===== VIRTUDE ===== (gr. [[lexico:a:arete|arete]]; lat. virtus; in. Virtue; fr. Vertu; al. Tugend; it. Virtu). Este [[lexico:t:termo|termo]] designa uma [[lexico:c:capacidade|capacidade]] qualquer ou [[lexico:e:excelencia|excelência]], seja qual for a [[lexico:c:coisa|coisa]] ou o [[lexico:s:ser|ser]] a que pertença. Seus significados específicos podem ser reduzidos a três: 1) capacidade ou [[lexico:p:potencia|potência]] em [[lexico:g:geral|geral]]; 2) capacidade ou potência do [[lexico:h:homem|homem]]; 3) capacidade ou potência [[lexico:m:moral|moral]] do homem. 1) No primeiro [[lexico:s:sentido|sentido]], que é o da [[lexico:d:definicao|definição]] geral, a virtude indica uma capacidade ou potência qualquer, como p. ex. de uma planta, de um [[lexico:a:animal|animal]] ou de uma pedra. [[lexico:m:maquiavel|Maquiavel]] [[lexico:f:fala|fala]] da "virtude" da [[lexico:a:arte|arte]] da [[lexico:g:guerra|guerra]] (O [[lexico:p:principe|príncipe]], 14), e [[lexico:b:berkeley|Berkeley]] fala das "virtude da água de alcatrão" (Subtítulo de Siris, 1744). 2) No segundo sentido, a virtude é uma capacidade ou potência própria do homem. Assim, p. ex., chama-se de virtuoso/virtuose [[lexico:q:quem|quem]] possui uma habilidade qualquer, como p. ex., para cantar, tocar um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] ou usar a gazua. [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] quis retomar [[lexico:e:esse|esse]] sentido de virtude.- "Reconheço a virtude no seguinte: 1) ela [[lexico:n:nao|não]] se impõe; 2) ela não supõe a virtude em [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:l:lugar|lugar]], mas precisamente uma outra coisa; 3) ela não sofre pela [[lexico:a:ausencia|ausência]] da virtude, mas considera essa ausência como uma [[lexico:r:relacao|relação]] de distância graças à qual há algo de venerável na virtude; 4) ela não faz propaganda; 5) não permite que ninguém se erija em juiz, porque é sempre uma virtude [[lexico:p:por-si|por si]] mesma; 6) ela faz exatamente tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] proibido (a virtude, como a entendo, é [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] vetitum em toda a legislação do rebanho); 7) ela é virtude no sentido renascentista, virtude livre de [[lexico:m:moralidade|moralidade]]" (Wille zur Macht, ed. 1901, § 431). 3) No [[lexico:t:terceiro|terceiro]] sentido, o termo designa uma capacidade do homem no domínio moral. Deve tratar-se de uma capacidade [[lexico:u:uniforme|uniforme]] ou continuativa, como já declarava [[lexico:h:hegel|Hegel]] (Fil. do dir., § 150, anexo), porque um [[lexico:a:ato|ato]] moral não constitui virtude. Essa [[lexico:c:condicao|condição]], porém, nem sempre é respeitada, e [[lexico:l:locke|Locke]], p. ex., fala de virtude e de [[lexico:v:vicio|vício]] no sentido de atos morais isolados (.Ensaio, II, 28, 11). As definições de virtude nesse sentido estão compreendidas nas seguintes rubricas: a) capacidade de realizar uma [[lexico:t:tarefa|tarefa]] ou uma [[lexico:f:funcao|função]]; b) [[lexico:h:habito|hábito]] ou [[lexico:d:disposicao|disposição]] [[lexico:r:racional|racional]]; c) capacidade de [[lexico:c:calculo|cálculo]] utilitário; d) [[lexico:s:sentimento|sentimento]] ou [[lexico:t:tendencia|tendência]] espontânea; e) [[lexico:e:esforco|esforço]]. d) A virtude como capacidade de realizar uma tarefa determinada é [[lexico:c:conceito|conceito]] platônico. Assim como os órgãos (p. ex., a função dos olhos é [[lexico:v:ver|ver]], e a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de ver é a virtude dos olhos), a [[lexico:a:alma|alma]] tem suas próprias funções, e sua capacidade de cumpri-las é a virtude da alma ([[lexico:r:republica|República]], I, 353). Por isso, segundo [[lexico:p:platao|Platão]], a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] das [[lexico:v:virtudes|virtudes]] é determinada pela diversidade das funções que devem ser cumpridas pela alma ou pelo homem no [[lexico:e:estado|Estado]]. As [[lexico:q:quatro|Quatro]] virtude fundamentais ou cardeais são determinadas pelas funções fundamentais da alma e da [[lexico:c:comunidade|comunidade]]. b) A concepção da virtude como hábito ou disposição racional constante encontra-se em [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] e nos estoicos, sendo a mais difundida na [[lexico:e:etica|ética]] clássica. Segundo Aristóteles, a virtude é o hábito que torna o homem [[lexico:b:bom|Bom]] e lhe permite cumprir [[lexico:b:bem|Bem]] a sua tarefa (Et. Nic, II, 6, 1106 a 22); é um hábito racional (Ibid., II, 2,1103 b 32) e, como todos os hábitos, uniforme ou constante. Os estoicos, por sua vez, definiam a virtude como "uma disposição da alma coerente e concorde, que torna dignos de louvor aqueles em quem se encontra e é louvável por si mesma, independentemente de sua [[lexico:u:utilidade|utilidade]]" (Cícero, Tusc, IV, 15, 34; Stobeo, Ecl, II, 7, 60). Essas definições foram repetidas inúmeras vezes na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] antiga e medieval e também no [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:m:moderno|moderno]]. Encontram-se, p. ex., em [[lexico:a:abelardo|Abelardo]] (Theol. christ., II), [[lexico:a:alberto-magno|Alberto Magno]] (S. Th., II, q. 102, a. 3), [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] ([[lexico:s:suma-teologica|Suma Teológica]], II, I, q. 55), [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] (que faz a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre virtude como hábitos, e as [[lexico:a:acoes|ações]] correspondentes, Nouv. ess., II, 28, 7) e [[lexico:w:wolff|Wolff]] (Phil. practica, I, § 321). c) O terceiro conceito considera a virtude como capacidade de cálculo utilitário. Foi [[lexico:e:epicuro|Epicuro]] o primeiro a expor essa [[lexico:n:nocao|noção]], considerando como virtude suprema (da qual todas as outras derivam) a [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]], que é capaz de julgar dos prazeres que devem ser escolhidos e dos prazeres de que é preciso fugir, e destrói as opiniões causadoras das perturbações da alma (Diógenes Laércio, X, 132). No [[lexico:r:renascimento|Renascimento]] esse conceito foi defendido por Telésio, para quem a virtude era a [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de estabelecer a [[lexico:m:medida|medida]] certa das paixões e das ações, para que delas não proviessem prejuízo ao homem (De rer. nat. IX, 5). Mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], concepção análoga foi defendida por [[lexico:h:hume|Hume]] (Ink. Conc. Morais, I) e, em geral, pelo [[lexico:u:utilitarismo|utilitarismo]] inglês, em especial por [[lexico:b:bentham|Bentham]], que definia a virtude como "disposição para produzir [[lexico:f:felicidade|felicidade]]" (Deontology, X). Apesar de ser peculiar ao [[lexico:e:empirismo|empirismo]], esse conceito de virtude foi compartilhado por [[lexico:s:spinoza|Spinoza]]: "Para nós, agir absolutamente segundo a virtude, [[lexico:n:nada|nada]] mais é que agir, [[lexico:v:viver|viver]] e conservar o [[lexico:p:proprio|próprio]] ser (três [[lexico:c:coisas|coisas]] que significam o mesmo) segundo a [[lexico:o:orientacao|orientação]] da [[lexico:r:razao|razão]] sobre o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da busca do [[lexico:u:util|útil]]" (Et., IV, 24). d) O conceito de virtude como sentimento ou disposição, vale dizer, como [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]], encontra-se nos analistas ingleses do séc. XVIII, a começar por Shaftesbury: "Numa criatura [[lexico:s:sensivel|sensível]], que não é feito por [[lexico:m:meio|meio]] de