===== UNIVERSO ===== (gr. to pan; lat. universum; in. Universe; fr. Univers; al. Universum; it. Universo). 1. Um [[lexico:t:todo:start|todo]] qualquer: p. ex., "[[lexico:u:universo-do-discurso:start|universo do discurso]]", "universo das estrelas fixas" ou "universo visível". 2. O todo da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] [[lexico:f:fisica:start|física]], sem mencionar sua [[lexico:o:ordem:start|ordem]]. Este é o [[lexico:s:significado:start|significado]] atribuído a [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] por [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] (Met., V, 26, 1024 a I) e pelos estoicos (Stobeo, ECL, I, 21, pp. 442 ss.). 3. O mesmo que [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Este [[lexico:u:uso:start|uso]] prevalece entre os modernos (v. mundo; [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]; todo). Conjunto do que existe. — Na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] religiosa, o universo designa o conjunto da [[lexico:c:criacao:start|criação]] (o mundo e o [[lexico:h:homem:start|homem]]). A [[lexico:n:nocao:start|noção]] evoca mais geralmente o mundo [[lexico:f:fisico:start|físico]], [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]]: o conjunto das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre os fenômenos, isto é, o conjunto das leis que estruturam o mundo; nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], a [[lexico:t:teoria-da-relatividade:start|teoria da relatividade]] dá as leis do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do universo. A noção de mundo é menos vasta que a de universo; implica sempre numa certa [[lexico:e:especificacao:start|especificação]]: mundo físico, biológico, [[lexico:m:moral:start|moral]] ou [[lexico:h:humano:start|humano]] (fala-se mesmo do "mundo" dos pássaros, do "mundo" dos peixes etc); o universo evoca a totalidade de todos esses [[lexico:m:mundos:start|mundos]]. (V. mundo.) (lat. universum) 1. Em seu sentido [[lexico:g:geral:start|geral]], universo designa o conjunto de tudo o que existe no [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e no [[lexico:e:espaco:start|espaço]]. O universo se distingue do mundo, pois pode haver vários mundos, ao passo que só há um universo. Nesse sentido, ele é ‘a totalidade fenomenal. 2. Universo do [[lexico:d:discurso:start|discurso]]: [[lexico:e:expressao:start|expressão]] introduzida pelos lógicos (fala-se também de "universo de [[lexico:r:referencia:start|referência]] ) para designar o conjunto ao qual se vincula, pelo [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], os objetos dos quais se [[lexico:f:fala:start|fala]] ou que são pressupostos em um certo discurso. Ex.: "o universo da física". A [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] "os cães, os ratos e os canários [[lexico:n:nao:start|não]] falam" é verdadeira no universo do discurso da zoologia, mas falsa no da [[lexico:f:fabula:start|fábula]] ou da [[lexico:l:literatura:start|literatura]] infantil. 3. [[lexico:u:universal:start|universal]] é um [[lexico:a:adjetivo:start|adjetivo]] exprimindo a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de [[lexico:e:extensao:start|extensão]] completa de um conjunto. Mas há vários valores de "universal": a) "que se estende a todo o universo": a gravitação universal; b) "que se estende a todos os [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]]": os [[lexico:p:principios:start|princípios]] [[lexico:u:universais:start|universais]] da [[lexico:r:razao:start|razão]]; c) "que se estende a toda uma [[lexico:c:classe:start|classe]] de objetos": "todos os homens são [[lexico:m:mortais:start|mortais]]" é uma proposição universal. [[lexico:v:ver:start|ver]] universal/universais. 