===== SUPER-HOMEM ===== (gr. hyperanthropos; in. Superman; fr. Surhomme; al. Übermensch; it. Superuomó). O [[lexico:t:termo|termo]] que se encontra em Luciano (Cataplus, 16) e que algumas vezes foi usado para designar o homem-Deus (= Cristo; v. T. Tasso, Lettere, V, 6), foi empregado antes por Ariosto (Orl. Fur, 38, 62) para indicar uma [[lexico:h:humanidade|humanidade]] extraordinária. Foi introduzido na Alemanha por Heinrich Muller (Geistliche Erbauungstunden, 1664-66) e empregado por vários escritores do [[lexico:r:romantismo|Romantismo]] alemão, inclusive por [[lexico:g:goethe|Goethe]] (Fausto, 1, Noite). Mas foi só com [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] que [[lexico:e:esse|esse]] termo assumiu [[lexico:s:significado|significado]] filosófico e se tornou popular. O [[lexico:s:super-homem|super-homem]] é a [[lexico:e:encarnacao|encarnação]] da [[lexico:v:vontade|vontade]] de [[lexico:p:potencia|potência]]: "O [[lexico:h:homem|homem]] deve [[lexico:s:ser|ser]] superado. O super-homem é o [[lexico:s:sentido|sentido]] da [[lexico:t:terra|Terra]]. (...) O homem é uma corda esticada entre o [[lexico:a:animal|animal]] e o super-homem, uma corda sobre o [[lexico:a:abismo|abismo]]" (Also sprach Zarathustra, I, 3). O super-homem é a encarnação dos valores vitais que Nietzsche contrapõe aos valores tradicionais; para Nietzsche, é o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] criador de valores, dominador e legislador, em [[lexico:o:oposicao|oposição]] aos "operários da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]", que são os comumente considerados filósofos (Jenseits von Gut und Böse, § 211). Apesar de o [[lexico:c:conceito|conceito]] nietzschiano [[lexico:n:nao|não]] [[lexico:t:ter|ter]] nenhum significado [[lexico:p:politico|político]] preciso, acabou servindo de pretexto ao [[lexico:r:racismo|racismo]] e às concepções antidemocráticas em [[lexico:p:politica|política]]. (al. Übermensch) Segundo Nietzsche, o homem [[lexico:s:superior|superior]], "[[lexico:i:individuo|indivíduo]] soberano, indivíduo que não se parece senão consigo mesmo, indivíduo livre da [[lexico:m:moral|moral]] dos [[lexico:c:costumes|costumes]] que possui em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] ... a verdadeira [[lexico:c:consciencia|consciência]] da [[lexico:l:liberdade|liberdade]] e da potência, enfim o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de ter chegado à [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] do homem" ([[lexico:g:genealogia-da-moral|Genealogia da Moral]]). O super-homem é, assim, o indivíduo [[lexico:a:autentico|autêntico]], que cria seus próprios valores, "afirmativos da [[lexico:v:vida|vida]]", que não é condicionado pelos hábitos e valores sociais de uma [[lexico:e:epoca|época]], porque "o homem existe apenas para ser superado" ([[lexico:a:assim-falou-zaratustra|Assim falou Zaratustra]]). Ele evoca o passo à frente que a humanidade deve empreender a partir do [[lexico:m:momento|momento]] em que ela se desembaraçar da [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]]. Porque a [[lexico:c:crenca|crença]] em [[lexico:d:deus|Deus]], segundo Nietzsche, aprisionava a humanidade em falsos valores e limitava seu poder de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] trazendo uma resposta apaziguadora às suas ignorâncias. O [[lexico:a:amor-fati|amor fati]] é a aceitação do [[lexico:e:eterno-retorno|eterno retorno]], é aceitação da vida. Mas não se deve [[lexico:v:ver|ver]] nele a aceitação do homem. A [[lexico:m:mensagem|mensagem]] fundamental de Zaratustra, com [[lexico:e:efeito|efeito]], está em pregar o super-homem. "O super-homem é o sentido da-terra! Que a vossa vontade proclame: que o super-homem seja o sentido da terra! [[lexico:e:eu|eu]] vos conclamo, meus irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças sobrenaturais! (...) Outrora, o delito contra Deus era o maior dos malefícios, mas Deus está morto (...). [[lexico:a:agora|agora]], a [[lexico:c:coisa|coisa]] mais triste é pecar contra o sentido da terra!" E é o homem, o novo homem, que deve [[lexico:c:criar|criar]] novo sentido da terra, abandonar as velhas cadeias e cortar os antigos troncos. O homem deve inventar o homem novo, isto é, o super-homem, o homem que vai [[lexico:a:alem|além]] do homem e que é o homem que ama a terra e cujos valores são a saúde, a vontade forte, o [[lexico:a:amor|amor]], a embriaguez dionisíaca e novo [[lexico:o:orgulho|orgulho]]. Diz Zaratustra: "Um novo orgulho ensinou-me o meu Eu e eu o ensino aos homens: não deveis mais esconder a cabeça na areia das [[lexico:c:coisas|coisas]] celestes, mas mantê-la livremente: cabeça terrena, que cria ela mesma o sentido da terra". O super-homem substitui os velhos deveres pela vontade própria. Existe "um dragão enorme, que o [[lexico:e:espirito|espírito]] não quer mais chamar de seu patrão e seu Deus. Chama-se ele: ‘Tu deves’. Mas, contra ele, o espírito do leão proclama as [[lexico:p:palavras|palavras]] ‘Eu quero’ ". E existem os pregadores da vida eterna: eles pregam [[lexico:m:mundos|mundos]] sobrenaturais, mas Zaratustra quer ser "a [[lexico:v:voz|voz]] do [[lexico:c:corpo|corpo]] de novo entregue à saúde". É a voz da [[lexico:c:coragem|coragem]] e do orgulho: pretende-se o amor ao [[lexico:p:proximo|próximo]], mas "não foi a vossa [[lexico:c:compaixao|compaixão]], e sim o vosso [[lexico:v:valor|valor]] que até agora salvou [[lexico:q:quem|quem]] estava em perigo". "O homem é uma corda estendida, estendida entre o bruto e o super-homem, uma corda estendida sobre uma voragem". E não está longe o momento da passagem do velho homem, embrutecido por seus desvalores e com a cabeça enterrada na areia das coisas celestes, para o homem que cria o sentido da terra, isto é, novos valores, todos terrenos: "E o grande [[lexico:s:sol|sol]] meridiano da vida resplandecerá quando o homem se encontrar no [[lexico:m:meio|meio]] do seu [[lexico:c:caminho|caminho]] entre o bruto e o super-homem e celebrar o seu crepúsculo como a sua maior [[lexico:e:esperanca|esperança]], já que o seu crepúsculo será o anúncio de nova aurora. O perituro então se abençoará a si mesmo, feliz de ser alguém que vai além: o sol do seu conhecimento resplandecerá de [[lexico:l:luz|luz]] meridiana. "Todos qs [[lexico:d:deuses|deuses]] estão mortos: agora, queremos que viva o super-homem". É [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:v:verdade|verdade]] que "o [[lexico:p:povo|povo]] e a [[lexico:g:gloria|glória]] giram em torno dos comediantes", mas também é verdade que "o [[lexico:m:mundo|mundo]] gira em torno dos inventores de novos valores". . Assim como para [[lexico:p:protagoras|Protágoras]], também para Nietzsche o homem deve ser a [[lexico:m:medida|medida]] de todas as coisas, deve criar novos valores e pô-los em prática. O homem embrutecido tem a espinha curvada diante das ilusões cruéis do [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]]. O super-homem "ama a vida" e "cria o sentido da terra"—e é fiel a isso. Aí está a sua [[lexico:v:vontade-de-poder|Vontade de Poder]]. "Deus já está morto! Oh, homens superiores, aquele Deus era o vosso perigo mais grave. Somente agora, que