===== VIDA E FELICIDADE ===== As preleções que inauguro com esta foram anunciadas como a advertência para uma [[lexico:v:vida|vida]] feliz. Adaptando-nos à [[lexico:o:opiniao|opinião]] comum e usual, que [[lexico:n:nao|não]] se pode retificar sem aderir desde logo a ela, só poderíamos nos expressar assim; não obstante, segundo o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:v:ver|ver]] as [[lexico:c:coisas|coisas]], na [[lexico:e:expressao|expressão]] vida feliz há algo supérfluo. A [[lexico:s:saber|saber]]: a vida é necessariamente feliz, pois é a [[lexico:f:felicidade|felicidade]]; a [[lexico:i:ideia|ideia]] de uma vida infeliz, pelo contrário, encerra uma [[lexico:c:contradicao|contradição]]. Infeliz só é a [[lexico:m:morte|morte]]. Expressando-me rigorosamente, deveria portanto, denominar as preleções que me propus fazer advertência para a vida, ou doutrina da vida; ou então, tomando o [[lexico:c:conceito|conceito]] por [[lexico:o:outro|outro]] lado, advertência para a felicidade, ou doutrina da felicidade. O [[lexico:f:fato|fato]] de que, no entanto, de maneira alguma nem tudo o que aparece como [[lexico:v:vivente|vivente]] seja feliz, funda-se em que o infeliz, de fato e na [[lexico:v:verdade|verdade]], tampouco vive, mas, pelo contrário, segundo a maioria de seus [[lexico:e:elementos|elementos]], está submerso na morte e no não [[lexico:s:ser|ser]]. A vida mesma é a felicidade, dizia [[lexico:e:eu|eu]]. Não pode ser de outro modo: pois a vida é o [[lexico:a:amor|amor]] e toda a [[lexico:f:forma|forma]] e a [[lexico:f:forca|força]] da vida consiste no amor e nasce do amor. (...) Mas o amor é contentamento consigo mesmo, é [[lexico:a:alegria|alegria]] em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], gozo de si mesmo, e assim felicidade; e é claro que vida, amor e felicidade são em [[lexico:a:absoluto|absoluto]] uma e a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]]. (...) O ser, digo, e a vida são uma e a mesma coisa. Só a vida pode [[lexico:e:existir|existir]] independentemente, [[lexico:p:por-si|por si]] e mediante si mesma; e por sua vez a vida, só enquanto é vida, traz consigo a [[lexico:e:existencia|existência]]. Imagina-se usualmente o ser como algo permanente, rígido e morto; os filósofos inclusive, quase sem [[lexico:e:excecao|exceção]], assim o pensaram, exprimindo-o até como absoluto. Mas isto só ocorre porque não se procura [[lexico:p:pensar|pensar]] o ser com um conceito vivo, o fazendo apenas com um conceito morto. Não está a morte no ser em si e por si, mas sim no olhar mortiço do morto que a contempla. (...) Inversamente, assim como o ser e a vida são uma e a mesma coisa, do mesmo modo a morte e o não ser são um e o mesmo. Não há uma pura morte, nem um [[lexico:p:puro|puro]] não ser. .. Há, sim, uma [[lexico:a:aparencia|aparência]], e esta é a [[lexico:m:mistura|mistura]] da vida e da morte, do ser e do não ser. (...) Temos [[lexico:a:agora|agora]] traçado e [[lexico:a:aberto|aberto]] o [[lexico:c:caminho|caminho]] para a [[lexico:i:inteleccao|intelecção]] da [[lexico:d:diferenca|diferença]] [[lexico:c:caracteristica|característica]] entre a verdadeira vida, que é una com o ser, e a mera vida [[lexico:a:aparente|aparente]], a qual, enquanto é [[lexico:s:simples|simples]] aparência, é una com o não ser. O ser é simples, invariável, e permanece eternamente igual a si mesmo; por isto a vida verdadeira é também simples, invariável, eternamente igual a si mesma. A aparência é uma incessante [[lexico:m:mudanca|mudança]], sempre oscilante entre o fazer-se e o perecer, e é dilacerada por incessantes alterações. O centro da vida é sempre o amor. A vida verdadeira ama o [[lexico:u:uno|uno]], invariável e [[lexico:e:eterno|eterno]]; a mera vida aparente tenta amar — se sequer fosse capaz de ser amado, e se ao menos quisesse resistir a seu amor — o caduco em sua caducidade. Aquele [[lexico:o:objeto|objeto]] amado da vida verdadeira é o que significamos, ou pelo menos deveríamos significar com a [[lexico:d:denominacao|denominação]] [[lexico:d:deus|Deus]]; o objeto do amor da vida só aparente, o caduco, é o que nos aparece como [[lexico:m:mundo|mundo]] e que assim chamamos. A vida verdadeira vive, pois, em Deus e ama Deus; a vida só aparente vive no mundo e tenta amar o mundo. (...) A vida verdadeira vive no invariável; portanto, não é susceptível nem de uma interrupção nem de um incremento, como tampouco o invariável mesmo em que vive é susceptível de tal interrupção ou incremento. Em cada [[lexico:i:instante|instante]] é inteira; a vida mais alta que é [[lexico:p:possivel|possível]] em absoluto; e permanece necessariamente em toda [[lexico:e:eternidade|Eternidade]], que é em [[lexico:t:todo|todo]] instante. A vida aparente vive só no variável, e por isso não permanece igual a si mesma em dois instantes sucessivos; cada [[lexico:m:momento|momento]] que chega devora e absorve o precedente; e assim a vida aparente converte-se em um morrer ininterrupto, e só vive morrendo, e no morrer. (...) O anseio do eterno, este [[lexico:i:impulso|impulso]] de unir-se e fundir-se com o imperecível, é a [[lexico:r:raiz|raiz]] mais íntima de toda existência finita, e não se pode extirpar em nenhum ramo desta existência, a não ser que este ramo deva fundir-se no total não ser. (Die Anweisung zum seligen Leben, lição I.)