===== VIDA VEGETATIVA ===== Nascer, nutrir-se, crescer, gerar, perecer, são [[lexico:a:atividades|atividades]] reconhecidas nos seres que vivem em volta de nós e que correspondem ao mais modesto [[lexico:g:grau|grau]] de [[lexico:v:vida|vida]]: a vegetativa. Este grau, já o sabemos, tem por [[lexico:c:caracteristica|característica]] referir-se, como a seu [[lexico:o:objeto|objeto]], ao [[lexico:c:corpo|corpo]] que é informado pela [[lexico:a:alma|alma]] (cf. Ia Pa, q. 78, a.1) "vegetativum... habet pro objecto ipsum [[lexico:c:corpus|corpus]] vivens per animam”. Neste nível encontramos três grandes tipos de funções especificamente distintos: a nutrição, o crescimento e a [[lexico:g:geracao|geração]]. **A [[lexico:f:funcao|função]] nutritiva.** Consideremos os fenômenos vitais mais comuns. Um dos mais manifestos em sua constância é o da nutrição. Os seres vivos que nos cercam [[lexico:n:nao|não]] podem [[lexico:s:subsistir|subsistir]] se não se alimentam. É a própria [[lexico:e:evidencia|evidência]]: cesse um [[lexico:a:animal|animal]] ou uma planta de se alimentar e deixará de [[lexico:v:viver|viver]]. A mais imediata [[lexico:r:razao|razão]] da nutrição é, pois, a conservação do [[lexico:s:ser|ser]]. Tal [[lexico:n:necessidade|necessidade]] parece radicar-se no [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:o:organico|orgânico]] da [[lexico:s:substancia|substância]] viva. Os [[lexico:e:elementos|elementos]] [[lexico:s:simples|simples]] não têm, propriamente falando, necessidade de uma [[lexico:a:atividade|atividade]] conservadora: são ou não são. Os viventes, pelo contrário, não podem manter o equilíbrio de suas diversas partes se não forem dotados de uma tal atividade. Ainda há outros [[lexico:m:motivos|motivos]] que parecem justificar a [[lexico:e:existencia|existência]] da função nutritiva. As duas outras grandes funções da [[lexico:v:vida-vegetativa|vida vegetativa]], o crescimento e a geração, só podem entrar em exercício se o ser vivo estiver alimentado. É um [[lexico:f:fato|fato]] de [[lexico:e:experiencia|experiência]]. Assim, neste grau da atividade vital, ocupa a nutrição o [[lexico:l:lugar|lugar]] de função de base. "Dizemos que se nutre o ser que em si recebe algo para a sua conservação": "id proprie nutriri dicimus [[lexico:q:quod|quod]] in seipso aliquid recipit ad sui conservationem". Tal é a [[lexico:d:definicao|definição]] dada por [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] no [[lexico:d:de-anima|De anima]] (II, l.9). Algumas precisões não serão inúteis. Nem a [[lexico:a:absorcao|absorção]] do alimento, nem as alterações químicas que o alimento sofre na digestão -processo que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] atribuía ao [[lexico:f:fogo|fogo]], comparando-o a um cozimento - não constituem, propriamente falando, a nutrição. Esta consiste formalmente na [[lexico:c:conversao|conversão]] do alimento na substância daquele que ele nutre, isto é, na [[lexico:a:assimilacao|assimilação]], pelo [[lexico:v:vivente|vivente]], de uma substância estranha que o conserva em seu ser e lhe permite exercer suas outras atividades. Tal [[lexico:o:operacao|operação]], é preciso notar, não pode ser reduzida a uma simples adição ou justaposição de partes, mas supõe uma verdadeira [[lexico:t:transformacao|transformação]] [[lexico:s:substancial|substancial]]. Algumas aproximações a operações vitais de [[lexico:t:tipo|tipo]] [[lexico:a:analogo|análogo]] serão aqui de grande [[lexico:i:interesse|interesse]]. Já sabemos que a assimilação do alimento não pode ser reduzida a uma simples justaposição material. Mas não se pode compará-la à geração [[lexico:f:fisica|física]] dos elementos? Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], nos dois casos há aparentemente transformação de uma substância em outra com a [[lexico:c:corrupcao|corrupção]] de uma das duas, mas as condições destas duas operações são completamente diferentes. Na geração dos elementos, o [[lexico:p:principio|princípio]] e o [[lexico:t:termo|termo]] da transformação são diferentes: o fogo, conforme [[lexico:t:teoria|teoria]] antiga, origina-se do [[lexico:a:ar|ar]]; enquanto que na nutrição, o princípio e o termo da operação são, na [[lexico:r:realidade|realidade]], o [[lexico:p:proprio|próprio]] ser vivo. A nutrição, em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], é uma atividade [[lexico:i:imanente|imanente]], enquanto