uma [[lexico:a:afeicao|afeição]] não produz nem bem nem [[lexico:m:mal|mal]] em sua [[lexico:n:natureza|natureza]], pois essa criatura só pode ser chamada de bondosa quando o bem ou o mal do [[lexico:s:sistema|sistema]] com o qual ela está em relação for [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:i:imediato|imediato]] de alguma [[lexico:e:emocao|emoção]] ou afeição que a mova" (Characteristics of Men, Treatise IV, livro I, part. 2, seç. I). Com base nisto, Hutchinson postulou um sentido moral como fundamento da virtude (System of Moral Sentiments, 1754, III, I) e [[lexico:a:adam-smith|Adam Smith]] definiu esse sentido moral como [[lexico:s:simpatia|simpatia]] (Theory of Moral Sentiments, 1759, III, 1). Mas foi principalmente o [[lexico:i:iluminismo|Iluminismo]] francês que divulgou esse conceito: [[lexico:r:rousseau|Rousseau]] falava da [[lexico:p:piedade|piedade]] como "virtude [[lexico:n:natural|natural]]", que é "uma disposição conveniente a seres tão débeis e sujeitos a tantos males quanto os homens", que antecede a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] (De l’inégalité parmi les hommes, I); no mesmo sentido, [[lexico:v:voltaire|Voltaire]] considerava que virtude outra coisa não é senão "fazer o bem ao [[lexico:p:proximo|próximo]]" (Dictionnaire philosophique, art. Vertu). A ética do [[lexico:p:positivismo|positivismo]] ateve-se a essa concepção, considerando a virtude como [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do [[lexico:i:instinto|instinto]] altruísta ([[lexico:c:comte|Comte]], Catéchisme positiviste, p. 48; [[lexico:s:spencer|Spencer]], Data of Ethics, § 46). Na filosofia contemporânea, pode-se distinguir concepção análoga na chamada "[[lexico:m:moral-aberta|moral aberta]]" de [[lexico:b:bergson|Bergson]], que é a manifestação do [[lexico:e:ela-vital|elã vital]] (Deux soucers, 1932, cap. I). e) Finalmente, a concepção de virtude como esforço foi enunciada por Rousseau e adotada por [[lexico:k:kant|Kant]]. Rousseau dizia: "Não existe felicidade sem [[lexico:c:coragem|coragem]], nem virtude sem [[lexico:l:luta|luta]]: a [[lexico:p:palavra|palavra]] virtude deriva da palavra [[lexico:f:forca|força]]; a força é a base de toda virtude. A virtude pertence apenas aos seres de natureza débil, mas de [[lexico:v:vontade|vontade]] forte: exatamente por isso homenageamos o homem justo; também por isso, mesmo atribuindo [[lexico:b:bondade|bondade]] a [[lexico:d:deus|Deus]], não dizemos que Ele é virtuoso, porque suas boas obras são por ele cumpridas sem esforço algum" (Émile, virtude). Nesse [[lexico:e:espirito|espírito]], Kant definiu a virtude como "[[lexico:i:intencao|intenção]] moral em luta", que não teria sentido caso o homem tivesse [[lexico:a:acesso|acesso]] à [[lexico:s:santidade|santidade]], ou seja, à coincidência perfeita da vontade como [[lexico:l:lei|lei]] (Crít. R. Prática, I, livro I, cap. III). Assim como Cícero (v. coragem) e Rousseau, ele uniu estreitamente a noção de virtude com a de coragem: "A [[lexico:q:qualidade|qualidade]] especial e o propósito elevado com que se resiste a um adversário forte mas injusto chama-se coragem (fortitudo); quando se trata do adversário encontrado pela intenção em nós mesmos, chama-se virtude (virtus, fortitudo moralis). Portanto, a [[lexico:p:parte|parte]] da doutrina geral dos deveres que submete a [[lexico:l:liberdade|liberdade]] interna (e não a externa) a leis é uma doutrina da virtude" (Met. der Sitten, II, Intr., I). Em polêmica com Kant, Schiller procurou integrar a doutrina Kantiana na concepção de virtude como espontaneidade ou sentimento, dizendo: "Não tenho bom conceito do homem que pode confiar tão pouco na [[lexico:v:voz|voz]] do instinto que precise silenciá-lo o [[lexico:t:tempo|tempo]] todo diante da [[lexico:l:lei-moral|lei