===== SUJEITO TRANSCENDENTAL E CORPO ===== Identificar [[lexico:s:sujeito-transcendental-e-corpo|sujeito transcendental e corpo]] [[lexico:n:nao|não]] significa um [[lexico:r:retorno|retorno]] ao fisiologismo e não estaremos seguindo dessa [[lexico:f:forma|forma]] o [[lexico:c:caminho|caminho]] de Watson? Não, mas não deixa de [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:v:verdade|verdade]] que certos psicólogos da forma sentiram-se atraídos pelo fisiologismo e só o evitaram lançando-se na [[lexico:p:posicao|posição]] afim do "fisicismo". Koffka, propondo-se o [[lexico:p:problema|problema]] das [[lexico:r:relacoes|relações]] entre o [[lexico:c:campo|campo]] fenomenal e o campo geográfico, demonstra que ambos se fundam no [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:f:fisico|físico]] e que a [[lexico:c:ciencia|ciência]] revela nesse mundo fenômenos de forma (por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] a [[lexico:d:distribuicao|distribuição]] da corrente elétrica num condutor). Ora, se procuramos interpretar as [[lexico:c:causas|causas]] das Gestalten psicológicas, isto é, [[lexico:e:explicar|explicar]] porque não é o campo geográfico que é percebido, mas o campo fenomenal, é realmente [[lexico:n:necessario|necessário]] referir-se, em última [[lexico:a:analise|análise]], às Gestalten fisiológicas em que reside o segredo dessa "deformação". É em [[lexico:r:razao|razão]] das estruturas às quais está submetida nossa organização nervosa que as [[lexico:c:coisas|coisas]] percebidas o são de [[lexico:a:acordo|acordo]] com certas constantes: a interposição dessas constantes ou gestalten entre o mundo e [[lexico:e:eu|eu]] traduz a [[lexico:t:transformacao|transformação]] a que meu [[lexico:s:sistema|sistema]] fisiológico submete os dados físicos. Assim à [[lexico:f:fisica|física]] das informações visuais corresponde uma [[lexico:f:fisiologia|fisiologia]] de sua captação, e a esta finalmente uma [[lexico:p:psicologia|psicologia]] de sua [[lexico:t:traducao|tradução]]. É portanto necessário estabelecer como [[lexico:h:hipotese|hipótese]] de [[lexico:t:trabalho|trabalho]] o [[lexico:p:principio|princípio]] de um [[lexico:i:isomorfismo|isomorfismo]] que abra caminho a investigações explicativas: a [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:d:descricao|descrição]] compreensiva da [[lexico:e:experiencia|experiência]] vivenciada deve prolongar-se pela sua [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] causal. Não se trata evidentemente de um paralelismo antiquado: sabe-se atualmente, pela [[lexico:v:voz|voz]] dos próprios fisiólogos, que é [[lexico:i:impossivel|impossível]] fazer a [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] de uma [[lexico:l:localizacao|localização]] cortical com uma "[[lexico:r:representacao|representação]]" ou mesmo uma "[[lexico:f:funcao|função]]" completamente isoladas, mas sabe-se em compensação, que as áreas corticais são afetadas pelo [[lexico:i:influxo|influxo]] segundo certas estruturas e que, como no nível [[lexico:p:psicologico|psicológico]], o importante é muito menos a incitação molecular do que a distribuição global do influxo, isto é, a [[lexico:r:relacao|relação]] das áreas entre si, e o equilíbrio ou o desiquilíbrio da carga de influxo. Os neurônios não funcionam como unidades, mas como partes de um [[lexico:t:todo|todo]], e não é [[lexico:p:possivel|possível]] explicar o [[lexico:c:comportamento|comportamento]] fisiológico do todo a partir de seus "[[lexico:e:elementos|elementos]]". Tais estruturas reguladoras, que podem igualmente ser compreendidas pelo [[lexico:m:modelo|modelo]] das regulações físicas ([[lexico:n:nocao|noção]] de campo de [[lexico:f:forca|força]], por exemplo), esclarecem as estruturas que regulam o nível periférico, isto é, físico. Koffka e depois dele Guillaume aproximam-se assim de um [[lexico:b:behaviorismo|behaviorismo]] estruturalista e não é casualmente que o vocabulário das duas escolas tenha acabado por se fundir. Os fenomenólogos não podem satisfazer-se com tal [[lexico:f:fusao|fusão]] e neste [[lexico:p:ponto|ponto]] exatamente o acordo que mantinham com os psicólogos objetivistas se rompe. Se, com [[lexico:e:efeito|efeito]], passamos da [[lexico:c:compreensao|compreensão]] das estruturas à [[lexico:e:explicacao|explicação]] das mesmas, abandona-se o que constituía todo o [[lexico:i:interesse|interesse]] do [[lexico:c:conceito|conceito]] de Gestalt, a [[lexico:s:saber|saber]] que ele implica de certa forma numa [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]] e que é inseparável de um [[lexico:s:sentido|sentido]]. Quando Koffka se orienta para a explicação das estruturas psíquicas pela [[lexico:m:morfologia|morfologia]] nervosa ele inverte novamente o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] problema psicológico: pois é claro que a explicação ainda que sutil dos fenômenos psico-químicos que "acompanham" a [[lexico:v:visao|visão]] não pode explicar