===== TEMPO ===== (gr. [[lexico:c:chronos|chronos]]; lat. tempus; in. Time; fr. Temps; al. Zeit; it. Tempo). Podemos distinguir três concepções fundamentais: 1) o tempo como [[lexico:o:ordem|ordem]] mensurável do [[lexico:m:movimento|movimento]]; 2) o tempo como movimento intuído; 3) o tempo como [[lexico:e:estrutura|estrutura]] de possibilidades. À primeira concepção vinculam-se, na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], o [[lexico:c:conceito|conceito]] cíclico do [[lexico:m:mundo|mundo]] e da [[lexico:v:vida|vida]] do [[lexico:h:homem|homem]] ([[lexico:m:metempsicose|metempsicose]]) e, na [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]], o conceito científico de tempo. À segunda concepção vincula-se o conceito de [[lexico:c:consciencia|consciência]], com a qual o tempo é identificado. A terceira concepção, derivada da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:e:existencialista|existencialista]], apresenta algumas inovações na [[lexico:a:analise|análise]] do conceito de tempo. 1) A concepção de tempo mais antiga e difundida considera-o como ordem mensurável do movimento. Os pitagóricos, ao definirem o tempo como "a [[lexico:e:esfera|esfera]] que abrange tudo" (a esfera celeste), relacionaram-no com o [[lexico:c:ceu|céu]], que com o seu movimento ordenado permite medi-lo perfeitamente ([[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], Fts., IV, 10, 218 a 33). Ao definir o tempo como "a [[lexico:i:imagem|imagem]] [[lexico:m:movel|móvel]] da [[lexico:e:eternidade|Eternidade]]", [[lexico:p:platao|Platão]] (Tim., 37 d) pretende dizer que, na [[lexico:f:forma|forma]] dos períodos planetários, do ciclo constante das estações ou das gerações vivas e de qualquer [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:m:mudanca|mudança]], ele reproduz no movimento a [[lexico:i:imutabilidade|imutabilidade]] do [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:e:eterno|eterno]] (Ibid., 38 b-39 d). A [[lexico:d:definicao|definição]] de Aristóteles, "o tempo é o [[lexico:n:numero|número]] do movimento segundo o antes e o depois" (Fís., IV, II; 219 b 1), é a [[lexico:e:expressao|expressão]] mais perfeita dessa concepção, que identifica o tempo com a ordem mensurável do movimento. [[lexico:n:nao|Não]] é diferente o [[lexico:s:significado|significado]] da definição dos estoicos, segundo a qual o tempo é "o intervalo do movimento cósmico" (Diógenes Laércio, VII, 141). Na [[lexico:v:verdade|verdade]], intervalo não passa de [[lexico:r:ritmo|ritmo]], ordem, movimento cósmico. Talvez não seja diferente tampouco o significado da definição de Epi-curo: "O tempo é uma [[lexico:p:propriedade|propriedade]], um acompanhamento do movimento" 0’ Stobeo, Ecl., I, 8, 252). Na Idade Média, essa concepção do tempo foi compartilhada por realistas ([[lexico:a:alberto-magno|Alberto Magno]], [[lexico:s:suma-teologica|Suma Teológica]], I, q. 21, a. I; [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], [[lexico:s:suma|suma]] Teológica, 1. q. 10, a. 1) e por nominalistas ([[lexico:o:occam|Occam]], In Sent, II, q. 12), que repetiram unanimemente a definição de Aristóteles. Telésio, que criticava essa definição, reduziu o tempo à [[lexico:d:duracao|duração]] e ao intervalo do movimento (De rer. nat., I, 29). [[lexico:h:hobbes|Hobbes]] definiu o tempo como "imagem ([[lexico:p:phantasma|phantasma]]) do movimento, na [[lexico:m:medida|medida]] em que imaginamos no movimento o antes e o depois, ou seja, a [[lexico:s:sucessao|sucessão]]"; "; considerava que essa definição estava de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a de Aristóteles (De corp., 7, 3). [[lexico:d:descartes|Descartes]] simplesmente repetia essa última, definindo o tempo como "número do movimento" (Princ. phil, I, 5 7). [[lexico:l:locke|Locke]] criticava a vincu-lação do tempo ao movimento, estabelecida pela definição de Aristóteles, só para afirmar que o tempo está ligado a qualquer espécie de ordem constante e repetível: "Qualquer aparição periódica e constante, ou mudança de [[lexico:i:ideias|ideias]], que acontecesse entre espaços de duração aparentemente equidistantes, e fosse constante e universalmente observável, poderia servir para distinguir intervalos do tempo tão [[lexico:b:bem|Bem]] quanto as que foram usadas na [[lexico:r:realidade|realidade]]" (Ensaio, II, 14, 19). Para definir o tempo, [[lexico:b:berkeley|Berkeley]] substituía a ordem do movimento pela ordem das ideias, ou melhor, a ordem do movimento [[lexico:e:externo|externo]] pela ordem do movimento interno: "Se [[lexico:e:eu|eu]] tentar construir uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:i:ideia|ideia]] do tempo abstraindo da sucessão de ideias de meu [[lexico:e:espirito|espírito]], que flui uniformemente e é compartilhada por todos os seres, estarei perdido e embaraçado por dificuldades inexplicáveis" (Principles of Human Knowledge, I, 98). Essa concepção de tempo fundamentou a [[lexico:m:mecanica|mecânica]] de Newton, que distinguia o tempo [[lexico:a:absoluto|absoluto]] e o tempo [[lexico:r:relativo|relativo]], mas a ambos atribuía ordem e uniformidade. "O tempo absoluto, [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] e matemático, na realidade e por [[lexico:n:natureza|natureza]], sem [[lexico:r:relacao|relação]] com [[lexico:n:nada|nada]] de externo, flui uniformemente (aequabiliter) e também se chama duração. O tempo relativo, [[lexico:a:aparente|aparente]] e comum é uma medida [[lexico:s:sensivel|sensível]] e externa da duração por [[lexico:m:meio|meio]] do movimento" (Naturalis philosophiae principia, I, def. VIII). Nessa definição de Newton, o [[lexico:u:uniforme|uniforme]] fluir da duração absoluta é confrontado com a uniformidade do movimento que é tomado como medida do tempo. [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] esclarecia o mesmo conceito do seguinte [[lexico:m:modo|modo]]: "Conhecendo-se as regras dos movimentos não uniformes, é [[lexico:p:possivel|possível]] relacioná-los com os movimentos uniformes inteligíveis e prever com este meio o que acontecerá a diferentes movimentos reunidos. Nesse [[lexico:s:sentido|sentido]], o tempo é a medida do movimento, ou seja, o movimento uniforme é a medida do movimento não uniforme" (Nouv. ess., II, 14,16). Portanto, definia o tempo como "uma ordem de sucessões" (Troisième lettre à Clarke, § 4): definição aceita por [[lexico:w:wolff|Wolff]] (Ont., § 572) e por Baumgarten (Mel, § 239)- Essa era a concepção a que [[lexico:k:kant|Kant]] se referia implicitamente, ao afirmar, em [[lexico:e:estetica-transcendental|Estética transcendental]], a [[lexico:i:idealidade|idealidade]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] do tempo, ao lado de sua realidade empírica (v. mais adiante). Mas a principal contribuição de Kant na [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do conceito de tempo não está na [[lexico:e:estetica|Estética]] transcendental, mas na [[lexico:a:analitica|Analítica]] dos [[lexico:p:principios|princípios]], mais precisamente no [[lexico:e:estudo|estudo]] da segunda [[lexico:a:analogia|analogia]], ou "[[lexico:p:principio|princípio]] da [[lexico:s:serie|série]] [[lexico:t:temporal|temporal]] segundo a [[lexico:l:lei|lei]] da [[lexico:c:causalidade|causalidade]]". Aí Kant reduz ordem de sucessão a ordem causal. Afirma que uma [[lexico:c:coisa|coisa]] só "pode conquistar seu [[lexico:l:lugar|lugar]] no tempo com a [[lexico:c:condicao|condição]] de que no [[lexico:e:estado|Estado]] precedente se pressuponha outra coisa à qual esta sempre deva seguir-se, ou seja, segundo uma [[lexico:r:regra|regra]]". A série temporal não pode inverter-se porque, "uma vez posto o estado precedente, o [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] deve seguir-se infalível e necessariamente"; portanto, "é lei necessária de nossa [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]] e, consequentemente, condição [[lexico:f:formal|formal]] de todas as percepções que o tempo precedente determine necessariamente o seguinte". Isso realmente permite a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre [[lexico:p:percepcao|percepção]] [[lexico:r:real|real]] do tempo e [[lexico:i:imaginacao|imaginação]], que poderia e pode inverter a ordem dos eventos, transformando a sucessão temporal em "[[lexico:u:unico|único]] [[lexico:c:criterio|critério]] [[lexico:e:empirico|empírico]] do [[lexico:e:efeito|efeito]] em relação à causalidade da [[lexico:c:causa|causa]]" ([[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]], Anal. dos princ, cap. II, seç. III, 3). Essa [[lexico:r:reducao|redução]] do tempo à ordem causal, defendida por Kant em relação ao conceito de tempo dominante em sua época (derivada da [[lexico:f:fisica|física]] newtoniana), foi reapresentada em nossos dias com relação à física einsteiniana. Ao afirmar a [[lexico:r:relatividade|relatividade]] da medida temporal, [[lexico:e:einstein|Einstein]] na realidade não inovou o conceito tradicional de tempo como ordem de sucessão: só negou que a ordem de sucessão fosse única e absoluta (v. Über die spezielle und die allgemeine Relativitätstheorie, 1921, §§ 8-9). Em confronto com a física de Einstein, H. [[lexico:r:reichenbach|Reichenbach]] voltou a propor a [[lexico:t:tese|tese]] kantiana