4. Na [[lexico:e:epistemologia:start|epistemologia]] histórica, considera-se que a ciência [[lexico:m:moderna:start|moderna]], inaugurada no século XVII, notadamente por Galileu, destruiu a [[lexico:r:representacao:start|representação]] ordenada, finita e fechada do uni-verso como [[lexico:c:cosmo:start|cosmo]], imaginada pelo [[lexico:s:sistema:start|sistema]] aristotélico-ptolomaico, substituindo-a por uma nova concepção, qual seja, a de um universo [[lexico:a:aberto:start|aberto]], [[lexico:i:infinito:start|infinito]] ou, pelo menos, [[lexico:i:indefinido:start|indefinido]]. A [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]] copernicano-galileana destituiu de seu [[lexico:l:lugar:start|lugar]] dominante a concepção "cosmológica" dos antigos e inaugurou a concepção de um universo como o lugar de todos os fenômenos e o [[lexico:s:substrato:start|substrato]] de todas as experiências possíveis para o pensamento. Durante muito tempo se perguntou se o universo foi "criado" por alguma [[lexico:f:forca:start|força]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]] a ele ou [[lexico:i:imanente:start|imanente]], ou se ele é "[[lexico:e:eterno:start|eterno]]". Em todo caso, os "limites" do universo são inapreensíveis diretamente, pelo pensamento, no espaço e no tempo. A [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da [[lexico:r:relatividade:start|relatividade]] introduziu a representação de um universo ao mesmo tempo curvo e não-finito. O substantivo universo corresponde ao adjetivo universal que significa, etimologicamente, a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] vertida ou distribuída na [[lexico:a:alteridade:start|alteridade]]. O significado [[lexico:r:real:start|real]] da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] não deixa de coincidir, em [[lexico:p:parte:start|parte]], com sua etimologia, pois as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] de unidade e de alteridade, ou de [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]], são essenciais, embora não a esgotem, à ideia de universo, que inclui, também, a noção de totalidade. A [[lexico:e:especie:start|espécie]] humana, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], é um universal, como qualquer outra espécie [[lexico:a:animal:start|animal]], porque envolve as duas noções de unidade e de multiplicidade, mas não é um universo. Cada [[lexico:s:ser:start|ser]] humano é, ao mesmo tempo, individual e específico, realizando simultaneamente a particularidade que o distingue dos demais indivíduos e a universalidade da espécie humana. Os gêneros e as espécies constituem, assim, unidades múltiplas, ou multiplicidades unas, [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] e realidades universais, mas não universos. Não ocorreria [[lexico:f:falar:start|falar]] no universo das plantas ou dos pássaros, embora haja uma variedade infinita de plantas e de pássaros. Os gêneros e as espécies são, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], totalidades, pois o [[lexico:g:genero:start|gênero]] animal inclui, no seu [[lexico:c:conceito:start|conceito]], a totalidade dos animais, assim como a espécie humana compreende, na sua noção, a totalidade dos homens. Não são universos, os gêneros e as espécies, embora sejam totalidades, porque são totalidades parciais, que não se bastam a si mesmas. A espécie humana, por exemplo, é uma totalidade parcial, que pressupõe uma totalidade mais ampla, o gênero animal em que se acha inclusa. Assim como os gêneros e as espécies, o sistema também é uma totalidade parcial, que não pode ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] de universo porque implica, no seu conceito e na sua [[lexico:e:existencia:start|existência]], outros sistemas, outras totalidades que o contém. O sistema respiratório, por exemplo, é uma totalidade, um conjunto de órgãos que se basta a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] no exercício da [[lexico:f:funcao:start|função]] que lhe é própria, mas que pressupõe, enquanto totalidade, o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] humano de que faz parte, e sem o qual não teria sentido ou razão de ser. Embora de natureza diferente, e mencionados apenas a título de exemplo, os gêneros e as espécies, assim como os sistemas, são totalidades, mas não universos, porque são totalidades parciais, inclusas em outras totalidades mais amplas. