===== TRIÂNGULO ===== VIDE [[lexico:t:triade|tríade]] [[lexico:t:teogonia|teogonia]] também é [[lexico:c:cosmogonia|cosmogonia]] e antropogonia. Já o sabíamos. Mas se [[lexico:h:hesiodo|Hesíodo]] intitulou (ou se alguém, depois dele, intitulou) o seu poema de Teogonia, é porque supunha (e [[lexico:b:bem|Bem]] supunha) que [[lexico:d:deuses|deuses]] vêm antes do [[lexico:m:mundo|mundo]] e dos homens, que precedem homens e mundo. Deuses estão indiferenciadamente sustidos no [[lexico:c:caos|caos]], antes da primeira [[lexico:d:diferenciacao|diferenciação]] que foi a do deus-Céu e da deusa-Terra. Foi então que se desenhou o triângulo prototípico da [[lexico:c:complementaridade|complementaridade]] e do [[lexico:s:simbolico|simbólico]]. Ele se reproduzirá, por mais acessível [[lexico:e:exemplo|exemplo]], no separarem-se, no [[lexico:h:homem|homem]], varão e mulher; da indiferença de sexos, o masculino e o feminino. A [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] só [[lexico:f:fala|fala]] do homem; o [[lexico:m:mito|mito]] tem de contar com a [[lexico:e:existencia|existência]] da mulher; a filosofia fala do [[lexico:u:universo|universo]]; a [[lexico:m:mitologia|mitologia]] [[lexico:n:nao|não]] prescinde do [[lexico:c:ceu|Céu]] e da [[lexico:t:terra|Terra]]. Mas — dizíamos — os deuses vêm antes, os deuses precedem, e não só porque Céu e Terra já são deuses. Deuses são projetos do [[lexico:p:projeto|projeto]] [v. projeto] e, como tais, eles mesmos projetam homem e mundo, e do [[lexico:m:modo|modo]] como eles mesmos foram projetados. São excessos incontidos da [[lexico:e:excessividade|excessividade]] que não se satisfaz de excedência. Incontidos, os deuses se veem no exceder-se a [[lexico:m:mal|mal]] contida excedência que é mundo, e na incontinência do excesso, que é homem. [[lexico:o:outro|outro]] triângulo, [[lexico:s:semelhante|semelhante]] ao primeiro: no vértice está um [[lexico:d:deus|Deus]], na base se opõem homem e mundo. E é porque um deus está no vértice que a cosmogonia e a antropogonia mais propriamente se intitulam de «Teogonia». Cada [[lexico:a:ato|ato]] teogônico divide-se em dois quadros que, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], se representam na mesma cena; num, decore a [[lexico:g:genese|gênese]] do mundo deste homem, noutro, a do homem deste mundo; homem e mundo são co-projetados pelo projeto-imagem do Projeto. O mito primordial repete-se indefinidamente, com infinitas variantes, cada uma reproduzindo a seu modo o triângulo primordial da complementaridade e do simbólico. Complementarismo e [[lexico:s:simbolismo|simbolismo]] pertencem à [[lexico:l:logica|lógica]] triádica [v. tríade] do [[lexico:i:impulso|impulso]] [[lexico:m:mitico|mítico]], criador de mitos. Não se confunda esta com o [[lexico:m:movimento|movimento]] ternário progressivo da [[lexico:d:dialetica|dialética]]. Um triângulo de complementaridade e de simbólico é semelhante a qualquer outro; em qualquer deles, está o triângulo primordial do Originário de todas as [[lexico:o:origens|origens]]. Todos os seus vértices superiores se alinham num reta que tem [[lexico:o:origem|origem]] em algum [[lexico:p:ponto|ponto]] da circunferência do [[lexico:c:circulo|círculo]] da [[lexico:o:objetividade|objetividade]], atravessa [[lexico:t:todo|todo]] o domínio do [[lexico:t:trans-objetivo|trans-objetivo]] [v. transobjetivo], perde-se de vista no fundo do [[lexico:a:abismo|abismo]] sem fundo da [[lexico:r:realidade|realidade]], do [[lexico:s:ser|ser]], de Deus ou do como quer que se denomine o inominável [[lexico:a:absoluto|absoluto]] ou Separado. [EudoroMito:72-73] Neste papel, a meu lado, desenho um triângulo. O que tenho em mira é o triângulo cosmogônico