===== VISÃO DE DEUS ===== É [[lexico:p:possivel:start|possível]] [[lexico:v:ver:start|ver]] a [[lexico:d:deus:start|Deus]]? A [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] humana é, pois, aberta à [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do [[lexico:s:ser:start|ser]]. Segue-se daí que possa [[lexico:t:ter:start|ter]] um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] direto e :[[lexico:m:mediato:start|mediato]] do ser [[lexico:d:divino:start|divino]]? Este, certamente, estando perfeitamente em [[lexico:a:ato:start|ato]], é absolutamente [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. Impõe-se, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado que haja uma certa proporção entre a [[lexico:p:potencia:start|potência]] e seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. E aqui o objeto é evidentemente [[lexico:i:infinito:start|infinito]], enquanto a potência, que pertence à [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do ser criado, é evidentemente limitada (cf. Ia Pa, q. 12, a. 1, obj. 4) "sendo o conhecido a [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] do cognoscente, é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] que haja entre esses dois termos uma certa proporção; ora, [[lexico:n:nao:start|não]] há nenhuma proporção entre o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] criado e Deus, estando ambos separados por uma infinita distância; é portanto [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] que o intelecto criado tenha a [[lexico:v:visao:start|visão]] da [[lexico:e:essencia:start|essência]] divina". Certamente não há nenhuma [[lexico:o:objecao:start|objeção]] de [[lexico:p:principio:start|princípio]] a que uma inteligência limitada obtenha um certo [[lexico:c:conhecimento-da-essencia:start|conhecimento da essência]] do ser divino a partir de seus efeitos criados. Mas o que parece ir [[lexico:a:alem:start|além]] das possibilidades de uma tal inteligência, é ter desta essência uma visão direta e imediata, facial, [[lexico:c:como-se:start|como se]] diz. Em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] contrário está a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] da [[lexico:f:fe:start|fé]] cristã que atesta ser uma tal visão o [[lexico:t:termo:start|termo]] mesmo da [[lexico:v:vida:start|vida]] humana. Assim está colocado o [[lexico:p:problema:start|problema]] da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] da visão da essência divina, problema eminentemente teológico, mas que igualmente interessa ao [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] no que concerne à [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] dos limites naturais da inteligência humana. Pode a [[lexico:r:razao:start|razão]] estabelecer esta possibilidade afirmada pela fé? Tal é a [[lexico:q:questao:start|questão]] que se nos coloca. Doutrina de [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]. O Doutor angélico expôs seu [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] em diversos textos célebres nos quais, para justificar a possibilidade da visão, funda-se na [[lexico:e:existencia:start|existência]] em nós de um [[lexico:d:desejo:start|desejo]] de ver a Deus em sua essência (cf. particularmente: Cont. Gent. IV, c. 25; Comp. Theol., c. 104-105; Ia. IIae q. 3, a. 8; S. Th. Ia Pa, q. 12, a. 1) . Eis o [[lexico:e:esquema:start|esquema]] deste famoso [[lexico:a:argumento:start|argumento]]: - há no [[lexico:h:homem:start|homem]] um desejo [[lexico:n:natural:start|natural]] de conhecer a [[lexico:c:causa:start|causa]] quando descobre um certo [[lexico:e:efeito:start|efeito]], e tendo a inteligência sido feita para ir até à essência das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], este desejo dirige-se até ao conhecimento da essência da causa; - se, portanto, frente aos efeitos criados, captássemos de Deus apenas sua existência, restaria vão o desejo natural que temos de conhecê-Lo como causa. Ora, isto não pode ser admitido: é preciso, pois, que nossa inteligência seja radicalmente capaz da [[lexico:v:visao-de-deus:start|visão de Deus]]. Eis o argumento na formulação mais concisa da Prima Pars (q. 12, a. 1) "Inest enim homini naturale desiderium cognoscendi causam, cum intuetur effecutm; et ex hoc admiratio in hominibus consurgit. Si igitur intellectus rationalis creaturae pertingere non possit ad primam causam rerum, remanebit inane desiderium naturae". Superficialmente considerados, textos como estes levariam a