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] sistema solar, de que faz parte a [[lexico:t:terra:start|Terra]], está longe de confundir-se com o universo, no qual não passa de um "[[lexico:p:ponto:start|ponto]] imperceptível", como diz Henri Poincaré. A ideia de universo inclui, assim, [[lexico:a:alem:start|além]] das ideias de unidade, de multiplicidade e de totalidade, a noção de totalidade total, ou única, que inclui ou compreende todas as demais. Quando se fala em universos, no plural, comete-se uma impropriedade [[lexico:s:semantica:start|semântica]], pois, a rigor, o universo é um só e, por isso, é uni-verso e não poli-verso. A ideia de universo entendido como totalidade total, como unidade englobando todo o existente, é a ideia suprema da razão, que não pode conceber vários universos heterogêneos, desarticulados e desconexos uns em [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos outros. A rigor, a ideia de Universo, com maiúscula, se confunde com a noção de [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], pois enquanto as totalidades parciais implicam, para ser concebidas e [[lexico:e:existir:start|existir]], totalidades mais amplas que as incluem, a totalidade total se basta a si mesma, de [[lexico:n:nada:start|nada]] dependendo para ser [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]]. A noção de Universo, ou de Absoluto, é, assim, a única ideia em que a razão humana pode repousar, a única em que encontra satisfação para sua exigência infinita de totalização e de unificação. Essa é a exigência que se encontra na [[lexico:r:raiz:start|raiz]] do [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]] que, não se podendo satisfazer com as unificações parciais, operadas pelas ciências particulares, procura integrar a totalidade do existente em uma cosmovisão única e coerente, de amplitude universal. Englobante [[lexico:u:ultimo:start|último]], o conceito de universo não poderia conciliar-se com a ideia de um [[lexico:d:deus:start|Deus]] que lhe fosse estranho ou exterior, [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] em que deixaria de ser universo, pois deixaria de englobar ou incluir a totalidade do existente. Do ponto de vista da razão, a única noção de Deus compatível com a ideia de Universo ou de Absoluto, como compreenderam [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] e [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], seria a [[lexico:i:ideia-de-deus:start|ideia de Deus]] interior e não exterior, imanente e não [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] ao Universo, a ideia de Deus entendido como Razão do próprio Universo. **[[lexico:e:evolucao:start|Evolução]] da ideia de Universo.** A [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do conceito [[lexico:a:atual:start|atual]] do Universo implica a [[lexico:h:historia:start|história]] do conceito que, a rigor, implica a história da [[lexico:r:religiao:start|religião]], da filosofia e da ciência. A menos que se considere a [[lexico:s:situacao:start|situação]] atual da ciência e da filosofia como definitivas, suas posições, teorias e [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]], não passam de momentos de um [[lexico:p:processo:start|processo]], que consiste no desvelamento progressivo da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] pela razão humana. Tal processo, que se confunde com o que se poderia chamar de história da razão, revela que a razão humana é [[lexico:s:social:start|social]] e histórica e que a realidade não se descobre de uma só vez, ao mesmo homem, mas aos poucos, e às diversas gerações que se sucedem ao longo do tempo. Tal processo, sendo [[lexico:h:historico:start|histórico]], quer dizer, cumulativo e [[lexico:i:irreversivel:start|irreversível]], não é [[lexico:a:arbitrario:start|arbitrário]] e desordenado, mas, ao contrário, [[lexico:c:consequente:start|consequente]] e [[lexico:r:racional:start|racional]], obedecendo a regularidades e a leis que o explicam e tornam [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. Com isso se quer dizer que a história da razão é ela própria racional. E a história da razão é racional porque é a história do homem, cuja [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]], ou específica, é a [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]]. Em dois planos, ou em dois registros, se desenrola a história da razão, quer dizer, o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]], o [[lexico:e:esforco:start|esforço]] do homem pela [[lexico:c:coerencia:start|coerência]], pela