===== VEROSSIMILHANÇA ===== É palpável que o [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]] radical ou [[lexico:a:absoluto|absoluto]] é autodestruidor. Ele afirma que o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] é [[lexico:i:impossivel|impossível]]. Com isso, porém, ele expressa um conhecimento Consequentemente, trata o conhecimento como sendo, de [[lexico:f:fato|fato]], [[lexico:p:possivel|possível]], mas, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], afirma que ele é impossível. O ceticismo padece, assim, de autocontradição. O cético poderia certamente encontrar uma saída. Poderia indicar o [[lexico:j:juizo|juízo]] "o conhecimento é impossível" como duvidoso e dizer: [[lexico:n:nao|não]] há nenhum conhecimento, e mesmo isto é duvidoso. Também aqui, porém, há um conhecimento sendo expresso, a [[lexico:s:saber|saber]], o conhecimento de que é duvidoso que haja conhecimento. Por um lado, portanto, a [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento|possibilidade do conhecimento]] será afirmada pelo cético e, por [[lexico:o:outro|outro]], será posta em [[lexico:d:duvida|dúvida]]. No fundo, encontramo-nos diante da mesma autocontradição de antes. Conforme os céticos antigos já reconheciam, o representante do ceticismo só pode contornar a autocontradição revelada há pouco se suspender o juízo. A rigor, porém, nem isso basta. O cético não pode, na [[lexico:v:verdade|verdade]], realizar nenhum [[lexico:a:ato|ato]] de [[lexico:p:pensamento|pensamento]], pois tão logo o faça estará pressupondo a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] do conhecimento e enredando-se, assim, na mesma autocontradição. A [[lexico:a:aspiracao|aspiração]] ao conhecimento da verdade é, do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista do ceticismo [[lexico:e:estrito|estrito]], desprovida de [[lexico:s:sentido|sentido]] e de [[lexico:v:valor|valor]]. Nossa [[lexico:c:consciencia|consciência]] [[lexico:e:etica-dos-valores|ética dos valores]], porém, protesta contra essa concepção. Irrefutável sob o ponto de vista [[lexico:l:logico|lógico]] enquanto suspende [[lexico:t:todo|todo]] juízo e ato de pensamento -o que, na prática, é certamente impossível -o ceticismo é verdadeiramente batido no [[lexico:c:campo|campo]] da [[lexico:e:etica|ética]]. Ao [[lexico:f:fim|fim]] das contas, não rejeitamos o ceticismo porque podemos refutá-lo logicamente, mas porque nossa consciência ética dos valores o condena na [[lexico:m:medida|medida]] em que considera a aspiração à verdade como algo dotado de valor. Fomos apresentados há pouco a uma [[lexico:f:forma|forma]] mitigada de ceticismo segundo a qual não há verdade nem [[lexico:c:certeza|certeza]], mas apenas verossimilhança. Se é assim, não posso mais reivindicar a verdade para meus juízos, mas apenas e tão-somente a verossimilhança. Essa forma, porém, acrescenta às contradições de [[lexico:p:principio|princípio]] da [[lexico:p:posicao|posição]] cética ainda uma outra. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], o [[lexico:c:conceito|conceito]] de verossimilhança pressupõe o de verdade. [[lexico:v:verossimil|Verossímil]] é aquilo que se aproxima do [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]. [[lexico:q:quem|quem]] sacrifica o conceito de verdade deve abandonar também o de verossimilhança. Por tudo o que foi visto, o ceticismo [[lexico:g:geral|geral]] ou absoluto é intrinsecamente impossível. Não podemos afirmar o mesmo do ceticismo especial. O [[lexico:c:ceticismo-metafisico|ceticismo metafísico]], que nega a possibilidade do conhecimento do [[lexico:s:supra-sensivel|supra-sensível]], pode [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:f:falso|falso]], mas não contém nenhuma [[lexico:c:contradicao|contradição]] interna. O mesmo vale para o ceticismo ético e [[lexico:r:religioso|religioso]]. Mas talvez não seja [[lexico:a:apropriado|apropriado]] subordinar [[lexico:e:esse|esse]] ponto de vista ao conceito de ceticismo. Com efeito, por ceticismo entendemos, antes de mais [[lexico:n:nada|nada]], o ceticismo geral e de princípio. Para os outros pontos de vista mencionados, temos outras denominações. O ceticismo metafísico é comumente [[lexico:c:chamado|chamado]] de [[lexico:p:positivismo|positivismo]]. Segundo esse ponto de vista, que remonta a A. [[lexico:c:comte|Comte]] (1798-1857), devemos nos ater ao que é positivamente [[lexico:d:dado|dado]], aos fatos imediatos da [[lexico:e:experiencia|experiência]], mantendo-nos em guarda contra toda e qualquer [[lexico:e:especulacao|especulação]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Não existe saber ou conhecimento filosófico-metafísico, mas somente o saber e o conhecimento das ciências particulares. Para o ceticismo religioso, empregamos, na [[lexico:m:maioria-das-vezes|maioria das vezes]], a [[lexico:d:designacao|designação]] [[lexico:a:agnosticismo|agnosticismo]]. Esse ponto de vista, estabelecido por [[lexico:s:spencer|Spencer]] (1820-1903), afirma a incognoscibilidade do absoluto. O melhor seria conservar a [[lexico:e:expressao|expressão]] "ceticismo ético". Aqui, porém, estamos diante daquilo a que vamos ser apresentados logo mais sob o [[lexico:n:nome|nome]] de "[[lexico:r:relativismo|relativismo]]". Por mais errado que seja o relativismo, não podemos negar a [[lexico:s:significacao|significação]] que teve para o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] espiritual da [[lexico:h:humanidade|humanidade]] e dos indivíduos. De certo [[lexico:m:modo|modo]], ele é um [[lexico:f:fogo|fogo]] purificador para nosso [[lexico:e:espirito|espírito]], purgando-o dos erros e preconceitos e impelindo-o a checar constantemente seus juízos. Quem quer que tenha escutado em seu íntimo o "sei que nada podemos saber" faustiano, fará um [[lexico:t:trabalho|trabalho]] de [[lexico:i:investigacao|investigação]] mais cauteloso e precavido. Na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]], o ceticismo aparece como antípoda ao [[lexico:d:dogmatismo|dogmatismo]]. Enquanto o dogmatismo enche o pensador e o pesquisador de exagerada confiança em face da [[lexico:c:capacidade|capacidade]] da [[lexico:r:razao|razão]] humana, o ceticismo mantém desperto o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] do [[lexico:p:problema|problema]]. Crava o aguilhão da dúvida no peito do [[lexico:f:filosofo|filósofo]], fazendo que este não se aquiete diante das soluções já dadas a um problema, mas continue lutando por soluções novas e mais profundas. [HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. Tr. João Vergilio Gallerani Cúter. São Paulo: Martins Fontes, 2000]