===== TRAGÉDIA ===== O contrário é o que goza da mais clara [[lexico:e:evidencia|evidência]], se a tragédia do século V pode (e acho que deva) considerar-se como [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] literário especificamente [[lexico:g:grego|grego]] e, demais, como a reinterpretação genuinamente grega de pedaços da [[lexico:l:lenda|lenda]] heroica que se desgarraram do mais remoto passado da [[lexico:g:grecia|Grécia]], de lá onde ainda [[lexico:m:mal|mal]] se apercebia se os Gregos viriam a firmar-se a si próprios, contra o Mediterrâneo oriental, ou [[lexico:n:nao|não]] se resignariam a permanecer como [[lexico:p:parte|parte]] do [[lexico:t:todo|todo]] que era o mesmo Oriente. Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], a tragédia grega atrai, ainda hoje, a maioria dos que nem por [[lexico:v:virtude|virtude]] de outros aspectos não menos fascinantes querem [[lexico:s:saber|saber]] de gregos só porque ela põe em cena homens que a outros homens falam, como nós falamos uns com os outros, ou de nós para nós mesmos, em momentos angustiantes da [[lexico:v:vida|vida]]. Mas isso ainda não quer dizer que os grandes trágicos de Atenas se propuseram desdivinizar o [[lexico:h:homem|homem]] e o [[lexico:m:mundo|mundo]]. Heróis da tragédia grega, nas cumeadas do [[lexico:t:tragico|trágico]], e tudo quanto hoje se possa chamar de [[lexico:g:grandeza|grandeza]] humana, são incomensuráveis, pela enormidade e [[lexico:e:excessividade|excessividade]] de suas [[lexico:p:palavras|palavras]] e de seus atos. E o «enorme e pavoroso» (deinon), o excessivo da [[lexico:a:acao|ação]] heroica, pelo mais claro [[lexico:e:exemplo|exemplo]] que nos dá a dramaturgia de Sófocles, advém-lhes de um «a mais» que não permite [[lexico:f:falar|falar]] tão simplesmente de uma exacerbação extrema de paixões humanas e só humanas. A excessividade do [[lexico:h:heroi|herói]] trágico é a dos [[lexico:d:deuses|deuses]] que deles se apossaram, [[lexico:c:como-se|como se]] quisessem experimentar até onde conseguiriam os homens levar adiante um [[lexico:p:processo|processo]] de desumanização que seria apenas o avesso de um processo de [[lexico:d:deificacao|deificação]]. A [[lexico:e:experiencia|experiência]] não falha. No fracasso, os homens ficam cientes de que os deuses existem, de que não podem [[lexico:v:viver|viver]] sem eles nem a sua não mais que humana vida — sobretudo, de que não podem viver contra eles vida digna de [[lexico:s:ser|ser]] vivida. O [[lexico:m:mito|mito]] trágico pode [[lexico:t:ter|ter]] sido a versão tardia do mito originário da [[lexico:c:cultura|cultura]] grega, a que se conta na hora do entardecer, já que ninguém a contara na hora do alvorecer. No entanto, sempre há que contar com a [[lexico:b:bem|Bem]] sucedida defesa de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], quanto ao trágico inerente à [[lexico:o:obra|obra]] de Homero, sobretudo, no que diz propósito da Ilíada. [EudoroMito:35-36] De que [[lexico:f:forma|forma]] é que a [[lexico:r:reproducao|reprodução]] imitadora (μίμησις ) pode distorcer completamente todos os fenômenos afins à «prática humana»? Qual é a [[lexico:r:relacao|relação]] mimética que temos com o [[lexico:s:sentido|sentido]] da [[lexico:s:situacao|situação]] humana (πρᾶξις )? Ou, antes, de que forma podemos aceder autenticamente ao sentido de uma determinada situação por que passamos, criando-a ou caindo nela? Esta [[lexico:p:pergunta|pergunta]] é feita, nesta passagem da [[lexico:r:republica|República]], procurando apurar como é que os poetas trágicos apresentam a [[lexico:c:condicao-humana|condição humana]] (πράξεις ), porquanto temos ouvido de alguns [República, 598d8-e1] que aqueles percebem de todas as técnicas [Rep., 598e1]. Comportar-se-á a tragédia como uma «[[lexico:i:imitacao|imitação]] de uma aparição» e não como uma «verdadeira desocultação» do que acontece? [μίμησις φαντάσματος e não