unidade e pelo sentido. No [[lexico:p:plano:start|plano]] da natureza, que o homem procura conhecer e dominar por [[lexico:m:meio:start|meio]] das ciências naturais, da [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] e da indústria, e no plano da própria história, que o homem também procura dominar por meio das ciências chamadas humanas e das técnicas que lhes são correspondentes, como a [[lexico:p:politica:start|política]], a [[lexico:e:etica:start|ética]] e a [[lexico:p:pedagogia:start|pedagogia]]. Nos dois planos, é a mesma [[lexico:l:luta:start|luta]] que se trava, por meio da mesma arma, que é a razão. E tanto em um quanto em [[lexico:o:outro:start|outro]], o [[lexico:p:projeto:start|projeto]] é o mesmo, o de transformar a natureza, humanizando-a, e o de transformar o homem, fazendo-o coincidir com o [[lexico:i:ideal:start|ideal]] da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], quer dizer, da racionalidade. A história do conceito de Universo, inseparável da história da religião, da filosofia e da ciência, teria assim percorrido três etapas, que podem eventualmente coexistir no contexto de uma mesma [[lexico:c:cultura:start|cultura]], embora em cada contexto uma delas deva prevalecer em relação às demais. A primeira etapa se caracteriza pela concepção religiosa, a segunda pela concepção [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] e a terceira pela concepção científica do Universo. De [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com a concepção religiosa, o mundo além de [[lexico:t:ter:start|ter]] sido criado por Deus ou pelos [[lexico:d:deuses:start|deuses]], é por eles governado, à revelia do homem e de sua [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]. Diante de Deus, ou dos deuses, infinitamente poderosos, o homem não passa de um ser indefeso e temeroso, sempre à mercê dessas entidades superiores, que dele dispõem como os senhores dos [[lexico:e:escravos:start|escravos]]. **Concepção grega do Universo.** A filosofia e a ciência grega pressupõem as teogonias e as cosmogonias, tais [[lexico:c:como-se:start|como se]] acham concebidas nas obras de Homero e de [[lexico:h:hesiodo:start|Hesíodo]]. O mundo, que incluía a totalidade daquilo que se conhece, compreende os deuses, imortais, os homens, mortais, e a natureza, que os gregos chamavam de [[lexico:p:physis:start|physis]]. Tanto a natureza quanto os homens estão à mercê dos deuses imortais, de seus caprichos, de suas cóleras, de suas paixões, pois os deuses, embora sejam divinos e imortais, são concebidos à [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] dos homens, tendo também os seus vícios e as suas [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]]. A concepção religiosa e mitológica é criticada pela filosofia e pela ciência, que se propõem, desde as suas [[lexico:o:origens:start|origens]], a substitui-la por uma concepção racional e [[lexico:l:logica:start|lógica]] do Universo. Nos primeiros filósofos gregos, chamados [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]], encontramos o esboço das cosmovisões que [[lexico:p:platao:start|Platão]] e Aristóteles tentarão sistematizar dois séculos mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]]. Partindo do mesmo [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]], da [[lexico:i:identidade:start|identidade]] do pensamento e do ser, ou da razão e da realidade, [[lexico:p:parmenides-e-heraclito:start|Parmênides e Heráclito]] formulam as duas teses que irão determinar todo o pensamento ulterior, a da unidade e imobilidade e a da multiplicidade e mobilidade do ser. De acordo com [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]], o Ser, isto é, o Universo, o Absoluto, é incriado, imperecível, completo, imóvel e eterno, assemelhando-se à "[[lexico:m:massa:start|massa]] de uma [[lexico:e:esfera:start|esfera]] [[lexico:b:bem:start|Bem]] arredondada, que se equilibra em si mesma em todos os seus pontos". Segundo [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] o [[lexico:l:logos:start|Logos]] "tudo governa", o mundo, que é o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus e por nenhum homem, sempre foi, é e será um [[lexico:f:fogo:start|fogo]] sempre vivo "que se acende e se apaga com [[lexico:m:medida:start|medida]]". Ainda no período [[lexico:p:pre-socratico:start|pré-socrático]], as filosofias posteriores ao [[lexico:e:eleatismo:start|eleatismo]] e ao heracliteísmo, como as de [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]], [[lexico:e:empedocles:start|Empédocles]] e [[lexico:a:anaxagoras:start|Anaxágoras]], são tentativas de conciliação e de [[lexico:s:superacao:start|superação]] dessas duas posições extremas. De todas, a mais significativa é a de Demócrito que lança os fundamentos de uma concepção rigorosamente cientifica do Universo, concebendo como [[lexico:c:composto:start|composto]] de átomos e de [[lexico:v:vazio:start|vazio]]. Os átomos e o vazio, assim como o [[lexico:m:movimento:start|movimento]], são eternos, sempre existiram, e suas infinitas combinações dão [[lexico:o:origem:start|origem]] a todos os seres. Segundo Platão, cuja [[lexico:c:cosmogonia:start|cosmogonia]] se acha expressa no [[lexico:m:mito:start|mito]] do [[lexico:t:timeu:start|Timeu]], pois a física é apenas um passa-tempo para o [[lexico:e:espirito:start|espírito]], o mundo, [[lexico:o:obra:start|obra]] de um [[lexico:d:demiurgo:start|demiurgo]], é uma obra bela e, além disso, viva. Cópia corpórea e [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] do [[lexico:m:modelo:start|modelo]] inteligível, o mundo está habitado por uma [[lexico:a:alma:start|alma]] que é uma [[lexico:m:mistura:start|mistura]] da [[lexico:e:essencia:start|essência]] indivisível, unidade absoluta de todo inteligível, da essência divisível, ou multiplicidade que caracteriza os corpos e seu [[lexico:v:vir-a-ser:start|vir-a-ser]], e de uma terceira essência, intermediária, a existência, que participa das duas primeiras. O centro da alma, que é uma espécie de envelope esférico do corpo do mundo, coincide com o centro do mundo, e seus movimentos circulares se confundem. O corpo do mundo é composto do fogo e da terra, entre os quais se interpõe, por [[lexico:m:motivos:start|motivos]] de ordem [[lexico:m:matematica:start|matemática]], a água e o [[lexico:a:ar:start|ar]], matérias ou [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que pré-existem à [[lexico:a:acao:start|ação]] do demiurgo e cujo [[lexico:c:comeco:start|começo]] de organização é explicado mecanicamente. Ao contrário de Platão, para o qual a física só poderia ser objeto de um "conhecimento bastardo", o mundo [[lexico:n:natural:start|natural]], para Aristóteles, pode ser objeto de conhecimento racional ou epistemológico. O mundo, ou Universo, é chamado, pelo Estagirita, de [[lexico:c:ceu:start|céu]], porque envolve e contém todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. [[lexico:u:unico:start|Único]], não tem nem começo nem [[lexico:f:fim:start|fim]], nada existe fora dele, é [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] e [[lexico:f:finito:start|finito]], formando uma esfera que se move de acordo como o movimento mais perfeito que é o movimento circular. O mundo inclui [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] corpos [[lexico:s:simples:start|simples]] ou elementares, a terra, a água, o ar e o fogo, aos quais se acrescenta uma quinta essência, o [[lexico:e:eter:start|éter]], que não comporta nenhuma espécie de [[lexico:m:mudanca:start|mudança]]. O Universo se divide em duas grandes regiões: o céu propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]], que se estende do "primeiro céu" até a lua, incluindo as estrelas fixas cujo movimento é regular, eterno e circular. Os astros e os planetas não são menos imóveis do que as estrelas fixas, não tendo nenhum movimento próprio, nem de rotação nem de translação. O que se move circularmente é a esfera que carrega o astro, esfera única no caso das estrelas, esferas múltiplas no caso dos planetas. Segundo Aristóteles, a fim de que o movimento de cada esfera planetária não seja alterado pelo movimento da outra esfera em que está encaixada, é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] introduzir, para preservar a unidade do sistema, outras esferas compensadoras. Excluindo dos planetas o [[lexico:s:sol:start|sol]] e a lua, as esferas intermediárias entre Vénus e o sol e entre o sol e a lua, tem-se um