ou a triangulação do cosmos, o triângulo que diacosmiza, o que faz mundo do que o não era. Num dos ângulos da base está o homem neste mundo, no ângulo oposto, o mundo em que o homem está. «Homem» é um [[lexico:p:particular|particular]] entre os demais que no mundo existem. [[lexico:g:geral|geral]] é o mundo em que existem os particulares, em que se dispõem as partes que o compõem. Se há o que os identifique, como mundo deste homem e homem deste mundo, se homem e mundo, de qualquer modo, são intercambiáveis, se o particular e o geral estão em cada um dos ângulos da base, eles são, na [[lexico:v:verdade|verdade]], [[lexico:i:indiferentes|indiferentes]] em [[lexico:r:relacao|relação]] ao vértice; o vértice os identifica, o vértice os afeiçoa um ao outro, a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] os afeiçoando, na triangulação cosmogônica. E ainda se pode encarar o exemplo por outro lado. O triângulo que desenhei é um triângulo particular em relação à generalidade do triângulo. Esqueçamos aqui o platônico [[lexico:r:realismo|realismo]] das [[lexico:i:ideias|ideias]]: então, este triângulo, que [[lexico:e:eu|eu]] o desenhe no papel ou o recorte em madeira ou ferro, não é [[lexico:i:imitacao|imitação]] do triângulo [[lexico:m:modelo|modelo]] de todos os triângulos. É, na sua particularidade, [[lexico:s:sintese|síntese]] do geral e do particular, no particular. Isto não é assim tão estranho quanto parece: lembremo-nos do [[lexico:d:drama|drama]] [[lexico:r:ritual|ritual]]. Esta árvore particular, que intervém em certo [[lexico:c:culto|culto]], não representa a [[lexico:e:especie|espécie]], é, ela própria, a árvore que, por sua vez, é uma ou a epifania de certa divindade. Em [[lexico:s:suma|suma]], o simbólico não representa, é o que representa. Aquele triângulo, por conseguinte, não aponta para o Triângulo, é, ele [[lexico:p:proprio|próprio]], o Triângulo. Deus triangula [[lexico:m:mundos|mundos]], colocando um de seus «acenantes mensageiros» no vértice de cada triângulo, em cuja base, para um lado está a [[lexico:m:mensagem|mensagem]], e para outro, o [[lexico:i:interprete|intérprete]]. Sem mensageiro não haveria mensagem, sem mensagem não careceríamos de intérprete. Mas que é do mensageiro? Sabemos só que mensagem não haveria sem mensageiro. Imaginemos a [[lexico:c:catastrofe|catástrofe]]: dois lados do triângulo se abatem sobre a base. O mensageiro (que estava no vértice) ficou algures, na linha da base, conforme a espécie de que for o triângulo: no [[lexico:m:meio|meio]], entre a mensagem e o intérprete, mais perto do intérprete do que da mensagem, ou mais chegado à mensagem do que ao intérprete, ou, ainda, mais [[lexico:a:alem|além]] da mensagem ou mais aquém do intérprete. Supondo que o triângulo cosmogônico seja equilátero, o mensageiro está no intérprete e na mensagem, na mensagem-lida pelo homem e no homem-leitor da mensagem. Em qualquer caso, o mensageiro não deixou de ser, e, com ele, o triângulo. Uma das mais elementares figuras da [[lexico:g:geometria|geometria]] elementar bem nos afigura como a [[lexico:c:cosmofania|cosmofania]] pode ser teocriptia. Supomos que o triângulo é equilátero. Mas de que nos serve a «catástrofe» (o [[lexico:a:abatimento|abatimento]] dos lados sobre a base), o que não está previsto no que antecedia, nem era previsível pela [[lexico:c:coerencia|coerência]] da [[lexico:i:imagem|imagem]] geométrica? É [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:a:antecipacao|antecipação]] do que virá a dar-se, uma vez que homens e mundos se convertam em Homem e Mundo. Com uma reserva evidente: depois desta [[lexico:c:conversao|conversão]] diabólica, Deus ou o deus perde-se dos dois lados, Homem e Mundo