===== VERIFICACIONISMO ===== (do lat. tardio verificare) 1. Procedimento que busca confirmar ou negar uma [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] ou uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] teórica através do confronto com a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], com a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] empírica, por [[lexico:m:meio:start|meio]] de observações, testes, experimentos etc. 2. O verificacionismo, também conhecido como [[lexico:p:principio:start|princípio]] ou [[lexico:t:teoria-da-verificabilidade:start|teoria da verificabilidade]], é a [[lexico:p:posicao:start|posição]] teórica, em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], que considera a [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] por meio da experiência como [[lexico:c:criterio:start|critério]] [[lexico:u:ultimo:start|último]] de [[lexico:v:validade:start|validade]] das [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] científicas. Ou seja, os enunciados complexos das leis científicas deveriam [[lexico:s:ser:start|ser]] reduzidos por [[lexico:a:analise:start|análise]] a enunciados [[lexico:s:simples:start|simples]] dizendo [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à realidade empírica, podendo assim ser concretamente verificados. Muitos são os problemas relacionados à [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de verificação e ao verificacionismo. Ex: quando é que se pode realmente considerar uma verificação como conclusiva? Seria [[lexico:n:necessario:start|necessário]] verificar uma afirmação a cada [[lexico:m:momento:start|momento]] em que esta é repetida? Nenhuma afirmação resultante da [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]] indutiva poderia ser jamais verificada. Estas e outras objeções levam a críticas, ao verificacionismo e à formulação de alternativas, como a de [[lexico:p:popper:start|Popper]], de adotar a [[lexico:r:refutacao:start|refutação]] ou falsificação como teste de validade de hipóteses. [[lexico:v:ver:start|ver]] [[lexico:f:fisicalismo:start|fisicalismo]]. É no contexto das discussões sobre os fundamentos metodológicos e epistemológicos das ciências, ocorridas nas décadas de 1920 e 1930 no [[lexico:c:chamado:start|chamado]] "[[lexico:c:circulo-de-viena:start|Círculo de Viena]]" (ver [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] [[lexico:l:logico:start|lógico]]), que o [[lexico:t:termo:start|termo]] "verificacionismo" adquire um [[lexico:s:significado:start|significado]] técnico [[lexico:p:particular:start|particular]] e se define como tópico filosófico central. [[lexico:n:nao:start|Não]] se pode entretanto afirmar que sobre o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] exista um [[lexico:a:acordo:start|acordo]] entre as principais figuras daquele [[lexico:m:movimento:start|movimento]], mas será antes correto notar que o verificacionismo aparece como um conceito diferentemente interpretado consoante as diversas, e frequentemente antagônicas, atitudes teóricas. É [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que é [[lexico:p:possivel:start|possível]] definir genericamente o verificacionismo como a posição epistemológica segundo a qual o significado de uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] depende da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de sua verificação, ou ainda do [[lexico:m:metodo:start|método]] escolhido para sua verificação. Na verdade é em grande [[lexico:p:parte:start|parte]] a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] de um critério de [[lexico:s:significacao:start|significação]] (Bedeutungskriterium) que está em [[lexico:c:causa:start|causa]] para os filósofos do [[lexico:p:positivismo-logico:start|positivismo lógico]], preocupados em grande [[lexico:m:medida:start|medida]] com uma demarcação nítida dos enunciados científicos em [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos enunciados metafísicos. Influenciados pelas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] desenvolvidas no [[lexico:t:tractatus-logico-philosophicus:start|Tractatus Logico-Philosophicus]] (1921) de [[lexico:w:wittgenstein:start|Wittgenstein]], alguns autores defenderam inicialmente um critério de significação demasiado estreito, e é a [[lexico:d:discussao:start|discussão]] desse conceito que marcará posteriormente as acepções do termo "verificação". No Tractatus uma proposição era entendida como verdadeira se, e somente se, representava um [[lexico:f:fato:start|fato]], e era falsa se não existisse nenhum fato representado. A possibilidade de [[lexico:r:representar:start|representar]] ou não o fato determinava se a proposição tinha ou não [[lexico:s:sentido:start|sentido]]. Por isso mesmo, p. ex., uma [[lexico:t:tautologia:start|tautologia]] (chove ou não chove), que não pode logicamente representar nenhum fato, não tem sentido (cf. Tractatus, 4.461 e 4.4611). Frases metafísicas, por sua vez, não apenas carecem de sentido, mas são contra-sen-sos, são