total de quarenta e sete esferas encaixadas concéntricamente no primeiro céu. A segunda [[lexico:r:regiao:start|região]] do Universo é a região sublunar, cujo centro é a terra. Mais distante do "[[lexico:p:primeiro-motor:start|primeiro motor]]" que o céu, caracteriza-se pela [[lexico:g:geracao:start|geração]] e pela [[lexico:c:corrupcao:start|corrupção]] das [[lexico:s:substancias:start|substâncias]], cuja [[lexico:m:materia:start|matéria]] não é mais perfeitamente determinada, como a do mundo sideral, mas é, ao contrário, pura [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]]. Nesse mundo, onde reina a [[lexico:c:contingencia:start|contingência]], o [[lexico:a:acidente:start|acidente]] e o [[lexico:a:acaso:start|acaso]], a descontinuidade é a [[lexico:n:norma:start|norma]] do movimento, mesmo regular. Os elementos que se constituem nessa região são inferiores ao éter, misturando-se e transformando-se uns nos outros, o que permite considerá-la a região dos mistos, ou das misturas. Na [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] dos mistos, os meteoros (nuvens, ventos, chuvas, etc.) são os mais instáveis, sendo menos instáveis os próprios da terra. Esses mistos terrestres são, como dizia Empédocles, [[lexico:h:homeomerias:start|homeomerias]], uns inorgânicos, derivados da terra e da água, e outros orgânicos, que ou constituem os diversos órgãos dos animais e das plantas ou por eles são engendrados. O mundo sublunar está envolvido por uma esfera de fogo que gira com o primeiro céu, a qual envolve o ar que, por sua vez, envolve a água que, finalmente, envolve a terra. **Concepção judaico-cristã do Universo.** A [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] judaico-cristã trouxe duas ideias estranhas ao pensamento [[lexico:g:grego:start|grego]]: a ideia de um Deus único e [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], transcendente ao mundo, e a ideia da criação ex-nihilo, a partir do nada. De acordo com o Gênesis, Deus criou o Universo, o céu e a terra, e todos os seres que nele se contém, a água e a [[lexico:l:luz:start|luz]], os astros e as estrelas, as plantas e os animais e, finalmente, o homem, feito à sua [[lexico:i:imagem:start|imagem]] e semelhança. Criado por Deus, obra de Deus, que por [[lexico:d:definicao:start|definição]] é a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] suprema, o Universo reflete essa inteligência, sendo ordem e [[lexico:b:beleza:start|beleza]], cosmo e não [[lexico:c:caos:start|caos]]. As leis que regem o seu funcionamento são expressão da [[lexico:v:vontade:start|vontade]] divina, que não as estabeleceu arbitrariamente, mas de acordo com o plano que se desdobrou ao longo dos sete dias da criação. Compelidos, pelas exigências da catequese, da luta contra o [[lexico:p:paganismo:start|paganismo]] e as heresias, a formular conceitualmente o conteúdo da revelação, os pensadores cristãos foram levados a utilizar-se do arsenal ideológico de que dispunham, quer dizer, do pensamento grego. O que se chama de [[lexico:f:filosofia-crista:start|filosofia cristã]] ou de pensamento cristão, na realidade não passa do pensamento grego, de Platão e de Aristóteles, especialmente, utilizado como [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de defesa e [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] da [[lexico:f:fe:start|fé]]. Incorporando a [[lexico:f:filosofia-grega:start|filosofia grega]], a cosmovisão cristã ficou presa à física e à cosmologia de Aristóteles que, durante dois mil anos, dominou o pensamento do Ocidente, até o advento da filosofia e da ciência moderna. **O Universo newtoniano.