===== TEOLOGIA ARISTOTÉLICA ===== A [[lexico:m:metafisica|metafísica]] de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] desemboca inevitavelmente numa [[lexico:t:teologia|teologia]], numa [[lexico:t:teoria|teoria]] de [[lexico:d:deus|Deus]], e vou terminar esta lição indicando os [[lexico:p:principios|princípios]] gerais dessa teologia de Aristóteles ou teoria de Deus. Aristóteles, na [[lexico:r:realidade|realidade]] — embora em diversas passagens de seus escritos (na Metafísica, na [[lexico:f:fisica|Física]], na [[lexico:p:psicologia|psicologia]]) formule algo que poderia parecer-se com o que chamaríamos hoje [[lexico:p:provas-da-existencia-de-deus|provas da existência de Deus]] — [[lexico:n:nao|não]] crê que seja [[lexico:n:necessario|necessário]] demonstrar a [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]]. Porque para Aristóteles a [[lexico:e:existencia|existência]] de algo implica necessariamente na existência de Deus. Implica nisso da maneira seguinte*, uma existência das que nós encontramos exemplares constantemente em nossa [[lexico:v:vida|vida]], uma existência dessas é sempre "[[lexico:c:contingente|contingente]]". Que significa "contingente"? Significa que o [[lexico:s:ser|ser]] dessa existência, a existência dessa existência, não é necessária. "Contingente" significa que o mesmo poderia [[lexico:e:existir|existir]] como não existir; que não há mais [[lexico:r:razao|razão]] para que exista do que para que não exista. E as existências com que topamos na nossa [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] são todas elas contingentes. Quer dizer que existem as [[lexico:c:coisas|coisas]]; este copo, esta lâmpada, esta mesa, o [[lexico:m:mundo|mundo]], o [[lexico:s:sol|sol]], as estrelas, os animais, [[lexico:e:eu|eu]], os demais; existimos, mas poderíamos não existir; quer dizer, que nossa existência não é necessária. Mas se há uma existência e essa existência não é necessária, então essa existência supõe que foi produzida por outra [[lexico:c:coisa|coisa]] existente, tem seu [[lexico:f:fundamento|fundamento]] em outra. Se não o tem em si mesma, se não é necessária, tem que [[lexico:t:ter|ter]] seu fundamento em outra coisa existente. Essa segunda coisa existente, se também ela não for necessária, se ela for contingente, suporá evidentemente uína terceira coisa existente que a produziu. Esta terceira coisa existente, se ela não for necessária, se ela for contingente, suporá uma quarta coisa que a tenha produzido. Vamos supor que a [[lexico:s:serie|série]] dessas coisas contingentes, não necessárias, que vão produzindo-se umas às outras, seja infinita. Pois então toda a série, tomada na sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]], será também contingente e necessitará por [[lexico:f:forca|força]] uma existência não contingente que a explique, que lhe dê essa existência. De [[lexico:s:sorte|sorte]] que, tanto na perseguição das existências individuais como na consideração de uma série infinita de existências individuais, tanto numa como na outra, encontramo-nos com a absoluta [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de admitir uma existência que não tenha seu fundamento em outra, mas que seja ela, [[lexico:p:por-si|por si]] mesma, necessária, absolutamente necessária. Esta existência não contingente, mas necessária, que tem em si mesma a razão do seu existir, a [[lexico:c:causa|causa]] do seu existir, o fundamento do seu existir, é Deus. Para Aristóteles não faz [[lexico:f:falta|falta]] a [[lexico:p:prova|prova]] da existência de Deus, porque u existência de Deus é tão certa como que algo existe. Se estamos certos de que algo existe, estamos certos de que Deus existe. E este algo necessário, não