===== UNO ===== VIDE [[lexico:h:hen|hen]], [[lexico:m:monas|monas]], [[lexico:e:epistrophe|epistrophe]], enade, [[lexico:m:mathematika|mathematika]], [[lexico:n:nous|noûs]], [[lexico:n:noeton|noeton]], on, [[lexico:p:pronoia|pronoia]], [[lexico:p:proodos|proodos]] A [[lexico:i:ideia|ideia]] de uno como “o uno” ou “[[lexico:u:unidade|unidade]] primordial” foi desenvolvida por alguns filósofos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]] que consideraram o uno como a [[lexico:p:propriedade|propriedade]] de tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]], do [[lexico:u:universo|universo]] em conjunto, quer dizer, enquanto uno ou unidade. Parmenides fundou grande [[lexico:p:parte|parte]] da sua doutrina da [[lexico:v:verdade|verdade]] no [[lexico:c:conceito|conceito]] de uno. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], o que é uno [[lexico:n:nao|não]] pode [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:m:multiplo|múltiplo]], pois precisamente o uno se opõe ao múltiplo, que é o [[lexico:r:reino|reino]] da [[lexico:i:ilusao|ilusão]] e da [[lexico:o:opiniao|opinião]]. O uno é a [[lexico:i:identidade|identidade]] pura, a pura simplicidade e a pura uniformidade. A [[lexico:e:especulacao|especulação]] de Parmenides sobre o uno e a unidade foi continuada por [[lexico:p:platao|Platão]], o qual concebeu toda a ideia como unidade. A ideia é a unidade do múltiplo, pois na unidade da ideia reconhecesse e concentra-se a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]]. Assim, toda a [[lexico:a:acao|ação]] generosa é generosa porque participa do ser generoso, que é uno: a ideia do ser generoso ou da generosidade é a unidade de muitos atos generosos. Em Platão adquire maturidade uma das questões filosóficas fundamentais: a chamada [[lexico:q:questao|questão]] do uno e do múltiplo, que tem diversos aspectos. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a ideia é una, mas pode perguntar-se é una porque participa da ideia do uno (em cujo caso há duas unidades) ou se é una sem participar da ideia do uno (em cujo caso não só há duas unidades, mas duas unidades separadas). Por [[lexico:o:outro|outro]] lado embora cada ideia seja una, há uma multiplicidade de [[lexico:i:ideias|ideias]], de [[lexico:m:modo|modo]] que a ideia deve participar também da multiplicidade e ser simultaneamente una e múltipla. Platão tratou, especialmente no Parmenides, de resolver o [[lexico:p:problema|problema]] do uno e da unidade desenvolvendo uma dialéctica da unidade. Esta começa com as [[lexico:h:hipoteses|hipóteses]]: “se o uno é”, “se o uno não é”. Se o uno é, ou o uno é uno ou o uno é ou o uno ée não é. Se o uno é uno e só uno, o uno não é [[lexico:n:nada|nada]] mais, nem sequer ser. Se o uno é, o uno inclui o múltiplo do qual é unidade. Se o uno é e não é, o uno é também o outro, e então não é uno (quer dizer, o mesmo), etc. A [[lexico:i:intencao|intenção]] principal desta dialéctica da unidade é mostrar que a [[lexico:h:hipotese|hipótese]] do uno em suas diversas formas conduz a excluir o ser ou negar o uno, de modo que não pode prescindir-se do uno. Deve advertir-se que esta dialéctica não exclui a unidade numérica, mas fundamenta-a no que se chamou “unidade [[lexico:m:metafisica|metafísica]]”. Com efeito, metafisicamente falando, o que importa é, como diz Platão, não que um [[lexico:e:ente|ente]] seja um ente, mas que seja uno, não um boi, mas o boi uno. Nas análises de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] transparecem diversos modos de dizer uno que obrigam a considerar uno como um conceito analógica.. Com efeito, diz-se de algo que é uno, porque é indivisível na [[lexico:m:medida|medida]] em que carece de partes; neste caso a unidade equivale à simplicidade. Diz-se, por outro lado, de algo que é uno, porque, embora esteja [[lexico:c:composto|composto]] de partes, a [[lexico:s:soma|soma]] das partes constitui a unidade. Em ambos os casos trata-se de unos, mas a primeira unidade é diferente da segunda. Estas duas espécies fundamentais de