** Os fundadores da ciência moderna, Copérnico, Galileu, Kepler, [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] e Newton, acreditam em Deus e a ele se referem constantemente, mas concebem o Universo como se fosse [[lexico:i:independente:start|independente]] de Deus e explicável [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo, pelas leis que lhe são próprias. A partir da "[[lexico:r:revolucao-copernicana:start|revolução copernicana]]", que desloca o centro de gravitação da terra para o sol, o Universo passa a ser concebido como um sistema autônomo, regido por leis que podem ser conhecidas pela [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] e formuladas matematicamente. Descobrindo a [[lexico:i:impenetrabilidade:start|impenetrabilidade]], a mobilidade, a força de propulsão dos corpos, as leis do movimento e da gravidade e formulando os postulados que permitem definir as noções de massa, [[lexico:c:causa:start|causa]], força, inércia, espaço, tempo e movimento, Newton foi o primeiro a sistematizar a moderna ciência da natureza. Embora não se propusesse mais o conhecimento das [[lexico:c:causas:start|causas]] dos fenômenos mas a determinação das leis que os regem, a ciência newtoniana, físico-matemática, coincidia ainda com a física qualitativa de Aristóteles em um ponto [[lexico:c:capital:start|capital]], a concepção do tempo e do espaço. Ambas consideram o tempo e o espaço como quadros invariáveis e fixos, referenciais absolutos, em função dos quais se explicam os movimentos do Universo. A definição aristotélica do tempo e do espaço, embora date do século IV antes de Cristo, prevaleceu na ciência clássica, na [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] de Galileu e de Newton, até o advento da física quântica e da relatividade einsteiniana. Relacionando a [[lexico:q:queda:start|Queda]] da maçã com o movimento dos planetas e do sol, Newton formulou a [[lexico:l:lei:start|lei]] da gravitação universal, que permite determinar a velocidade com que a terra gira em torno do sol, do sistema solar no sistema estelar, do sistema estelar na via láctea e da via láctea nas galáxias exteriores. Percebendo a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre o movimento absoluto e o movimento [[lexico:r:relativo:start|relativo]], foi levado a admitir a existência de estrelas fixas, ou de pontos imóveis no Universo, embora não dispusesse de meio algum para provar tal hipótese. Considerando o espaço uma realidade fixa, um quadro [[lexico:e:estatico:start|estático]] e imutável, e não podendo estabelecer cientificamente esse [[lexico:p:postulado:start|postulado]], recorreu a uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] teológica, considerando o espaço a [[lexico:o:onipresenca:start|onipresença]] de Deus na natureza. O Universo newtoniano era, assim, o meio invisível, o espaço absoluto e imutável no qual as estrelas se deslocam e a luz se propaga de acordo com modelos mecânicos que podem ser traduzidos em fórmulas matemáticas. **O Universo einsteiniano.** Em 1905, a propósito da experiência de Michelson e Morley, [[lexico:a:albert:start|Albert]] [[lexico:e:einstein:start|Einstein]] escreveu um pequeno trabalho no qual, admitindo que a experiência houvesse provado que a velocidade da luz não é afetada pelo movimento da terra, rejeitava a teoria do éter e a noção de espaço como quadro fixo e imóvel no qual é [[lexico:p:possivel:start|possível]] distinguir o movimento absoluto do movimento relativo. Se a velocidade da luz é constante, e se propaga independentemente do movimento da terra, também deve ser independente do movimento de qualquer outro planeta, estrela, meteoro, ou mesmo sistema no Universo. As leis da natureza, consequentemente, são as mesmas, para todos os sistemas que se movem uniformemente, uns em relação aos outros. Eliminados o espaço e o tempo absolutos, o Universo todo entra em movimento, não tendo mais sentido indagar pela velocidade "verdadeira", ou "real", de qualquer sistema. O espaço einsteiniano não tem fronteiras nem direção, e não apresenta nenhum ponto de referência que permita comparações absolutas, pois não passa, como já havia dito [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], "da ordem da relação das coisas entre elas". O que leva a concluir que, sem coisas que o ocupem e nele se movam, não há espaço. Os movimentos, portanto, sejam quais forem, só podem ser descritos e medidos uns em relação aos outros, uma vez que, no Universo, tudo está em movimento. Na primeira formulação de sua teoria, que chamou de "relatividade restrita", Einstein procurou demonstrar que não há no Universo nenhum parâmetro absoluto que permita calcular o movimento absoluto de um planeta, como a terra, ou de qualquer sistema que se ache em movimento. Um corpo só se move em relação a outro, ou a outros, e se todos os corpos do Universo