ἀληθείας (Rep., 598b3-4).] Será ela só relativa ao [[lexico:m:modo|modo]] como as diversas situações nos surgem [Rep., 598b3], e, assim, uma forma distanciada da [[lexico:v:verdade|verdade]] acerca da «[[lexico:e:excelencia|excelência]]» [Rep., 599d2-3], ou, antes, relativa ao que é tal como acontece? [Rep., 599b2] É a sua «produção» [[lexico:p:possivel|possível]] mesmo só conseguindo, de cada [[lexico:c:coisa|coisa]], tocar numa pequena parte, sendo esta um [[lexico:s:simulacro|simulacro]]? [Rep., 599b5] Será possível à tragédia, mesmo não percebendo [[lexico:n:nada|nada]] das artes humanas que «representa», ainda assim, imitá-las? [[lexico:d:diferenca|Rep., 599c1. No Banquete, em 212a, o contemplar-se — e conviver com — καλόν com (212a1) faz τίκτειν οὐκ εἴδωλα ἀρετῆς , uma vez que οὐκ ειδώλου ἐφαπτόμενος , mas toca-se a verdade, produz-se a verdadeira excelência. A dificuldade reside em apurar aquilo «com o qual tem que se» contemplar, porquanto é o que «faz» toda a [diferença]] no modo como nos comportamos relativamente à [[lexico:a:arete|arete]]. A tragédia, enquanto uma μίμησις, é saber ou não saber (212d4-5) daquelas [[lexico:c:coisas|coisas]] que retrata? Terá ela um domínio [[lexico:e:efetivo|efetivo]] das coisas tais como verdadeiramente se apresentam ou não? Cf. Ludwig C. H. Chen, «Knowledge of Beauty in Plato’s Symposium», CQ, 33, 1983, pp. 66-74, pp. 71-72.] No centro da [[lexico:d:discussao|discussão]] está a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de se fazer uma reprodução imitadora (μίμησις) daquelas coisas que se conhecem [Rep., 598e4] e de se atingir aquilo que irá ser imitado (τὸ μιμηθησόμενον ), conseguindo diferenciá-lo do que é um mero simulacro (τὸ εἴδωλον ). Tem de se examinar, portanto, se o modo de tematizar a «excelência» não se encontra também três vezes distanciado dela [Rep., 599d2], e se Homero não é um «produtor de simulacros» [[lexico:e:existencia|Rep., 599a2. Acerca do afastamento de terceira ordem resultante da incidência sobre o simulacro da excelência, εἴδωλον ἀρετῆς , quando se consideram as situações extremas da [existência]] humana, [[lexico:v:ver|ver]] também Rep., 597e3, 600e5, 601b9 e 602c2. «Tem que se examinar se [[lexico:q:quem|quem]] encontra os ‘imitadores’ não está enganado por eles e se ao olhar para as suas obras não se apercebem que elas estão três vezes afastadas daquilo que é e que é fácil produzir a verdade para quem não a vê, porquanto produzem [sc., poetas trágicos] [[lexico:a:aparicoes|aparições]] e não as coisas que são.»]. A pergunta é [[lexico:a:agora|agora]], por conseguinte, se os poetas é «a corrective process of constant readjustment and realignment of one’s sights» (p. 598). Cf. sobre o mesmo [[lexico:p:problema|problema]] no lon de [[lexico:p:platao|Platão]] Christopher Janaway, «Craft and Fineness in Plato’s lon», OSiAP, 10,1992, pp. 1-25, sobretudo pp. 20-23: «good poets do produce a [[lexico:s:species|species]] of beauty or fineness», embora «the [[lexico:a:ability|ability]] to produce beauty of this kind be understood as not springing from the rational application of readily explicable principies, as in a Standard [[lexico:t:techne|techne]]» (p. 23). Dirk Baltzly, «Plato and the New Rhapsody», OSiAP, 12(1), pp. 29-52.] não são imitadores do «simulacro da excelência» como o são acerca de todas as outras coisas sobre as quais escrevem, e se, portanto, não tocam na verdade [Rep., 600e. Cf. Dietrich Mannsperger, Physis bei Platon, p. 131: «o dramaturgo trágico, na medida em que é um imitador, está por natureza três vezes afastado da verdade (Rep., 597e6). O poeta está já desde sempre numa determinada situação, na qual nasceu: «feste Situation, in die hinein [...] geboren ist», isto é, ele não tem apenas por «[[lexico:n:natureza|natureza]]» uma «innewohnende Form, sondem zugleich Stellung in einer Umweltsbezuglichkeit», um «Weltzusammenhang».]. [CaeiroArete:79-81]