absurdas linguisticamente. Segundo o jovem Wittgenstein, fatos atômicos têm de [[lexico:e:existir:start|existir]], pois eles são os constituintes elementares do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], aos quais as proposições atômicas correspondem. Desses fatos elementares se compõem os outros fatos moleculares, também eles representados por correspondentes proposições moleculares, que são fundamentalmente funções de verdade de proposições atômicas. É [[lexico:c:crucial:start|crucial]] na filosofia do Tractatus que a proposição represente a realidade e possa ser com esta comparada: só desse [[lexico:m:modo:start|modo]] poderá ela adquirir valores de verdade ou de [[lexico:f:falsidade:start|falsidade]]. Por isso é indispensável que "a realidade seja comparada com a proposição" (4.05) e que "a proposição pode ser verdadeira ou falsa apenas pelo fato de ser uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] da realidade" (4.06). Esses pressupostos, aceitos nos primeiros momentos da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do [[lexico:c:circulo:start|Círculo]], definem uma robusta [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da verdade como [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] entre [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] (proposicional) e realidade, o que acaba por originar posições críticas e distanciamento por parte de [[lexico:e:elementos:start|elementos]] proeminentes do movimento (cf. C. H. Hempel, 1980, pp. 96-108). Nesse contexto é o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] conceito de verificação ou de verificação em princípio possível que é [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de discussão. Destacam-se as posições de Neuratb e de Carnap a [[lexico:e:esse:start|esse]] respeito, cujas filosofias, ainda que não abandonem [[lexico:p:principios:start|princípios]] verificacionistas, evoluem para uma [[lexico:e:epistemologia:start|epistemologia]] em que o [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] da correspondência dá [[lexico:l:lugar:start|lugar]] ao da [[lexico:c:coerencia:start|coerência]] entre proposições de um mesmo [[lexico:s:sistema:start|sistema]]. A ciência é entendida como um sistema de proposições, e cada proposição pode ser combinada ou comparada com outras, no sentido de retirar consequências das proposições combinadas ou de confirmar se as proposições em causa são compatíveis entre si. Mas as proposições nunca são comparadas com uma "realidade" ou com "fatos". Para isso seria necessário [[lexico:t:ter:start|ter]] definido previamente um critério de [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] dos fatos a [[lexico:c:comparar:start|comparar]], o que envolveria uma nítida [[lexico:p:peticao-de-principio:start|petição de princípio]]. O primeiro autor dentro do positivismo lógico a desenvolver uma teoria [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] ao verificacionismo, assente em uma teoria da correspondência segundo o [[lexico:m:modelo:start|modelo]] do Tractatus, foi Carnap, cuja ideia fundamental se pode traduzir no seguinte: se fosse possível determinar um conjunto de proposições elementares verdadeiras, sem recorrer ao princípio de uma comparação entre sistema de proposições e a realidade, ficar-se-ia com uma base consistente para definir com rigor os critérios de [[lexico:c:compatibilidade:start|compatibilidade]] entre as proposições restantes do sistema. Essa [[lexico:c:classe:start|classe]] de proposições é constituída por todas aquelas que exprimem uma experiência imediata, sem possuir por isso mesmo nenhum [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de conteúdo [[lexico:t:teorico:start|teórico]]. Elas foram chamadas de [[lexico:p:proposicoes-protocolares:start|proposições protocolares]], e originalmente pensou-se que não necessitavam de nenhuma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:p:prova:start|prova]]. Se o [[lexico:c:criterio-de-verdade:start|critério de verdade]] do inteiro sistema de proposições verdadeiras passa a poder prescindir de um confronto ou comparação com a realidade uma por uma e o principal critério passa a ser a coerência direta ou indireta com o conjunto das proposições protocolares, então uma das consequências é uma modificação [[lexico:s:substancial:start|substancial]] do próprio conceito de verificação. Acontece que este se alargou em relação ao modo como foi concebido no início do Círculo. Basta pensar-se que se o sentido das proposições dependesse da sua verificabilidade, nesse caso dificuldades surgiriam para validar as leis empíricas (Hempel, 1980, pp. 98-9). Um [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] [[lexico:u:universal:start|universal]] é comprovado na medida simplesmente em que se procurem as suas consequências singulares, sendo verdade que essa comprovação nunca se poderá realizar por completo. Assim, uma [[lexico:l:lei:start|lei]] empírica universal não é uma [[lexico:f:funcao:start|função]] de