se movessem simultaneamente, com a mesma velocidade, não haveria movimento, nem [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] do movimento e [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de calculá-lo. A partir da lei da inércia, tal como foi enunciada por Newton, Einstein reformulou a lei da gravitação universal, estabelecendo como [[lexico:p:premissa:start|premissa]] que as leis da natureza são as mesmas para qualquer sistema, independentemente de seu movimento. O [[lexico:p:principio:start|princípio]] da [[lexico:e:equivalencia:start|equivalência]], entre a gravidade e a inércia, estabelece que não há meio algum que permita distinguir o movimento produzido pelas forças de inércia do movimento gerado pela força da gravitação. O princípio permitiu mostrar que nada há de único ou de absoluto no movimento não [[lexico:u:uniforme:start|uniforme]], pois seus efeitos não se podem distinguir dos efeitos da gravitação. O movimento, portanto, seja qual for, uniforme ou não, só pode ser observado e calculado em relação a um parâmetro, pois não há movimento absoluto. Desse ponto de vista, a gravitação passa a fazer parte da inércia e o movimento dos corpos resulta de sua inércia própria, e sua trajetória se determina pelas propriedades métricas do [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] espaço-tempo, o que permite eliminar a obscura noção de ação à distância. Na confluência da teoria dos quanta, que determinou todas as concepções a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] do [[lexico:a:atomo:start|átomo]], e da teoria da relatividade, que determinou todas as concepções a respeito do espaço, do tempo, da gravitação, da inércia, etc., a teoria do [[lexico:c:campo:start|campo]] unitário vem atender à exigência fundamental da razão que é a exigência de unidade. "A ideia de que existem duas estruturas no espaço, independentes uma da outra, escreve Einstein, o espaço métrico gra-vitacional e o espaço electro-magnético, é intolerável ao espírito [[lexico:t:teorico:start|teórico]]". Mostrando que as duas forças, a da gravitação e a eletro-magnética, não são independentes mas inseparáveis, a teoria do campo unitário as descreve em termos que poderão permitir novos descobrimentos em relação à [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da matéria, à mecânica das radiações e demais problemas do mundo [[lexico:a:atomico:start|atômico]] e subatômico. O Universo einsteiniano não é nem infinito, nem euclideano, ou tridimensional, pois a [[lexico:g:geometria:start|geometria]] de [[lexico:e:euclides:start|Euclides]] não é válida no campo gravitacional. E, como a estrutura do campo gravitacional é determinada pela massa e pela velocidade do corpo em gravitação, a geometria do Universo, a curvatura do contínuo espaço-tempo sendo proporcional à concentração de matéria que contém, será determinada pela totalidade da matéria contida no Universo, que o faz descrever uma imensa curvatura que se fecha em si mesma. Embora não seja possível dar uma representação gráfica do universo finito e esférico de Einstein, foi possível calcular, em função da [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] de matéria contida em cada centímetro cúbico de espaço, o [[lexico:v:valor:start|valor]] do raio do Universo, estimado em 35 trilhões de anos luz. Nesse Universo finito, mas bastante grande para conter milhões e milhões de estrelas e de galáxias, um feixe de luz, com a velocidade de 300.000 km por segundo, levaria 200 trilhões de anos para, após percorrer a circunferência do cosmo, retornar ao ponto de partida. No séc. IV aC, Parmênides de Elea, que identificava o pensamento com o ser, concebia o Universo como "a massa de uma esfera arredondada que se equilibra em si mesma, em todos os seus pontos". E Heráclito de Éfeso, para o qual o logos tudo governava, via o mundo como contínuo movimento e constante vir-a-ser. Dois mil e quinhentos anos mais tarde, como se prolongasse e desenvolvesse essas intuições originais, não em termos de filosofia mas de ciência, Einstein, que também o concebe como se fosse uma esfera, nos fala "da razão poderosa e suprema que se revela no incompreensível Universo". {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}