perderam-se da Divindade que existia em cada um deles, ao passo que na catástrofe a que me referi, o deus ainda está no homem e no mundo, embora tão invisível como ponto que se sobrepõe a ponto. Por outras [[lexico:p:palavras|palavras]], no primeiro caso, temos só um segmento de reta, do qual ninguém pensa que seja a base de um triângulo; é só [[lexico:f:figura|figura]] da [[lexico:s:separacao|separação]] ou da [[lexico:u:uniao|união]] do Homem com o Mundo ou do Mundo com o Homem; no segundo caso, vemos no mesmo segmento a base de um triângulo, e, sobre ela, seus lados abatidos, e o deus que estava no vértice cai, ao mesmo tempo, para o [[lexico:e:extremo|extremo]] da base, que disséramos ser mundo, e para o oposto, que disséramos ser homem; e porque um ponto não se divide, ele está todo (hão há metade de um ponto) no mundo deste homem e no homem deste mundo. Mas [[lexico:a:agora|agora]] vemos que o homem e mundo co-pertinentes, co-pertinentes também são deste deus, pois também vemos agora que o mesmo deus (o vértice), sobrepondo-se a homem e mundo, num e noutro se oculta (não se distingue ponto que a ponto se sobreponha). Mais uma vez, cosmofania (com sua componente antrópica) é teocriptia. O deus está invisível no mundo-mensagem; o mesmo está invisível no homem-intérprete. Através do homem, o mensageiro lê-se na mensagem que é mundo dele, como dele é a outra [[lexico:p:parte|parte]] da mensagem, de que se fez intérprete, intérprete de si e do mundo, e do projeto do mundo e de si. O particular que seja qualquer dos triângulos, qualquer das triangulações cosmogônicas é a síntese dele mesmo e do geral que é o Triângulo Primeiro, em cujo vértice está o Absoluto de além-horizonte e em cuja base se opõem Céu e Terra, no aquém-horizonte. Cada triângulo é [[lexico:s:simbolo|símbolo]], não porque imite um modelo e, como imitação, aponte para o imitado, mas porque o repete na [[lexico:s:semelhanca|semelhança]], porque em cada um deles se vê a imagem dos outros, porque um é tanto e tal quanto e qual os outros são, incluindo, entre estes outros, o Primeiro. É símbolo, visto do vértice para a base, é complementaridade, visto da base para o vértice. O simbólico e o complementar figuram-se ou configuram-se na figura do triângulo. Na catástrofe cifra-se a teocriptia cosmogônica (e antropogônica): o deus-projeto de homem e mundo oculta-se, todo ele, em mundo e homem; por isso, o mito ou o mítico não é biografia dos deuses. Mesmo quando pareça sê-lo, o que na realidade e na verdade é, por mais mítico que seja, só pode ser «Kosmomythia» ou «anthropomythia», mito do mundo e mito do homem deste mundo; só que o deus [[lexico:o:oculto|oculto]] num e noutro, a um e outro [[lexico:p:potencia|potência]] de divindade, penetra-os de divindade, impregna-os de divindade. Um e outro são divinos, por mundanos e humanos que pareçam. O que, em última [[lexico:a:analise|análise]], significa que, vistos da linha que figura a catástrofe final, de qualquer ponto daquele segmento de reta que une e aparta Homem e Mundo, daquele segmento em que tão poucos veem a base do triângulo cosmogônico, homem e mundo nos aparecem como sendo mais do que parecem, e o mais do que parecem vem-lhes da divindade , do «oculto reinar», do deus-projeto de homem e mundo [v. projeto], do triângulo cosmogônico em cujos vértices estão o incontido excesso do deus, a humana incontinência do excesso e a momentaneamente contida excedência que é o mundo. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:d:divino|divino]], em homem e mundo, é a Excessividade. A potência oculta no mundo e no homem, em tudo o que está em homem e mundo, é a do excessivo em que submergem todos os limites. [EudoroMito:77-80]