da [[lexico:i:identidade|identidade]] do tempo com a causalidade: "O tempo é a ordem das cadeias causais: este é o principal resultado das descobertas de Einstein" ([[lexico:a:albert|Albert]] Einstein: Philosopher-Scientist, ed. por P. A. Schilpp, 1949, pp. 289 ss.). "A ordem do tempo, a ordem do antes e do depois, é redutível à ordem causal. (...) A inversão da ordem temporal para certos eventos, resultado que deriva da relatividade da [[lexico:s:simultaneidade|simultaneidade]], é apenas uma [[lexico:c:consequencia|consequência]] desse [[lexico:f:fato|fato]] fundamental. Uma vez que a velocidade de transmissão é limitada, existem eventos tais que nenhum deles pode ser causa ou efeito do [[lexico:o:outro|outro]]. Para tais eventos, a ordem do tempo não é definida, e cada um deles pode ser [[lexico:c:chamado|chamado]] de posterior ou anterior ao outro" (Ibid., 1949, pp. 289 ss.). Esses mesmos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] foram explicados por Reichenbach em seu livro póstumo The Direction of Time (1956), no qual identifica a ordem do tempo com a causalidade, e a direção do tempo com a [[lexico:e:entropia|entropia]] crescente (v. especialmente §§ 6, 16). A redução do tempo a causalidade pode ser considerada a mais importante (mas não por isso a mais consistente) [[lexico:p:proposicao|proposição]] filosófica apresentada no [[lexico:c:campo|campo]] da concepção do tempo como ordem. Ao contrário, tem bem menos importância a [[lexico:d:discussao|discussão]] — a que muitas vezes os filósofos se inclinaram — sobre a [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] ou [[lexico:o:objetividade|objetividade]] do tempo Foi Aristóteles [[lexico:q:quem|quem]] deu início a tais discussões, chegando à conclusão de que, se por um lado o tempo como medida não pode [[lexico:e:existir|existir]] sem a [[lexico:a:alma|alma]] — pois só a alma pode medir —, por outro lado o movimento ao qual a medida se refere não depende da alma (Fís., IV, 14. 223 a 20-29). No séc. XIV, retomando essas considerações, Ockham afirmava que não existiria tempo se a alma não pudesse medir nem numerar (In Sent., II. q. 12). Até Hobbes chamava o tempo de imagem (v. definição citada anteriormente). Menos significativa é a redução do tempo, de autoria de Locke e de Berkeley, à ordem das ideias: porque as ideias, para esses filósofos, são os únicos objetos de que se pode [[lexico:f:falar|falar]]. Quanto ao "[[lexico:s:subjetivismo|subjetivismo]]" da concepção kantiana, segundo a qual o tempo é "[[lexico:i:intuicao|intuição]] pura", condição de qualquer percepção sensível, não passa de mal-entendido, pois só o tempo pode ser considerado [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] com relação às [[lexico:c:coisas|coisas]] em si, que estão [[lexico:a:alem|além]] da consideração humana, mas é [[lexico:o:objetivo|objetivo]] e real em relação às coisas naturais, em [[lexico:v:virtude|virtude]] do que o tempo tem "realidade empírica" indubitável ([[lexico:c:critica|Crítica]] da [[lexico:r:razao-pura|Razão Pura]], §§ 6, 7). Além disso, o [[lexico:o:objetivismo|objetivismo]] da concepção kantiana é demonstrado pela redução do tempo à ordem causal: tese a que os neo-empiristas chegaram sem conhecer sua proveniência kantiana. 2) A segunda concepção fundamental de tempo considera-o como intuição do movimento ou "[[lexico:d:devir|devir]] intuído". Esta última definição é de [[lexico:h:hegel|Hegel]], que acrescenta ser "o tempo o princípio mesmo do Eu = Eu, da [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]] pura, mas é [[lexico:e:esse|esse]] princípio ou o simples conceito ainda em sua completa [[lexico:e:exterioridade|exterioridade]] e [[lexico:a:abstracao|abstração]]" (Enc., § 258). Portanto, Hegel não identifica o tempo com a consciência, mas com algum [[lexico:a:aspecto|aspecto]] parcial ou [[lexico:a:abstrato|abstrato]] da consciência. Sem essa [[lexico:l:limitacao|limitação]], [[lexico:s:schelling|Schelling]] dissera: "o tempo outra coisa não é senão o sentido interno que se torna [[lexico:o:objeto|objeto]] para si" (System des transzendentalen Idealismus, seç. III, Segunda época, D; trad. it., p. 141). A rigor, a concepção de tempo como intuição do devir traz em seu bojo a redução de tempo a consciência. Isso já acontece em [[lexico:p:plotino|Plotino]]. Segundo este [[lexico:u:ultimo|último]], o tempo não existe fora da alma: "é a vida da alma e consiste no movimento graças ao qual a alma passa de uma condição de sua vida para outra" (Enn., III, 7.11); assim, pode-se dizer que até o [[lexico:u:universo|universo]] está no tempo só na medida em que está na alma, ou seja, na [[lexico:a:alma-do-mundo|alma do mundo]] (Ibid., III, 7, 3). A S. [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] deve-se a melhor expressão e a difusão dessa doutrina na filosofia ocidental. O tempo é identificado por Agostinho com a própria vida da alma que se estende para o passado ou para o [[lexico:f:futuro|futuro]] (extensio ou distensio animi). S. Agostinho diz: "De que modo diminui e consuma-se o futuro que ainda não existe? E de que modo cresce o passado que já não é mais, senão porque na alma existem as três coisas, presente passado e futuro? A alma de fato espera, presta [[lexico:a:atencao|atenção]] e recorda, de tal modo que aquilo que ela espera passa, através daquilo a que ela presta atenção, para aquilo que ela recorda. Ninguém nega que o futuro ainda não exista, mas na alma já existe a espera do futuro; ninguém nega que o passado já não exista, mas na alma ainda existe a [[lexico:m:memoria|memória]] do passado. E ninguém nega que o presente careça de duração porque logo incide no passado, mas dura a atenção por meio da qual aquilo que será passa, afasta-se em direção ao passado" (Conf, XI, 28,1). A tese fundamental dessa concepção de tempo foi enunciada pelo [[lexico:p:proprio|próprio]] S. Agostinho: "A rigor, não existem três tempo, passado, presente e futuro, mas somente três presentes: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro" (íbid., XI. 20, 1). Na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], [[lexico:b:bergson|Bergson]] reexpôs essa concepção, contrapondo-a ao conceito científico de tempo. Segundo ele, o tempo da [[lexico:c:ciencia|ciência]] é espacializado e, por isso, não tem nenhuma das características que a consciência lhe atribui. Ele é representado como uma linha, mas "a linha é imóvel, enquanto o tempo é mobilidade. A linha já está feita, ao passo que o tempo é aquilo que se faz; aliás, é aquilo graças a que todas as coisas se fazem" (La pensée et le mouvant, 3a ed., 1934, p. 9). Já em sua primeira [[lexico:o:obra|obra]], Essai sur les données immédiates de la conscience, Bergson insistira na exigência de considerar o tempo [[lexico:v:vivido|vivido]] (a duração da consciência) como uma corrente fluida na qual é [[lexico:i:impossivel|impossível]] até distinguir estados, porque cada [[lexico:i:instante|instante]] dela transpõe-se no outro em continuidade ininterrupta, como acontece com as cores do arco-íris. Esse ficou sendo o conceito fundamental de sua filosofia. Segundo Bergson, o tempo como duração possui duas características fundamentais: 1) novidade absoluta a cada instante, em virtude do que é um [[lexico:p:processo|processo]] [[lexico:c:continuo|contínuo]] de [[lexico:c:criacao|criação]]; 2) conservação infalível e integral de [[lexico:t:todo|todo]] o passado, em virtude do que age como uma bola de neve e continua crescendo à medida que caminha para o futuro. Não muito diferente é o conceito de [[lexico:h:husserl|Husserl]] sobre o "[[lexico:t:tempo-fenomenologico|tempo fenomenológico]]". Ele afirma: "Toda [[lexico:v:vivencia|vivência]] efetiva é necessariamente algo que dura; e com essa duração insere-se em um [[lexico:i:infinito|infinito]] contínuo de durações, em um contínuo pleno. Tem necessariamente um [[lexico:h:horizonte|horizonte]] temporal atualmente infinito de todos os lados. Isso significa que pertence a uma corrente infinita de vivências. Cada vivência isolada, assim como pode começar, pode acabar e encerrar sua duração; é o que acontece, p. ex., com a [[lexico:e:experiencia|experiência]] de uma [[lexico:a:alegria|alegria]]. Mas a corrente de vivências não pode começar nem acabar" (Ideen, I, § 81). Isso significa que, assim como a duração bergsoniana, a corrente de vivências tudo conserva e é uma espécie de eterno presente. 