===== VITALISMO ===== (in. Vitalism; fr. Vitalisme; al. Vitalismus; it. Vitalismó). [[lexico:t:termo:start|termo]] oitocentista para indicar qualquer doutrina que considere os fenômenos vitais como irredutíveis aos fenômenos físico-químicos. Essa irredutibilidade pode significar várias [[lexico:c:coisas:start|coisas]], pois vários são os problemas cujas soluções dividem os partidários e os adversários do vitalismo 1) Em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], significa que os fenômenos vitais [[lexico:n:nao:start|não]] podem [[lexico:s:ser:start|ser]] inteiramente explicados com [[lexico:c:causas:start|causas]] mecânicas. 2) Em segundo lugar, significa que um [[lexico:o:organismo:start|organismo]] vivo nunca poderá ser produzido artificialmente pelo [[lexico:h:homem:start|homem]] num laboratório de bioquímica. 3) Em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, significa que a [[lexico:v:vida:start|vida]] sobre a [[lexico:t:terra:start|Terra]], ou, em [[lexico:g:geral:start|geral]], no [[lexico:u:universo:start|universo]], não teve [[lexico:o:origem:start|origem]] [[lexico:n:natural:start|natural]] ou histórica decorrente da organização e do [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da [[lexico:s:substancia:start|substância]] do universo, mas é fruto de um [[lexico:p:plano:start|plano]] providencial ou de uma [[lexico:c:criacao:start|criação]] divina. 1) Segundo o primeiro [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, podem ser chamados de vitalistas todos os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] clássicos que, identificando a vida com a [[lexico:a:alma:start|alma]], excluem-na de qualquer [[lexico:i:influencia:start|influência]] das forças materiais. Em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] mais preciso, vitalismo é a doutrina defendida por filósofos e [[lexico:c:cientistas:start|cientistas]] entre meados do séc. XVIII e meados do séc. XIX, segundo a qual o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] dos fenômenos vitais é uma [[lexico:f:forca:start|força]] vital que não depende de mecanismos físico-químicos. É [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do vitalismo declarar inútil a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] científica dos fenômenos vitais, portanto ela nunca conseguirá [[lexico:a:apreender:start|apreender]] a força que constitui a [[lexico:e:essencia:start|essência]] da vida. O vitalismo nesta [[lexico:f:forma:start|forma]] foi invalidado pelas descobertas da bioquímica, que, a partir de 1828 (data em que foi efetuada a [[lexico:f:fabricacao:start|fabricação]] sintética da ureia), demonstrou a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de produzir [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] orgânicas em laboratório. O neovitalismo, levando em conta essa possibilidade, reconhece a [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] da investigação físico-química dos fenômenos vitais, mas continua admitindo a irredutibilidade desses fenômenos às forças físico-químicas, afirmando que eles são dirigidos por um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] específico que recebe vários nomes (dominante em Reinke, [[lexico:e:entelequia:start|enteléquia]] em Driesch, [[lexico:e:ela-vital:start|elã vital]] em [[lexico:b:bergson:start|Bergson]]). A dificuldade principal desse [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] do vitalismo é a inoportunidade de admitir uma [[lexico:c:causa:start|causa]] desconhecida e inacessível, pouco mais que um [[lexico:n:nome:start|nome]] e, [[lexico:a:alem:start|além]] disso» capaz de tornar insignificante ou descabida a [[lexico:o:observacao:start|observação]] científica dos fenômenos vitais. Uma causa assim, exatamente por fugir à observação, [[lexico:n:nada:start|nada]] explica ao pretender tudo [[lexico:e:explicar:start|explicar]]; é um asilo da [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] ou da [[lexico:r:razao:start|razão]] indolente. 