que a geração dos elementos físicos não o é. Nos níveis superiores da [[lexico:v:vida-sensitiva|vida sensitiva]] e da vida intelectiva, outras aproximações podem ser feitas. Encontra-se aqui, com [[lexico:e:efeito|efeito]], uma atividade, o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], que tem suas [[lexico:r:relacoes|relações]] com a nutrição corporal. O ser senciente e o ser inteligente, de certo [[lexico:m:modo|modo]], nutrem-se, e falamos mesmo de alimentos espirituais, de fome e sede de [[lexico:v:verdade|verdade]]. Mas ainda aqui é preciso sublinhar as diferenças. A chamada [[lexico:u:uniao|união]] [[lexico:i:intencional|intencional]] do cognoscente com o conhecido é algo completamente [[lexico:s:singular|singular]]. Nem o cognoscente, nem o conhecido, encontram-se, como o alimento, destruídos em seu [[lexico:a:ato|ato]] comum e deve-se dizer que é antes o cognoscente que se transforma no conhecido. Por [[lexico:f:fim|fim]], enquanto as capacidades da nutrição corporal são estreitamente limitadas, as das potências de conhecer, pelo menos as da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], parecem dilatar-se ao [[lexico:i:infinito|infinito]]. **A função de crescimento.** É um fato que os viventes não atingem imediatamente seu pleno [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]], em [[lexico:p:particular|particular]] porque não têm de início [[lexico:t:todo|todo]] o seu tamanho, mas crescem até ao [[lexico:p:ponto|ponto]] máximo que corresponde a seu [[lexico:p:perfeito|perfeito]] acabamento. O crescimento, e em especial o [[lexico:a:aumento|aumento]] [[lexico:q:quantitativo|quantitativo]], apresenta-se como um [[lexico:m:movimento|movimento]] original que parece exigir uma [[lexico:f:faculdade|faculdade]] especial: a vis augmentativa. Coloca-se preliminarmente uma [[lexico:q:questao|questão]]: é o crescimento dos viventes uma operação especificamente caracterizada de modo a requerer uma [[lexico:p:potencia|potência]] especial? Não se poderia dizer que é apenas uma resultante da atividade de outras funções vegetativas? Há indícios disto. Com efeito, o crescimento de um ser vivo parece depender de sua alimentação. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, parece que a função que gera substancialmente um ser, a ele confere igualmente a [[lexico:q:quantidade|quantidade]] que lhe convém. Apesar destes argumentos, Tomás de Aquino não vê no crescimento uma [[lexico:d:determinacao|determinação]] específica que possa ser reduzida à determinação das outras funções da vida vegetativa e defende, consequentemente, a existência de uma faculdade original explicativa deste [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]]. Portanto, o objeto próprio do crescimento é precisamente a quantidade do ser vivo, podendo-se definir assim, a faculdade que lhe é correspondente: o poder graças ao qual o ser corpóreo, dotado de vida, pode adquirir a estatura ou a quantidade que lhe convém, como também a potência que lhe corresponde: "secunda autem perfectior operatio est augmentum [[lexico:q:quo|quo]] aliquid proficit in majorem perfectionem, et secundum quantitatem et secundum virtutem" De [[lexico:a:anima|anima]], II, 1-9 Como toda operação vital, o crescimento, que tem seu princípio no ser vivo e nele termina, é uma operação imanente. Os seres inanimados são suscetíveis de aumento por justaposição mas, colocado à [[lexico:p:parte|parte]] talvez o caso dos cristais e daquilo que a [[lexico:c:ciencia|ciência]] contemporânea chama de ultravirus, não são suscetíveis de um crescimento [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]. O crescimento é um movimento próprio dos seres vivos. Nos diversos graus da [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] dos seres vivos encontra-se proporcionalmente um [[lexico:p:processo|processo]] de desenvolvimento ou de crescimento. Mas deve-se notar que fora do [[lexico:m:mundo|mundo]] corporal não se pode [[lexico:f:falar|falar]] propriamente de aumento quantitativo: aqui só podemos encontrar um crescimento segundo a [[lexico:q:qualidade|qualidade]]. Tomás de Aquino, em seu tratado sobre os "habitus", estudou [[lexico:b:bem|Bem]] de perto as condições muito especiais deste processo. Aqui basta-nos assinalá-lo. **A função de geração.