ele jaz em seu sepulcro, é que podeis vos dizer ressuscitados. Agora, está próximo o grande sol meridiano; somente agora o homem superior torna-se senhor! Compreendeis essas palavras, irmãos? Vós estais aterrorizados: atingiu-vos talvez a vertigem? Abre-se talvez diante de vós um abismo escancarado? Talvez o cão infernal ladra contra vós? Pois bem, erguei-vos, homens superiores! Agora, somente a montanha do [[lexico:f:futuro|futuro]] [[lexico:h:humano|humano]] se agita nas dores do parto. Deus morreu: agora, nós queremos que viva o super-homem." Assim falou Nietzsche-Zaratustra. Os mais cavilosos perguntam hoje: "Como pode o homem perdurar?" Zaratustra porém [[lexico:p:pergunta|pergunta]] o que na verdade é a primeira e a única pergunta: "Como será ‘superado’ o homem?" O super-homem preocupa-me, é para mim a [[lexico:i:ideia|ideia]] fixa, e "não" o homem, não o próximo, não o pobre, não o aflito, não o melhor. Ó meus irmãos! o que posso amar no homem é ser ele uma transição, uma [[lexico:d:decadencia|decadência]]. E também em vós há muitas coisas que me fazem amar e esperar. Haveis desprezado, ó homens superiores!, e é isto o que me faz esperar, pois os grandes depreciadores são também os grandes veneradores. Desesperastes, e isto constitui uma [[lexico:h:honra|honra]] para vós, porque não aprendestes a vos render, nem tampouco aprendestes as pequenas prudencias. (...) Superai, homens superiores, as pequenas [[lexico:v:virtudes|virtudes]], as pequenas prudencias, as considerações para com os grãos de areia, o formigueiro das formigas, a miserável satisfação de si mesmo, a "[[lexico:f:felicidade|felicidade]] do maior [[lexico:n:numero|número]]"! E desesperai antes de vos render. E na verdade vos amo, porque não sabeis [[lexico:v:viver|viver]] hoje, ó homens superiores! É assim que. . . viveis melhor! (Also sprach Zarathustra, [[lexico:p:parte|parte]] IV, Do homem superior, 3.) A humanidade deve situar seu [[lexico:f:fim|fim]] além de si mesma, não em um mundo-erro, mas na própria continuação de si mesma. Nossa [[lexico:n:natureza|natureza]] é criar um [[lexico:e:ente|ente]] superior a nós próprios. Criar acima de nós próprios! É esse o [[lexico:i:instinto|instinto]] da [[lexico:a:acao|ação]] e da [[lexico:o:obra|obra]]. Do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que toda vontade supõe um fim, assim o homem supõe um ser que está presente, mas que representa o fim de toda sua [[lexico:e:existencia|existência]]. É essa a liberdade de toda vontade! No fim reside o amor, a veneração, a [[lexico:v:visao|visão]] do [[lexico:p:perfeito|perfeito]], do [[lexico:d:desejo|desejo]]. Encontrar a medida e o meio para aspirar o que se coloca além da humanidade: é preciso encontrar a [[lexico:e:especie|espécie]] de homem mais alta e mais vigorosa. [[lexico:r:representar|representar]] constantemente a [[lexico:t:tendencia|tendência]] superior nas coisas pequenas; a perfeição, a maturidade, a saúde florescente, a doce irradiação da [[lexico:f:forca|força]]; trabalhar como um [[lexico:a:artista|artista]] na obra diária, conduzir a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] a sua perfeição. Reconhecer a probidade no [[lexico:m:motivo|motivo]], como corresponde o poderoso. "O homem é algo que deve ser superado"; isso depende do [[lexico:t:tempo|tempo]] que se despende na marcha: os gregos eram admiráveis, não tinham pressa. Meus precursores: [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], [[lexico:e:empedocles|Empédocles]], [[lexico:s:spinoza|Spinoza]], Goethe. (Also sprach Zarathustra, Anotações póstumas, 43, 45, 55, 57.)