===== VER ===== Um [[lexico:e:exemplo|exemplo]] para se [[lexico:c:compreender|compreender]] melhor aquilo que Gérard Simon define como «um [[lexico:e:estilo|estilo]] de [[lexico:p:presenca|presença]] no [[lexico:m:mundo|mundo]] e de presença em si que nós só podemos detetar com um sério [[lexico:e:esforco|esforço]] de distanciamento metódico, que exige uma autêntica reposição arqueológica [L’âme du monde, in Le Temps de la réfléxion, X, Paris 1989, p 123], é a [[lexico:q:questao|questão]] da vista e da [[lexico:v:visao|visão]]. Na [[lexico:c:cultura|cultura]] grega, o «ver» tem um [[lexico:e:estatuto|estatuto]] privilegiado; é tão valorizado que ocupa, no conjunto das capacidades humanas, uma [[lexico:p:posicao|posição]] hegemônica. De uma certa [[lexico:f:forma|forma]], na sua própria [[lexico:n:natureza|natureza]], o [[lexico:h:homem|homem]] é olhar. E é-o por dois [[lexico:m:motivos|motivos]], ambos determinantes. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], ver e [[lexico:s:saber|saber]] são uma e a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]]; se idein (ver) e [[lexico:e:eidenai|eidenai]] (saber) são duas formas de um mesmo [[lexico:v:verbo|verbo]], se [[lexico:e:eidos|eidos]], [[lexico:a:aparencia|aparência]], [[lexico:a:aspecto|aspecto]] visível, significa também [[lexico:c:carater|caráter]] específico, forma [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], é porque o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] é interpretado e expresso pela visão. Em segundo lugar, ver e [[lexico:v:viver|viver]] são também uma e a mesma coisa. Para se [[lexico:e:estar|estar]] vivo, tem de se ver a [[lexico:l:luz|luz]] do [[lexico:s:sol|sol]] e, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], ser-se visível aos olhos de todos. Morrer significa perder a visão e, ao mesmo tempo, a visibilidade, abandonar a luz do dia para penetrar num [[lexico:o:outro|outro]] mundo, o mundo da Noite, onde, perdido nas trevas, se é despojado da [[lexico:i:imagem|imagem]] e do olhar. Mas os Gregos [[lexico:n:nao|não]] interpretam [[lexico:e:esse|esse]] ver, tanto mais precioso quanto é conhecimento e [[lexico:v:vida|vida]], segundo os nossos parâmetros — depois de [[lexico:d:descartes|Descartes]], entre outros, [[lexico:t:ter|ter]] intervindo a esse [[lexico:r:respeito|respeito]] —, ou seja, distinguindo três níveis no [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] visual: em primeiro lugar, a luz, [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:f:fisica|física]], quer se trate de onda ou de corpúsculo; depois, o [[lexico:o:orgao|órgão]] do olho, [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] óptico, [[lexico:e:especie|espécie]] de câmara escura cuja [[lexico:f:funcao|função]] é projetar na retina uma imagem do [[lexico:o:objeto|objeto]]; por [[lexico:f:fim|fim]], o [[lexico:a:ato|ato]] propriamente [[lexico:p:psiquico|psíquico]] de captar à distância o objeto observado. Entre o ato final da [[lexico:p:percepcao|percepção]], que pressupõe uma [[lexico:i:instancia|instância]] espiritual, uma [[lexico:c:consciencia|consciência]], um «[[lexico:e:eu|eu]]», e o fenômeno material da luz existe o mesmo [[lexico:a:abismo|abismo]] que separa o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] [[lexico:h:humano|humano]] do mundo [[lexico:e:exterior|exterior]]. Pelo contrário, para os Gregos, a visão só é [[lexico:p:possivel|possível]] se entre [[lexico:o:o-que-e|o que é]] visto e aquele que vê [[lexico:e:existir|existir]] uma total [[lexico:r:reciprocidade|reciprocidade]], [[lexico:e:expressao|expressão]] se não de uma [[lexico:i:identidade|identidade]] absoluta pelo menos de uma estreita [[lexico:a:afinidade|afinidade]]. O Sol que ilumina todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] é