===== VITA ACTIVA ===== Com a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] [[lexico:v:vita-activa:start|vita activa]], pretendo designar três [[lexico:a:atividades:start|atividades]] humanas fundamentais: [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]], [[lexico:o:obra:start|obra]] e [[lexico:a:acao:start|ação]]. São fundamentais porque a cada uma delas corresponde uma das condições básicas sob as quais a [[lexico:v:vida:start|vida]] foi dada ao [[lexico:h:homem:start|homem]] na [[lexico:t:terra:start|Terra]]. [...] Todas as três atividades e suas condições correspondentes estão intimamente relacionadas com a [[lexico:c:condicao:start|condição]] mais [[lexico:g:geral:start|geral]] da [[lexico:e:existencia:start|existência]] humana: o nascimento e a [[lexico:m:morte:start|morte]], a natalidade e a mortalidade. O trabalho assegura [[lexico:n:nao:start|não]] apenas a [[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]] do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], mas a vida da [[lexico:e:especie:start|espécie]]. A obra e seu [[lexico:p:produto:start|produto]], o [[lexico:a:artefato:start|artefato]] [[lexico:h:humano:start|humano]], conferem uma [[lexico:m:medida:start|medida]] de [[lexico:p:permanencia:start|permanência]] e [[lexico:d:durabilidade:start|durabilidade]] à futilidade da vida mortal e ao [[lexico:c:carater:start|caráter]] efêmero do [[lexico:t:tempo:start|tempo]] humano. A ação, na medida em que se empenha em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança , ou seja, para a [[lexico:h:historia:start|história]]. O trabalho e a obra, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como a ação, estão também enraizados na natalidade, na medida em que têm a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] de prover e preservar o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] para o constante [[lexico:i:influxo:start|influxo]] de recém-chegados que nascem no mundo como estranhos, [[lexico:a:alem:start|além]] de prevê-los e levá-los em conta. Entretanto, das três atividades, a ação tem a [[lexico:r:relacao:start|relação]] mais estreita com a [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]] da natalidade; o novo [[lexico:c:comeco:start|começo]] inerente ao nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de iniciar algo novo, isto é, de agir. Nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de iniciativa, a todas as atividades humanas é inerente um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] de ação e, portanto, de natalidade. Além disso, como a ação é a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] [[lexico:p:politica:start|política]] por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]], a natalidade, e não a mortalidade, pode [[lexico:s:ser:start|ser]] a [[lexico:c:categoria:start|categoria]] central do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:p:politico:start|político]], em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] ao pensamento metafísico. [...] O [[lexico:t:termo:start|termo]] vita activa é carregado e sobrecarregado de [[lexico:t:tradicao:start|tradição]]. É tão velho quanto nossa tradição de pensamento político, mas não mais velho que ela. E essa tradição, longe de abranger e conceitualizar todas as experiências políticas da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] ocidental, é produto de uma constelação histórica específica: o [[lexico:j:julgamento:start|julgamento]] de [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] e o conflito entre o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] e a pólis. Ela eliminou muitas experiências de um passado [[lexico:p:proximo:start|próximo]] que eram irrelevantes para suas finalidades políticas e prosseguiu até seu [[lexico:f:fim:start|fim]], na obra de Karl [[lexico:m:marx:start|Marx]], de [[lexico:m:modo:start|modo]] altamente seletivo. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] termo que, na [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]], é a [[lexico:t:traducao:start|tradução]] consagrada do [[lexico:b:bios-politikos:start|bios politikos]] de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], já ocorre em [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], onde, como vita negotiosa ou actuosa, reflete ainda o seu [[lexico:s:significado:start|significado]] original: uma vida dedicada aos assuntos público-políticos. [...] A expressão vita activa, compreendendo todas as atividades humanas e definida do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista da absoluta [[lexico:q:quietude:start|quietude]] da [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]], corresponde, portanto, mais estritamente à askholia grega (“[[lexico:i:inquietude:start|inquietude]]”), com a qual Aristóteles designava toda atividade, que ao bios politikos [[lexico:g:grego:start|grego]]. Já desde Aristóteles, a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre quietude e inquietude, entre uma [[lexico:a:abstencao:start|abstenção]] quase estática de [[lexico:m:movimento:start|movimento]] [[lexico:f:fisico:start|físico]] [[lexico:e:externo:start|externo]] e qualquer [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de atividade, é mais decisiva que a distinção entre os [[lexico:m:modos-de-vida:start|modos de vida]] político e [[lexico:t:teorico:start|teórico]], porque afinal pode ocorrer em qualquer um dos três modos de vida. É como a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre a [[lexico:g:guerra:start|guerra]] e a [[lexico:p:paz:start|paz]]: tal como a guerra ocorre em vista da paz, também [[lexico:t:todo:start|todo]] tipo de atividade, mesmo o [[lexico:p:processo:start|processo]] do mero pensamento, deve culminar na absoluta quietude da contemplação. Todo movimento, os movimentos do [[lexico:c:corpo:start|corpo]] e da [[lexico:a:alma:start|alma]], bem como do [[lexico:d:discurso:start|discurso]] e do [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] devem