** Ao lado do poder de se nutrir e de atingir seu pleno desenvolvimento, os seres vivos têm o poder de gerar ou produzir um ser especificamente [[lexico:s:semelhante|semelhante]] ao seu. A física peripatética já falava de geração a propósito dos elementos simples, tais como o fogo, a água, etc .... mas é claro que nos seres vivos esta operação reveste-se de modalidades especiais. Para fixar a razão de ser da geração podemos nos colocar em dois pontos de vista diferentes: - com [[lexico:r:relacao|relação]] ao [[lexico:i:individuo|indivíduo]] e ao conjunto de suas atividades, a geração aparece como um termo e como uma [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]: um termo, relativamente às outras operações da vida vegetativa, nutrição e crescimento, que a preparam; uma perfeição: pois que procriar é comunicar seu ser, dar-se, isto é, realizar, de uma certa maneira, aquilo que se entende por esta [[lexico:e:expressao|expressão]]: "ato do perfeito", "actus perfecti". - com relação ao conjunto dos seres vivos, a geração aparece como ordenada a um fim [[lexico:s:superior|superior]]: a conservação da [[lexico:e:especie|espécie]]. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] perfeito, nesta [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]], é a espécie que dura; o que é imperfeito é o indivíduo, o qual não podendo perpetuamente subsistir deve, para sobreviver de algum modo, comunicar sua [[lexico:n:natureza|natureza]] a outros que a prolongam. Aqui a geração aparece como o ato do que é imperfeito: "actus imperfecti". É fácil perceber que estes dois pontos de vista são complementares. Tomás de Aquino (Ia Pa, q. 27, a. 2) define assim a geração dos seres vivos: "a geração significa a [[lexico:o:origem|origem]] de um ser vivo, a partir de um princípio vivente conjunto, segundo uma razão de [[lexico:s:semelhanca|semelhança]], em uma natureza da mesma espécie". "Generatio significat originem alicujus viventis a principio vivente conjuncto secundum rationem similitudinis in natura ejusdem speciei". Nesta [[lexico:f:formula|fórmula]] que tornou-se clássica: - "a origem de um ser vivo" designa o caráter comum a toda a geração; "a partir de um princípio vivente conjunto" precisa a [[lexico:d:diferenca|diferença]] específica da geração dos viventes; - pelas últimas expressões "segundo uma razão de semelhança" e "em uma natureza da mesma espécie", são afastadas todas as produções de um corpo vivo, tais como o crescimento dos cabelos ou as diversas secreções, que não terminam em uma natureza especificamente semelhante. Abaixo do nível da vida vegetativa encontra-se, nós o sabemos, um tipo inferior de geração, a dos elementos materiais, que se distingue, sobretudo do precedente, pelo seu caráter de atividade puramente transitiva. Acima, isto é, no [[lexico:p:plano|plano]] da vida intelectiva, não se encontra, no [[lexico:s:sentido|sentido]] próprio da [[lexico:p:palavra|palavra]], geração, ao menos nos [[lexico:e:espiritos|espíritos]] criados; o "verbum mentis", ou o [[lexico:c:conceito|conceito]] no qual exprime-se o conhecimento intelectual, não é da mesma natureza que o princípio do qual procede. [[lexico:e:excecao|Exceção]] deve ser feita somente para [[lexico:d:deus|Deus]]: pela [[lexico:f:fe|fé]] somos levados a reconhecer n’Ele uma geração, a da segunda [[lexico:p:pessoa|pessoa]] da [[lexico:t:trindade|trindade]], cujo modo [[lexico:t:transcendente|transcendente]] exclui qualquer imperfeição. A [[lexico:t:teologia|teologia]] pertence precisar como tentar concebê-la (cf. Ia Pa, q. 27, a. 2). **Conclusão: o [[lexico:s:sistema|sistema]] da vida vegetativa.** Do que foi [[lexico:d:dito|dito]] conclui-se que no peripatetismo a vida vegetativa constitui um conjunto de atividades bem caracterizadas e sistematicamente ordenadas, situadas em um certo plano de [[lexico:i:imaterialidade|imaterialidade]] e, correlativamente, de [[lexico:i:imanencia|imanência]]. Entre as três grandes funções distintas há uma [[lexico:o:ordem|ordem]]: a nutrição aparece como a operação fundamental pressuposta pelas duas outras. O crescimento completa a nutrição e, juntas, as duas têm como fim a geração, na qual a vida vegetativa, de certa maneira, atinge seu ponto culminante. Restaria aqui submeter à [[lexico:c:critica|crítica]] esta ingeniosa teoria. É claro que os progressos imensos realizados pelas ciências da vida exigiriam certos retoques. Não é certo, porém, que as profundas visões que presidiram a esta organização tenham perdido todo e qualquer [[lexico:v:valor|valor]].