===== VIVER ===== O que, portanto, significa on existe [existe-se, em francês]? A [[lexico:e:existencia:start|existência]] — [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:c:conceito:start|conceito]], fundamental em todos os sentidos, da [[lexico:f:filosofia-primeira:start|filosofia primeira]] do Ocidente — talvez tenha a [[lexico:v:ver:start|ver]] constitutivamente com a [[lexico:v:vida:start|vida]]. “[[lexico:s:ser:start|ser]]”, escreve [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], “para os seres vivos, significa viver”. Séculos depois, [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]] esclarece: “Ser: [[lexico:n:nao:start|não]] temos outra [[lexico:r:representacao:start|representação]] dele senão viver”. Trazer à [[lexico:l:luz:start|luz]]—fora de qualquer [[lexico:v:vitalismo:start|vitalismo]] — o íntimo entrelaçamento entre ser e viver, essa é certamente hoje a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] (e da [[lexico:p:politica:start|política]]). 6. A [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] do [[lexico:e:espetaculo:start|espetáculo]] começa com a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] “vida” (“Toute la vie des sociétés dans lesquelles règnent les conditions modernes de production s’annonce comme une immense accumulation de spectacles ”), e até o final a [[lexico:a:analise:start|análise]] do livro não para de colocar em [[lexico:q:questao:start|questão]] a vida. O espetáculo, no qual “o que era diretamente [[lexico:v:vivido:start|vivido]] se afasta numa representação”, é definido como “inversão concreta da vida”. “Quanto mais a vida do [[lexico:h:homem:start|homem]] se torna seu [[lexico:p:produto:start|produto]], tanto mais ele é separado da sua vida” (n. 33). A vida nas condições espetaculares é uma “falsa vida” (n. 48), uma “[[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]]” (n. 154) ou, ainda, um “pseudo [[lexico:u:uso:start|uso]] da vida” (n. 49). Contra essa vida alienada e separada, defende-se algo que Guy chama de “vida histórica” (n. 139), que já no [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]] aparece como “alegre [[lexico:r:ruptura:start|ruptura]] com a [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]]”: “Na vida exuberante das cidades italianas... a vida é conhecida como um gozo da passagem do [[lexico:t:tempo:start|tempo]]”. Anos antes, em Sur le passage de quelques personnes e em Critique de la séparation, Guy já dissera de si e de seus companheiros que “queriam reinventar tudo a cada dia, tornar-se patrões e possessores da própria vida” (p. 22), que os encontros entre eles eram uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de “sinais provenientes de uma vida mais intensa, que não foi realmente encontrada” (p. 47). O que seria essa vida “mais intensa”, o que viria a ser invertido ou falsificado no espetáculo ou apenas o que se devia entender por “vida da sociedade” não fica esclarecido em [[lexico:m:momento:start|momento]] nenhum; contudo, seria fácil demais acusar o autor de incoerência ou imprecisão terminológica. No caso, Guy [[lexico:n:nada:start|nada]] mais faz do que repetir uma [[lexico:a:atitude:start|atitude]] constante em nossa [[lexico:c:cultura:start|cultura]], em que a vida nunca é definida como tal, mas é todas as vezes articulada e dividida em bios e [[lexico:z:zoe:start|zoe]], vida politicamente qualificada e vida nua, vida pública e vida privada, [[lexico:v:vida-vegetativa:start|vida vegetativa]] e vida de [[lexico:r:relacao:start|relação]], de maneira que cada uma das partições seja determinável apenas na relação com as outras. Talvez em última análise seja justamente a indecidibilidade da vida que faz que ela todas as vezes deva ser política e singularmente decidida. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, a indecisão de Guy entre a clandestinidade de sua vida privada — que, com o passar do tempo, devia aparecer-lhe cada vez mais fugaz e não documentável — e a vida histórica, entre sua biografia individual e a [[lexico:e:epoca:start|época]] obscura e irrenunciável em que ela se inscreve, mostra uma dificuldade que, pelo menos nas condições presentes, ninguém pode iludir-se de [[lexico:t:ter:start|ter]] resolvido de uma vez por todas. Em [[lexico:t:todo:start|todo]] caso, o Graal voluntariosamente procurado, a vida que inutilmente se consome na chama, não era redutível a nenhum dos termos opostos nem à idiotice da vida privada nem ao incerto [[lexico:p:prestigio:start|prestígio]] da vida pública, recolocando em questão, aliás, a própria [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de distingui-las. 7. Ivan Illich observou que a [[lexico:n:nocao:start|noção]] corrente de vida (não “uma vida”, mas “a vida” em [[lexico:g:geral:start|geral]]) é percebida como “[[lexico:f:fato:start|fato]] científico”, que não tem mais relação nenhuma com a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] de cada ser vivo. Ela é algo anônimo e genérico, que pode designar um espermatozóide, uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]], uma abelha, uma célula, um urso ou um embrião. Desse “fato científico”, tão genérico que a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] renunciou a defini-lo, a Igreja fez o [[lexico:u:ultimo:start|último]] receptáculo do [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]], e a bioética o transformou no termo-chave de seu impotente conjunto de tolices. Em todo caso, “vida” tem a ver hoje mais com a sobrevivência do que com a [[lexico:v:vitalidade:start|vitalidade]] ou com a [[lexico:f:forma:start|forma]] de vida do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]]. [Agamben; AgambenUC:15-16] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}