ser uno são similares, ou talvez idênticas, às logo chamadas unidades físicas, a primeira, indivisível e [[lexico:s:simples|simples]], como um [[lexico:e:espirito|espírito]]; a segunda, composta e divisível, mas deixando de ser unidade quando é efetivamente dividida. A questão de como é [[lexico:p:possivel|possível]] conceber o uno como absolutamente uno, sem nenhuma [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]], e ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] conceber a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de que o uno emana a pluralidade foi um dos grandes problemas postos por Platão que ocuparam os neoplatônicos. Para estes e, em especial, para [[lexico:p:plotino|Plotino]], o uno é a [[lexico:h:hipostase|hipóstase]] originária, a primeira e [[lexico:s:superior|superior]] [[lexico:r:realidade|realidade]], o que possui em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] o seu haver e, por conseguinte, pode ser [[lexico:c:chamado|chamado]] com toda a propriedade a [[lexico:s:substancia|substância]]. Mas seria erróneo confundir o uno, como às vezes sucede, com a [[lexico:e:expressao|expressão]] [[lexico:l:logica|lógica]] do conjunto das realidades, ou com este conjunto mesmo enquanto unidade orgânica. A [[lexico:n:nocao|noção]] plotiniana de uno apoia-se muito amiúde na ideia (ou na [[lexico:s:suposicao|suposição]]) de que o [[lexico:p:principio|princípio]] é diferente dos principiados. O ser não é nenhum dos seres; é anterior a todos no duplo [[lexico:s:sentido|sentido]] de que [[lexico:c:comeco|começo]] e [[lexico:f:fundamento|fundamento]]. É revelador que os parágrafos que Plotino escreve para dilucidar esta questão tenham um [[lexico:c:carater|caráter]] predominantemente metafóricos: “é [[lexico:p:potencia|potência]] de tudo; se ele não existe nada existe, nem os seres, nem a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], nem a [[lexico:v:vida|vida]] primeira, nem nenhuma outra. Encontra-se acima da vida e é [[lexico:c:causa|causa]] dela; a [[lexico:a:atividade|atividade]] da vida em que consiste [[lexico:t:todo|todo]] o ser não é primeira; brota do uno como de um manancial. Imaginem um manancial que não tenha [[lexico:p:ponto|ponto]] de [[lexico:o:origem|origem]]; ele dá a sua água a todos os rios, mas nem por isso se esgota. Permanece, apascível, ao mesmo nível de sempre. Os rios dele brotados confundem imediatamente as suas águas antes de cada qual seguir o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] curso. Mas já cada qual sabe aonde o arrastará o seu fluir. Imaginem também a vida de uma árvore imensa; a vida circular através da árvore inteira. Mas o princípio da vida permanece imóvel; não se dissipa em toda a árvore, antes segue nas raízes. Este princípio proporciona à planta a vida nas suas manifestações múltiplas, com ele mesmo permanece imóvel e, sem ser múltiplo, é princípio desta multiplicidade”. (ENÉADAS). O uno é, portanto, [[lexico:f:fonte|fonte]] de toda [[lexico:e:emanacao|emanação]], origem da inteligência e da [[lexico:a:alma|alma]], mas o seu originar-se não é um perpétuo fazer-se, mas um ser já feito, que representa ao mesmo tempo o princípio e a recapitulação das [[lexico:c:coisas|coisas]]. Deste germe nasce tudo, mas os seres diferentes a que dá origem não são desenvolvimentos inesperados ou azarentos de uma semente, mas derivações de um princípio que contém já quanto há de ser no curso de seu [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]]. Pois os seres são, em rigor, imagens desta unidade que é simultaneamente culminação e base, origem e [[lexico:f:finalidade|finalidade]], ponto em que tudo se recolhe e ao qual tudo remonta, mas como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de recolhimento [[lexico:m:mediato|mediato]], pois não há uma derivação direta de qualquer ser ao uno, mas o encaixe de cada [[lexico:c:coisa|coisa]] com a sua unidade superior. O recolhimento do [[lexico:r:real|real]] é, por conseguinte, o recolhimento no uno por um [[lexico:p:processo|processo]] que