===== TEORIA DOS SOIS MUNDOS ===== Evidentemente, [[lexico:n:nao:start|não]] podia escapar a [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] que o [[lexico:e:espetaculo:start|espetáculo]] do [[lexico:u:universo:start|universo]], do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], tal [[lexico:c:como-se:start|como se]] oferece aos nossos sentidos, é completamente distinto deste [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:u:unico:start|único]], imóvel, [[lexico:i:ilimitado:start|ilimitado]], mutável e [[lexico:e:eterno:start|eterno]]. As coisas são, pelo contrário, movimentos, seres múltiplos que vão e vêm, que se movem, que mudam, que nascem e que perecem. Não podia, pois, passar despercebido a Parmênides a [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] em que sua [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] se encontrava frente ao espetáculo do universo. Então Parmênides não hesita um [[lexico:i:instante:start|instante]]. Com [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da [[lexico:c:coerencia:start|coerência]] [[lexico:l:logica:start|lógica]] que têm as crianças (neste caso Parmênides é a criança da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]) tira corajosamente a conclusão: este mundo heterogêneo de cores, de sabores, de cheiros, de movimentos, de subidas e descidas, das coisas que vão e vêm, da [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] dos seres, de sua variedade, do seu [[lexico:m:movimento:start|movimento]], de sua heterogeneidade, [[lexico:t:todo:start|todo]] este mundo [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] é uma [[lexico:a:aparencia:start|aparência]], é uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] dos nossos sentidos, uma ilusão da nossa [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de perceber. Assim como um [[lexico:h:homem:start|homem]] que visse forçosamente o mundo através de uns cristais vermelhos diria: as coisas são vermelhas, e estaria errado: do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] quando dizemos: o ser é [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]], o ser é movediço, o ser é mutável, o ser é variadíssimo, estamos errados. Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], o ser é único, imutável, eterno, ilimitado e imóvel. Declara então Parmênides, resolutamente, que a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] sensível é ilusória. E imediatamente, com a maior [[lexico:c:coragem:start|coragem]], tira outra conclusão: a de que há um mundo sensível e um mundo [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. E pela primeira vez na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] aparece esta [[lexico:t:tese:start|tese]] da [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre o mundo sensível e o mundo inteligível, que dura até hoje. Que entende Parmênides por mundo sensível? Aquele que conhecemos pelos sentidos. Mas este mundo sensível que conhecemos pelos sentidos é [[lexico:i:ininteligivel:start|ininteligível]], [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]], porque se o analisarmos [[lexico:b:bem:start|Bem]], tropeçaremos a cada instante com a rígida [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] [[lexico:r:racional:start|racional]] da lógica. Vimos que todas essas [[lexico:p:propriedades-do-ser:start|propriedades do ser]] que antes enumeramos, foram assentadas como esteios fundamentais da metafísica, porque as suas contrárias (a [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]], a [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]], a mutabilidade, a [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] e o movimento) resultam incompreensíveis diante da [[lexico:r:razao:start|razão]]. Quando a razão analisa, tropeça sempre com a [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] inadmissível de que o [[lexico:n:nao-ser:start|não-ser]] é, ou de que o ser não é. E como isto é contraditório, tudo isto resulta ilusório e [[lexico:f:falso:start|falso]]. O mundo sensível é ininteligível. Por isso, frente ao mundo sensível que vemos, que tocamos, mas que não podemos [[lexico:c:compreender:start|compreender]], coloca Parmênides um mundo que não vemos, não tocamos, do qual não temos [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] nenhuma, mas que podemos compreender, que está [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e submetido à [[lexico:l:lei:start|lei]] lógica da não [[lexico:c:contradicao:start|contradição]], à lei lógica da [[lexico:i:identidade:start|identidade]]; e por isso chama-o, pela primeira vez na [[lexico:h:historia:start|História]], mundo inteligível, mundo do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]. Este é o único [[lexico:a:autentico:start|autêntico]]; o [[lexico:o:outro:start|outro]] é puramente falso. Se fizermos o balanço dos resultados obtidos por Parmênides, encontrar-nos-emos verdadeiramente maravilhados diante da colheita filosófica deste homem gigantesco. Ele descobre o [[lexico:p:principio:start|princípio]] da identidade, um dos esteios fundamentais da lógica. E não somente descobre o [[lexico:p:principio-de-identidade:start|princípio de identidade]], mas, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, afirma imediatamente a tese de que, para descobrir que é [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] na realidade, não temos outro guia que o princípio de identidade; não temos outro guia que nosso pensamento [[lexico:l:logico:start|lógico]] e racional. Quer dizer, assenta a tese fundamental de que as coisas fora de mim, o ser fora de mim é exatamente [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao meu pensamento do ser. Aquilo que [[lexico:e:eu:start|eu]] não puder [[lexico:p:pensar:start|pensar]] por ser absurdo pensá-lo, não poderá ser na realidade, e, por conseguinte, não necessitarei para conhecer a autêntica realidade do ser, [[lexico:r:raiz:start|raiz]] de mim mesmo, mas somente tirando a lei fundamental do meu pensamento lógico, fechando os olhos a tudo, somente pensando um pouco coerentemente, descobrirei as propriedades essenciais do ser. Quer dizer que, para Parmênides, as propriedades essenciais do ser são as mesmas que as propriedades essenciais do pensar. Dentre os fragmentos que se conservam brilha esta [[lexico:f:frase:start|frase]] esculpida em mármore imperecível: "Ser e pensar é uma e só [[lexico:c:coisa:start|coisa]]". A partir deste [[lexico:m:momento:start|momento]] ficam assim, por vinte e cinco séculos, colocadas as bases da filosofia ocidental. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}