===== TALES DE MILETO ===== O pensador ao qual a [[lexico:t:tradicao|tradição]] atribui o [[lexico:c:comeco|começo]] da [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]] é Tales, que viveu em Mileto, na Jônia, provavelmente nas últimas décadas do século VII e na primeira metade do século VI a.C. [[lexico:a:alem|Além]] de [[lexico:f:filosofo|filósofo]], foi cientista e [[lexico:p:politico|político]] destacado. [[lexico:n:nao|Não]] se tem [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de que tenha [[lexico:e:escrito|escrito]] livros. Só conhecemos o seu [[lexico:p:pensamento|pensamento]] através da tradição oral indireta. Tales foi o iniciador da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da [[lexico:p:physis|physis]], pois foi o primeiro a afirmar a [[lexico:e:existencia|existência]] de um [[lexico:p:principio|princípio]] originário [[lexico:u:unico|único]], [[lexico:c:causa|causa]] de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] que existem, sustentando que [[lexico:e:esse|esse]] princípio é a água. Essa proposta é importantíssima, como veremos logo, podendo com boa dose de [[lexico:r:razao|razão]] [[lexico:s:ser|ser]] qualificada como "a primeira proposta filosófica daquilo que se costuma chamar ‘[[lexico:c:civilizacao|civilização]] ocidental" (A. Maddalena). A [[lexico:c:compreensao|compreensão]] exata dessa proposta pode nos fazer entender a grande [[lexico:r:revolucao|revolução]] operada por Tales, que levaria à [[lexico:c:criacao|criação]] da filosofia. "Princípio" (arché) não é um [[lexico:t:termo|termo]] de Tales (talvez tenha sido introduzido por seu discípulo [[lexico:a:anaximandro|Anaximandro]], mas alguns pensam numa [[lexico:o:origem|origem]] ainda mais tardia), mas é certamente o termo que indica melhor do que qualquer [[lexico:o:outro|outro]] o [[lexico:c:conceito|conceito]] daquele [[lexico:q:quid|quid]] do qual derivam todas as coisas. Como [[lexico:n:nota|nota]] [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] em sua [[lexico:e:exposicao|exposição]] sobre o pensamento de Tales e dos primeiros físicos, o "princípio" é "aquilo do qual derivam originariamente e no qual se ultimam todos os seres", é "uma [[lexico:r:realidade|realidade]] que permanece idêntica no transmutar-se de suas alterações", ou seja, uma realidade "que continua a [[lexico:e:existir|existir]] imutada, mesmo através do [[lexico:p:processo|processo]] gerador de todas. Assim, o "princípio" é: a) a [[lexico:f:fonte|fonte]] e origem de todas as coisas; b) a foz ou termo [[lexico:u:ultimo|último]] de todas as coisas; c) o sustentáculo permanente que mantém todas as coisas (a "[[lexico:s:substancia|substância]]", poderíamos dizer, usando um termo posterior). Em [[lexico:s:suma|suma]], o "princípio" pode ser definido como aquilo do qual provêm, aquilo no qual se concluem e aquilo pelo qual existem e subsistem todas as coisas. Os primeiros filósofos (se não o [[lexico:p:proprio|próprio]] Tales) denominaram esse princípio com o termo physis, que indica a [[lexico:n:natureza|natureza]], não no [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:m:moderno|moderno]] do termo, mas no sentido original de realidade primeira e fundamental, ou seja, "aquilo que é [[lexico:p:primario|primário]], fundamental e persistente, em [[lexico:o:oposicao|oposição]] àquilo que é secundário, derivado e transitório" (J. Burnet). Assim, os filósofos que, a partir de Tales até o [[lexico:f:fim|fim]] do século V a.C, indagaram em torno da physis foram denominados "físicos" ou "naturalistas". Portanto, somente recuperando a acepção arcaica do termo e captando adequadamente as peculiaridades que a diferenciam da acepção [[lexico:m:moderna|moderna]] é que será [[lexico:p:possivel|possível]] entender o [[lexico:h:horizonte|horizonte]] espiritual desses primeiros filósofos. Mas fica ainda por esclarecer o sentido da identificação do "princípio" com a "água" e as suas implicações. A tradição indireta diz que Tales deduziu