3) O [[lexico:t:terceiro|terceiro]] conceito de tempo transforma-o em estrutura da [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]]. Esse é o conceito encontrado em [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] na obra [[lexico:s:ser-e-tempo|Ser e Tempo]] (1927), que já no título anuncia a identidade dos dois termos. A primeira [[lexico:c:caracteristica|característica]] dessa concepção é o [[lexico:p:primado|primado]] do futuro na interpretação do tempo; as duais concepções anteriores fundam-se no primado do presente. O tempo como ordem do movimento é uma [[lexico:t:totalidade|totalidade]] presente porque toda ordem pressupõe a simultaneidade de suas partes, de cuja recíproca [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] ela nasce. A concepção de tempo como devir intuído só faz interpretá-lo em [[lexico:f:funcao|função]] do presente, porque a intuição do devir é sempre um [[lexico:a:agora|agora]], um instante presente. Heidegger, ao contrário, interpretou o tempo em termos de possibilidade ou de [[lexico:p:projecao|projeção]]: o tempo é originariamente o por-vir (Zu-kunft); mais precisamente: quando o tempo é [[lexico:a:autentico|autêntico]] (originário e próprio da [[lexico:e:existencia|existência]]), é "o porvir do [[lexico:e:ente|ente]] para [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] na manutenção da possibilidade característica como tal". "Porvir não significa um agora, que, ainda não tendo se tornado [[lexico:a:atual|atual]], algum dia o será, mas o advento em que o [[lexico:s:ser-ai|ser-aí]] vem a si em seu poder-ser mais próprio. É a [[lexico:a:antecipacao|antecipação]] que torna o ser-aí propriamente porvindouro, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que a própria antecipação só é possível porque o ser-aí, enquanto ente, sempre já vem a si" (Sein und Zeit, § 65). O passado, como um ter-sido, é condicionado pelo porvir porque, assim como são possibilidades autênticas aquelas que já foram, também já foram as possibilidades às quais o homem pode autenticamente retornar e de que ainda pode apropriar-se (Ibid., § 65). Tanto o tempo autêntico, em que o ser-aí projeta sua própria possibilidade privilegiada (o que já foi, de tal modo que suas escolhas são escolhas do já escolhido, isto é, da [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de escolher), quanto o tempo inautêntico, que é o da existência banal, como sucessão infinita de instantes, ambos são o sobrevir do que a possibilidade projetada apresenta ao ser-aí (isto é, ao homem); portanto são um apresentar-se, a partir do futuro, daquilo que já foi no passado (Ibid., § 80, 81). A análise heideggeriana do tempo sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] contém um grande [[lexico:c:compromisso|compromisso]] metafísico, porquanto o tempo é considerado uma espécie de [[lexico:c:circulo|círculo]], em que a [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] para o futuro é aquilo que já passou; por sua vez, o que já passou é a perspectiva para o futuro. Nesse sentido, Heidegger [[lexico:f:fala|fala]] de tempo [[lexico:f:finito|finito]], ou autêntico, já que tempo inautêntico (que ele também chama de databilidade ou tempo [[lexico:p:publico|público]]) é o desconhecimento parcial da natureza do tempo e a sua concepção como linha aberta e sucessão infinita de instantes (Sein und Zeit, §§ 79-81). Todavia, a análise de Heidegger contém alguns [[lexico:e:elementos|elementos]] de [[lexico:i:interesse|interesse]] filosófico notável porque constitui uma importante inovação na análise do conceito de tempo. Esses elementos são os seguintes: 1) Mudança do horizonte [[lexico:m:modal|modal]], passando-se da [[lexico:n:necessidade|necessidade]] à possibilidade: o tempo já não é integrado numa estrutura necessária, como a ordem causal, mas na estrutura da possibilidade. Esse aspecto pode ser utilizado para expressar adequadamente a [[lexico:t:transformacao|transformação]] a que a [[lexico:n:nocao|noção]] de tempo foi submetida pela relatividade de Einstein. Com efeito, se dois eventos são simultâneos segundo certo [[lexico:s:sistema|sistema]] de [[lexico:r:referencia|referência]] mas podem não ser simultâneos segundo um outro, conclui-se que o tempo não é uma ordem necessária, mas a possibilidade de várias ordens. 2) O primado do futuro na interpretação do tempo não constitui apenas uma [[lexico:a:alternativa|alternativa]] diferente do primado do presente e a ele oposta, na qual se baseiam as outras duas interpretações principais, mas também oferece a possibilidade de não achatar sobre o presente as outras determinações do tempo e de entendê-las em sua natureza específica: o futuro como futuro (e não como "presente do futuro") e o passado como passado. 3) A relação entre passado e futuro, que Heidegger enrijeceu num círculo, pode ser facilmente dissolvida com a introdução da noção de possível. O passado pode ser entendido como [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida ou [[lexico:f:fundamento|fundamento]] das possibilidades porvindouras, e o futuro como possibilidade de conservação ou de mudança do passado, em limites (e aproximações) de-termináveis. 4) A introdução de novos conceitos interpretativos, expressos por termos como [[lexico:p:projeto|projeto]] ou projeção, antecipação, [[lexico:e:expectativa|expectativa]], etc, mostraram-se úteis nas análises filosóficas e passaram a fazer [[lexico:p:parte|parte]] do [[lexico:u:uso|uso]] filosófico corrente. A medida da duração. — O tempo (intervalo objetivo, medido pelos relógios) distingue-se da duração vivida (Bergson) ou da [[lexico:t:temporalidade|temporalidade]], ou consciência do tempo (Husserl). Enquanto que a filosofia antiga (grega) contrapunha o mundo do devir ao mundo da verdade em si (imutável, intemporal), a filosofia moderna, desde Kant, procura [[lexico:c:compreender|compreender]] o mundo, o ser e o próprio [[lexico:d:deus|Deus]] a partir da consciência humana temporal ("o ser a partir do tempo", diz Heidegger em O ser e o tempo). Esse novo [[lexico:m:metodo|método]], que é crítico, visa determinar as fronteiras ou "limites" do universo de nossa consciência e compreender, a partir do tempo de nossa vida — isto é, de nossa consciência real — todos os dados do universo (é o princípio de toda filosofia reflexiva; foi praticado por Kant [[lexico:f:fichte|Fichte]], Hegel e Heidegger). (V. duração, temporalidade.) É uma espécie de duração. Duração significa persistência em existir. 0 que não tem existência, também não tem duração. A duração de seres imutáveis é a eternidade; a de seres mutáveis, o tempo. Na [[lexico:e:escolastica|escolástica]] distingue-se, outrossim, tempus e [[lexico:a:aevum|aevum]]; tempus significa o modo de duração das criaturas corpóreas; aevum, o modo de duração das criaturas espirituais. Assim como o [[lexico:e:espaco|espaço]] mostra um [[lexico:e:estar|estar]] junto a outro na [[lexico:e:extensao|extensão]], assim o tempo significa um estar depois de outro na duração (sucessão), o que denota uma extensão contínua desde o passado ao futuro através do presente. Passado (ou pretérito) é o que já não existe, mas muitas vezes se conserva objetivamente em seus efeitos, ou subjetivamente na memória. Presente (ou atual) é o que se encontra entre o passado e o futuro, o que existe agora. Em sentido [[lexico:e:estrito|estrito]], só é presente um [[lexico:e:elemento|elemento]] indivisível do tempo: o "agora’’, o "[[lexico:m:momento|momento]] atual". Futuros são os acontecimentos e as coisas que todavia não existem, mas que existirão, e amiúde se antecipam na expectativa. O instante (momento) constitui um elemento indivisível do tempo, um corte no mesmo. Como a extensão do tempo é contínua, ela não pode ser construída com instantes. A sucessão do tempo, que é condicionada pelas mudanças das coisas temporais, é orientada desde o passado ao futuro ( = direção temporal) e é [[lexico:i:irreversivel|irreversível]]; o sentido de sua direção é fixado pela relação de [[lexico:c:causa-e-efeito|causa e efeito]]. Como cada coisa e cada acontecimento tem sua duração, assim tem também seu tempo [[lexico:c:concreto|concreto]] próprio: o tempo [[lexico:f:fisico|físico]]. A par do tempo próprio de todo ser, fala-se do tempo imaginário, que apresenta um [[lexico:e:esquema|esquema]] [[lexico:g:geral|geral]] [[lexico:v:vazio|vazio]], no qual podem ser encaixados todos os acontecimentos temporais, um sistema vazio, de acontecimentos possíveis. E uma duração temporal abstrata, representada como existente em si, e é pensada como um contínuo, sem princípio nem [[lexico:f:fim|fim]], unidimensional e fluente de maneira uniforme, de modo [[lexico:a:analogo|análogo]] ao espaço absoluto. A simultaneidade ([[lexico:c:coexistencia|coexistência]]) de acontecimentos denota que estes estão coordenados ao mesmo ponto ou parte do tempo imaginário. Denomina-se [[lexico:t:teoria|teoria]] do tempo uma teoria da [[lexico:o:origem|origem]] e [[lexico:v:valor|valor]] da noção de tempo. O tempo físico é, como a duração, uma [[lexico:d:determinacao|determinação]] (ou talvez melhor, determinabilidade) real das coisas temporais. O tempo imaginário é o resultado de um longo processo evolutivo conceptual e, como tal, carece de realidade. E um [[lexico:e:ente-de-razao|ente de razão]]. Todavia, como contém a duração como elemento objetivo, é possível formular, com seu auxílio, juízos objetivamente válidos sobre condições e [[lexico:r:relacoes|relações]] temporais. — Medir o tempo significa [[lexico:c:comparar|comparar]] um tempo com uma medida temporal arbitrariamente escolhida como [[lexico:u:unidade|unidade]]. Como unidade de tempo pode ser tomado qualquer processo periódico, como a alternação do dia e da noite, o movimento pendular, etc. — Importa distinguir entre a noção de tempo e a sua [[lexico:r:representacao|representação]] [[lexico:i:intuitiva|intuitiva]]. A duração temporal de vivências interiores, tempo [[lexico:p:psiquico|psíquico]], é imediatamente percebida pelo "sentido do tempo" que mercê de estados psicológicos, pode apreciar o comprimento do tempo