cessar diante da [[lexico:v:verdade:start|verdade]]. Esta, seja a antiga verdade do Ser ou a verdade cristã do [[lexico:d:deus:start|Deus]] vivo, só pode revelar-se em [[lexico:m:meio:start|meio]] à completa [[lexico:t:tranquilidade:start|tranquilidade]] humana. Tradicionalmente, e até o início da era [[lexico:m:moderna:start|moderna]], a expressão vita activa jamais perdeu sua [[lexico:c:conotacao:start|conotação]] negativa de “in-quietude” nec-otium, a-skholia. Como tal, permaneceu intimamente ligada à distinção grega, ainda mais fundamental, entre as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que são [[lexico:p:por-si:start|por si]] o que são e as coisas que devem ao homem a sua existência, entre as coisas que são physei e as coisas que são nomo. O [[lexico:p:primado:start|primado]] da contemplação sobre a atividade baseia-se na [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] de que nenhuma obra de [[lexico:m:maos:start|mãos]] humanas pode igualar em [[lexico:b:beleza:start|beleza]] e verdade o [[lexico:k:kosmos:start|kosmos]] físico, que revolve em torno de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], em imutável [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]], sem qualquer interferência ou assistência externa, seja humana, seja divina. Essa eternidade só se revela a olhos [[lexico:m:mortais:start|mortais]] quando todos os movimentos e atividades humanas estão em completo repouso. Comparadas a [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:e:estado:start|Estado]] de quietude, todas as diferenças e articulações no âmbito da vita activa desaparecem. Do ponto de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude, mas que ela seja perturbada. Tradicionalmente, portanto, a expressão vita activa recebe seu significado da [[lexico:v:vita-contemplativa:start|vita contemplativa]]; a [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]] que lhe é conferida é muito limitada porque ela serve às necessidades e carências da contemplação em um corpo vivo . O cristianismo, com a sua [[lexico:c:crenca:start|crença]] em um [[lexico:o:outro:start|outro]] mundo cujas alegrias se prenunciam nos deleites da contemplação, conferiu [[lexico:s:sancao:start|sanção]] religiosa ao rebaixamento da vita activa à sua [[lexico:p:posicao:start|posição]] derivada, secundária; mas a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] dessa mesma [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] coincidiu com a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] da contemplação ([[lexico:t:theoria:start|theoria]]) como uma [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] humana, acentuadamente diversa do pensamento e do raciocínio, que ocorreu na [[lexico:e:escola:start|escola]] socrática e que, desde então, dominou o pensamento metafísico e político durante toda a nossa tradição. Para as finalidades deste livro, parece-me desnecessário discutir as razões dessa tradição. Obviamente, são mais profundas que o [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] que engendrou o conflito entre a pólis e o filósofo, e que, com isso, levou também, quase por [[lexico:a:acaso:start|acaso]], à descoberta da contemplação como o modo de vida do filósofo. Essas razões devem residir em um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] inteiramente diferente da condição humana, cuja [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] não é esgotada pelas várias manifestações da vita activa e, podemos presumir, não seria esgotada mesmo se incluíssemos nela o pensamento e o movimento do raciocínio. Portanto, se o [[lexico:u:uso:start|uso]] da expressão vita activa, como aqui o proponho, está em manifesta [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] com a tradição, é que duvido não da [[lexico:v:validade:start|validade]] da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] subjacente à distinção, mas antes da [[lexico:o:ordem:start|ordem]] hierárquica inerente a ela desde o início. Isso não significa que [[lexico:e:eu:start|eu]] deseje contestar ou mesmo discutir o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] tradicional de verdade como [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] e, portanto, como algo essencialmente [[lexico:d:dado:start|dado]] ao homem, ou que prefira a [[lexico:a:assercao:start|asserção]] [[lexico:p:pragmatica:start|pragmática]] da era moderna de que o homem só pode conhecer aquilo que ele mesmo faz. Sustento simplesmente que o enorme [[lexico:v:valor:start|valor]] da contemplação na hierarquia tradicional embaçou as diferenças e articulações no âmbito da própria vita activa e que, a despeito das aparências, essa condição não foi essencialmente alterada pelo [[lexico:m:moderno:start|moderno]] rompimento com a tradição nem pela inversão final da sua ordem hierárquica, em Marx e [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]]. A [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] conceitual permanece mais ou menos intacta, e isso se deve à própria [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do [[lexico:a:ato:start|ato]] de “virar de cabeça para baixo” os sistemas filosóficos ou os valores atualmente aceitos, isto é, à natureza da própria [[lexico:o:operacao:start|operação]]. A inversão moderna tem em comum com a tradicional hierarquia a [[lexico:p:premissa:start|premissa]] de que a mesma [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] humana central deve prevalecer em todas as atividades dos homens, posto que, sem um [[lexico:p:principio:start|princípio]] abrangente [[lexico:u:unico:start|único]], nenhuma ordem poderia ser estabelecida. Tal premissa não é evidente, e meu emprego da expressão vita activa pressupõe que a preocupação subjacente a todas as suas atividades não é a mesma preocupação central da vita contemplativa, como não lhe é [[lexico:s:superior:start|superior]] nem inferior. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}