moral]]; [[lexico:r:respeito|respeito]] e estimo mais aquele que se entrega ao instinto com certa segurança, sem o [[lexico:r:risco|risco]] de ser por ele desencaminhado" (Über Anmut und Wurde, 1793, em Werke, ed. Karpeles, XI, p. 202). O conceito de [[lexico:a:alma-bela|alma bela]] nascia exatamente dessa noção da virtude como espontaneidade, à qual Kant respondia que, se "o [[lexico:t:temperamento|temperamento]] da virtude for corajoso e portanto alegre", a virtude, entre os seus outros benefícios, também pode ser acompanhada pela [[lexico:g:graca|graça]] (Religion, I, Observ., [[lexico:n:nota|nota]]). Já Hegel observava que no seu tempo não se falava mais tanto de virtude (Fil. do dir., § 150, Zusatz), pois "[[lexico:f:falar|falar]] de virtude confina facilmente com declamação vazia, pois assim se fala apenas de algo [[lexico:a:abstrato|abstrato]] e [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]]"; e que o [[lexico:d:discurso|discurso]] sobre a virtude destina-se ao [[lexico:i:individuo|indivíduo]] enquanto arbítrio [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] (Ibid., § 150). A [[lexico:o:observacao|observação]] de Hegel também se aplica aos nossos tempos, em que a [[lexico:d:discussao|discussão]] do [[lexico:p:problema|problema]] moral deixou de [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:f:forma|forma]] de discurso sobre a virtude, para assumir a forma de discurso sobre valores e normas, de um lado, e sobre atitudes e [[lexico:m:modos-de-vida|modos de vida]] de [[lexico:o:outro|outro]] (v. ética). (do lat. virtus, força), em seu sentido original, coragem e força do guerreiro; mais geralmente, poder ou [[lexico:a:aptidao|aptidão]] para fazer [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], para [[lexico:p:provocar|provocar]] um [[lexico:e:efeito|efeito]] (a virtude de uma planta ou de um medicamento, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]); num sentido moderno e mais corrente, disposição para fazer o bem. — Segundo as concepções que se faz do bem, a virtude toma um sentido diferente: os estoicos e» Kant a ligam ao esforço, à intenção de fazer o bem, isto é, ao [[lexico:m:merito|mérito]], em [[lexico:s:suma|suma]]; os epicuristas e quase todos os moralistas anglo-saxões (o utilitarismo, o [[lexico:p:pragmatismo|pragmatismo]]) identificam a virtude à felicidade, na [[lexico:i:ideia|ideia]] de que a felicidade é uma [[lexico:p:prova|prova]] [[lexico:t:tangivel|tangível]] de qualidades morais. No domínio [[lexico:s:social|social]] e [[lexico:p:politico|político]], a "virtude é a preferência pelo [[lexico:i:interesse|interesse]] [[lexico:p:publico|público]] em detrimento do seu próprio" ([[lexico:m:montesquieu|Montesquieu]]). (V. moral.) Equivale a capacidade, aptidão, e significa a habilidade, facilidade e disposição para levar a efeito determinadas ações adequadas ao homem. A virtude não é inata, somente o são as disposições para ela; e adquire-se unicamente pelo exercício sério e duradouro (ascese). A virtude é disposição permanente; contudo pela [[lexico:a:atividade|atividade]] e pela [[lexico:o:operacao|operação]] contrária diminui ou perde-se de todo. Seu oposto é o vicio, ou seja, o [[lexico:p:pendor|pendor]] para agir de forma inadequada. — Há virtudes do [[lexico:e:entendimento|entendimento]] e virtudes da vontade. As virtudes do entendimento ou dianoéticas aperfeiçoam o homem no que tange ao [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] da [[lexico:v:verdade|verdade]]. São as seguintes, relativamente ao conhecimento da verdade pura ([[lexico:t:teoretica|teorética]], especulativa): [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], ou habilidade para julgar; [[lexico:c:ciencia|ciência]], ou aptidão para [[lexico:r:raciocinar|raciocinar]]; sabedoria, ou capacidade para avançar até aos últimos