também, no [[lexico:c:ceu|céu]], um olho que vê tudo, e se os nossos olhos veem é porque irradiam uma espécie de luz comparável à luz do Sol. O raio luminoso que emana do objeto e o torna visível é da mesma natureza do raio óptico que sai dos nossos olhos e lhes dá a visão. O objeto emissor e o sujeito [[lexico:r:receptor|receptor]], os raios luminosos e os raios ópticos pertencem a uma mesma [[lexico:c:categoria|categoria]] do [[lexico:r:real|real]], acerca da qual se pode dizer que ignora a [[lexico:o:oposicao|oposição]] físico-psíquico ou que é ao mesmo tempo de natureza física e psíquica. A luz é visão e a visão é luminosa. Como observa Charles Mugler num [[lexico:e:estudo|estudo]] intitulado La lumière et la vision dans la poésie grecque , a própria [[lexico:l:linguagem|linguagem]] testemunha essa [[lexico:a:ambivalencia|ambivalência]]. Os verbos que designam a [[lexico:a:acao|ação]] de ver (blepein, dèrkesthai, leussein) são utilizados tendo como complemento direto não só o objeto em que se fixa o olhar, mas também a [[lexico:s:substancia|substância]] ígneo-luminosa projetada pelo olho, como quando se arremessa um dardo. E esses raios de [[lexico:f:fogo|fogo]], que, para nós, são físicos, arrastam consigo os sentimentos, as paixões, os estados de [[lexico:e:espirito|espírito]], que, para nós, são psíquicos. Na realidade, os próprios verbos conjugam-se tendo como complemento direto termos que significam terror, fúria, raiva homicida. Quando alcança o objeto, o olhar transmite-lhe aquilo que o [[lexico:o:observador|observador]] sente ao vê-lo. É certo que a linguagem da [[lexico:p:poesia|poesia]] obedece a regras e a convenções específicas. Mas esta concepção do olhar está tão profundamente enraizada na cultura grega que volta a surgir em algumas observações, para nós desconcertantes, de um [[lexico:f:filosofo|filósofo]] como [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]]. No De insomniis, o [[lexico:m:mestre|mestre]] do [[lexico:l:liceu|Liceu]] afirma que, se a vista é impressionada pelo seu objeto, «também exerce uma determinada ação sobre ele», como fazem todas as coisas luminosas, na [[lexico:m:medida|medida]] em que se insere na categoria das coisas luminosas e coloridas. E prova-o com um exemplo; se as [[lexico:m:mulheres|mulheres]], durante o período menstrual, se olham num espelho, a superfície brilhante cobre-se de uma espécie de patina cor de [[lexico:s:sangue|sangue]] e essa mancha impregna tão profundamente os espelhos quando são novos que dificilmente se pode apagar (De insomniis, 2, 459b 25-31). Mas talvez seja em [[lexico:p:platao|Platão]] que o parentesco entre luz, raio de fogo emitido pelo objeto e raio projetado pelo olho, é mais claramente declarado como [[lexico:c:causa|causa]] da visão De [[lexico:f:fato|fato]], os [[lexico:d:deuses|deuses]] *«antes de qualquer outro órgão fizeram os olhos, portadores da luz (phòsphora òmmata), e colocaram-nos na cara pela seguinte [[lexico:r:razao|razão]]: com [[lexico:t:todo|todo]] aquele fogo que tem a [[lexico:p:propriedade|propriedade]] de não queimar, mas que produz uma luz agradável, imaginaram [[lexico:c:criar|criar]] o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:c:corpo|corpo]] do dia O fogo [[lexico:p:puro|puro]], que está em nós e que é da mesma natureza que esse fogo do dia, fizeram-no dímanar pelos olhos, numa corrente densa e veloz [...]