===== SUPERAÇÃO ===== [[lexico:e:eu|eu]] vos ensino o [[lexico:s:super-homem|super-homem]]. O [[lexico:h:homem|homem]] é algo que deve [[lexico:s:ser|ser]] superado. Que fizestes para superá-lo? [Nietzsche, Assim falou Zaratustra] 36. «O Homem é algo que deve ser ultrapassado», o homem é o que tem de se ultrapassar. [[lexico:n:nao|Não]] me ocupo nem me preocupo com o que [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] entendia por «ultrapassagem», de como queria que o homem se ultrapassasse. Para mim, o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] só me diz que o homem tem de transpor limites, que o homem é [[lexico:t:transposicao|transposição]] de limites, que só é homem aquele que os transpõe, [[lexico:q:quem|quem]] os transpôs. O homem não é o Homem definido pelo [[lexico:m:mundo|mundo]] que faz, virtualmente determinado pelo Mundo a fazer, que é o [[lexico:p:proprio|próprio]] «[[lexico:a:afazer|afazer]]». O homem é só o que, saído dos Infernos, virá dizermos que lá desceu; é só aquele que desceu aos Infernos. No final dos três parágrafos precedentes, ficou [[lexico:e:escrito|escrito]]: 1) o lado [[lexico:r:religioso|religioso]] do [[lexico:m:mito|mito]] (da Descida aos Infernos) é um [[lexico:r:ritual|ritual]] de iniciação; 2) uma [[lexico:c:catabase|catábase]] é o superlato mito de um ritual de «passagem»; 3) catábase é [[lexico:s:sinal|sinal]] de [[lexico:c:conversao|conversão]] ou reversão, em [[lexico:t:todo|todo]] o caso de [[lexico:m:metamorfose|metamorfose]]. Das três vezes, a tônica recai sucessivamente em «iniciação», «passagem» e «metamorfose», e as três [[lexico:p:palavras|palavras]] estão na mesma linha em que se começa por dizer que o homem não se define, na [[lexico:m:medida|medida]] em que não há [[lexico:l:limite|limite]] que o defina. «Iniciação» podería designar um primeiro início, mas [[lexico:n:nada|nada]] impede supor que a iniciação, por muitas vezes que se renove, de cada vez não ponha início diante de um término negado. O mesmo se diria de «passagem»: o homem passa [[lexico:a:alem|além]] de cada limite que se lhe depare, dentro ou fora dele. «Metamorfose» diz que a iniciação e a passagem transmutam a [[lexico:f:forma|forma]] interna de quem se inicia e se reiniciou, de quem passa e voltou a passar do que foi ou é, para o que será. Mas lembremo-nos, homem e mundo são solidários, projeções do mesmo [[lexico:p:projeto|projeto]] . De [[lexico:m:modo|modo]] que «iniciação» nos põe a [[lexico:c:caminho|caminho]] de um mundo para [[lexico:o:outro|outro]]; «passagem» é o de um mundo para outro e «metamorfose» minha é também metamorfose do mundo. Se me enviam em outro início, se me fazem passar outro limite, se, pelo início e pela passagem, mudo de forma, da mesma forma de forma o mundo muda; mas se, iniciado, me ultrapassei, sou outro que não era, e outro é o mundo em que vim a ser outro. Não há [[lexico:m:mudanca|mudança]] de forma, mas [[lexico:a:alteracao|alteração]] que vem das próprias raízes do ser do que eu sou e do ser do que o mundo é. Ritual de iniciação na Excedência não pede celebrar-se no Mundo, por Homem que persiste em sê-lo. Mundo e Homem são encantamentos, coisificações do que, naturalmente, não é [[lexico:c:coisa|coisa]] nenhuma. Quanto urgia sair dos Infernos. Mas não só para dizer-se que lá se havia descido, embora isso não seja pouco. Pouco não é, mas também não é quanto baste a quem nada basta. A quem nada basta, por pura excendência que é, tem de atravessar o mundo a que, saído dos Infernos, acedeu, [[lexico:e:esse|esse]] e outros cujos limites se disponha a transpor, até se abeirar do [[lexico:u:ultimo|último]], que já mundo não seja. Dir-se-ia que cada um é Purgatório. Mas ai de quem se detenha em algum; esse se converterá em [[lexico:i:inferno|Inferno]] de muito mais estreita porta. De mundo em mundo, as portas se vão estreitando; e tão estreita é a última que, por ela, só «eu» posso sair sem «mim»; «eu» a transponho, deixando-«me» para trás. Quem se quer aventurar a [[lexico:s:semelhante|semelhante]] aventura? [EudoroMito:60-61]