:start|motivos]] empíricos particulares (Grundlegung der Met, der Sitten, pref.). Boa vontade, também segundo Kant, é a vontade de comportar-se exclusivamente de acordo com o [[lexico:d:dever:start|dever]]; desse modo, é exaltada por Kant como o que existe de melhor no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] ou também fora do mundo (Ibid., I). vontade geral é concebida pelos iluministas como a própria razão. [[lexico:d:diderot:start|Diderot]] diz: "A vontade geral é em cada [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] um [[lexico:a:ato-puro:start|ato puro]] do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] que raciocina no [[lexico:s:silencio:start|silêncio]] das paixões sobre o que o homem pode exigir de seu [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] e sobre o que o seu semelhante tem [[lexico:d:direito:start|direito]] de exigir dele" (Ari droit naturel, na Encyclopédie, V, p. 116). [[lexico:r:rousseau:start|Rousseau]] fazia a distinção entre "vontade de todos", que pode errar, e vontade geral, que nunca erra porque só tem em mira o [[lexico:i:interesse:start|interesse]] comum (Contraí [[lexico:s:social:start|social]], II, 3). Finalmente, a vontade de crer, de que [[lexico:f:fala:start|fala]] [[lexico:j:james:start|James]], nada mais é que a racionalidade da [[lexico:f:fe:start|fé]], o direito de crer no que não é [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]], no que torna a [[lexico:v:vida:start|vida]] mais aceitável e, às vezes, é posto em ser pela própria fé (The Will to Believe, 1897). 2) Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, a vontade às vezes foi identificada com o princípio da ação em geral, ou seja, com a apetição. O primeiro a expor esse conceito generalizado da vontade foi S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], segundo quem "a vontade está em todos os atos dos homens; aliás, todos os atos nada mais são que vontade" (De civ. Dei, XIV, 6). S. Anselmo repetia essa noção (Libero arbítrio, 14, 19), que na idade moderna foi aceita por [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]. Este, assim como S. Agostinho, chamou de vontade todas as [[lexico:a:acoes:start|ações]] da alma, em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] às paixões: "O que chamo de ações são todas as nossas vontade, porque sentimos que elas vêm diretamente do nosso [[lexico:e:espirito:start|espírito]], e parece que dependem só dele, enquanto as afeições são todas as percepções ou conhecimentos que se encontram em nós mas não foram produzidos por nossa alma, que, portanto, os recebeu das coisas representadas" (Pass. de l’âme, I, 17). [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]] faz uma [[lexico:c:critica:start|crítica]] explícita à noção tradicional: "Não é boa a [[lexico:d:definicao:start|definição]] de vontade como apetite racional, comumente proferida pelas escolas. Pois se fosse, não poderiam [[lexico:e:existir:start|existir]] atos voluntários contrários à razão. (...) Mas se, em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de apetite racional, dissermos apetite resultante de [[lexico:d:deliberacao:start|deliberação]] anterior, então a vontade será o [[lexico:u:ultimo:start|último]] apetite a deliberar" (Leviath., I, 6). O último apetite é o mais [[lexico:p:proximo:start|próximo]] da ação, ao qual a ação se segue. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, a vontade humana não é diferente da apetição [[lexico:a:animal:start|animal]] (De corp., 25, § 13). De modo análogo, [[lexico:l:locke:start|Locke]] definia a vontade como "o poder de começar ou não começar, continuar ou interromper certas ações do nosso espírito, ou certos movimentos do nosso [[lexico:c:corpo:start|corpo]], simplesmente com um [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] ou com a preferência do próprio espírito" (Ensaio, II, 21, 5). E [[lexico:h:hume:start|Hume]] declarava: "Por vontade não entendo outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] senão a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] interior que sentimos ou de que somos cônscios, quando conscientemente damos [[lexico:o:origem:start|origem]] a um novo [[lexico:m:movimento:start|movimento]] do nosso corpo ou a uma nova [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] do nosso espírito" (Treatise, II, III, I). Hume negava também qualquer [[lexico:i:influencia:start|influência]] da razão sobre a vontade assim entendida, reduzindo as chamadas volições racionais às emoções tranquilas, ligadas a instintos originários da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] (como [[lexico:b:benevolencia:start|benevolência]] e [[lexico:r:ressentimento:start|ressentimento]], [[lexico:a:amor:start|amor]] pela vida, gentileza para a criança) ou ao apetite geral pelo bem e a aversão ao [[lexico:m:mal:start|mal]] (Ibid., II, III, 3). Muito semelhante a esta é a definição de [[lexico:c:condillac:start|Condillac]]: "Por vontade se entende um desejo [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do qual pensamos que a coisa desejada está em nosso poder" (Traité des sensations, I, 3, 9). Concepções muito semelhantes encontram-se frequentemente nos iluministas e nos ideólogos do séc. XVIII e do início do séc. XIX. [[lexico:m:mach:start|Mach]] retomava essa concepção (Populärwissenschaftlische Vorlesungen, 1896, p. 72), e [[lexico:d:dewey:start|Dewey]] repetia quase literalmente a definição de Hobbes ao dizer: "A vontade não é algo oposto às consequências ou separado delas. É a [[lexico:c:causa:start|causa]] das consequências; é a causação em seu [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]]; o aspecto que precede imediatamente a ação" (Human Nature and Conduct, p. 44). À mesma tendência geral pertence a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da vontade como modo de ser do cuidado, segundo [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], sendo o cuidado a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] fundamental da [[lexico:e:existencia:start|existência]] do homem no mundo, que consiste propriamente em preocupar-se com as coisas e cuidar dos outros (Sein und Zeit, § 41). Por outro lado, certas interpretações da psicologia contemporânea podem ser enquadradas na mesma tendência geral: é o que acontece com a famosa interpretação de McDougall, segundo a qual a volição seria "o apoio ou o reforço que um desejo ou uma conação recebe da cooperação de um impulso excitado no [[lexico:s:sistema:start|sistema]] dos sentimentos de autoconsideração" (Introduction to Social Psycology, 1908). Segundo essas interpretações, de [[lexico:f:fato:start|fato]], seriam atos voluntários aqueles nos quais o impulso determinante é constituído por uma [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ou de exaltação do [[lexico:e:eu:start|eu]] diante de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. Finalmente, nas expressões [[lexico:v:vontade-de-viver:start|vontade de viver]] e vontade de [[lexico:p:potencia:start|potência]], a vontade é entendida no sentido mais geral. A vontade de [[lexico:v:viver:start|viver]] que, segundo [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]], é o [[lexico:n:numero:start|número]] do mundo, nada tem de racional: "é um ímpeto cego, irresistível, que já vemos [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] na [[lexico:n:natureza:start|natureza]] inorgânica e [[lexico:v:vegetal:start|vegetal]], assim como também na [[lexico:p:parte:start|parte]] vegetativa de nossa própria vida". Portanto, "o que a v. sempre quer é a vida, justamente porque esta é apenas o manifestar-se da vontade na representação, e é [[lexico:s:simples:start|simples]] pleonasmo dizer vontade de viver era vez de vontade" (Die Welt, I, § 54). Analogamente, [[lexico:v:vontade-de-poder:start|Vontade de Poder]] é, segundo [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], um impulso fundamental que nada tem de causação racional: "A vida, como caso particular, aspira ao máximo [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] de poder [[lexico:p:possivel:start|possível]]. Aspirar a outra coisa não é senão aspirar ao poder. Essa vontade é sempre o que há de mais íntimo e [[lexico:p:profundo:start|profundo]]: a [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] é uma simples [[lexico:s:semiotica:start|semiótica]] das consequências (Wille zur Macht, ed., 1901, § 296). A atividade refletida e [[lexico:c:consciente:start|consciente]]. — Segundo o [[lexico:e:esquema:start|esquema]] [[lexico:c:classico:start|clássico]], a vontade implica: 1.° numa [[lexico:e:evocacao:start|evocação]] dos motivos; 2.° numa deliberação; 3.° numa [[lexico:d:decisao:start|decisão]]; 4.