transcorrido. Chama-se tempo psíquico de [[lexico:p:presenca|presença]] a extensão de tempo imediatamente presente à percepção do tempo. Sua duração fixa-se entre seis e doze segundos. Aristóteles considera principalmente o tempo físico, entendendo por tal a sucessão no movimento e definindo-o como o número do movimento segundo um antes e um depois (numerus motus secundum prius et posterius). — Kant apoia suas reflexões sobre a noção do tempo imaginário elaborada por Newton e vê nele uma forma aprió-rica da intuição, que possibilita uma experiência ordenada: tem "realidade empírica" e "idealidade transcendental" ([[lexico:c:criticismo|criticismo]]). — Para Heidegger, o tempo é o "presente que se explicita", ou seja, o explicitado que se exprime no "agora". O tempo "é anterior a toda subjetividade e objetividade, porque oferece a condição da própria possibilidade deste antes" ([[lexico:f:filosofia-da-existencia|filosofia da existência]]). — A [[lexico:t:teoria-da-relatividade|teoria da relatividade]] ocupa-se do tempo concretamente comprovável. Muitos de seus enunciados sobre o tempo referem-se propriamente à medição do tempo. — Junk. Na filosofia antiga, e também na medieval, relegou-se o conceito de tempo em benefício do [[lexico:t:tema|tema]] do ser. se contrapõe o modo hebraico e o modo [[lexico:g:grego|grego]] de [[lexico:p:pensar|pensar]], o primeiro é fundamentalmente temporal, destaca o passar, ao passo que o segundo é fundamentalmente intemporal e destaca o estar, a presença. De qualquer modo, há que [[lexico:t:ter|ter]] em conta que isto não significa que os gregos careceram da noção de tempo, mas que enquanto que os hebreus concebiam o tempo primariamente em função do futuro, os gregos conceberam-no primariamente em função de um presente. As concepções filosóficas gregas arreigaram em grande medida na [[lexico:v:visao|visão]] do tempo como uma forma de presença. Muito filósofos admitiram que o tempo pertence à realidade fenomênica. Esta realidade é uma realidade presente, mas não é a presença. A presença está sempre presente, e por isso é, ao passo que a realidade fenomênica está sempre a ponto de se ausentar e por isso devém. Em Platão confirma-se a ideia do tempo que passa como [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] de uma presença que não passa, quando formula a sua célebre definição: “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. Mesmo quando a ideia de tempo desempenha um papel muito importante na filosofia de Platão pode-se concluir que não possui uma ideia suficientemente desenvolvida do tempo ou que o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] tende a reduzir o tempo a algo intemporal. a eternidade que Platão falava como o original do tempo é uma ideia mas da qual há uma cópia muito imediata: o perpétuo movimento circular das esferas celestes, que talvez fosse para Platão a primeira eternidade. Aristóteles analisa o conceito de tempo sem fazer dele uma cópia, imagem ou sombra de uma realidade verdadeira. Para isto vale-se do conceito de movimento. Observa que o tempo e o movimento se apercebem em conjunto. É certo que se estamos na obscuridade não percebemos nenhum movimento, pois não percebemos nenhum [[lexico:c:corpo|corpo]] que se mova, mas basta um movimento na [[lexico:m:mente|mente]] para nos darmos conta de que o tempo passa. O tempo, portanto, é algo relacionado com o movimento. No conceito de sucessão temporal, estão incluídos conceitos como os de agora, antes e depois. Estes depois conceitos são fundamentais, pois não haveria nenhum tempo sem um antes e um depois Daí que se possa definir o tempo como “a medida do movimento segundo o antes e o depois”. Os conceitos de tempo e de movimento estão vinculados entre si tão estreitamente que são inter-definíveis: medimos o tempo pelo movimento, mas também o movimento pelo tempo. Os estoicos referiram a definição aristotélica, introduzindo as noções de intervalo e velocidade. Observou-seque as teorias antigas sobre o tempo podem dividir-se tal como as modernas, em dois grandes grupos: o dos absolutistas, que concebem o tempo como uma realidade absoluta em si mesma, e o dos relacionistas, que entendem que o tempo é uma relação. Aristóteles parece ter defendido esta concepção; a maior parte dos filósofos procurou combinar uma com a outra, especialmente Plotino. Este aceitou a ideia de que a alma ou consciência é que mede o tempo. Isto encerra por um lado uma teoria absolutista do tempo - o tempo é algo real na alma - e uma teoria relacionista - a alma mede, numera, relaciona. Por outro lado, Plotino adere à tese platônica de que o tempo é imagem móvel da eternidade, mas é uma imagem que tem a sua sede na alma e até pode conceber-se como a vida da alma. A alma abandona o tempo quando se recolhe no [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], mas enquanto isto não sucede, a alma vive no tempo e até como tempo. A chamada concepção cristã do tempo atinge a sua primeira formulação madura em [[lexico:s:santo|santo]] Agostinho. O tempo é para ele um grande [[lexico:p:paradoxo|paradoxo]]. E um grande que não é; o agora não se pode deter, pois se isso acontecesse não seria tempo. O tempo, a é um será que ainda não é. O tempo não tem [[lexico:d:dimensao|dimensão]]; quando vamos apressá-lo desvanecesse-nos. E, no entanto, eu sei o que o tempo, mas o sei só quando não tenho de dizê-lo: nada não mo perguntam, o sei; quando mo perguntam, não o sei. O tempo não é, portanto, um agora, o que agora mesmo acontece ou o que agora mesmo está vivendo, pois, como vimos não há justamente tal agora. Não há presente; não há já passado, não há ainda futuro, portanto, não há tempo. Estas dificuldades atenuam-se quando em vez de tratarmos de fazer do tempo algo externo, como as coisas, o radicamos na alma: a alma é a verdadeira mediada do tempo. O passado é o que se recorda; o futuro, o que se espera; o presente, aquilo a que se está atento; passado, futuro e presente aparecem como memória, espera e atenção. As coisas futuras não são ainda, mas a espera delas está no nosso espírito; o mesmo sucede com as coisas passadas e presentes. Durante a idade média preocupou os filósofos o [[lexico:p:problema|problema]] teológico do tempo em relação com a eternidade. Destacaremos o problema posto pela realidade própria do antes e do depois. Para Duns Escoto o material do tempo, quer dizer, o movimento, encontra-se fora da alma, mas o formal do tempo, isto é, a medida do movimento, provém da alma. Na época moderna continuou a discutir-se os problemas teológicos, físicos e psicológicos [[lexico:r:relativos|relativos]] ao tempo. Referimo-nos a algumas concepções modernas do tempo. Aqui ocupar-nos-emos da maneira como pode entender-se o tempo em relação com as coisas, os fenômenos naturais, etc. À [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] do espaço, o tempo podia ser concebido de três modos: como uma realidade em si mesmo, [[lexico:i:independente|independente]] das coisas, quer dizer, como realidade absoluta; como uma relação, uma ordem; e, finalmente, como uma propriedade. Os dois primeiros modos foram os mais importantes, já que tempo como propriedade das coisas é antes a duração. A primeira concepção é a chamada absoluta ou absolutista do tempo e o seu representante mais notório é Newton. A segunda é a chamada [[lexico:r:relacional|relacional]] ou relacionista e ilustrou-a exemplarmente Leibniz. Ambos tende a considerar que o tempo é contínuo, [[lexico:i:ilimitado|ilimitado]], não isotrópico (quer dizer, tem uma só duração e uma só dimensão) e homogêneo. A concepção de Newton encontra-se expressa da seguinte maneira: “o tempo absoluto, verdadeiro e matemático, [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo e pela sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com cada [[lexico:e:exterior|exterior]], e chamamos-lhe duração. O tempo relativo, aparente e comum, é uma medida sensível e exterior.. da duração por meio do movimento, que é comummente usado em vez do tempo verdadeiro”. Supõe-se, portanto, que o tempo é independente das coisas, é enquanto as coisas mudam, o tempo não muda. As mudanças são-no em relação com o tempo uniforme que lhes serve de marco vazio. As mudanças encontram-se no tempo de maneira análoga a [[lexico:c:como-se|como se]] supunha a que os corpos se encontram no espaço e supunha-se que o tempo, tal como o espaço, é indiferente às coisas que contêm e às suas mudanças. Leibniz, por seu lado, sustentou que o tempo é a “ordem de existência das coisas que não são simultâneas. Assim, o tempo é a ordem [[lexico:u:universal|universal]] das mudanças quando não temos em conta os tipos particulares de mudança”. Assim, como o espaço é uma ordem de coexistência, o tempo é “a ordem de sucessões”. Na sua tentativa de fazer [[lexico:j:justica|justiça]] a ambas as posições Kant desenvolveu uma complexa doutrina do tempo. Na Estética transcendental da Crítica da [[lexico:r:razao|Razão]] Pura adopta uma [[lexico:p:posicao|posição]] que aspira a justificar a posição de Newton, mas em vez de findá-la na ideia do tempo como coisa em si, funda-a numa ideia do tempo como condição do fenômenos. Kant nega que o tempo seja um conceito empírico derivado da experiência; tem de ser, portanto, uma