verdade de proposições singulares, mas tem antes o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de uma hipótese. A conclusão é que uma lei daquele tipo não pode ser deduzida de verificação de uma [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] finita de proposições singulares. Acontece que esse alargamento do conceito de verificação se processa a par da introdução de certo [[lexico:f:falibilismo:start|falibilismo]]: ao admitir-se que a validação de uma lei ou de uma [[lexico:r:regra:start|regra]] assenta sempre na verificação de um [[lexico:n:numero:start|número]] [[lexico:f:finito:start|finito]] de casos regulados pela [[lexico:n:norma:start|norma]], abandona-se a ideia de uma verificação infalível. O falibilismo estende-se à classe de proposições elementares ou protocolares e que funcionam como [[lexico:g:garantia:start|garantia]] da validade de toda a teoria. Autores como Neurath e Carnap defendem que para cada proposição empírica é possível ordenar uma cadeia de testes, na qual não existe um último membro. Também no caso das proposições protocolares pode ser exigida uma [[lexico:c:confirmacao:start|confirmação]] ulterior: p. ex., um relatório [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] acerca da confiabilidade do [[lexico:o:observador:start|observador]] ou do seu perfil psicológico em [[lexico:g:geral:start|geral]]. De qualquer modo, somos sempre nós que devemos decidir a altura em que se interrompe essa cadeia de provas, e é assim que a imagem que se passa a ter do edifício da ciência deixa de ser a de uma pirâmide assente em uma base firme. Em vez disso a imagem mais adequada é, no dizer de Neurath, a de um barco que permanentemente se reconstrói em alto-mar, já que não existe uma doca seca onde acostar para ser reconstituído na globalidade (cf. Hempel, 1980, p. 101). Um dos objetivos do verificacionismo foi, como já se mencionou, traçar uma demarcação entre proposições com sentido (elegendo-se como critério do sentido o princípio da respectiva verificação) e aquelas proposições que pertencem ao domínio do contrassenso, isto é, à [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Karl Popper vem contestar o conceito de verificacionismo. A rejeição radical que Popper faz do [[lexico:p:principio-da-inducao:start|princípio da indução]] leva-o simultaneamente a rejeitar o conceito de verificação como validação das proposições empíricas. Se frases com a [[lexico:f:forma:start|forma]] "todos os x são y resultam de uma [[lexico:i:inferencia:start|inferência]] indutiva, que por sua vez exige uma verificação em princípio, então é claro para Popper que a validade em causa é inevitavelmente caracterizada pela falibilidade. Defende por isso o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista de que "a inferência por meio da experiência de proposições particulares verificáveis para a teoria não é logicamente permitida, e por isso as teorias não são empiricamente verificáveis" (Popper, 1934, p. 121). É assim que Popper propõe a [[lexico:s:substituicao:start|substituição]] do conceito de verificabilidade pelo de falseabilidade, para que continue a ser possível um critério de demarcação entre o científico e o metafísico. Não se exige mais que uma teoria ou proposição de forma universal seja verificável para se diferenciar de uma mera proposição metafísica. Requer-se, sim, que a teoria ou proposição possam ser falseáveis. Daí que não se pretenda que o sistema de proposições possa ser positiva e definitivamente definido, mas sim que sua forma [[lexico:l:logica:start|lógica]] possibilite metodologicamente uma comprovação negativa. Por outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], um sistema científico [[lexico:e:empirico:start|empírico]] deve poder ser refutado pela experiência. Mas a esse princípio de demarcação foram levantadas objeções, a que o próprio Popper se refere, salientando sobretudo a terceira: 1. Parece estranho que se valorize o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:n:negativo:start|negativo]] da refutabilidade das leis empíricas e não o aspecto [[lexico:p:positivo:start|positivo]] da sua possível e necessária verificação; 2. A refutação do princípio da [[lexico:i:inducao:start|indução]] volta-se também contra a falseabilidade como critério de demarcação; 3. Uma assimetria como a que Popper propõe entre verificabilidade e falseabilidade e a valorização desta tem como [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] que seja possível nunca se chegar a definir o falseamento de uma teoria ou proposição, já que é sempre possível também escapar a um falseamento completo. No entanto, Popper faz notar que a falseabilidade em princípio tem a ver sobretudo com a forma lógica das proposições empíricas e que aquele é o [[lexico:u:unico:start|único]] critério que pode responder ao [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]] de [[lexico:h:hume:start|Hume]] quanto à validade da indução. [António Marques] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}