. Portanto, quando a luz do dia envolve a corrente da visão (methemerinòn phós), o [[lexico:s:semelhante|semelhante]], encontrando-se com o semelhante e unindo-se estreitamente a ele, forma, na direção dos olhos, um só corpo em toda a [[lexico:p:parte|parte]] onde o raio visual, saindo do interior, depara com o objeto que encontra no exterior. E se esse corpo, tomado [[lexico:s:sensivel|sensível]] às mesmas impressões pela [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] das suas partes, toca em qualquer coisa ou por ela é tocado, transmite os seus movimentos, através do corpo, até à [[lexico:a:alma|alma]], e produz a [[lexico:s:sensacao|sensação]] a que chamamos “ver”» ([[lexico:t:timeu|Timeu]], 45b e segs)* Em [[lexico:s:suma|suma]], para [[lexico:e:explicar|explicar]] a visão, em vez de três instâncias distintas (realidade física, órgão [[lexico:s:sensorial|sensorial]], [[lexico:a:atividade|atividade]] mental), tem-se uma espécie de braço luminoso que, partindo dos olhos, se estende como um tentáculo e prolonga exteriormente o nosso [[lexico:o:organismo|organismo]]. Devido às afinidades existentes entre os três fenômenos, que consistem todos num fogo muito puro que ilumina sem queimar, o braço óptico penetra na luz do dia e nos raios emitidos pelo objeto. Unido a eles, forma um corpo [[lexico:u:unico|único]], perfeitamente [[lexico:c:continuo|contínuo]] e homogêneo, que pertence sem fracionamentos a nós próprios e ao mundo [[lexico:f:fisico|físico]]. Por isso podemos tocar no objeto [[lexico:e:externo|externo]], no local onde ele se encontra e por mais longe que esteja, projetando sobre ele uma plataforma extensível constituída por uma [[lexico:m:materia|matéria]] que é comum àquilo que é visto, a [[lexico:q:quem|quem]] vê e à luz que permite ver. O nosso olhar opera no mundo, onde tem o seu lugar como fragmento desse mundo. Não admira, portanto, que [[lexico:p:plotino|Plotino]], filósofo do século III d. C , afirme que, quando captamos qualquer objeto através da visão, *«é claro que o vemos sempre onde ele está e nos projetamos sobre ele através da visão. A [[lexico:i:impressao|impressão]] visual ocorre diretamente no local onde o objeto está colocado: a alma vê o que está fora dessa impressão (...) Porque não seria preciso olhar para o exterior se ela contivesse em si a forma do objeto que vê; olharia apenas a forma que do exterior entrara nela. [[lexico:a:alem|Além]] disso, a alma atribui uma distância ao objeto e sabe a que distância o vê: como podería ver ao longe um objeto que estivesse em si? E também sabe quais as dimensões do objeto exterior; sabe que tal objeto, por exemplo, o céu, é grande. Como seria isso possível se a forma que existe dentro dela não pode [[lexico:s:ser|ser]] das mesmas dimensões do objeto? Por fim, e trata-se da [[lexico:o:objecao|objeção]] principal, se nos esforçarmos por captar as impressões dos objetos que vemos não conseguiremos ver os próprios objetos, mas apenas imagens, sombras, e assim outros serão os objetos em si, outro será aquilo que vemos.» (Enéades, IV, 6,1, 14-32) * Citámos este excerto porque põe em destaque a [[lexico:d:diferenca|diferença]] que, a propósito da visão, existe entre nós e os Gregos. Enquanto a sua forma de interpretar não for suplantada por outra totalmente diferente, os problemas da percepção visual, tal como são propostos na [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]] (sobretudo o da percepção da distância, em que intervém a visão estereoscópica, e o da permanência da [[lexico:g:grandeza|grandeza]] [[lexico:a:aparente|aparente]] dos objetos independentemente da sua distância, que põe em [[lexico:j:jogo|jogo]] múltiplos fatores), não poderão sequer ser colocados. Tudo está regulado a partir do [[lexico:m:momento|momento]] em que o nosso olhar desliza pelos objetos do mundo a que ele próprio pertence, arrastando-nos com ele até à imensidão do céu. Neste contexto, o que é difícil não é compreender como é que a nossa visão é o que é, mas como podemos ver outra coisa e não o que existe, ou ver o objeto num lugar diferente daquele em que se encontra, por exemplo, num espelho. [VernantHG:15-18]