representação numérica que subjaz em todas as nossas intuições. O tempo é uma forma de intuição [[lexico:a:a-priori|a priori]]. Com isto parece aproximar-se de Leibniz, mas nega que o tempo seja uma relação ou uma ordem, visto que em tal caso seria um conceito intelectual e não uma intuição. Por outro lado, o tempo não é subjectivo no sentido de ser a experiência vivida de um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] [[lexico:h:humano|humano]]. Assim, portanto, o tempo não é real, não é uma coisa em sim mas tão pouco é meramente subjectivo, convencional ou [[lexico:a:arbitrario|arbitrário]]. Esta concepção do tempo refere-se à ordem das percepções, mas não ainda à ordem dos juízos. Quando estes aparecem, o tempo exerce outra função, a função sintética. Nenhum [[lexico:j:juizo|juízo]] seria possível se não estivesse fundado numa [[lexico:s:sintese|síntese]], a qual por sua vez está baseada no uso de um ou vários conceitos do [[lexico:e:entendimento|entendimento]] ou [[lexico:c:categorias|categorias]]. Mas estas categorias aplicam-se à experiência só por meio do esquemas e o esquema é justamente possível pela [[lexico:m:mediacao|mediação]] do tempo. E Hegel parecera haver um primado do tempo na medida em que há um primado do devir, mas, por outro lado, este tempo é só o Espírito na medida em que se desprende, pois em si mesmo é intemporal ou, melhor, eterno. Assim, a temporalidade é uma manifestação da ideia. Há que notar que esta coexistência do temporal com o intemporal é própria de várias correntes filosóficas do século dezanove, especialmente das correntes evolucionistas, nas quais se afirma ou supõe que o que há existe na medida em que se desenvolve temporalmente, mas que este [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] segue um o [[lexico:p:plano|plano]] que tem de ser por si mesmo intemporal. Desde as últimas décadas do século passado, o tempo, a temporalidade e o temporal encontram-se no centro de diversas filosofias. Isto torna-se muito claro em Bergson, o qual se perguntou “que fazia” o tempo em sistemas que pareciam fundamentar-se no desenvolvimento temporal e, no entanto, não utilizavam de nenhum modo o tempo ou o reduziam a espaço. A insistência de Bergson na noção de duração como “duração real”, como para realidade, como objeto da intuição, etc, conduziu-o a uma [[lexico:m:metafisica|metafísica]] temporalizada na qual se estabelece uma distinção entre tempo verdadeiro e tempo falsificado e espacializado. Em Husserl aparece uma distinção entre o tempo fenomenológico [[lexico:e:escrito|escrito]] como a forma utilitária das vivências num fluxo do vivido, e o tempo objetivo ou cósmico, Segundo Husserl, este tempo comporta-se em relação ao fenomenológico “de um modo análogo como a extensão que pertence à [[lexico:e:essencia|essência]] [[lexico:i:imanente|imanente]] de conteúdo sensível concreto se comporta relativamente á extensão objetiva”. Daí que a propriedade [[lexico:e:essencial|essencial]] que exprime a temporalidade para as vivências não designa só “algo que pertence em geral a cada vivência [[lexico:p:particular|particular]], mas uma forma necessária de [[lexico:u:uniao|união]] das vivências com as vivências.” A vivência real é temporalidade, mas uma temporalidade que se confunde com uma espécie de duração real em sentido parecido ao bergsoniano.. O problema do tempo recebeu uma nova formulação na filosofia de Heidegger. A sua primeira obra [[lexico:c:capital|capital]], O Ser e o tempo, é uma interpretação do ser do homem na direção da temporalidade descobrindo-se o tempo como horizonte transcendental da [[lexico:p:pergunta|pergunta]] pelo ser. A temporalidade do ser do homem revela-se fundamentalmente ante a [[lexico:m:morte|morte]] e o cuidado, entendido como [[lexico:p:preocupacao|preocupação]]. O sentido [[lexico:o:ontologico|ontológico]] do cuidado é a temporalidade. Esta não é a essência do tempo como realidade mundana nem o [[lexico:c:carater|caráter]] do ser temporal em geral: é a unidade do cuidado como temporalidade. Por isso não pode falar-se simplesmente de passado, presente e futuro, nem sequer em recordação, percepção e antecipação. A temporalidade do ser do homem é originária no sentido em que é a temporalização do ser do homem como “preocupado” pela sua própria possibilidade ser. Longe de ser o tempo [[lexico:m:mundano|mundano]] o [[lexico:m:modelo|modelo]] da temporalidade do ser do homem, esta é um modelo daquele. Definir o tempo a priori é defini-lo de acordo com determinada [[lexico:p:posicao-filosofica|posição filosófica]] ou teoria científica, pois embora a realidade a que faz referência seja a mesma, sua noção tem variado ao longo da [[lexico:h:historia|história]], acompanhando a [[lexico:e:evolucao|evolução]] da filosofia e o [[lexico:p:progresso|progresso]] das ciências particulares. À pergunta pelo tempo têm sido dadas várias respostas que correspondem às cosmovisões características dos grandes ciclos da [[lexico:c:cultura|cultura]]. Na história do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ocidental, é possível distinguir, a propósito, três concepções distintas que correspondem ao mundo grego, ao cristianismo e ao mundo [[lexico:m:moderno|moderno]]. **Concepção grega do tempo.** A [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre o tempo e o espaço se inicia no século VI antes de Cristo, na [[lexico:e:escola|escola]] de Elea, que, afirmando a unidade e a imobilidade do ser, procurava mostrar as contradições implícitas na [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] e no movimento. De acordo com os argumentos de [[lexico:z:zenao|Zenão]], o movimento é impossível porque é contraditório, envolvendo o seguinte [[lexico:d:dilema|dilema]]: ou a extensão é infinitamente divisível, [[lexico:h:hipotese|hipótese]] em que o móvel levaria um tempo infinito para percorrer o número infinito de estações intermediárias que resultam de sua [[lexico:d:divisao|divisão]]; ou então, o espaço não é infinitamente divisível, interrompendo-se a divisão no indivisível, no ponto; ora, [[lexico:c:composto|composto]] de pontos indivisíveis, o espaço não existe, e como o espaço é a condição do movimento, e o movimento a condição do tempo, movimento e tempo são irracionais e, portanto, irreais. Levando às últimas consequências o [[lexico:p:principio-de-identidade|princípio de identidade]] e de não-contradição, e as exigências da razão lógico-formal, contestam os [[lexico:e:eleatas|eleatas]] a [[lexico:v:validade|validade]] do [[lexico:c:conhecimento-sensivel|conhecimento sensível]], sustentando que a multiplicidade e o movimento, o espaço e o tempo, porque contraditórios e irracionais, não passam de ilusões dos sentidos. No mesmo século, [[lexico:h:heraclito|Heráclito]] de Éfeso sustentou, em [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] aos eleatas, a tese da multiplicidade e da mobilidade do ser, afirmando a estrutura movediça e contraditória da realidade e do [[lexico:l:logos|Logos]] "de acordo com o qual todas as coisas se produzem". Segundo o efesiano, "não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio", pois tudo corre e "a [[lexico:g:guerra|guerra]] é mãe e rainha de todas as coisas". A [[lexico:c:contradicao|contradição]], o conflito, a [[lexico:l:luta|luta]], são reconhecidos como essência do [[lexico:v:vir-a-ser|vir-a-ser]], de devenir, pois "é uma mesma coisa ser vivo ou ser morto, desperto ou adormecido, jovem e velho, essas coisas se transformam umas nas outras e são de novo transformadas". Além de razão das coisas, o logos heraclítico é o [[lexico:f:fogo|fogo]] que as ilumina e nos permite vê-las, "sentido" do real e pensamento, além de [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]], pois "ser [[lexico:s:sabio|sábio]] consiste em [[lexico:s:saber|saber]] que o pensamento governa todas as coisas". Compreendendo a natureza como processo, a mobilidade e o tempo como estofo da realidade, o absoluto como vir-a-ser e unificação dos contrários, Heráclito, segundo Hegel, formulou, pela primeira vez, a ideia filosófica em sua forma especulativa. No século seguinte, [[lexico:d:democrito|Demócrito]] de Abdera formula a teoria atomista, que é uma tentativa de conciliação entre o [[lexico:e:eleatismo|eleatismo]] e o heracliteísmo. Admitindo a plenitude do ser, que chama de [[lexico:a:atomo|átomo]], e reconhecendo a impossibilidade de negar o movimento, admite também o espaço vazio, condição do movimento. O ser parmenídico, [[lexico:u:uno|uno]] e imóvel, é dividido em um número infinito de átomos, partículas indivisíveis, que se movem no vazio e de cuja união ou [[lexico:s:separacao|separação]] resultam todas as coisas. Os átomos e o vazio são eternos e o movimento sempre existiu. Discípulo de Demócrito, [[lexico:e:epicuro|Epicuro]] esboça a tese que, dois milênios e meio mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], deveria opor a concepção einsteiniana à concepção newtoniana do tempo. Ao expor a doutrina de Epicuro, no De natura rerum, Lucrécio escreve o seguinte: "O tempo não existe por si mesmo, mas apenas pelos objetos sensíveis, de que resulta a noção de passado, presente e futuro. Não se pode conceber o tempo em si e independentemente do movimento e do repouso das coisas". Tentando também harmonizar o eleatismo com o heracliteísmo, e interpretando de modo [[lexico:p:pessoal|pessoal]] a teoria socrática das [[lexico:e:essencias|essências]], Platão, sem negar o movimento e o vir-a-ser, acredita que as essências se dissolveriam na mobilidade se dela não fossem, de certo modo, independentes. Tal é o sentido da teoria das ideias, eternas e imutáveis, modelos e paradigmas dos objetos sensíveis, efêmeros e contingentes. No [[lexico:t:timeu|Timeu]], Platão sustenta que o tempo é uma imagem ou "[[lexico:i:imitacao|imitação]] móvel da eternidade". Ligado ao movimento e à mudança, o tempo não existe para as coisas eternas, que "não comportam nenhum dos acidentes que o vir-a-ser acarreta ao que se move na ordem sensível, pois esses acidentes são variedades do Tempo, que imita a eternidade e se desenrola em círculo, de acordo com o número". As coisas que duram têm, cada uma, um tempo próprio, como acontece com os astros, cujos tempos são medidos pelos tempos referenciais do [[lexico:s:sol|sol]] e da lua. Há, porém, um tempo comum, do "grande ano" que domina todos os outros e permite reduzi-los à mesma medida. 