° numa execução. O [[lexico:a:ato:start|ato]] voluntário não é a manifestação espontânea de um desejo; supõe uma [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] e a tomada de suas responsabilidades: devido a isso, a vontade não corresponde apenas ao desejo mais forte (Herbert) e sim resulta da reflexão, da ação racional ([[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]). W. James demonstrou que a vontade está ligada em geral à consciência de uma exigência social (é o dever social que nos dá, de manhã, a vontade para sairmos do leito; é mais fácil partir para o combate que deixar de fumar, pois no primeiro caso existe exigência social, enquanto que, no segundo, há apenas um simples dever que se quer impor a si mesmo etc.) [[lexico:r:ribot:start|Ribot]] distingue duas espécies de perturbações da vontade: por excesso de impulso ([[lexico:a:arrebatamento:start|arrebatamento]] passageiro) e por [[lexico:f:falta:start|falta]] de inibição (incapacidade de resistir aos desejos: ex. alcoólatras e toxicômanos). Aquele a que falta vontade denomina-se abúlico. A vontade se define essencialmente pela flexibilidade e pela continuidade de ação: em seu pleno sentido, a vontade implica no [[lexico:e:engajamento:start|engajamento]] total do indivíduo e na [[lexico:a:arte:start|arte]] de seguir os desvios para chegar aos fins. (V. abúlico.) Conhecer e querer são dois modos fundamentais da atividade espiritual. Assim como a ação não é necessariamente [[lexico:m:mutacao:start|mutação]], nem o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] intelectual é necessariamente pensamento [[lexico:d:discursivo:start|discursivo]], assim a vontade não denota necessariamente tendência a um bem que se deva adquirir ou realizar. Seu ato fundamental é a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de um [[lexico:v:valor:start|valor]], ou seja, o amor. Por isso, é também vontade a efetuação espiritual, não tendencial, do valor [[lexico:i:infinito:start|infinito]] (vontade de [[lexico:d:deus:start|Deus]]). A vontade em geral tem como [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:c:caracteristico:start|característico]] o valor em geral ou o bem como tal. A vontade aparece como apetite só onde o bem não se identifica com a vontade ou onde não está originariamente ligado a ela. Por isso, a vontade humana pode ser designada como a faculdade espiritual, que o homem possui de afirmar os valores intelectualmente conhecidos ou de tender para eles. Seu objeto característico é o da vontade em geral: o ser como valor, mas apresentado segundo o modo peculiar do conhecimento e do [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] humanos. Enquanto o apetite sensitivo (tendência) se restringe ao estreito domínio de [[lexico:b:bens:start|bens]] sensivelmente aceitáveis, a vontade tem um domínio [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] [[lexico:i:ilimitado:start|ilimitado]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], pode dirigir-se somente àquilo que de algum modo aparece como bom, mas também a tudo quanto possua esta [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]]; ora isto é o que constitui o domínio ilimitado do [[lexico:e:ente:start|ente]] em geral, porque [[lexico:t:todo:start|todo]] ser é, de algum modo, valioso. Como causa final que atua por [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] do conhecimento intelectual, a [[lexico:b:bondade:start|bondade]] atrativa do objeto é, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], [[lexico:m:motivo:start|motivo]] de vontade. O querer está, assim, arreigado imediatamente no motivo conhecido, mas mediatamente em tudo o que, por parte das diversas disposições e "camadas" da alma, coopera para a [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] dos juízos do valor. Quer dizer que para o complexo da [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] valorativa contribuem igualmente todos os estados afetivos psíquicos, como a [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] de ânimo, o [[lexico:t:temperamento:start|temperamento]], as bases sensoriais do pensamento, o [[lexico:c:carater:start|caráter]], o [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] e a profusão de complexos inconscientes. Pela vivência valorativa são provocados os primeiros movimentos da vontade, os quais, por sua parte, podem repercutir-se sobre a ulterior configuração da vivência motivai. Todavia, dentro de certos limites, a [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] última da vontade continua sendo, nas lutas suscitadas pelos motivos, dentro de certos limites, um ato voluntário livre ([[lexico:l:liberdade-da-vontade:start|liberdade da vontade]]). O objeto do querer, que por sua bondade deve ser pretendido, tem de [[lexico:e:estar:start|estar]] sintonizado até certo ponto com a [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] apetente. Quando se trata de uma efetivação séria de fins da vontade, o objeto não pode aparecer ao sujeito como irrealizável em tal [[lexico:m:momento:start|momento]] e lugar, porque a vontade não pode querer seriamente o [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] nem, em geral, o mal pelo mal. — À base de inumeráveis experiências, distinguimos um querer enérgico e outro fraco. Não obstante, discute-se se a "vontade" (como