===== TEOLOGIA SOCRÁTICA ===== E qual era a concepção de [[lexico:d:deus|Deus]] que [[lexico:s:socrates|Sócrates]] ensinava, a [[lexico:p:ponto|ponto]] de oferecer a seus inimigos o pretexto para condená-lo à [[lexico:m:morte|morte]], já que era contrária aos "[[lexico:d:deuses|deuses]] em que a [[lexico:c:cidade|cidade]] acreditava"? Era a concepção indiretamente preparada pelos filósofos naturalistas, culminando no [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de [[lexico:a:anaxagoras|Anaxágoras]] e de [[lexico:d:diogenes-de-apolonia|Diógenes de Apolônia]]: o Deus-inteligência ordenadora. Sócrates, porém, desligou essa concepção dos pressupostos próprios desses filósofos (sobretudo de Diógenes), "desfisicizando-a" e deslocando-a para um [[lexico:p:plano|plano]] afastado o mais [[lexico:p:possivel|possível]] dos pressupostos próprios da "[[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]]" anterior. Sobre [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:tema|tema]], pouco sabemos através de [[lexico:p:platao|Platão]], ao passo que [[lexico:x:xenofonte|Xenofonte]] nos informa amplamente. Eis o [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] registrado nos Memorabilia, que constitui a primeira [[lexico:p:prova|prova]] [[lexico:r:racional|racional]] da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]] que chegou até nós e que iria constituir a base de todas as provas posteriores: a) Aquilo que [[lexico:n:nao|não]] é [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:o:obra|obra]] do [[lexico:a:acaso|acaso]], sendo constituído para alcançar um [[lexico:o:objetivo|objetivo]] e um [[lexico:f:fim|fim]], pressupõe uma [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] que o produziu por razões evidentes. Ademais, observando o [[lexico:h:homem|homem]], em especial, notamos que cada um e todos os seus órgãos estão constituídos de tal [[lexico:m:modo|modo]] que não podem [[lexico:s:ser|ser]] absolutamente explicáveis como obra do acaso, mas apenas como obra de uma inteligência que idealizou expressamente essa [[lexico:c:constituicao|constituição]], b) Contra esse [[lexico:a:argumento|argumento]], poder-se-ia objetar que, ao contrário dos artífices terrenos, que podem ser vistos ao lado de suas obras, essa Inteligência não pode ser vista. Mas Sócrates observa que essa [[lexico:o:objecao|objeção]] não procede, porque a nossa [[lexico:a:alma|alma]] (= inteligência) também não pode ser vista e, mesmo assim, ninguém ousa afirmar que, pelo [[lexico:f:fato|fato]] de a alma (= inteligência) não ser vista, também não existe e que nós fazemos por acaso tudo o que fazemos, c) Por fim, segundo Sócrates, é possível estabelecer, com base nos privilégios que o homem tem em [[lexico:r:relacao|relação]] a todos os outros seres (como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] [[lexico:f:fisica|física]] mais perfeita e, sobretudo, a [[lexico:p:posse|posse]] de alma e de inteligência), que o artífice [[lexico:d:divino|divino]] cuidou do homem de um modo inteiramente [[lexico:p:particular|particular]]. [[lexico:c:como-se|como se]] vê, o argumento gira em torno deste núcleo central: o [[lexico:m:mundo|mundo]] e o homem são constituídos de tal modo ([[lexico:o:ordem|ordem]], [[lexico:f:finalidade|finalidade]]) que só uma [[lexico:c:causa|causa]] adequada (ordenadora, finalizante e, portanto, inteligente) pode explicá-los. E, com sua [[lexico:i:ironia|ironia]], Sócrates lembrava àqueles que rejeitavam esse raciocínio que nós possuímos uma [[lexico:p:parte|parte]] de todos os [[lexico:e:elementos|elementos]] que estão presentes em grandes massas no [[lexico:u:universo|universo]], [[lexico:c:coisa|coisa]] que ninguém ousa negar: como então poderíamos pretender que nós, homens, nos assenhoreamos de toda a inteligência que existe, não podendo haver nenhuma outra inteligência fora de nós? E evidente a incongruência [[lexico:l:logica|lógica]] dessa pretensão. O Deus de Sócrates, portanto, é a inteligência, que conhece todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] sem [[lexico:e:excecao|exceção]] e é [[lexico:a:atividade|atividade]] ordenadora e [[lexico:p:providencia|providência]]. É uma providência, porém, que se ocupa com o mundo e os homens em [[lexico:g:geral|geral]], como também do homem virtuoso em particular (para a [[lexico:m:mentalidade|mentalidade]] antiga, o [[lexico:s:semelhante|semelhante]] tem comunhão com o semelhante, [[lexico:r:razao|razão]] pela qual Deus tem uma comunhão estrutural com o [[lexico:b:bom|Bom]]), mas não com o homem individualmente enquanto tal (a menos que se trate de homem mau). Somente no pensamento cristão é que surgiria uma providência que se ocupa com o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] enquanto tal.