===== TEMPO ANGUSTIOSO ===== O [[lexico:t:tempo|tempo]] se torna angustioso, quando deixa de [[lexico:s:ser|ser]] a [[lexico:m:memoria|memória]] de algo, para tornar-se a memória de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]; o tempo se liga à memória, tornando-se [[lexico:p:pessoal|pessoal]], vivencial. O tempo cristão se torna inteiramente pessoal, se adstringe inteiramente a esta única [[lexico:v:vida|vida]], desde que se perdeu a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]], na qual acreditavam os platônicos, de [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:r:reminiscencia|reminiscência]] da [[lexico:f:felicidade|felicidade]] perdida, por vidas pessoais anteriores. A reminiscência cristã da felicidade perdida [[lexico:n:nao|não]] vem de vidas pessoais anteriores, mas dessa [[lexico:i:iluminacao|Iluminação]] Divina, explanada por [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]], desse [[lexico:m:mestre|mestre]] Interior, que nos [[lexico:f:fala|fala]] do fundo da nossa [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] e que apela constantemente para a urgência do tempo, a urgência da [[lexico:s:salvacao|salvação]]. O cristão, na sua [[lexico:e:existencia|existência]] irrepetível e única, faz a sua [[lexico:e:eternidade|Eternidade]] no seu tempo; como qualquer [[lexico:o:outro|outro]], ele nasce, vive e morre no tempo. Mas a possibilidade de um [[lexico:p:ponto|ponto]] de apoio num [[lexico:e:espaco|espaço]] [[lexico:p:particular|particular]] [[lexico:s:sagrado|sagrado]], como por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] o espaço simultâneo do Centrum e do Mundus, esta possibilidade se extinguiu com a subjetivação do tempo, que implicou a planificação do espaço, tornando uniformes todos os espaços, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que já não estamos no espaço sacral de nenhum Mundus, mas num tempo aflitivo em que nos salvamos e nos perdemos. Este é o tempo da [[lexico:p:preocupacao|preocupação]], da [[lexico:a:angustia|angústia]], [[lexico:s:sorge|Sorge]], como diz [[lexico:h:heidegger|Heidegger]], por que nele [[lexico:e:eu|eu]] me faço o que sou e o que me torno; é um tempo tendido para [[lexico:f:futuro|futuro]], e [[lexico:n:nada|nada]] obstante, feito só de passado, porque o presente, como [[lexico:b:bem|Bem]] via Santo Agostinho, está sempre a cair no passado, é um presente que já passou. Se o tempo fosse presente, seria então a eternidade e não o tempo; se o tempo fosse presente, não haveria angústia. É o que compreendeu [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]], cujo conselho, a [[lexico:q:quem|quem]] quer afirmar a [[lexico:v:vontade-de-viver|vontade de viver]], é afirmar o presente com a sua eternidade, porque o tempo não é senão [[lexico:a:atributo|atributo]] do [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]]. Mas o que sucede é que o fenômeno, para Schopenhauer, não tem em si a sua [[lexico:r:realidade|realidade]], sendo a [[lexico:r:representacao|representação]] da [[lexico:v:vontade|vontade]] de [[lexico:v:viver|viver]]; é então fácil aconselhar ao aflito [[lexico:t:transeunte|transeunte]] do tempo, que afirme a eternidade da Vontade de viver, ignorando o tempo da sua existência como fenômeno. No Cristianismo, porém, este conselho não tem [[lexico:s:sentido|sentido]], porque o fenômeno é uma realidade [[lexico:s:substancial|substancial]], o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] não é representação, mas [[lexico:p:pessoa|pessoa]]. E é pessoa que tem em si um tempo limitado e [[lexico:u:unico|único]], um tempo que é devorado pelo passado e aspirado pelo futuro. Se o espaço se planificou com o Cristianismo (pois não há o espaço sagrado e o espaço se tornou indiferente para a salvação), o tempo, ao contrário, sublinhou a sua heterogeneidade, o que sublinha também a sua angústia. A cada [[lexico:i:instante|instante]] praticamos atos que podem decidir da eternidade. No tempo [[lexico:a:arcaico|arcaico]], os momentos eram heterogêneos, mas como derivado de uma [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] eterna, e não no sentido processual do tempo cristão: não há no Cristianismo dois momentos como o da [[lexico:e:encarnacao|Encarnação]] e o da [[lexico:r:redencao|Redenção]]; não há dois momentos como o da nossa [[lexico:m:morte|morte]]; se no tempo está a [[lexico:l:liberdade|liberdade]], na morte está o [[lexico:d:destino|destino]]. Inútil é