2° Quase todas as formas de vitalismo contemporâneo compartilham, além da [[lexico:t:tese:start|tese]] da irredutibilidade no sentido acima, a [[lexico:p:profecia:start|profecia]] de que é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] produzir vida em laboratório. Obviamente, essa profecia está além de tudo o que a ciência pode afirmar legitimamente. É [[lexico:f:fato:start|fato]] que a investigação bioquímica até hoje não conseguiu produzir sínteses orgânicas que tenham características evidentes de [[lexico:m:materia:start|matéria]] viva, mas que ela não possa chegar a isso não é fato, e sim uma [[lexico:a:assercao:start|asserção]] que só pode [[lexico:e:estar:start|estar]] apoiada num [[lexico:c:conceito:start|conceito]] ultra-científico ou metafísico da vida. Desse ponto de vista, o [[lexico:i:interesse:start|interesse]] da ciência é um [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] metodológico que admite: 1) que os fenômenos vitais tem características próprias, diferentes das características do fenômenos físico-químicos, mas não tão diferentes que criem um [[lexico:a:abismo:start|abismo]] entre ambas as ordens de fenômenos e impossibilitem qualquer passagem de um para [[lexico:o:outro:start|outro]]; 2) que se pode e deve levar adiante a [[lexico:a:analise:start|análise]] científica dos fenômenos vitais, como a única capaz de explicar os fenômenos. [[lexico:e:esse:start|esse]] é o ponto de vista de um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] numeroso de biólogos contemporâneos (cf. a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] G. G. Simpson, The Meaning of Evolution, cap. X). 3) Quanto ao [[lexico:p:problema:start|problema]] da origem da vida na Terra ou, em geral, no universo a antiga [[lexico:c:crenca:start|crença]] na [[lexico:g:geracao:start|geração]] espontânea admitia como fato [[lexico:n:normal:start|normal]], não miraculoso, que a vida se origina da matéria inorgânica. Essa crença já refutada pelas experiências de Francesco Redi (1668) e de Lazzaro Spallanzani (1765), foi definitivamente alijada da ciência por Pasteur (1862). Por outro lado, a [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] da panspermia, que admite a migração de [[lexico:s:sementes:start|sementes]] vitais no universo, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que não constitui uma resposta ao problema da origem da vida, parece ser contraditada pelas condições supostamente existentes nos espaços interestelares, sobretudo pela [[lexico:a:acao:start|ação]] bactericida dos raios ultravioleta. Nessa [[lexico:s:situacao:start|situação]], só existem duas soluções alternativas. Pela primeira, a vida é [[lexico:o:obra:start|obra]] direta ou indireta de [[lexico:d:deus:start|Deus]], de tal forma que sua origem nada tem de natural, mas é fruto de uma criação que ocorreu em [[lexico:d:dado:start|dado]] ponto da [[lexico:h:historia:start|história]] cósmica ou ocorre incessante e continuamente. Esta última é a versão aceita por Bergson (Évolution créatrice, 1907) e retomada por [[lexico:t:teilhard-de-chardin:start|Teilhard de Chardin]] (Le phénomène humain, 1955). A segunda [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] admite a possibilidade de que a vida na Terra tenha uma origem natural ou histórica que se deu a partir de determinada fase da organização da matéria inorgânica. Essa possibilidade pode ser exemplificada com boas razões científicas; isso foi feito, p. ex., por A. I. Oparin (L’origine della vita sula terra, trad. it., 1956). Os últimos avanços da [[lexico:b:biologia:start|biologia]] devidos à [[lexico:g:genetica:start|genética]] e à bioquímica, dão destaque a essa possibilidade, que no entanto só se realizaria se a ciência conseguisse reproduzir vida em laboratório e, assim, determinar as condições que possibilitam efetivamente o seu desenvolvimento a partir da matéria inorgânica. Mas está claro que, se isso acontecesse, toda a [[lexico:d:discussao:start|discussão]] da origem da vida perderia sentido, pois estaria determinada inclusive a data [[lexico:p:provavel:start|provável]] de sua origem em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a história da Terra. A doutrina que explica os fenômenos físico-químicos num organismo a partir de um [[lexico:p:principio-vital:start|princípio vital]] (por ex. o "elã vital" de Bergson). — O vitalismo contrapõe-se tanto ao materialismo, que nega a especificidade e a reduz a fenômenos físicos muito complexos (por ex. o [[lexico:m:marxismo:start|marxismo]] e, no tempo de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], o [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]]), quanto ao [[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]], que explica a vida por uma [[lexico:p:presenca:start|presença]] espiritual em nós: alma ou Deus ([[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], por ex.). O vitalismo é ao mesmo tempo uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] do [[lexico:r:real:start|real]] e uma [[lexico:n:negacao:start|negação]] do mecanismo; é um [[lexico:r:realismo:start|realismo]] na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] específico, que considera a matéria como um caso [[lexico:p:particular:start|particular]] ou um caso [[lexico:l:limite:start|limite]] da vida: uma forma degradada da vida (Bergson), ou a vida em [[lexico:e:estado:start|Estado]] nascente ([[lexico:b:buffon:start|Buffon]]). (V. [[lexico:e:evolucionismo:start|evolucionismo]], vida.) Do latim vita = vida, é a teoria científico-filosófica sobre a [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] interna dos viventes orgânicos, que, em primeiro lugar, vê uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] entre eles e os seres inorgânicos, diferença essa que não permite reduzir uns aos outros, e, em segundo lugar, admite no organismo um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] [[lexico:s:substancial:start|substancial]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] da vida orgânica. A diferença essencial entre [[lexico:o:organico:start|orgânico]] e inorgânico infere-se da [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] entre o [[lexico:v:vivente:start|vivente]] — planta, [[lexico:a:animal:start|animal]], homem — e o não-vivente. Não tomaremos em consideração formas especiais (sensitiva e [[lexico:r:racional:start|racional]]) da vida. De um ponto de vista meramente [[lexico:d:descritivo:start|descritivo]], a mencionada oposição reside nos seguintes [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] essenciais: 1. O organismo é um [[lexico:t:todo:start|todo]] material, internamente individualizado e dotado de uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] total, isto é, os diversos corpos físico-químicos e sistemas de corpos (órgãos) complementam-se para constituir um [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] [[lexico:u:unico:start|único]], e suas funções parciais para darem lugar a efeitos totais: nutrição, [[lexico:a:autoconservacao:start|autoconservação]], [[lexico:r:reproducao:start|reprodução]]. Pelo contrário, todos os sistemas materiais inorgânicos (inclusive os cristais) são uma [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]], que se une para constituir uma coletividade mecanicamente disposta, mas não uma [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]. A [[lexico:f:formacao:start|formação]] e a desagregação nas coletividades inorgânicas podem amiúde repetir-se à [[lexico:v:vontade:start|vontade]] com o mesmo [[lexico:s:sistema:start|sistema]]; o indivíduo orgânico dissolve-se uma só vez com a [[lexico:m:morte:start|morte]], não podendo ser recomposto, a partir das mesmas ou de outras matérias. Todo organismo é irreiterável. — 2. Todo organismo (incluindo os unicelulares) nasce de organismos já existentes, por [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] germinal; também a multiplicação mediante a chamada [[lexico:d:divisao:start|divisão]] dos seres unicelulares é evolução. Os germes (sexuais, assexuais e vegetativos, como bulbos, tubérculos, excrescências) são já organismos inteiros, mas em forma potencial, inacabada. Seu estado [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] obtém-se por um [[lexico:p:processo:start|processo]] evolutivo (evolução) irreiterável para cada indivíduo. A este [[lexico:m:modo:start|modo]] de formação nada há que corresponda no inorgânico; os chamados germes dos cristais são já pequenos cristais acabados e originam-se por mera agregação [[lexico:e:exterior:start|exterior]]. O vitalismo em sentido próprio explica o acontecer autônomo da vida orgânica isto é, não redutível a corpos e forças inorgânicas, por um fator natural igualmente autônomo, por um sujeito substancial e imaterial que recebe os nomes de [[lexico:p:principio:start|princípio]] vital, enteléquia (Driesch), forma essencial ou alma (escolásticos). As teorias que somente admitem forças especiais próprias e exclusivas dos organismos, como a "força vital" dos antigos fisiologistas (Joh. Muller e outros), "[[lexico:d:dominantes:start|dominantes]] "(Reinke), "condições orgânicas sistematizadoras", etc., sem sujeito substancial correspondente, só podem atribuir-se ao vitalismo tomado em sentido lato. — A irredutibilidade da vida orgânica a forças inorgânicas manifesta-se em propriedades opostas reais: de um lado, totalidade interna individual e evolução a partir de germes potenciais; do outro lado, coletividade disposta mecanicamente (maquinalmente) e [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de processo evolutivo. Contudo, para a [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] dos fenômenos vitais é decisivo o [[lexico:e:experimento:start|experimento]] de Driesch e outros, que por sua vez informa sobre a essência peculiar do princípio vital. — Frank. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}