não pode classificar-se de exclusivamente [[lexico:l:logico|lógico]] nem de exclusivamente [[lexico:t:temporal|temporal]], porque é como a [[lexico:a:absorcao|absorção]] na [[lexico:e:eternidade|Eternidade]] de um tempo que é a [[lexico:i:imagem|imagem]] do [[lexico:e:eterno|eterno]] e que, portanto, se encontra no eterno no sentido em que o precipitado se encontra em seu [[lexico:a:absoluto|absoluto]] princípio. Daí a dificuldade de adscrever ao uno qualquer [[lexico:d:determinacao|determinação]] positiva e a [[lexico:t:tendencia|tendência]] para o considerar como “tudo e nada”. Pois [[lexico:f:falar|falar]] do uno dizendo que é isto e aquilo é recorrer à [[lexico:m:metafora|metáfora]]. E daí também a caraterística vacilação nas especulações sobre o uno entre um conceito de unidade como identidade e um conceito de unidade como [[lexico:h:harmonia|harmonia]]. A primeira tendência acaba por suprimir o real e aniquilar a própria noção de hipóstase. A segunda não nega a limitada [[lexico:s:subsistencia|subsistência]] do [[lexico:p:particular|particular]] e quer precisamente salvá-la. Ambas as noções se entrelaçam em qualquer [[lexico:s:sistema|sistema]] emanatista: uma predomina quando se [[lexico:f:fala|fala]] do princípio primeiro, a outra, quando se fala daquilo que o princípio contém e reflecte em si mesmo como sua imagem. Os escolásticos ocuparam-se com frequência do problema da [[lexico:n:natureza|natureza]] do uno e da sua unidade. S. Tomás começa por perguntar a si próprio se a unidade adiciona algo ao ser e manifesta que assim parece acontecer, porquanto 1. Tudo o que pertence a um [[lexico:g:genero|gênero]] determinado se agrega ao ser (e o uno é um gênero determinado); 2. O ser pode dividir-se em uno e múltiplo, e 3. Dizer “este ser é uno” não é uma [[lexico:t:tautologia|tautologia]], como o seria se o uno não agregasse nada ao ser. Mas como já indicou o Pseudo Dionísio, nada há do que existe que não participe da unidade. Pode concluir-se que a unidade não adiciona ao ser nada real, mas que separa dele apenas a ideia de [[lexico:d:divisao|divisão]]. O uno é o ser não dividido, de modo que o ser e o uno são convertíveis. Como o ser de uma coisa comporta a sua indivisão, o seu ser e a sua unidade são o mesmo (implicam-se mutuamente). É preciso distinguir, no ente, entre a unidade numérica e o uno como [[lexico:i:identico|idêntico]] ao ser; só o uno numérico adiciona algo ao ser, quer dizer, um [[lexico:a:atributo|atributo]] pertencente ao gênero da [[lexico:q:quantidade|quantidade]]. O conceito metafísico de uno é o que compete a [[lexico:d:deus|Deus]], quando se diz que Deus é Uno. Deus é uno pela sua simplicidade, pela sua ilimitada [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] e pela unidade do [[lexico:m:mundo|mundo]]. [[lexico:a:alem|Além]] disso, Deus é soberana ou maximamente uno e [[lexico:i:individuo|indivíduo]], não estando dividido nem em [[lexico:a:ato|ato]] nem em potência, e nisto distingue-se a unidade de Deus da de outras [[lexico:s:substancias|substâncias]]. As discussões modernas em torno do conceito do uno e da unidade fundavam-se em considerações gnoseológicas; em vez de partir do conceito de uno e da unidade, partiam da questão de como pode reconhecer-se que algo é uno e discutiam amiúde se a identidade se baseia na unidade [[lexico:s:substancial|substancial]] ou se esta é uma ideia vazia. Os empiristas tendiam a excluir a ideia de unidade substancial, mas [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] tratou de restabelecer tal ideia na sua a [[lexico:t:teoria|teoria]] monadológica. Também neste ponto [[lexico:k:kant|Kant]] tratou de [[lexico:s:superar|superar]] a [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre uma concepção puramente empírica e [[lexico:g:genetica|genética]] da unidade e uma concepção exclusivamente [[lexico:r:racional|racional]] e metafísica. O conceito de unidade é, segundo Kant um dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] do [[lexico:e:entendimento|entendimento]] ou [[lexico:c:categorias|categorias]], é o conceito que corresponde ao [[lexico:j:juizo|juízo]] [[lexico:u:universal|universal]], pois neste toma-se um conjunto (todos) como um uno do qual se predica algo. A ideia de unidade pode portanto proceder da [[lexico:e:experiencia|experiência]]. Mas não está justificada pela experiência. Por outro lado, a ideia de unidade como unidade do ser realíssimo transcende toda a experiência. A unidade não é um [[lexico:p:predicado|predicado]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] das coisas, mas requisito lógico de todo o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. O conceito de unidade é ainda mais fundamental em [[lexico:h:hegel|Hegel]]. A dialéctica hegeliana da unidade é a da unidade em si e é negada pela pluralidade. Mas a [[lexico:n:negacao|negação]] da pluralidade dá [[lexico:l:lugar|lugar]] a uma [[lexico:s:sintese|síntese]] que é a unidade dos opostos. A ideia deste [[lexico:t:tipo|tipo]] de unidade encontra-se em vários autores anteriores a Hegel e a eles nos referiremos no artigo Oposição. Com efeito, sempre que se tentou encontrar um ponto de reunião e conciliação de opostos, surgiu uma ideia de unidade que havia sido já antecipada por Platão, mas que só Hegel desenvolveu sistematicamente, fazendo dela o primeiro princípio de toda a realidade. Diz-se que é um, o que é individual in se (em si). 1) Diz-se que é unidade a [[lexico:f:forma|forma]] lógica 2) também o caráter do que é um. O Um tem um grande papel no [[lexico:p:pitagorismo|pitagorismo]] e no [[lexico:n:neopitagorismo|neopitagorismo]]. Aqui, a unidade é expressão da perfeição: reduzem os pitagóricos a multiplicidade do real a uma unidade de espécie superior. Para eles, o Um é oposição entre o [[lexico:l:limite|limite]] e o [[lexico:i:ilimitado|ilimitado]]; a unidade serve de [[lexico:m:momento|momento]] de [[lexico:t:tensao|tensão]] e, por sua vez, de aproximação de dois gêneros de realidade: 1) a que se perde no contorno do [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]]; 2) o limite e a medida. Para os platônicos, Um, como [[lexico:b:bem|Bem]], é a culminação dá [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] das ideias. Para Plotino, o Um é a hipóstase originária, a primeira e superior realidade, que tem em si mesma seu haver (distinga-se" de [[lexico:t:ter|ter]]), como substância, que não se deve confundir com o Todo (conjunto das realidades). Para Plotino, o principio é diferente do principiado (este decorre daquele). O ser, para ele (como um) não é nenhum dos seres (entes); é anterior a todos, no duplo sentido de ser começo e de ser fundamento. Assim Um, fonte de toda emanação, origem da Alma, não é um perpétuo fazer-se, mas um ser já feito, que representa, ao mesmo tempo, principio e recapitulação das coisas. Os seres, que virão, ele (um) já os contém. O um é base, origem, e finalidade de tudo. É “tudo e nada”. Não é "isto" nem "aquilo". Em [[lexico:s:suma|suma]]: o ser (ontologicamente) é um; onticamente, no [[lexico:d:devir|devir]], múltiplo. Do ser, não se pode deixar de predicar univocamente a unidade como Um (unidade perfeita). Quando predico o ser a [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] e a outras coisas, predico sempre o mesmo ([[lexico:u:univocidade|univocidade]] do ser), mas onticamente o ser é [[lexico:e:equivoco|equívoco]], pois o ser deste [[lexico:o:objeto|objeto]] é diferente do ser daquele outro (um livro e uma estante). A todo ente ([[lexico:o:ontico|ôntico]]) predico o ser. O ser deste ente, não é, como ser [[lexico:o:ontologico|ontológico]], diferente do ser daquele ente. O ser é, ontologicamente, [[lexico:u:univoco|unívoco]], embora ônticamente, na presencialidade do devir, diferente, por isso é [[lexico:a:analogo|análogo]] como veremos. A unidade também pode ser compreendida como tensão (harmonia que dá [[lexico:c:coerencia|coerência]], coesão aos entes). Neste caso, temos a unidade do ente (que hibridamente é [[lexico:a:ato-e-potencia|ato e potência]]), ou seja, a unidade imperfeita.