faculdade particular) é intrinsecamente, ontologicamente, forte ou fraca e se, pelo "exercício", se pode consolidar. Boas razões militam em favor de que o sentido dos chamados exercícios da vontade não consiste num acréscimo intrínseco-ontológico da força de vontade, mas sim na [[lexico:c:criacao:start|criação]] de uma constelação psíquica total de complexos, na qual determinados valores objetivos são vividos com maior facilidade subjetivamente como valores superiores, ao querer correspondente se contrapõem menos obstáculos interiores psíquicos, e hábitos favoráveis facilitam mais que o querer se imponha no conjunto da alma (cf. a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da vontade de Lindworsky). — A vontade, como potência apetitiva espiritual, brota do conhecimento intelectual e abarca fins intelectualmente apreendidos. Pelo que, não se pode falar, em rigor de [[lexico:e:expressao:start|expressão]], de querer [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] como de mero impulso surdo ([[lexico:c:como-se:start|como se]] fala de tendências naturais sensitivas), a não ser que se equipare a vontade ao apetite. [[lexico:v:ver:start|ver]] o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] último de toda a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] do [[lexico:u:universo:start|universo]] num querer inconsciente (filosofia do inconsciente, Schopenhauer, Ed. v. [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]]) contradiz o [[lexico:p:principio-de-razao-suficiente:start|princípio de razão suficiente]], porque o [[lexico:s:superior:start|superior]] (a vontade espiritual) não pode [[lexico:t:ter:start|ter]] seu fundamento no inferior (o apetite inconsciente). — Willwoll. É compreendida principalmente em três sentidos: 1. Psicologicamente, como um conjunto de fenômenos psíquicos ou também como uma faculdade cujo caráter [[lexico:e:essencial:start|essencial]] se encontra na tendência. 2. eticamente, como uma atitude ou disposição moral para querer algo. 3. Metafisicamente, como uma [[lexico:e:entidade:start|entidade]] à qual se atribui absoluta [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]] e se converte por isso em [[lexico:s:substrato:start|substrato]] de todos os fenômenos. Estas três [[lexico:s:significacoes:start|significações]] da vontade caraterizam as diferentes acepções do [[lexico:v:voluntarismo:start|voluntarismo]], mas junto com a distinção, necessária em toda a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] filosófica, deve reconhecer-se que em quase todas as doutrinas voluntaristas se proclama o domínio da vontade nas três esferas e se passa insensivelmente da psicológica à [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] ou, pelo menos, à ética. Muito corrente foi no passado confundir a vontade com certos tipos de sentimento, qualificados de ativos em oposição aos sentimentos passivos. No entanto, o resultado de todas as investigações parece conduzir ao [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do caráter originário da vontade, sem que isso signifique a vontade tenha de ser considerada como algo [[lexico:i:inefavel:start|inefável]], pois é susceptível, pelo menos, de uma [[lexico:d:descricao:start|descrição]]. Esta descrição permite não só averiguar a natureza da vontade, mas também os seus graus e formas, bem como os atos psíquicos que se encontram intimamente vinculados com ela. No [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] volitivo concorrem, portanto, numerosos fenômenos psíquicos de vários tipos. Entre estes destacou-se sempre o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] intelectual. Por isso se tem tentado com frequência [[lexico:c:compreender:start|compreender]] as diferentes teoria psicológicas acerca da vontade de acordo com o maior ou menor predomínio citado elemento, desde os que o fazem depender da consciência plena do representado e do [[lexico:j:juizo:start|juízo]] da conveniência ou inconveniência de entender ao [[lexico:f:fim:start|fim]] a que a representação propõe, até aos que reduzem a um mínimo estes [[lexico:e:elementos:start|elementos]]. Geralmente considera-se que em todo o fenômeno da vontade há uma prévia representação, ou melhor dizendo, um conhecimento, uma [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]], uma decisão, uma resolução e uma ação. Entrelaçados com estes elementos encontram-se os chamados motivos da vontade, que são concebido às vezes como o que faz com que a vontade se ponha em marcha e q noutras vezes são concebidos como um mero incentivo do momento da resolução ou da ação. A [[lexico:h:historia:start|história]] do conceito de vontade desenvolve-se na linha da [[lexico:d:discussao:start|discussão]] em torno do predomínio da vontade sobre o conjunto dos fenômenos psíquicos e em torno da sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o intelecto. A relação entre vontade e desejo foi já tratada a fundo dentro da filosofia antiga, especialmente em Platão e Aristóteles. O primeiro advertia que enquanto o desejo pertence à [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], a vontade pertence, em contrapartida, à ordem do intelecto. Quanto a Aristóteles, assinalava explicitamente que embora desejo e vontade sejam, por igual, motores, a vontade é de índole racional. Desde então a racionalidade da vontade quase nunca foi desmentida... Isto não significa que deixasse de acentuar-se o caráter motor dos atos volitivos e ainda o fato de, como precisou [[lexico:s:santo:start|santo]] Agostinho, a vontade ser capaz de intervir em todas as funções anímica.. Com o que a vontade pôde converter-se numa [[lexico:e:especie:start|espécie]] de motor ou movimento de potências, e portanto, num princípio que podia inclusivamente aplicar-se a todas as espécies de apetites, tanto os naturais como os racionais... S. Tomás precisa, em primeiro lugar, que a vontade não está submetida em nenhum dos seus atos à [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] (e isto até ao ponto de vontade e livre arbítrio não serem potências diferentes, mas uma só potência). Em segundo lugar, a vontade não quer necessariamente tudo o que quer. Em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, embora pareça que, sendo o Bem o objeto [[lexico:f:formal:start|formal]] da vontade, esta terá de ser a mais elevada das potências, o objeto do intelecto é mais nobre que o da vontade, pelo que o intelecto será a potência mais elevada. Em quarto lugar, o intelecto move a vontade, mas como fim. O que não significa, certamente, que a vontade esteja no seu próprio atuar eternamente subordinada ao intelecto; na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], se o intelecto move a vontade quanto à [[lexico:e:especificacao:start|especificação]], a vontade move o intelecto quanto ao ato do seu exercício.. Para Duns Escoto, em contrapartida, a vontade é um verdadeiro motor, quer dizer impulsiona e dirige o movimento em todo o [[lexico:r:reino:start|reino]] das [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]]. E quando esta vontade é divina, pode ser considerada como a primeira causa do ser, diferentemente da causa parcial que define o intelecto. O conceito de Deus, tal como foi desenvolvido por Duns Escoto, por Ocam e por Descartes, sublinha, por outro lado., até ao máximo este [[lexico:c:caracter:start|carácter]] direto e não o apenas motor da vontade. A determinação do intelecto pela vontade, o [[lexico:p:primado:start|primado]] desta, parecem, portanto, cumprir-se, segundo Duns Escoto, em todas as esferas do ente. É usual chamar a esta [[lexico:p:posicao:start|posição]] voluntarismo e à de S. Tomás [[lexico:i:intelectualismo:start|intelectualismo]]... O [[lexico:p:problema:start|problema]] da relação entre vontade e [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] não tem sido apenas uma [[lexico:q:questao:start|questão]] teológica ou psicológica; tem sido também, e às vezes de um modo muito eminente, uma questão ética. Esta questão apresentou-se com toda a clareza desde tempos muito remotos, mas acentuou-se a partir do momento em que se perguntou de que modo se fundamenta o Bem em Deus. Também aqui se contrapuseram as opiniões de S. Tomás e Duns Escoto. Enquanto para S. Tomás Deus quer o bom, para Duns escoto, o bom é bom porque Deus o quer. A omnipotência de Deus faz, de acordo com Duns Escoto, que não haja para o ser supremo nenhum [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] à sua vontade infinita, nem sequer o obstáculo da [[lexico:i:ideia:start|ideia]], que não é mais que causa ocasional para a vontade humana e que não pode [[lexico:r:representar:start|representar]] nenhuma [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] para a divina, pois esta é, por assim dizer, o absoluto ser que se move e decide absolutamente [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo. O próprio [[lexico:p:problema-de-deus:start|problema de Deus]] é o que faz destacar até ao máximo todas as implicações do problema da vontade e do voluntarismo. Este foi um dos temas capitais da [[lexico:e:epoca:start|época]] moderna, pelo menos na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que alguns dos representantes capitais da sua filosofia - como Descartes, Kant ou Fichte - sustentaram, explícita ou implicitamente, um voluntarismo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}