===== VITA CONTEMPLATIVA ===== Com o desaparecimento da antiga cidade-estado — e [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] foi, aparentemente, o [[lexico:u:ultimo|último]] a conhecer pelo menos o que outrora significava [[lexico:s:ser|ser]] um cidadão — a [[lexico:e:expressao|expressão]] [[lexico:v:vita-activa|vita activa]] perdeu o seu [[lexico:s:significado|significado]] especificamente [[lexico:p:politico|político]] e passou a denotar [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:e:engajamento|engajamento]] ativo nas [[lexico:c:coisas|coisas]] deste [[lexico:m:mundo|mundo]]. Convém lembrar que isto [[lexico:n:nao|não]] queria dizer que o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] e o [[lexico:l:labor|labor]] houvessem galgado [[lexico:p:posicao|posição]] mais elevada na [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] das [[lexico:a:atividades|atividades]] humanas e fossem [[lexico:a:agora|agora]] tão dignos quanto a [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:p:politica|política]]. De [[lexico:f:fato|fato]], o oposto era [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]: a [[lexico:a:acao|ação]] passara a ser vista como uma das [[lexico:n:necessidades-da-vida|necessidades da vida]] terrena, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que a [[lexico:c:contemplacao|contemplação]], (o bios theoretikos, traduzido como [[lexico:v:vida-contemplativa|vida contemplativa]]) era o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:m:modo|modo]] de vida realmente livre (v. [[lexico:m:modos-de-vida|modos de vida]]). Contudo, a enorme superioridade da contemplação sobre qualquer [[lexico:o:outro|outro]] tipo de [[lexico:a:atividade|atividade]], inclusive a ação, não é de [[lexico:o:origem|origem]] cristã. Encontramo-la na [[lexico:f:filosofia-politica|filosofia política]] de [[lexico:p:platao|Platão]], onde toda a reorganização utópica da vida na [[lexico:p:polis|polis]] é não apenas dirigida pelo [[lexico:s:superior|superior]] [[lexico:d:discernimento|discernimento]] do [[lexico:f:filosofo|filósofo]], mas não tem outra [[lexico:f:finalidade|finalidade]] senão tornar [[lexico:p:possivel|possível]] o modo de vida filosófico. O [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:e:enunciado|enunciado]] aristotélico dos diferentes modos de vida, em cuja [[lexico:o:ordem|ordem]] a vida de [[lexico:p:prazer|prazer]] tem papel secundário, inspira-se claramente no [[lexico:i:ideal|ideal]] da contemplação ([[lexico:t:theoria|theoria]]). À antiga [[lexico:l:liberdade|liberdade]] em [[lexico:r:relacao|relação]] às necessidades da vida e à compulsão alheia, os filósofos acrescentaram a liberdade e a cessação de toda atividade política ([[lexico:s:skhole|skhole]]), de sorte que a posterior pretensão dos cristãos — de serem livres de envolvimento em assuntos mundanos, livres de todas as coisas terrenas — foi precedida pela apolitia filosófica da última fase da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], e dela se originou. O que até então havia sido exigido somente por alguns poucos era agdra visto como [[lexico:d:direito|direito]] de todos. Tradicionalmente, e até o início da era [[lexico:m:moderna|moderna]], a expressão vita activa jamais perdeu sua [[lexico:c:conotacao|conotação]] negativa de «in-quietude», nec-otium, a-skholia. Como tal, permaneceu intimamente ligada à [[lexico:d:distincao|distinção]] grega, ainda mais fundamental, entre as coisas que são [[lexico:p:por-si|por si]] o que são e as coisas que devem ao [[lexico:h:homem|homem]] a sua [[lexico:e:existencia|existência]], entre as coisas que são physei e as coisas que são nomo. O [[lexico:p:primado|primado]] da contemplação sobre a atividade baseia-se na [[lexico:c:conviccao|convicção]] de que nenhum trabalho de [[lexico:m:maos|mãos]] humanas pode igualar em [[lexico:b:beleza|beleza]] e [[lexico:v:verdade|verdade]] o [[lexico:k:kosmos|kosmos]] [[lexico:f:fisico|físico]], que revolve em torno de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], em imutável [[lexico:e:eternidade|Eternidade]], sem qualquer interferência ou assistência externa, seja humana ou divina. Esta eternidade só se revela a olhos [[lexico:m:mortais|mortais]] quando todos os movimentos e atividades humanas estão em completo repouso. Comparadas a este [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da [[lexico:q:quietude|quietude]], todas as diferenças e manifestações no âmbito da vita activa desaparecem. Do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude; o que importa é que ela seja perturbada. Tradicionalmente, portanto, a expressão vita activa deriva o seu significado da [[lexico:v:vita-contemplativa|vita contemplativa]]; sua mui limitada [[lexico:d:dignidade|dignidade]] deve-se ao fato de que serve às necessidades e carências da contemplação num [[lexico:c:corpo|corpo]] vivo. O cristianismo, com a sua [[lexico:c:crenca|crença]] num outro mundo cujas alegrias se prenunciam nos deleites da contemplação, conferiu [[lexico:s:sancao|sanção]] religiosa ao rebaixamento da vita activa à sua posição subalterna e secundária; mas a [[lexico:d:determinacao|determinação]] dessa mesma hierarquia coincidiu com a [[lexico:d:descoberta|descoberta]] da contemplação (theoria) como [[lexico:f:faculdade|faculdade]] humana, acentuadamente diversa do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e do [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]], que ocorreu na [[lexico:e:escola|escola]] socrática e que, desde então, vem orientando o pensamento metafísico e político de toda a nossa [[lexico:t:tradicao|tradição]].