crer que para Tomás de Aquino a visão da essência de Deus não somente é possível para um intelecto criado, mas lhe é conatural, respondendo a uma inclinação positiva de nosso ser. Assim teríamos, segundo nossas próprias possibilidades, o poder de ver a Deus. Uma tal [[lexico:e:exegese:start|exegese]] esbate-se contra dificuldades [[lexico:b:bem:start|Bem]] graves. Além da dificuldade precedente da infinita distância entre a potência e o objeto, encontra as afirmações categóricas da fé: nossa elevação ao [[lexico:s:sobrenatural:start|sobrenatural]] e à visão beatífica é um efeito não da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] mas da [[lexico:g:graca:start|graça]]. Só o intelecto divino é proporcional, de si, ao [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ser subsistente. Assim, poderá Tomás de Aquino concluir em termos aparentemente opostos aos precedentes: (Ia Pa, q. 12, a. 4) "Relinquitur ergo [[lexico:q:quod:start|quod]] congnoscere ipsum [[lexico:e:esse:start|esse]] divinum sit connaturale soli intelectui divino, et quod sit supra facultatem naturalem cujuslibet intellecti creati . . . Non igitur potest intellectus creatus Deum per essentiam videre, nisi in quantum Deus per suam gratiam se intellectui creato conjungit, ut intelligibile ab ipso". Impõe-se, evidentemente, uma melhor colocação do sentido [[lexico:e:exato:start|exato]] do argumento do desejo natural. **A [[lexico:s:significacao:start|significação]] do desejo natural de ver a Deus.** Sobre esta questão cf. A. [[lexico:g:gardeil:start|Gardeil]], La structure de l’âme et l’expérience mystique, t. I, p. 268-348. Para um certo [[lexico:n:numero:start|número]] de teólogos, à frente dos quais é habitualmente colocado Scoto, a visão de Deus seria, de algum [[lexico:m:modo:start|modo]], positivamente exigida pela nossa natureza. Certamente, e como não o reconhecer, visto que os meios para atingir esse [[lexico:f:fim:start|fim]] nos faltam e a graça é necessária. Mas poder-se-ia [[lexico:f:falar:start|falar]] de uma inclinação natural inata, embora ineficaz, ao sobrenatural. Uma tal concepção é certamente estranha a Tomás de Aquino que, falando do desejo natural, nunca entendeu fosse ele uma inclinação de natureza ou um [[lexico:a:apetite:start|apetite]] [[lexico:i:inato:start|inato]]. Um tal apetite [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] das virtualidades efetivas de uma natureza: dizer que se tem um apetite inato da visão da Deus, é pretender que a visão de Deus nos seja conatural. E, por outro lado, relegar a graça à ordem dos meios, enquanto a natureza conservaria a ordem dos fins, é cair na incoerência. Contrariamente ao que acaba de ser sustentado, é preciso reconhecer que o desejo em questão é um desejo elícito, isto é, não uma [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] seguindo-se imediatamente à natureza, mas uma inclinação psicologicamente discernível que se [[lexico:f:forma:start|forma]] no [[lexico:e:espirito:start|espírito]] depois de uma [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] determinada. Assim, no caso precedente, tendo reconhecido que Deus é a causa de todos os seres dos quais tenha [[lexico:p:percepcao:start|percepção]], sinto o desejo de ver esta causa, isto é, Deus, e não somente como causa, mas em sua natureza mesma. É de [[lexico:d:direito:start|direito]] perguntar como pode um tal desejo, que aparece como um [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:f:fato:start|fato]] de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], merecer ainda o qualificativo de natural? Muitas explicações foram dadas. Vamos logo à que nos parece melhor fundada (cf. Structure, p. 291, ss). Consideremos o modo segundo o qual pode-se relacionar nosso desejo com o bem soberano ou a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]]. Antes de tudo há uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que não podemos não querer: ser feliz. A felicidade, ou o bem universalmente considerado, se nos impõe de modo [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Esta inclinação incoercível nada mais é que o apetite natural inato de nossa [[lexico:v:vontade:start|vontade]] ao bem ou à obtenção de nosso fim [[lexico:u:ultimo:start|último]]. É possível desejar ver a Deus segundo uma tal inclinação? Não, pois se a visão de Deus é efetivamente nossa felicidade, não temos dela uma [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] necessitante. Certos homens não parecem mesmo totalmente [[lexico:i:indiferentes:start|indiferentes]] a este fim? Pode-se, pois, tratar somente de um desejo condicional; um tal fim é desejável na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que me parece ligado ao bem [[lexico:u:universal:start|universal]], objeto de que necessita minha vontade. Para [[lexico:q:quem:start|quem]] raciocina corretamente esta conclusão se impõe ou sobrevém como que naturalmente. Assim, a visão de Deus deve ser assemelhada à [[lexico:c:classe:start|classe]] de [[lexico:b:bens:start|bens]] distinguidos por Tomás de Aquino, os quais são, para minhas [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]], bens particulares, naturalmente queridos segundo uma [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] não absoluta, mas de conveniência ou condicional (cf. Ia Pa, q. 10, a. 1). E o desejo que corresponde a esta visão será natural, não como uma inclinação inata mas enquanto surge naturalmente no curso do [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] de nossa vida [[lexico:r:racional:start|racional]], se esta for [[lexico:n:normal:start|normal]]. Ora, um tal desejo, pensa Tomás de Aquino, não pode ser vão ou desprovido de [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]]. Portanto, a possibilidade da visão beatífica se nos impõe, não segundo uma percepção evidente, mas como uma verdadeira conveniência de natureza. A esta altura, atingimos com Tomás de Aquino o que o teólogo chama de potência obediencial ao sobrenatural. Se nossa natureza pode ser elevada à visão de Deus, isto significa que tem potência para tal. Mas sabemos que neste caso não está ordenada ativamente ou de modo eficaz. Só Deus, por uma intervenção gratuita, pode tornar [[lexico:a:atual:start|atual]] esta potência: esta potência é, pois, somente a [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] passiva, ou de pura [[lexico:o:obediencia:start|obediência]], na qual toda criatura se encontra, com [[lexico:r:relacao:start|relação]] a Deus, para tudo o que não implica [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. Aqui tocamos evidentemente no que há de mais elevado na vida de nossa inteligência, mas como se trata da graça, convém aqui dar [[lexico:l:lugar:start|lugar]] ao teólogo. **Conclusão: [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] do ser ou faculdade do divino?** A solução [[lexico:a:agora:start|agora]] dada ao problema da possibilidade, para a inteligência criada, de ver a Deus, coloca-nos em [[lexico:e:estado:start|Estado]] de poder responder a uma questão que foi posta em um livro que na [[lexico:e:epoca:start|época]] teve repercussão: é a inteligência humana faculdade do ser ou do divino? (Rousselot: L’intellectualisme de Saint Thomas). O próprio Pe. Rousselot respondia: "a inteligência é a faculdade do ser porque é a faculdade do divino". Esta [[lexico:f:formula:start|fórmula]], por sua elegância sedutora, pode prestar-se a equívocos e, interpretada com seu autor, conduz a confusões. A inteligência humana, como toda a faculdade, define-se por seu objeto próprio e se a considerarmos como [[lexico:p:participacao:start|participação]] analógica do intelecto em si, define-se por seu objeto [[lexico:a:adequado:start|adequado]]. Assim, podemos dizer que é a faculdade do ser da [[lexico:q:quididade:start|quididade]] material ou, tomada adequadamente, a faculdade do ser considerado em toda a sua amplitude. Não sendo, porém, a essência divina compreendida determinadamente nestes objetos, não se pode dizer que seja formalmente a faculdade do divino. Deus é por ela apreendido somente indiretamente, na [[lexico:a:analogia:start|analogia]] das criaturas e a título de causa do ser. Uma só inteligência, a do mesmo Deus, se proporciona a este objeto supremo. Precisões estas que podemos figurar neste quadro: intellectus divinus... obj. proprium: ipsum esse subsistens. Intellectus humanus... obj. proprium: [[lexico:q:quidditas:start|quidditas]] rei materialis. Intellectus humanus... obj. adequatum: [[lexico:e:ens:start|ens]] commune. A inteligência permanece assim essencialmente a faculdade do ser e só se justifica com relação a esse objeto. Toda tentativa de fundamentar o [[lexico:v:valor:start|valor]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] do conhecimento sobre um [[lexico:d:dinamismo:start|dinamismo]] que pretenda ter seu [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de apoio diretamente no próprio Deus, deve ser considerada como falsa. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}