0 tempo divisível, que se deixa numerar, aparece com o mundo e, se o mundo devesse perecer, o tempo também pereceria. Na Física, Aristóteles faz um estude crítico do problema do tempo, em sua relação com o movimento, a mudança, o número e a medida. Observa, inicialmente, que o tempo foi e não é mais e vai sei e ainda não é. "As partes do tempo são umas passadas e outras futuras, nenhuma existe e, no entanto, o tempo é uma coisa divisível". O instante, porém, não pode sei parte do tempo, inclusive porque é um [[lexico:l:limite|limite]] e não se pode admitir um tempo finito ou limitado. O tempo parece ser o movimento e a mudança. Todavia, diz Aristóteles, o movimento e a mudança estão unicamente nas coisas, ao passo que o tempo está em toda parte e em todas as coisas igualmente. O movimento e a mudança são mais rápidos ou mais lentos, o que não acontece com o tempo, que define a rapidez e a lentidão. Não há tempo sem movimente e, no entanto, o tempo não é movimento mas [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] do movimento. Conhece-se o tempo quando se determina o movimento, utilizando, nessa determinação, o anterior e o posterior. O tempo é, portanto, "o número do movimento de acordo com o anterior e posterior, sendo contínuo, pois pertence um contínuo". O tempo não é o movimento, a não ser enquanto o movimento com porta um número, ou é mensurável. O tempo, continua o Estagirita, é o numerado não o meio de numerar, pois o meio de numerar e a coisa numerada são distintos O tempo é o número do movimento contínuo e não deste ou daquele movimente pois qualquer tempo é sempre o mesmo, desde que tomado simultaneamente. Assim, em relação a movimentos que se realizam simultaneamente, o tempo é o mesmo, o movimento podendo ser rápido ou não. Os movimentos são diferentes e separados, ao passo que o tempo é sempre o mesmo, pois o número é igual e simultâneo, em relação a qualquer movimento ou mudança. Discípulo de Platão, Plotino, já no século IV depois de Cristo, também considera o tempo uma imagem da eternidade, contestando as teorias que, como as de Aristóteles, se fundam na [[lexico:o:observacao|observação]] do mundo físico (mundo sublunar, da [[lexico:g:geracao|geração]] e da [[lexico:c:corrupcao|corrupção]]), sem levar em conta as relações do tempo com a alma e a eternidade. Para esses filósofos antigos, o tempo se confunde com o tempo cronológico (kronos), com a sucessão regular e periódica dos dias e das noites, dos meses e dos anos. Inseparável do movimento diurno, confunde-se com o movimento circular da esfera e com a própria esfera. A concepção aristotélica do tempo, como número e medida do movimento, incluía-se nessa cosmovisão, embora Aristóteles definisse o tempo em geral a "essência" do tempo e não apenas o que se refere ao movimento regular do céu. Criticando o peripatetismo, Plotino procura mostrar que sua definição do tempo é muito discutível se o tempo não for apenas a medida do movimento regular do céu. O dilema é o seguinte: ou o número do movimento está tão pouco ligado ao movimento quanto o número dez, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], aos objetos que numera, hipótese em que é apenas um número que não merece ser chamado de tempo; ou então, o número é inseparável do movimento que mede porque cresce e progride com ele, caso em que é impossível distinguir o tempo do movimento por ele medido. A distinção só é possível se a medida for exterior ao movimento, hipótese em que o número que a representa não passa de um número que nada contém do tempo. A medida apreende apenas números e quando muito o espaço. Aprofundando a crítica, Plotino indaga se a mensurabilidade é condição de existência do tempo que, sendo infinito, não pode, em si mesmo, ser medido. Fiel à inspiração platônica, nega a ligação do tempo com o mundo físico, e encontra seu fundamento na alma. O tempo é um aspecto da "procissão" da alma, produzindo-se quando a alma se afasta da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]]. Seria destruído e substituído pela eternidade se a alma se unisse ao inteligível. "A alma, escreve Plotino, fez o mundo sensível à imagem do mundo inteligível; o fez móvel, não do movimento inteligível, mas de um movimento [[lexico:s:semelhante|semelhante]] a este e que aspira a ser a sua imagem; a princípio, tornou-se ela própria temporal, produzindo o tempo em lugar da eternidade; em seguida, submeteu ao tempo o mundo por ela engendrado, e o pôs todo no tempo, no qual encerrou todo o seu desenvolvimento". Assim como o mundo se move na alma, também se move no tempo que pertence a essa alma. O universo é produzido em um [[lexico:a:ato|ato]] que se confunde com o tempo e, por isso, está no tempo. O tempo está em toda parte porque a alma é onipresente no mundo, assim como a alma do homem está em todas as partes do seu corpo. Com [[lexico:e:excecao|exceção]] dos [[lexico:a:atomistas|atomistas]] que concebiam o tempo como relativo, os filósofos gregos o entendiam como absoluto, de acordo com a concepção de Aristóteles. Além de absoluto, quadro invariável e fixo do movimento, o tempo era também imaginado como circular e cíclico, à imagem do dia e da noite, e das estações do ano. Segundo Platão, "o tempo que imita a eternidade se desenrola em círculo", em um incessante e contínuo desaparecer e reaparecer, extinguir-se e renascer. Antes de Platão, e interpretando os ensinamentos de [[lexico:p:pitagoras|Pitágoras]], [[lexico:p:porfirio|Porfírio]] dizia que, de acordo com certos períodos, os seres recomeçam, assim como o próprio mundo, a sua vida anterior. A ideia do "[[lexico:e:eterno-retorno|eterno retorno]]", de inspiração pitagórica, seria assim a síntese da concepção grega em relação ao tempo. **Concepção cristã do tempo.** Embora seja uma [[lexico:r:religiao|religião]] e não uma filosofia, o cristianismo trouxe duas ideias, estranhas à [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]] e que deveriam exercer profunda [[lexico:i:influencia|influência]] em todo o pensamento posterior. A ideia de um Deus [[lexico:t:transcendente|transcendente]], único e pessoal, criador e legislador do universo, e a ideia de criação do mundo ex-nihilo, a partir do nada. Na perspectiva cristã, o tempo deixa de ser a roda que sempre reconduz ao mesmo lugar, para tornar-se a [[lexico:p:propedeutica|propedêutica]] da eternidade. O homem, criado por Deus à sua imagem e semelhança, foi precipitado no tempo e na morte em consequência do [[lexico:p:pecado|pecado]], que é uma [[lexico:r:ruptura|ruptura]] com Deus. Pelo Cristo, porém, que é o [[lexico:m:mediador|mediador]], pode restabelecer a ligação com Deus, e fazer da sua vida no tempo, uma preparação para a vida eterna. O tempo é apenas um [[lexico:c:caminho|caminho]] que deve conduzir o homem fora e além do tempo. Mas que é o tempo, que traz a vida e traz a morte, e, para os cristãos, a [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]] e a ressurreição dos corpos? Inspirando-se em Platão e em Plotino, Santo Agostinho formula com extraordinária [[lexico:l:lucidez|lucidez]] o problema, ou melhor, o enigma do tempo. [[lexico:q:quid|quid]] est ergo tempus, indaga, e observa: "se ninguém me pergunta eu sei, se me perguntam querendo que explique, não sei". Sabe, no entanto, que se nada passasse, não haveria passado; se nada adviesse não haveria futuro e, se nada fosse, não haveria presente. Mas o passado e o futuro como podem ser, se o passado não é mais e o futuro ainda não é? O próprio presente, continua o santo, se fosse sempre o presente, sem perder-se no passado, não seria mais tempo, seria eternidade. Logo, se, para ser tempo, o presente deve passar, deve tornar-se passado, deixando de ser presente, como se pode dizer que é? Pode-se dizer que o tempo é porque se encaminha para o [[lexico:n:nao-ser|não-ser]]. Refletindo ainda sobre o presente, Santo Agostinho observa que, reduzido ao ano corrente, o presente não é presente enquanto ano, pois o ano se compõe de doze meses e cada mês, seja qual for, está presente apenas enquanto está em curso, pois os outros meses ou são passados ou são futuros, por-vir. E o mês em curso não