e supremos fundamentos da verdade; relativamente à verdade ativa (prática) temos: a [[lexico:p:prudencia|prudência]], ou disposição para decidir retamente em [[lexico:o:ordem|ordem]] a determinada [[lexico:a:acao|ação]] [[lexico:p:particular|particular]]; a "arte", ou habilidade para a [[lexico:c:criacao|criação]] [[lexico:e:exterior|exterior]]. As virtudes intelectuais por si sós não fazem o homem moralmente bom, com [[lexico:e:excecao|exceção]] da prudência moral ([[lexico:v:virtudes-cardeais|virtudes cardeais]]). A [[lexico:e:essencia|essência]] das virtudes da vontade ou morais consiste numa disposição permanente e firme da vontade para seguir o que a razão aponta como reto. É a virtude em sentido [[lexico:e:estrito|estrito]] e faz o homem moralmente bom e [[lexico:p:perfeito|perfeito]]. Seu [[lexico:s:sujeito|sujeito]] imediato e próprio é a vontade, porque só ela é livre e a liberdade pertence à essência da ação moral. O entendimento e a faculdade apetitiva sensitiva só podem ser sujeitos da virtude, na medida em que são influenciáveis pela vontade. As virtudes da vontade estão entre si intimamente conexas e formam um todo clauso. Em estado perfeito não podem deixar de [[lexico:e:existir|existir]] todas simultaneamente, [[lexico:d:dado|dado]] que a prudência, quando se verifica em medida realmente perfeita, deve dominar toda a atividade livre do homem. Na operação virtuosa se encontra a [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] [[lexico:e:essencial|essencial]] acabada, a que o homem deve tender, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a vontade do Criador. Daí o existir [[lexico:o:obrigacao|obrigação]] moral de aspirar à virtude sob todos seus aspectos. — Virtude não denota [[lexico:c:carencia|carência]] de paixões, pois que estas não lhe são contrárias, desde que a prudência as contenha dentro dos limites pertinentes, a as coloque no devido lugar. Como a virtude só pode ser adquirida pelo exercício e impele à ação, há, entre ela e o [[lexico:a:ativismo|ativismo]] ordenado, estreito parentesco, opondo-se ambos à passividade irresoluta. Sendo a virtude a verdadeira perfeição e essencial complementação do homem, sem ela não pode existir verdadeira [[lexico:a:alegria|alegria]], isto é, satisfação da vontade, no bem alcançado. Vide virtudes cardeais, [[lexico:p:paixao|paixão]], moralidade. — Kleinhappl. Significa, primeiramente, força, poder, poder de uma coisa, eficácia. Já desde muito cedo, a virtude foi entendida no sentido do hábito ou maneira de ser de uma coisa, hábito que se torna [[lexico:p:possivel|possível]] por haver previamente nela uma potencialidade ou capacidade de ser de um [[lexico:m:modo|modo]] determinado. Assim acontece em Aristóteles, o qual assinala, porém, “que não basta contentarmo-nos com o dizer que a virtude é hábito ou modo de ser, antes é preciso dizer também de forma específica qual é esta maneira de ser”. A virtude é, em relação a uma coisa, o que completa a boa disposição da mesma, o que a aperfeiçoa; por outras [[lexico:p:palavras|palavras]], a virtude de uma coisa é, propriamente falando, o seu bem, mas não o bem geral e supremo, mas o bem próprio e intransferível... virtude, poderia dizer-se, é aquilo que faz que cada coisa seja o que é. Tal noção de virtude transfere-se para o homem; virtude é então o poder propriamente [[lexico:h:humano|humano]] na medida em que confunde com o [[lexico:v:valor|valor]], a coragem, o ânimo. A virtude é o que carateriza o homem, e as definições da virtude atendem, em tal caso, ao que consideram o [[lexico:c:carater|caráter]] específico do ser humano. Este caráter é expresso, segundo Aristóteles, pelo justo meio, é-se virtuoso quando se permanece entre o mais e o menos, na devida proporção ou na moderação prudente. A virtude refere-se, por isso, a todas as [[lexico:a:atividades|atividades]] humanas e não apenas às morais. Por isso, já em Platão, as virtudes cardeais são a sabedoria prática ou prudência, o valor ou coragem, a [[lexico:t:temperanca|temperança]]. E Aristóteles classifica as virtudes em práticas e teóricas. [[lexico:a:alem|Além]] disso, as virtudes podem ser consideradas como intelectuais ou como não intelectuais: as primeiras procedem da própria alma como [[lexico:r:realidade|realidade]] separada; as segundas, em contrapartida, derivam do hábito. O usual na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] não é apenas o forjar um conceito da virtude, mas também, e muito especialmente, manifestar concretamente as virtudes e os atos necessários para que se realizem. Este foi um dos temas fundamentais das diversas escolas socráticas. A [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] da virtude, a sua qualidade de ser ensinada, conduziram a uma contínua [[lexico:c:classificacao|classificação]] e reclassificação das virtudes. Os pensadores cristãos desenvolveram muitas [[lexico:i:ideias|ideias]] semelhantes. Mas não se deve esquecer que os seus conteúdos são às vezes diferentes. [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] disse que a virtude é uma “boa qualidade da [[lexico:m:mente|mente]], mediante a qual vivemos direitamente, qualidade da qual ninguém pode abusar e que Deus produz às vezes em nós sem nossa intervenção”. Mas nem por isso deixa a virtude de continuar a ser um hábito da alma. A virtude é, como o dirão os escolásticos, e especialmente S. Tomás, um hábito do bem, diferentemente do hábito para o mal ou vício. A virtude é, em suma, uma boa qualidade da alma, uma disposição firme e sólida da parte racional do homem. Isto é, além disso, comum a todas as virtudes, às materiais e às intelectuais, às infusas e às adquiridas. Claro está que o vocábulo virtude continua a arrastar o seu [[lexico:s:significado|significado]] etimológico de capacidade, e esta pode manifestar-se, por sua vez, de vários modos: como uma capacidade ativa ou passiva, [[lexico:u:universal|universal]] ou particular, cognoscitiva ou operativa. Mas o que haja nela de capacidade vai sendo, cada vez mais, submergido ou incluído no hábito. Sem se afastar essencialmente da definição Agostiniana, S. Tomás defendia, com efeito, de um modo [[lexico:e:explicito|explícito]] e [[lexico:f:formal|formal]], o caráter habitual (e não só o ser uma qualidade) da virtude. Como [[lexico:g:genero|gênero]] próximo, indica-se que a virtude é um hábito; como [[lexico:d:diferenca|diferença]] específica, que é um bom hábito; como sujeito, que o é das nossas almas; como o que a distingue do vício, que é algo mediante o qual vivemos retamente; como diferença de outros hábitos (que, como [[lexico:o:opiniao|opinião]], tanto pode conduzir ao bem como ao mal), que ninguém pode abusar dela; e como expressões que designam o caráter às vezes infuso da virtude, que Deus a produz às vezes em nós sem a nossa intervenção. Suprimido este [[lexico:u:ultimo|último]] membro da definição, diz S. Tomás, o resto é comum às virtudes infusas - virtudes sobrenaturais que só a graça produz em nós - e às virtudes adquiridas - ou virtudes que procedem da razão humana. A concepção [[lexico:m:moderna|moderna]] da virtude afasta-se essencialmente das bases estabelecidas pela antiguidade e idade média. Na sua [[lexico:s:significacao|significação]] mais geralmente aceite, continua a ser definida como a disposição ou hábito de obrar de acordo com a intenção moral, disposição moral, disposição que não se mantém sem luta contra os obstáculos que se opõem a esse obrar, e por isso a virtude é concebida, também, como o ânimo e coragem de obrar bem ou, como dizia Kant, como a [[lexico:f:fortaleza|fortaleza]] moral no cumprimento do [[lexico:d:dever|dever]].