comunicar ao cristão a [[lexico:f:formula|fórmula]] da [[lexico:t:tranquilidade|tranquilidade]] antiga: Onde estamos, a morte não está; onde a morte está, nós não estamos; inútil, porque estamos exatamente onde a morte está, porque somos os portadores da morte, e porque com a morte não morremos. É preciso [[lexico:c:compreender|compreender]] que só podemos morrer, com a [[lexico:c:condicao|condição]] de termos a [[lexico:c:consciencia|consciência]] da morte, com a condição também de que a morte no tempo se refira ao Intemporal. Existem seres que não têm a consciência da morte; seres que se repetem, se multiplicam, seres que desaparecem, mas não morrem. O que faz com que se possa morrer é a consciência da morte, a consciência da [[lexico:r:responsabilidade|responsabilidade]] diante da morte, pelo [[lexico:u:uso|uso]] que fizemos da liberdade no tempo. Se a morte fosse a extinção, não referiríamos os nossos atos ao futuro desconhecido. No entanto, quanto mais solene um [[lexico:a:ato|ato]], mais vinculado está ele ao futuro, e o que faz a sua solenidade é a sua vinculação ao futuro. O ato do [[lexico:e:espirito|espírito]] se transcende a si mesmo, como o que se dirige ao intemporal. A fórmula de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:a:amor|amor]], que é o voto de [[lexico:f:fidelidade|fidelidade]] perpétua, revela a íntima conexão entre a [[lexico:t:tensao|tensão]] para o futuro e a Eternidade. Quanto mais tenso um [[lexico:e:estado|Estado]] vital, mais funda a sua [[lexico:r:referencia|referência]] ao [[lexico:i:infinito|infinito]] da nostalgia. Compreende-se aqui por qual [[lexico:m:motivo|motivo]] o [[lexico:r:romantismo|Romantismo]] associou tão estreitamente o amor e a morte. Os amantes que morrem de amor, como Tristão e Isolda morreram, supõem a fixação pela eternidade, de um [[lexico:s:sentimento|sentimento]] que em vão teriam procurado fixar num tempo sem eternidade. É no amor que a [[lexico:a:alma|alma]] dilacerada sente a nostalgia de uma obscura integridade primitiva. Mas é no amor também que se revela toda a angústia da eternização [[lexico:i:impossivel|impossível]] do tempo. O ato sexual visa a eternidade, pela [[lexico:r:reproducao|reprodução]] da vida; mas, multiplicando o ser, a sua [[lexico:c:contradicao|contradição]] é que perpetua o tempo e imortaliza a morte . Sob nenhum ponto de vista é discutível a [[lexico:t:tese|tese]] de que realmente o Cristianismo produziu o [[lexico:t:tempo-angustioso|tempo angustioso]], o tempo da salvação. O tempo, tal como é [[lexico:v:vivido|vivido]], depois do Cristianismo, inclusive pelos hereges, pelos materialistas e os ateus, é o tempo angustioso, o tempo que perturba. A angústia do tempo revive em todas as Filosofias que dissolvem o tempo na Eternidade ou que desdobram a Eternidade no tempo. Nas Filosofias do Cristianismo contemporâneo, e em particular no [[lexico:i:idealismo-alemao|idealismo alemão]], se exprime de [[lexico:m:modo|modo]] claro a tensão do futuro. Porém o tempo como [[lexico:v:vivencia|vivência]] se manifesta de maneira [[lexico:c:capital|capital]] na [[lexico:m:musica|música]] do contraponto, a música da tensão angustiosa, a música da reminiscência. Na mais [[lexico:e:emocional|emocional]] de todas as artes, na [[lexico:a:arte|arte]] única, também é mais angustiosa a vivência do tempo. Mas exatamente a música revela esta [[lexico:v:verdade|verdade]] profunda, que a tensão para o tempo não se explicaria se o tempo não fosse tocado pela Eternidade. A música desperta sentimentos tão fundos, que parecem vir da [[lexico:o:origem|origem]] do tempo, onde o tempo tem o seu ponto de conexão com a Eternidade. O tempo não poderia ser vivido sem a Eternidade que paira sobre o tempo. O que procuramos no tempo é a Eternidade, se não o tempo não teria sentido. O tempo é um tempo para; e por isso, nos Padres gregos e nos filósofos românticos, o [[lexico:m:mundo|mundo]] se resolve por [[lexico:f:fim|fim]] no [[lexico:a:absoluto|absoluto]] porque o tempo pelo tempo seria um tempo [[lexico:a:absurdo|absurdo]]. Na música, a [[lexico:d:descoberta|descoberta]] do leit-motif teve por [[lexico:f:finalidade|finalidade]] conjugar as variações do [[lexico:t:tema|tema]] com a [[lexico:r:repeticao|repetição]] do motivo [[lexico:e:eterno|eterno]]. De Wagner se diz que procurou [[lexico:c:criar|criar]] a música do infinito, como superando o tempo e como desenvolvendo no tempo a [[lexico:s:simbolica|simbólica]] dos mitos originários.