===== TAUTEGORIA ===== A despeito do seu «[[lexico:p:pecado-original:start|pecado original]]», a [[lexico:e:exegese:start|exegese]] alegórica tem seus méritos: se alegorizava os [[lexico:d:deuses:start|deuses]], tautegorizava o [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; mas se no «posto» há sempre que [[lexico:v:ver:start|ver]] o seu «oposto», [[lexico:a:agora:start|agora]] o que temos de considerar é a eventualidade de a [[lexico:m:mitologia:start|mitologia]] tautegorizar os deuses, alegorizando o Mundo. Se o [[lexico:m:mito:start|mito]] é [[lexico:t:tautegorico:start|tautegórico]], os deuses são tais quais o mito no-los apresentam, mas a «[[lexico:p:presentacao:start|presentação]]» mítica, que tautegoriza os deuses, exige a alegorização do Mundo, ou seja, o Mundo como [[lexico:a:alegoria:start|alegoria]] de [[lexico:m:mundos:start|mundos]], com os homens que em cada um deles habitam. Já dissemos que mais de vinte séculos de [[lexico:a:alegorismo:start|alegorismo]] [[lexico:n:nao:start|não]] se podem omitir, e o que, de [[lexico:m:modo:start|modo]] nenhum, se omite, nem a omitir nos propomos, é que, em tal exegese ultrapassada, sempre há o que não passou [[lexico:a:alem:start|além]] do que devemos [[lexico:p:pensar:start|pensar]]: os alegoristas foram juntando, uma a uma, todas as possibilidades de transferir o [[lexico:s:significado:start|significado]] da «biografia dos deuses» para o de fenomenologias cósmicas e antrópicas; os deuses e a dramaturgia mítica eram modos de se [[lexico:f:falar:start|falar]] do Mundo e do [[lexico:h:homem:start|homem]]. Certamente a contragosto, e só por [[lexico:d:distracao:start|distração]] de [[lexico:q:quem:start|quem]] a escreveu, a breve [[lexico:f:formula:start|fórmula]]: «deuses são Weltaspekte» ([[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] do mundo), corre no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da alegorização dos deuses, mantendo a tautegorização do Mundo. Os deuses e o mundo não são alegorias. Está certo, sobretudo no que respeita aos deuses. Posídon não é outra maneira de dizer «mar»; [[lexico:z:zeus:start|Zeus]] não é outra maneira de dizer «[[lexico:c:ceu:start|céu]] luminoso»; Deméter não é outra maneira de dizer «[[lexico:t:terra:start|Terra]] criadora do cereal»; Ártemis não é outra maneira de dizer «[[lexico:n:natureza:start|natureza]] indomável»; Dioniso não é outra maneira de dizer «vinho inebriante»; Hefesto não é outra maneira de dizer «[[lexico:f:fogo:start|fogo]]», e assim por diante. Mas também não são, na mesma [[lexico:o:ordem:start|ordem]], modos de dizer que o Mundo se nos revela ou como a abismal profundidade dos Oceanos e a correnteza serena ou bravia de todas as águas dos rios, ou como claridade deslumbrante da etérea abóbada do céu, ou como maternal cuidado pelo cultivo das terras férteis, ou como selvática proteção da terra que jamais arado sulcou, ou como o fogo que, flamejando nas forjas, vence a dureza dos metais, ou como desvario de [[lexico:m:mulheres:start|mulheres]] arrancadas ao sossego da domesticidade, ou como transvio de homens dementados pelo suco fermentado das uvas. Porque tudo isto e o mais que se extrairia de outros exemplos acontece no Mundo. Mas tal é, precisamente, o grande [[lexico:m:merito:start|mérito]] do alegorismo: chamar-nos a [[lexico:a:atencao:start|atenção]], prender-nos a atenção, não consentir que a nossa atenção se desvie do entrelaçamento da «[[lexico:v:vida:start|vida]] dos deuses» com o «mundo em que vivem». Lástima que os alegoristas não se dispusessem a também alegorizar o Mundo. A mitologia tece-se com dois fios de colorido diferente: um é a divindade do mundo, [[lexico:o:outro:start|outro]] a mundanidade dos deuses. O tecido não se rompe por nossa [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de rompê-lo, e não podemos nós enrolar os dois fios em novelos diferentes, para voltar a entretecê-los a nosso jeito. No tecido, nós mesmos nos achamos entretecidos. Um mito lê-se no mundo circunscrito pelo [[lexico:d:drama:start|drama]] peculiar à vida do [[lexico:d:deus:start|Deus]] que o circunscreveu, e, por vezes, melhor do que no [[lexico:p:proprio:start|próprio]] drama que o circunscreve. Pois se é lícito falar de mundo dos deuses e de Mundo do Homem, digamos, então, que naquele o mito alegoriza o Homem e tautegoriza os deuses, neste, o mito alegoriza os deuses e tautegoriza o Homem. Alegoria e tautegoria encontram-se ambas, lado a lado, em cada um dos dois modos de encarar o mito, a que se deram os nomes de «alegorismo» e «tautegorismo». Para o [[lexico:f:futuro:start|futuro]] da mitologia, o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] é este: tautegoria dos deuses e alegoria do Homem e do Mundo. [EudoroMito:47-48] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}