essa sua [[lexico:c:conviccao|convicção]] "da constatação de que a nutrição de todas as coisas é úmida", de que as [[lexico:s:sementes|sementes]] e os germes de todas as coisas "têm natureza úmida" e de que, portanto, a secagem total significa a [[lexico:m:morte|morte]]. Assim, como a [[lexico:v:vida|vida]] está ligada à umidade e esta pressupõe a água, então a água é a fonte última da vida e de todas as coisas. Tudo vem da água, tudo sustenta sua vida com água e tudo acaba na água. Ainda na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], alguns procuraram reduzir o alcance dessas afirmações de Tales, reivindicando como anteriores as afirmações daqueles (como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], Homero e outros) que consideravam Oceano e Tétis, respectivamente, como pai e mãe das coisas e que também haviam sustentado a [[lexico:c:crenca|crença]] de que os [[lexico:d:deuses|deuses]] juravam sobre o Estige (que é o rio dos Infernos e, portanto, água), destacando que aquilo sobre o que se jura é precisamente aquilo que é o primeiro e supremo (o princípio). Mas é claríssima a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre essas [[lexico:i:ideias|ideias]] e a [[lexico:p:posicao|posição]] de Tales. De [[lexico:f:fato|fato]], Tales baseia sua [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] no [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]], no [[lexico:l:logos|Logos]]; os outros, ao contrário, baseavam-se na [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] e no [[lexico:m:mito|mito]]. Ou seja, o primeiro apresenta uma [[lexico:f:forma|forma]] de conhecimento motivado por argumentações racionais, ao passo que os outros apresentavam apenas crenças fantástico-poéticas. De resto, o nível de [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] ao qual Tales já se havia elevado pode ser demonstrado pelo fato de que ele havia pesquisado os fenômenos do [[lexico:c:ceu|céu]] a [[lexico:p:ponto|ponto]] de predizer (para estupefação de seus concidadãos) um [[lexico:e:eclipse|eclipse]] (talvez o de 585 a.C). Ao seu [[lexico:n:nome|nome]] também está ligado um célebre [[lexico:t:teorema|teorema]] de [[lexico:g:geometria|geometria]]. Mas não se deve acreditar que a água de Tales seja o [[lexico:e:elemento|elemento]] físico-químico que bebemos. A água de Tales deve ser pensada em termos totalizantes, ou seja, como a physis líquida originária da qual tudo deriva e da qual a água que bebemos é apenas uma das manifestações. Tales é um "naturalista" no sentido antigo do termo e não um "materialista" no sentido moderno e contemporâneo. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], a sua "água" coincidia com o [[lexico:d:divino|divino]]: dizia ele que "[[lexico:d:deus|Deus]] é a [[lexico:c:coisa|coisa]] mais antiga, porque incriada", ou seja, porque princípio. Desse [[lexico:m:modo|modo]], se introduz ao pensamento uma nova concepção de Deus: trata-se de uma concepção na qual predomina a razão, destinada, enquanto tal, a logo eliminar todos os deuses do [[lexico:p:politeismo|politeísmo]] fantástico-poético dos gregos. Ao afirmar posteriormente que "tudo está pleno de deuses", Tales queria dizer que tudo é permeado pelo princípio originário. E, como o princípio originário é vida, tudo é vivo e tudo tem uma [[lexico:a:alma|alma]] (panpsiquismo). O exemplo do ímã que atrai o ferro era apresentado por ele como [[lexico:p:prova|prova]] da animação [[lexico:u:universal|universal]] das coisas (a [[lexico:f:forca|força]] do ímã é a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] de sua alma, ou seja, precisamente de sua vida). Com Tales, o logos [[lexico:h:humano|humano]] rumou com segurança pelo [[lexico:c:caminho|caminho]] da conquista da realidade em seu [[lexico:t:todo|todo]] (a [[lexico:q:questao|questão]] do princípio de todas as coisas) e em algumas de suas partes (as que constituem o [[lexico:o:objeto|objeto]] das "ciências particulares", como hoje as chamamos).