===== TRÁGICO ===== (in. Tragic; fr. Tragique; al. Tragisch; it. Tragico). O [[lexico:c:conceito|conceito]] de trágico foi, às vezes, discutido pelos filósofos [[lexico:n:nao|não]] só em [[lexico:r:relacao|relação]] à [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:a:arte|arte]] que é a [[lexico:t:tragedia|tragédia]], mas também em relação à [[lexico:v:vida|vida]] humana em [[lexico:g:geral|geral]], ou ao palco do [[lexico:m:mundo|mundo]]. O [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida [[lexico:i:implicito|implícito]] ou [[lexico:e:explicito|explícito]] dessas discussões quase sempre é a [[lexico:d:definicao|definição]] aristotélica de tragédia, segundo a qual ela é "[[lexico:i:imitacao|imitação]] de acontecimentos que provocam [[lexico:p:piedade|piedade]] e terror e que ocasionam a [[lexico:p:purificacao|purificação]] dessas emoções" (Poet, 6, 1449 b 23). As situações que provocam "piedade e terror" são aquelas em que a vida ou a [[lexico:f:felicidade|felicidade]] de pessoas inocentes é posta em perigo, em que os conflitos não são resolvidos ou são resolvidos de tal [[lexico:m:modo|modo]] que determinam "piedade e terror" nos espectadores. W. Haeger escreveu: "na tragédia grega a felicidade, como toda [[lexico:p:posse|posse]], não pode ficar muito [[lexico:t:tempo|tempo]] com [[lexico:q:quem|quem]] a detém; a perpétua [[lexico:i:instabilidade|instabilidade]] é inerente à sua [[lexico:n:natureza|natureza]]. A [[lexico:c:conviccao|convicção]] de Sólon, de que há uma [[lexico:o:ordem|ordem]] divina no mundo, encontrou nessa [[lexico:n:nocao|noção]] (embora tão dolorosa para o [[lexico:h:homem|homem]]) o apoio mais sólido. Esquilo também é inconcebível sem tal convicção, que pode [[lexico:s:ser|ser]] chamada mais de noção que de [[lexico:c:crenca|crença]]" ([[lexico:p:paideia|paideia]], II, cap. I; trad. it., p. 449). As interpretações da natureza do trágico no [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:m:moderno|moderno]] são três. 1) trágico é o conflito continuamente resolvido e superado na ordem perfeita do [[lexico:t:todo|todo]]; 2) trágico é o conflito não solucionado e insolúvel; 3) trágico é o conflito que pode ser solucionado, mas cuja solução não é definitiva nem perfeitamente justa ou satisfatória. 1) O primeiro conceito de trágico é de [[lexico:h:hegel|Hegel]], para quem o conflito em que consiste o trágico, embora constituindo a [[lexico:s:substancia|substância]] e a verdadeira [[lexico:r:realidade|realidade]], não se conserva como tal, mas encontra [[lexico:j:justificacao|justificação]] só na [[lexico:m:medida|medida]] em que é superado como [[lexico:c:contradicao|contradição]]. "No entanto o [[lexico:o:objetivo|objetivo]] e o [[lexico:c:carater|caráter]] trágico são legítimos" — diz Hegel — "porque é necessária a solução do conflito em que ele consiste. Por [[lexico:m:meio|meio]] dessa solução a eterna [[lexico:j:justica|justiça]] se afirma sobre os fins e os indivíduos, de tal modo que a substância [[lexico:m:moral|moral]] e a sua [[lexico:u:unidade|unidade]] se restabelecem com o ocaso das individualidades que perturbam o seu repouso" (Vorlesungen über die Aesthetik, ed. Glockner, III, p. 530). Portanto, a solução trágico restabelece a [[lexico:h:harmonia|harmonia]], e o que ela destrói é apenas a "particularidade unilateral" que não pôde concertar-se com a harmonia (Ibid., ed. Glockner, III, p. 530). Obviamente, desse ponto de vista, que caracteriza o [[lexico:o:otimismo|otimismo]] ou [[lexico:p:providencialismo|providencialismo]] de caráter romântico, a tragédia é simplesmente a [[lexico:a:aparencia|aparência]] de uma [[lexico:c:comedia|comédia]] [[lexico:s:substancial|substancial]]: tudo acaba [[lexico:b:bem|Bem]], e o que se perde é a "particularidade unilateral" que não tem o mínimo [[lexico:v:valor|valor]]. 2) A segunda [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do trágico é de [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]], segundo a qual o trágico é conflito insolúvel. Para ele, "a tragédia é a [[lexico:r:representacao|representação]] da vida em seu [[lexico:a:aspecto|aspecto]] terrificante. É ela que nos apresenta a [[lexico:d:dor|dor]] inominável, a aflição da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], o triunfo da perfídia, o escarnecedor domínio do [[lexico:a:acaso|acaso]] e a fatal ruína dos justos e dos inocentes; por isso, ela constitui um [[lexico:s:sinal|sinal]] significativo da natureza do mundo e do ser" (Die Welt, I, § 51). Mas a inevitabilidade e, portanto, a [[lexico:c:certeza|certeza]] de um [[lexico:d:destino|destino]] maléfico ou de uma injustiça [[lexico:i:imanente|imanente]], assim como a inevitabilidade e a certeza da justiça e da harmonia, suprimem a tragicidade. Diante deles, de [[lexico:f:fato|fato]], a única [[lexico:a:atitude|atitude]] [[lexico:p:possivel|possível]] é a resignação ou o [[lexico:d:desespero|desespero]]: atitudes que, assim como as que lhe são opostas, excluem o conflito [[lexico:c:constitutivo|constitutivo]] do trágico. 