===== VIDA E TEMPO ===== E com isto chegamos talvez ao mais importante: que a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] [[lexico:o:ontologica|ontológica]] da [[lexico:v:vida|vida]] contém como seu nervo fundamental, sua [[lexico:r:raiz|raiz]], algo que é precisamente o mais oposto, diametralmente oposto, ao [[lexico:t:tipo|tipo]] do -ser [[lexico:e:estatico|estático]] e [[lexico:q:quieto|quieto]] de [[lexico:p:parmenides|Parmênides]]. A vida na sua raiz contém o [[lexico:t:tempo|tempo]]. A [[lexico:e:existencia|existência]], o [[lexico:s:ser|ser]] da existência humana — falando em termos de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] — ou o que equivale ao mesmo: a estrutura ontológica da vida, é o tempo. Mas vamos pouco a pouco. Tempo é uma [[lexico:p:palavra|palavra]] que significa muitas [[lexico:c:coisas|coisas]]. Devemos distinguir duas classes de tempo: o tempo que há "em" a vida e o tempo que a vida "é". Na vida está o tempo da [[lexico:f:fisica|física]], o tempo da [[lexico:a:astronomia|astronomia]], o tempo da [[lexico:t:teoria-da-relatividade|teoria da relatividade]]. [[lexico:e:esse|esse]] é um tempo que está na vida, do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que os objetos reais, os objetos ideais e os valores estão na vida. E assim como esses objetos são entes secundários e derivados, entes de certo modo inautênticos e [[lexico:r:relativos|relativos]], assim também o tempo que está "em" a vida é um tempo inautêntico e [[lexico:r:relativo|relativo]]; é o tempo das ciências físicas, das ciências astronômicas. Nesse tempo, o passado produz de si o presente, e o passado produzindo de si ó presente vai criando o [[lexico:f:futuro|futuro]]. O futuro, nesse tempo, é o resultado do passado e do presente; é a conclusão do [[lexico:p:processo|processo]] começado. Mas esse tempo que está na vida é o tempo pensado, excogitado para abranger nele o ser inautêntico e derivado, o ser dos entes particulares; esse tempo [[lexico:n:nao|não]] é o tempo que constitui a vida mesma. Por isso propunha [[lexico:e:eu|eu]] que distinguíssemos entre o tempo que está "em" a vida e o tempo que a vida "é". E eis aqui o curioso e estranho: que o tempo que a vida é consiste exatamente na inversão do tempo que na vida está. Se se inverte o tempo da astronomia se tem o tempo que constitui a ossamenta da vida. Se se imagina ou pensa um tempo que começa pelo futuro e para c qual o presente seja a realização do futuro, quer dizer para o qual o presente seja um futuro que vem ser, ou, como diz Heidegger algo abstrusamente, um "futuro sido", esse é o tempo da vida. Porque a vida tem isto de [[lexico:p:particular|particular]]: que quando foi, já não é a vida; que quando a vida passou e está no pretérito, se converte em [[lexico:m:materia|matéria]] solidificada, em matéria material ou matéria sociológica, em [[lexico:i:ideias|ideias]] já feitas, anquilosadas; em concepções pretéritas que têm a [[lexico:p:presenca|presença]] e inalterabilidade, o [[lexico:c:carater|caráter]] do ser parmenídico, o caráter do ser eleático, daquilo que "já" é e daquilo que é [[lexico:i:identico|idêntico]], do ser ou [[lexico:e:ente|ente]] secundário e derivado. Porém a vida não é isto. A vida, tão logo foi, deixa de ser. A vida é propriamente esta [[lexico:a:antecipacao|antecipação]], este afã de querer ser; essa antecipação do futuro, essa [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] que faz que o futuro seja, ele, o germe do presente. Não é como no tempo astronômico, no qual o presente é o resultado do passado. O passado é o germe do presente no tempo astronômico, que está "em" a vida; mas o tempo vital, o tempo [[lexico:e:existencial|existencial]] em que consiste a vida, é um tempo no qual aquilo que vai ser está antes daquilo que é, aquilo que vai ser traz aquilo que é. O presente é um "sido" do futuro; é um "futuro sido". Realmente, não se pode expressar melhor que como faz Heidegger nestas [[lexico:p:palavras|palavras]], só que precisava alguma [[lexico:e:explicacao|explicação]]. Este "futuro sido", que é o presente, nos faz [[lexico:v:ver|ver]] a vida como tempo, essencialmente como tempo; e como tempo no qual a vida, ao ir sendo, vai consistindo em antecipar seu ser de um modo deficiente, para chegar a sê-lo de um modo eficiente. A vida, pois, é uma carreira; a vida é algo que corre em busca de si mesma; a vida caminha à procura da vida, e o rastro que deixa atrás de si depois de [[lexico:t:ter|ter]] caminhado é já matéria inerte, excremento. Assim, pois, é o tempo que constitui essa [[lexico:e:essencia|essência]]. Que é o ser parmenídico? O ser sem tempo. Que é o ser existencial da vida? É o ser com tempo, no qual o tempo não está ao redor, e como banhando a [[lexico:c:coisa|coisa]], como acontece na astronomia. Na astronomia o tempo está aí em torno da coisa; porém a coisa é aquilo que é, independentemente do tempo que transcorre junto dela. Ao contrário, aqui, na vida, o tempo está dentro da coisa mesma; o ser mesmo da coisa consiste em ser [[lexico:t:temporal|temporal]], quer dizer, em antecipar-se, em querer ser, em poder ser, em ter que ser. E então quando este poder ser e ter que ser é; quando o futuro se converte em "futuro sido", nesse [[lexico:i:instante|instante]] aquilo que "já" é, o excremento da vida, e a vida continua seu curso à procura de si mesma, ao longo desse [[lexico:i:infinito|infinito]] futuro infinitamente fecundo.