é presente enquanto mês, mas apenas em um de seus dias; se for o primeiro, todos os outros serão futuros, se for o último, todos os outros serão passados; se for um dia qualquer, estará entre os passados e os futuros. Eis a que se reduz o tempo presente. Mas mesmo o dia, que se compõe de vinte e [[lexico:q:quatro|Quatro]] horas, não está todo presente; em relação à primeira hora, as demais são futuro, em relação à última são passado, o mesmo ocorrendo em relação às horas intermediárias. A própria hora não é presente, pois se compõe de minutos, "partículas fugidias", em relação às quais as anteriores são passado e as posteriores futuro. O presente seria, pois, o instante, o ponto indivisível do tempo. Ora, diz Santo Agostinho, "esse único ponto, que se pode chamar de presente, é arrastado tão rapidamente do futuro ao passado, que não tem nenhuma extensão de duração; pois, se tivesse alguma extensão, dividir-se-ia em passado e futuro, mas o presente é sem extensão". Embora não o mencione, Santo Agostinho procede em relação ao tempo como Zenão de Elea em relação ao espaço, no famoso [[lexico:a:argumento|argumento]] da [[lexico:d:dicotomia|dicotomia]]. O tempo é contraditório, ou [[lexico:i:irracional|irracional]], porque, ou é infinitamente divisível, hipótese absurda que equivaleria a incluir o tempo infinito no finito, ou então, indivisível, porque se compõe de instantes indivisíveis, hipótese também absurda porque, se o instante não passasse, como se observou, não seria tempo mas eternidade. Concluindo sua análise, observa Santo Agostinho que nem o futuro nem o passado são. É, pois, impropriamente que se fala em três tempos, pois, a rigor, se deveria falar no presente do passado, no presente do presente e no presente do futuro. Esses três modos do tempo "estão em nossa alma", como pretendia Plotino. O presente do passado é a memória, o presente do presente é a visão (percepção) direta, e o presente do futuro é a expectativa, a espera. "Que o futuro ainda não seja, quem o negaria? A espera do futuro, no entanto, já está no espírito. Que o passado não seja mais, quem duvida? Mas a lembrança do passado ainda está no espírito. Que o presente seja inextenso, sendo apenas um ponto fugidio, quem o contestaria? Mas o que dura é a atenção pela qual o tempo se encaminha para o não ser mais, aquilo que pela atenção vai passar". Ao proferir um [[lexico:d:discurso|discurso]], a atenção se volta para o seu conjunto. A medida que se fala, a atenção se concentra em duas direções: é memória em relação ao que se disse, é expectativa quanto ao que se vai dizer. A atenção, porém, fica presente, a atenção por meio da qual o que ainda não era se torna o que não é mais. E, conclui Santo Agostinho, à medida que esse movimento se desenvolve, a memória se enriquece de tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] perdido pela atenção, até o momento em que a espera se esgota completamente, a [[lexico:a:acao|ação]] se achando concluída e tendo passado toda para a memória. O que ocorre com o discurso também acontece com as [[lexico:p:palavras|palavras]] que o compõem, e com as sílabas das palavras. E, mais ainda, com a vida toda do homem, da qual os atos são apenas partes; e, enfim, com a história de todas as gerações humanas, das quais cada vida individual é apenas uma parte. A [[lexico:m:meditacao|meditação]] de Santo Agostinho sobre o tempo, que antecipa, quanto ao essencial, a reflexão de Bergson e de Husserl, assim como a obra romanesca de Proust, mereceu do próprio Husserl o seguinte comentário: "Os capítulos 13 e 28, do XI livro das Confissões, devem ainda hoje ser estudados a fundo por quem se ocupa com o problema do tempo. Pois, nessa [[lexico:m:materia|matéria]], a época moderna, tão orgulhosa do seu saber, nada produziu de muito amplo e que vá muito além desse grande pensador, que se debateu seriamente com a dificuldade". Os filósofos e teólogos medievais não trouxeram contribuições significativas à elucidação da ideia de tempo. Santo Tomás, por exemplo, que é considerado o maior teólogo da idade Média, limitou-se a reiterar, quanto ao essencial, as teses de Aristóteles a [[lexico:r:respeito|respeito]] do espaço e do tempo. **Noção de tempo na ciência e na filosofia moderna.** Com Copérnico, Galileu, Kepler e Newton, a ciência moderna se constitui na perspectiva anti-historicista do [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] cartesiano. Nessa perspectiva, a realidade se divide em res extensa e [[lexico:r:res-cogitans|res cogitans]] que, coincidindo uma com a outra, tornam possível a ciência da natureza como ciência físico-matemática. A natureza é concebida à semelhança da [[lexico:m:maquina|máquina]], ou de um conjunto de máquinas, cuja estrutura e cujo funcionamento podem ser explicados mecanicamente. As descobertas e invenções científicas, propiciadas pela fundação e pelo progresso da físico-matemática, favoreceram a eclosão do [[lexico:n:naturalismo|naturalismo]] anti-historicista que caracterizou o pensamento renascentista e a primeira fase do pensamento moderno. A [[lexico:d:descoberta|descoberta]] da história, ou da realidade como tempo, seria posterior à descoberta da natureza, ou da realidade como espaço. Embora não pretenda mais conhecer as [[lexico:c:causas|causas]] das coisas, mas apenas determinar como se processam, os fundadores e principais representantes da ciência moderna conservam a mesma concepção do tempo, formulada por Aristóteles no século IV antes de Cristo. A ciência continua a fundar-se na hipótese de que o espaço e o tempo são absolutos, admitindo-se que um intervalo de tempo, ou de espaço, é sempre o mesmo, para qualquer [[lexico:o:observador|observador]], e sejam quais forem as condições ou o ponto de vista em que se encontre. No seu famoso Escolio, Newton escreve o seguinte: "O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, tomado em si mesmo, e sem relação com nenhum objeto exterior, flui uniformemente por sua própria natureza... E o espaço absoluto, independentemente da relação com objetos exteriores, permanece sempre imutável e imóvel". Tal concepção, assim resumida, deveria prevalecer na [[lexico:c:ciencia-natural|ciência natural]] até o advento, três séculos depois, da relatividade einsteiniana. Immanuel Kant pretendia ter feito, no campo da filosofia, uma [[lexico:r:revolucao|revolução]] comparável à de Copérnico no campo da [[lexico:a:astronomia|astronomia]], ao descobrir que não é o sujeito que gravita em torno do objeto, mas, ao contrário, o objeto que gravita em torno do sujeito. Na perspectiva kantiana, do [[lexico:i:idealismo-subjetivo|idealismo subjetivo]], o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] deixa de ser o [[lexico:r:reflexo|reflexo]] ou a representação da realidade na consciência, para tornar-se a construção do objeto pelo sujeito. Conhecer não é reproduzir ou [[lexico:r:representar|representar]] o objeto tal qual é em si mesmo, mas transformá-lo, enquadrando-o nas formas a priori da sensibilidade e nas categorias igualmente a priori do entendimento. As formas a priori, que tornam possível a física e a [[lexico:m:matematica|matemática]], são o espaço e o tempo. O tempo é subjetivo, anterior à experiência, porque é possível concebê-lo sem acontecimentos, não sendo possível conceber os acontecimentos, interiores e exteriores, fora do tempo, que, por isso mesmo, é a forma a priori da sensibilidade externa e interna. Essa característica do tempo explica a compenetração da [[lexico:g:geometria|geometria]] e da [[lexico:a:aritmetica|aritmética]]. A geometria analítica, cartesiana, permite reduzir as figuras e equações e vice-versa. O [[lexico:c:calculo-infinitesimal|cálculo infinitesimal]], leibniziano, arremata essa compenetração, definindo a lei de desenvolvimento de um ponto em qualquer direção do espaço. A matemática é, pois, um conjunto de leis a priori que tornam a experiência possível e com ela coincidem. Na [[lexico:f:fenomenologia-do-espirito|fenomenologia do espírito]], Hegel declara que se propõe fazer em relação ao tempo, à história, o que Descartes havia feito em relação ao espaço, à natureza. Hegel é, assim, o primeiro a identificar o conceito e o tempo. "Quanto ao tempo, escreve, é o próprio conceito existindo empiricamente". O tempo a que se refere é o tempo humano ou [[lexico:h:historico|histórico]], tempo da ação, do [[lexico:t:trabalho|trabalho]], [[lexico:c:consciente|consciente]] e voluntário, que procura realizar no presente um projeto de futuro, projeto que se forma não só com a [[lexico:i:imaginacao-criadora|imaginação criadora]], mas também com o conhecimento do passado. A realização desse tempo humano implica a [[lexico:n:negacao|negação]] do espaço, da matéria, da natureza, pois o tempo nega ou destrói o mundo [[lexico:n:natural|natural]], fazendo-o desaparecer no passado. Consistindo nessa "nadificação" do mundo, pressupõe o mundo, sem o qual não poderia existir. A presença ou a existência do tempo coincide, assim, com a presença do homem. "O espírito é tempo", diz Hegel e, como não é transcendente mas imanente ao mundo, à história, o espírito que define como tempo é o próprio espírito humano, não individual, mas coletivo, o "universal concreto", representado pelo [[lexico:p:povo|povo]] ou Estado, a [[lexico:h:humanidade|humanidade]] na totalidade de sua existência, a rigor, a [[lexico:h:historia-universal|história universal]]. Mas qual é a estrutura da história, ou da temporalidade humana? A temporalidade é [[lexico:d:dialetica|dialética]], envolvendo três momentos: 1) a identidade, a tese, a natureza; 2) a [[lexico:n:negatividade|negatividade]], a [[lexico:a:antitese|antítese]], a ação do homem, o trabalho; 3) a síntese ou totalidade, a obra, a história. A existência humana apresenta uma estrutura dialética ou histórica, porque o homem vive em função do futuro, de um projeto ou de um "fim", cuja realização implica a negação da natureza e da própria natureza do homem, que só é humano na medida em que se cria a si próprio ([[lexico:p:pedagogia|pedagogia]], [[lexico:e:etica|ética]], [[lexico:p:politica|política]]) como se fosse uma obra. O tempo newtoniano era, assim como o espaço, um referencial absoluto, em função do qual se determinava o movimento enquanto relação. Em 1881, a fim de verificar a realidade do [[lexico:e:eter|éter]], Michelson e Morley realizaram a famosa experiência cujos resultados exerceram decisiva influência no pensamento de Einstein. Comparando o espaço a um imóvel mar de éter, admitiram que o movimento da [[lexico:t:terra|Terra]] através do éter poderia ser medido como a velocidade de um navio no mar. Por meio de um aparelho chamado "interferômetro", verificaram que a velocidade dos feixes luminosos, que deveria aumentar quando os feixes se projetam na direção do movimento da terra, permanecia invariável, qualquer que fosse sua direção. A experiência apresentava a seguinte alternativa: ou abandonar a teoria do éter ou renunciar à teoria copernicana sobre o movimento da terra, pois a experiência demonstrou que as ondas luminosas, electromagnéticas, não precisavam, para propagar-se, de um meio ou [[lexico:a:ambiente|ambiente]] que as suporte. Refletindo sobre essa experiência, e admitindo que a velocidade da [[lexico:l:luz|luz]] não é afetada pelo movimento da terra, Einstein admite que também deve ser independente do movimento dos astros ou de qualquer sistema do universo. A simultaneidade é universal e passa a depender do movimento relativo. Se todos os observadores, ou todos os pontos de vista, são equivalentes, nenhum privilégio pode ser atribuído ao espaço, e, se a simultaneidade também varia de acordo com o movimento relativo dos observadores, deixa, também, de ter sentido a hipótese de uma sucessão temporal absoluta. Nenhum critério permite afirmar que o movimento de um sistema qualquer é aparente em relação ao de outro sistema, que, por hipótese, seria real, e nenhuma experiência [[lexico:p:prova|prova]] que o espaço e o tempo são absolutos. O tempo não passa, pois, de uma forma da intuição, inseparável da consciência do sujeito. Não há, no universo, nenhum ponto de referência que permita comparações absolutas e, o que chamamos de tempo, é apenas a ordem de sucessão das coisas, umas depois das outras. Não há, portanto, um tempo absoluto, independente do que acontece na consciência que o conserva. No livro intitulado Duração e simultaneidade, Henri Bergson critica a concepção einsteiniana do tempo, distinguindo o tempo que chama de duração, do tempo físico e matemático que, a seu [[lexico:v:ver|ver]], não é tempo propriamente, mas tempo espacializado, ou espaço. O tempo real, ou a duração, é imediatamente percebido, na intuição da vida interior que, segundo Bergson, é continuidade, escoamento, passagem, transição, que se bastam a si mesmos, não implicando nem uma coisa que se escoa, nem estados pelos quais se passaria. Essa fluidez da vida interior é, em si mesma, memória, que "prolonga o antes no depois, impedindo-os de ser puros instantes, aparecendo e desaparecendo em um presente que renasceria sem cessar". Não fosse essa consciência da duração, que se confunde com a memória, e não se teria noção alguma do tempo, pois não é possível conceber uma realidade que dura sem nela introduzir a consciência, a memória. Caracterizando-se pela sucessão do antes e do depois, o tempo implica uma ligação, uma "ponte entre os dois", sendo impossível conceber essa ligação sem a memória que é, precisamente, a consciência de tal sucessão. "Sem uma memória elementar que ligue os dois instantes um ao outro, diz Bergson, haverá apenas um ou outro, um instante único, e não antes e depois, não haverá sucessão, não haverá tempo". Esse tempo, percebido e vivido, que consiste na continuação do que não é mais no que é, não comporta medida, não é mensurável. A rigor, o que se mede, por meio do movimento, não é o tempo, mas a extensão percorrida pelo móvel, o seu rastro no espaço. Fazendo coincidir a trajetória com o trajeto e a linha descrita pelo movimento com o próprio movimento, converte-se o tempo em espaço, tornando-o então mensurável. O tempo de que se ocupam os físicos e os matemáticos é esse tempo espacializado, que não se confunde com a duração, tempo real, irredutível à medida e ao [[lexico:c:calculo|cálculo]], tempo absoluto, que se identifica com a intuição do espírito pelo próprio espírito. Edmund Husserl, em suas Lições para uma [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] da consciência íntima do tempo, cujo tema é a [[lexico:d:descricao|descrição]] do "tempo fenomenológico", tal como se revela à [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]] da consciência, não procura descrever o tempo do mundo, o tempo "coisificado", no sentido das ciências da natureza, mas o tempo que surge, a duração emergente, considerados como dados absolutos dos quais não é possível duvidar. O tempo admitido por Husserl não é, pois, o do mundo da experiência, mas o "tempo imanente", que coincide com o curso da consciência. O que procura elucidar são as condições a priori do tempo, explorando a "consciência transcendental do tempo" mediante a análise de sua [[lexico:c:constituicao|constituição]] essencial. A exigência a priori, diz Husserl, "se funda na validade das evidências fundamentais relativas ao tempo, que devem ser apreendidas imediatamente e que se tornam evidentes a partir da [[lexico:a:apreensao|apreensão]] intuitiva dos dados das situações temporais". É da essência a priori do tempo ser uma continuidade de situações (temporais) e que a [[lexico:h:homogeneidade|homogeneidade]] do tempo absoluto se constitua no escoamento das modificações do passado e na irrupção contínua de um "agora", do instante criador, "ponto-original" das situações temporais em geral. Também é [[lexico:n:necessario|necessário]] a essa essência que a [[lexico:s:sensacao|sensação]], a apreensão, participem do mesmo fluxo temporal e que o tempo absoluto objetivado seja o mesmo que o tempo pertencente à sensação e à apreensão. O tempo imanente à consciência e aos seus atos intencionais é pois a "subjetividade absoluta", condição a priori de qualquer [[lexico:o:objetivacao|objetivação]] temporal. Em contraste com a concepção vitalista e psicológica, própria do [[lexico:b:bergsonismo|bergsonismo]] e mesmo com a concepção fenomenológica e idealista de Husserl, Heidegger sustenta uma concepção [[lexico:e:existencial|existencial]] do tempo e da [[lexico:h:historicidade|historicidade]] do homem. A partir da [[lexico:s:situacao|situação]] original, que consiste na [[lexico:i:implicacao|implicação]] recíproca [[lexico:h:homem-mundo|homem-mundo]], Heidegger procede à "análise existencial" do [[lexico:d:dasein|Dasein]] (ser-aí, existência humana), procurando revelar seus elementos estruturais. Posto no mundo, o Dasein apresenta uma estrutura pro-jetiva, ou antecipadora, pois não poderia realizar seu ser sem antecipar seu poder ser. Existindo em função do projeto, cuja realização depende de sua [[lexico:l:liberdade|liberdade]], será essencialmente pré-ocupação, cujo "sentido ontológico" é a temporalidade. Por que há tempo? Que é que permite a temporalização do tempo, do futuro, em primeiro lugar? A [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de antecipar, que permite ao Dasein aceder ao seu ser próprio. "O futuro, diz Heidegger, não significa um momento que ainda não se tornou "real", e que só o será mais tarde, mas o processo pelo qual o Dasein chega, em seu poder-ser mais autêntico, até a si mesmo". Esse aceder a si mesmo é um aceder à própria morte, ao que o Dasein já é, pois em si mesmo o Dasein é mortal. O futuro realiza, assim, o passado, o qual, por sua vez, não existiria sem o futuro. As fases do tempo se incluem e se excluem o que permite defini-lo como simultaneamente exterior e interior a si mesmo. O homem não é mais o seu passado, a sua infância e, no entanto, ainda é a sua infância, ainda a traz dentro de si. O passado é, pois, um passado ainda presente. Mas que é o presente? O presente é a "presentificação", pois, ao temporalizar-se, o Dasein torna o ente presente. "O passado-presente, escreve Heidegger, surge do futuro, de tal modo que o futuro-passado dá nascimento ao presente. Chamamos de temporalidade à unidade desse [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] assim estruturado, como futuro-passado-presente. É apenas enquanto determinado como temporalidade que o Dasein pode realizar seu ser total autêntico... A temporalidade se revela como o sentido da preocupação autênti