contingente, fundamento, base primária de toda as demais existências, este algo é imóvel, não pode [[lexico:e:estar|estar]] em [[lexico:m:movimento|movimento]]. E não pode estar em movimento porque o movimento é para Aristóteles o [[lexico:p:prototipo|protótipo]] do contingente. Aqui notam-se velhas, velhíssimas ressonâncias dos argumentos de [[lexico:z:zenao|Zenão]] de Eleia. Já disse que [[lexico:p:platao|Platão]] considerava muito interessantes esses argumentos de Zenão de Eleia, e que chegam até Aristóteles. Para Aristóteles, com [[lexico:e:efeito|efeito]], o movimento é contingente. Por que é contingente? Porque o movimento é ser e [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] sucessivamente. Uma pedra lançada ao [[lexico:a:ar|ar]] está em movimento, Aristóteles não o nega; todavia, estar em movimento significa estar em movimento [[lexico:a:agora|agora]], neste [[lexico:p:ponto|ponto]], mas logo naquele [[lexico:o:outro|outro]] ponto; depois naquele ponto não há mais movimento. Quando o ponto onde está uma coisa foi abandonado pela coisa em movimento, o movimento não está aí, mas está lá. [[lexico:e:esse|esse]] mudar constante é para Aristóteles o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:s:simbolo|símbolo]] da [[lexico:c:contingencia|contingência]], do não necessário, do que requer [[lexico:e:explicacao|explicação]]. Portanto, se Deus estivesse em movimento, Deus requereria explicação. Mas como Deus é precisamente a existência necessária, absoluta, não requer explicação, tem que ser imóvel. Mas se Deus é imóvel, Aristóteles deduz imediatamente de sua imobilidade, sua [[lexico:i:imaterialidade|imaterialidade]]. Se é imóvel é imaterial, porque se fosse [[lexico:m:materia|matéria]], então seria [[lexico:m:movel|móvel]]. [[lexico:t:todo|todo]] o material é móvel; basta dar-lhe um empurrão. Mas se me dizem que Aristóteles toma a par lavra "material" em outro [[lexico:s:sentido|sentido]], eu digo: sim, toma-a em outro sentido, porém no outro sentido também não pode ser material Deus. porque se fosse material no outro sentido, não teria [[lexico:f:forma|forma]], faltar-lhe- ia forma; e faltando-lhe forma, não teria ser; e faltando-lhe ser, não seria, Se tivesse forma e não a tivesse posto ele mesmo, então seria uma existência derivada de outra. Mas supusemos que é existência primária; logo não é matéria; não há matéria nenhuma nele, porque, se fosse matéria, essa matéria seria [[lexico:p:potencia|potência]], [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]], e em Deus [[lexico:n:nada|nada]] é [[lexico:p:possivel|possível]], mas tudo é [[lexico:r:real|real]]; nada há em potência, mas tudo em [[lexico:a:ato|ato]]. Deus é o [[lexico:a:ato-puro|ato puro]], a pura realidade. Em Deus não há nada per ser nem nada está sendo, mas tudo é neste [[lexico:i:instante|instante]] plenamente, com plenitude de realidade. Não podemos, pois, supor que haja em Deus matéria, porque a matéria é aquilo que está por ser, no máximo aquilo que está sendo, porém Deus não está por ser nem está sendo, mas é. E este ser pleno da divindade, de Deus, é para Aristóteles o que ele chama "ato [[lexico:p:puro|puro]]" que opõe à potência, ã possibilidade, ao mero possível. E Deus é a [[lexico:c:causa-primeira|causa primeira]] de tudo. Mas qual é a [[lexico:a:atividade|atividade]] de Deus? A atividade de Deus não pode consistir em outra coisa que em [[lexico:p:pensar|pensar]], e não pode consistir mais que em pensar, porque imaginemos que Deus fizesse algo que não fosse pensar: pois este algo não poderia ser mais que mover-se, e ele é imóvel; não poderia ser mais que sentir, e Deus não pode sentir, porque sentir é uma imperfeição e Deus não tem imperfeições; também não pode desejar, pois [[lexico:q:quem|quem]] deseja é porque lhe falta algo, e a Deus não falta nada; não pode apetecer nem querer, porque apetecer e querer supõe o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de algo que não somos nem temos e que queremos ser ou ter, mas Deus não pode notar que falta algo no seu ser ou no seu ter. Tem tudo e é tudo. Por conseguinte, não pode querer, nem desejar, nem emocionar-se; não pode mais que pensar. Deus é pensamento puro. E, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] que Deus pensa? Pois, o que pode pensar Deus? Deus não pode pensar mais que em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. O pensamento de Deus não pode encaminhar-se mais que a si mesmo, porque nenhum outro [[lexico:o:objeto|objeto]] mais que a si mesmo tem Deus como [[lexico:o:objetivo|objetivo]] do pensamento. Por que isto é assim? Simplesmente porque o pensamento de Deus não pode dirigir-se às coisas mais que en quanto são produtos dele mesmo; enquanto são seus próprios [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] realizados pela sua própria atividade pensante. Assim é que não há outro objeto possível para Deus senão pensar-se a si mesmo. A teologia de Aristóteles termina com essas ressonâncias de puro [[lexico:i:intelectualismo|intelectualismo]] em que Deus é [[lexico:c:chamado|chamado]] "pensamento do pensamento", [[lexico:n:noesis|noesis]] noeseos. [[lexico:c:como-se|como se]] vê, nesta magnífica [[lexico:a:arquitetura|arquitetura]] do [[lexico:u:universo|universo]] que Aristóteles nos desenhou, as coisas estão aí, ante nós, e nós somos uma dessas múltiplas coisas que existem e que constituem a realidade. Cada uma dessas coisas é o que é, [[lexico:a:alem|além]] do seu existir, pela [[lexico:e:essencia|essência]] que cada uma delas contém e expressa. E cada uma dessas coisas e as hierarquias das coisas estão todas no pensamento [[lexico:d:divino|divino]]; têm seu ser e sua essência da causa primeira que lhe dá ser e essência. E este pensamento divino, no qual toda a realidade das coisas está englobada, é o pensamento de si mesmo, onde Deus pensa seus próprios pensamentos, e pensando seus próprios pensamentos como produtores das coisas, vão sendo as coisas em [[lexico:v:virtude|virtude]] desse pensamento criador de Deus. Esta magnífica arquitetura do universo concorda perfeitamente com o [[lexico:i:impulso|impulso]] do [[lexico:h:homem|homem]] [[lexico:n:natural|natural]], espontâneo. Aristóteles conseguiu finalmente dar ao [[lexico:r:realismo|realismo]] espontâneo de todo ser [[lexico:h:humano|humano]] uma forma filosófica grandiosa. O realismo é a [[lexico:a:atitude|atitude]] espontânea de todo ser humano ante a [[lexico:p:pergunta|pergunta]] que fazemos: quemexiste? À essa pergunta a resposta espontânea do homem é dizer que existe este copo, esta lâmpada, este senhor, esta mesa, o sol; tudo isto existe. Pois a essa resposta espontânea que dá o ser humano à pergunta metafísica, confere Aristóteles finalmente, ao cabo de [[lexico:q:quatro|Quatro]] séculos de [[lexico:m:meditacao|meditação]] filosófica, a forma mais perfeita, mais completa, melhor construída e mais satisfatória que conhece a [[lexico:h:historia|história]] do pensamento. Pode-se dizer que a realização da metafísica realista encontra em Aristóteles sua forma mais acabada. Esta forma vai vigorar no pensamento da [[lexico:h:humanidade|humanidade]] até chegar outra radicalmente nova para substituí-la. Essa nova resposta à pergunta metafísica não se dará. a partir de Aristóteles, até o século XVII. Dá-la-á [[lexico:d:descartes|Descartes]]. Essa resposta será radicalmente nova em si, completamente diferente daquelas que examinamos até agora sob o [[lexico:n:nome|nome]] de realismo.