3) A terceira concepção foi apresentada por Schiller na [[lexico:o:obra|obra]] Über naive und sentimenta-lische Dichtung (1795-96). Nela, otrágico é apresentado como [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] da [[lexico:p:poesia|poesia]] [[lexico:s:sentimental|sentimental]] (v. [[lexico:i:ingenuidade|ingenuidade]]), mais precisamente da poesia que representa o conflito entre o [[lexico:r:real|real]] e o [[lexico:i:ideal|ideal]]. A poesia sentimental divide-se em sátira e elegia: na sátira o [[lexico:p:poeta|poeta]] tem por [[lexico:o:objeto|objeto]] o geral, considerando-o insuficiente em relação ao ideal. Ainda segundo Schiller, quando a insuficiência do real é representada pelo conflito entre o real e nossas exigências morais, tem-se a sátira séria, que é o trágico (Werke, ed. Karpeles, XII, p. 150). Em [[lexico:c:conceitos|conceitos]] semelhantes inspirava-se a chamada "pantragicidade" de Hebel (v. Werke, X, p. 43). Bem mais paradoxalmente, [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] via no trágico, por um lado, o caráter terrificante da [[lexico:e:existencia|existência]], por [[lexico:o:outro|outro]] a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de aceitar e transfigurar [[lexico:e:esse|esse]] caráter ou por meio da arte ou da [[lexico:v:vontade|vontade]] de [[lexico:p:potencia|potência]]. A primeira solução é a que Nietzsche atribui aos gregos em Die Geburt der Tragödie (1872). O homem [[lexico:g:grego|grego]], que tinha condições de distinguir com clareza o horrível e o [[lexico:a:absurdo|absurdo]] da existência, conseguiu transfigurá-la por meio do [[lexico:e:espirito-dionisiaco|espírito dionisíaco]], domando e sujeitando o horrível, que assim se transforma em [[lexico:s:sublime|sublime]] (o objeto da tragédia), e libertando da aversão ao absurdo, que assim se transforma em [[lexico:c:comico|cômico]] (o objeto da comédia) (Die Geburt der Tragödie, § 7). Mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], Nietzsche achou que a saída do terrificante da vida estaria na aceitação da vida graças à vontade de potência, considerando o trágico como aceitação dionisíaca do que é terrificante e incerto. Escreveu então "A profundidade do [[lexico:a:artista|artista]] trágico reside no fato de que seu [[lexico:i:instinto|instinto]] estético considera as consequências remotas e não se detém com [[lexico:v:visao|visão]] estreita nas [[lexico:c:coisas|coisas]] próximas; de que ele afirma a [[lexico:e:economia|economia]] à larga, que justifica [[lexico:o:o-que-e|o que é]] terrível, maligno e [[lexico:p:problematico|problemático]], mas não se contenta apenas em justificá-lo" (Wille zur Macht, ed. 1901, § 374). Essa concepção do trágico — que costuma ser expressa com imperfeição ou mesclada com as outras duas — pode ser reconhecida pelo fato de abrir [[lexico:e:espaco|espaço]], em sua caracterização, à [[lexico:p:problematicidade|problematicidade]] da [[lexico:s:situacao|situação]] trágico, vale dizer, à possibilidade de ela ser decidida de um modo ou de outro, sem que a [[lexico:d:decisao|decisão]] seja definitiva ou perfeita. Foi com esse [[lexico:e:espirito|espírito]] que Miguel de [[lexico:u:unamuno|Unamuno]] entendeu a tragicidade em Do [[lexico:s:sentimento|sentimento]] trágico da vida (1913), expressando-a com o quién sabe? de Don Quixote. No mesmo [[lexico:s:sentido|sentido]] expressaram-se Scheller (Vom Umsturz der Werte, 1953), [[lexico:j:jaspers|Jaspers]] (Über das Tragische, 1952) e Cantoni (Trágico e [[lexico:s:senso|senso]] comune, 1964). P. Romanell diz que, ao contrário da épica, em que o conflito se dá entre o bem e o [[lexico:m:mal|mal]], no trágico o conflito se dá entre [[lexico:b:bens|bens]] diferentes, valores heterogêneos entre os quais a [[lexico:e:escolha|escolha]] é dolorosa e sempre implica [[lexico:s:sacrificio|sacrifício]] (Making of the Mexican Mind, 1952, p. 22). Esse caráter do trágico é bem realizado na tragédia grega. A tragédia de Sófocles baseia-se na convicção de que existe uma ordem divina no mundo, em [[lexico:v:virtude|virtude]] da qual às vezes o inocente precisa pagar por um [[lexico:e:erro|erro]] cometido por outros. O fato de a solução do conflito não poder ser límpida, de algo se perder nessa solução e de esse algo não ser — como dizia Hegel — uma "particularidade unilateral" é o que constitui o fascínio e a [[lexico:v:verdade|verdade]] da tragédia.