o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:f:fato|fato]] de [[lexico:v:ver|ver]]. Se na [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de fisiólogo, eu sigo passo a passo o andamento da "excitação" provocada sobre a retina até o "centro" visual através da complexidade dos reíais, depois a emissão de influxo na direção das zonas adequadas à acomodação etc., meu [[lexico:e:esquema|esquema]], por mais [[lexico:a:adequado|adequado]] que seja aos fatos, será vão, pois jamais poderá explicar [[lexico:e:esse|esse]] fato fundamental; eu vejo. "O que fizemos foi considerar um olho morto no [[lexico:m:meio|meio]] do mundo visível para explicar a visibilidade desse mundo. [[lexico:n:nada|nada]] há portanto de surpreendente que este [[lexico:o:objeto|objeto]] de [[lexico:c:consciencia|consciência]], [[lexico:i:interioridade|interioridade]] absoluta, se recuse [[lexico:a:a-se|a se]] deixar ligar?" ([[lexico:s:sartre|Sartre]], O [[lexico:s:ser-e-o-nada|Ser e o Nada]], 367). Em outros termos, não há [[lexico:u:uniao|união]] possível entre o [[lexico:c:corpo|corpo]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]] estudado pelo fisiólogo e minha consciência; neste [[lexico:p:plano|plano]] todo retorno à fisiologia, como foi [[lexico:d:dito|dito]] por Watson reintroduz as contradições insuperáveis do problema [[lexico:c:classico|clássico]] da união da [[lexico:a:alma|alma]] e do corpo. Se a psicologia deve ser em primeira [[lexico:p:pessoa|pessoa]], ela não pode encarregar a fisiologia, ciência em terceira pessoa, da solução desses problemas. É preciso, todavia, confessar que "a interioridade absoluta" pela qual Sartre opõe a consciência ao corpo objetivo não se acha na linha fenomenológica: a interioridade nos reconduz à [[lexico:i:introspeccao|introspecção]] e nos faz recair no [[lexico:d:dilema|dilema]] algo envelhecido de uma [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] intransmissível e de um [[lexico:o:objetivismo|objetivismo]] que perde seu objeto. Há de qualquer [[lexico:m:modo|modo]] na posição sartriana, em relação a esse problema, que consideramos a chave da [[lexico:t:tese|tese]] fenomenológica em psicologia, uma [[lexico:t:tendencia|tendência]] correta para dissociar claramente os dados fisiológicos da própria análise [[lexico:i:intencional|intencional]]: assim, no Imaginaire Sartre dedica uma primeira [[lexico:p:parte|parte]] à descrição [[lexico:e:eidetica|eidética]] pura da consciência formadora de imagens, e, confessando que "a descrição reflexiva não nos esclarece diretamente a [[lexico:r:respeito|respeito]] da [[lexico:m:materia|matéria]] representativa da [[lexico:i:imagem|imagem]] mental", passa, numa segunda parte, ao exame dos dados experimentais: ora, esses indicam a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de uma revisão da [[lexico:d:descricao-fenomenologica|descrição fenomenológica]]. Do mesmo modo em Esquisse d’une théorie des émotions as tentativas de Dembo, psicólogo da forma, para interpretar a cólera em têrmos de meio-ambiente, de campo fenomenal de forças, e de equilíbrio das estruturas, são rejeitadas por Sartre porque não satisfazem à intencionalidade da consciência constituinte. Enfim, em O Ser e o Nada o corpo é de fato ultrapassado como [[lexico:o:organismo|organismo]] fisiológico e tomado como [[lexico:f:facticidade|facticidade]] vivenciada, como objeto para outrem, mas também como aquilo pelo que "minha interioridade mais íntima" se exterioriza sob o olhar de outrem: "meu corpo está ali não só como o ponto de vista que eu sou, mas ainda como um ponto de vista que eu nunca poderia tomar; ele me escapa por todas as partes" (O Ser e o Nada, 419); se ele me escapa é que existe um eu que não é ele. Assim a dissociação da análise intencional e dos dados fisiológicos parece de fato pressupor uma dissociação, ainda mais grave, pcrque ela constitui uma opção filosófica e não mais apenas um [[lexico:e:erro|erro]] metodológico, entre consciência e corpo, ou melhor, entre [[lexico:s:sujeito-e-objeto|sujeito e objeto]]. A [[lexico:i:integracao|integração]] do corpo à subjetividade ou da subjetividade ao corpo não chega a fazer-se em profundidade na [[lexico:o:obra|obra]] de Sartre, que segue mais o [[lexico:h:husserl|Husserl]] transcendentalista que o Husserl da terceira fase: é este Husserl que rejeitava as teses da Gestalttheorie, embora esta lhe atribuísse a [[lexico:a:autoridade|autoridade]], pois segundo ele a noção objetiva de [[lexico:e:estrutura|estrutura]] não podia em nenhum caso servir para descrever a [[lexico:s:subjetividade-transcendental|subjetividade transcendental]]. É evidente que a noção de "[[lexico:s:sintese-passiva|síntese passiva]]" está completamente ausente da psicologia e da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] sartrianas, as quais o censurariam certamente de "[[lexico:p:por|pôr]] [[lexico:e:espirito|espírito]] nas coisas", o que Sartre, de resto imputa ao [[lexico:m:marxismo|marxismo]].