===== SUJEITO ===== (gr. [[lexico:h:hypokeimenon|hypokeimenon]]; lat. subjectum, [[lexico:s:suppositum|suppositum]]; in. Subject; fr. Sujet; al. Subjekt; it. Soggettó). [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]] teve dois significados fundamentais: 1) aquilo de que se [[lexico:f:fala|fala]] ou a que se atribuem qualidades ou determinações ou a que são inerentes qualidades ou determinações; 2) o [[lexico:e:eu|eu]], o [[lexico:e:espirito|espírito]] ou a [[lexico:c:consciencia|consciência]], como [[lexico:p:principio|princípio]] determinante do [[lexico:m:mundo|mundo]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] ou da [[lexico:a:acao|ação]], ou ao menos como [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de iniciativa em tal mundo. Ambos esses significados se mantêm no [[lexico:u:uso|uso]] corrente do termo: o primeiro na [[lexico:t:terminologia|terminologia]] gramatical e no [[lexico:c:conceito|conceito]] de sujeito como [[lexico:t:tema|tema]] ou assunto do [[lexico:d:discurso|discurso]]; o segundo no conceito de sujeito como capacidade autônoma de [[lexico:r:relacoes|relações]] ou de iniciativas, capacidade que é contraposta ao [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:s:ser|ser]] "[[lexico:o:objeto|objeto]]" ou [[lexico:p:parte|parte]] passiva de tais relações. 1) O primeiro [[lexico:s:significado|significado]] pertence à [[lexico:t:tradicao|tradição]] filosófica antiga. Aparece em [[lexico:p:platao|Platão]] (Prot., 349 b) e é definido por [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] como um dos modos da [[lexico:s:substancia|substância]]. Aristóteles diz: "sujeito é aquilo de que se pode dizer qualquer [[lexico:c:coisa|coisa]], mas que por sua vez [[lexico:n:nao|não]] pode ser [[lexico:d:dito|dito]] de [[lexico:n:nada|nada]]" (Met., VII, 3,1028 b 36). Neste [[lexico:s:sentido|sentido]], o sujeito pode ser entendido: d) como a [[lexico:m:materia|matéria]] de que se compõe uma coisa, p. ex. o bronze; ti) como a [[lexico:f:forma|forma]] da coisa, como p. ex. o desenho de uma [[lexico:e:estatua|estátua]]; c) como a [[lexico:u:uniao|união]] de [[lexico:m:materia-e-forma|matéria e forma]], como p. ex. a estátua (Ibid., 1029 a 1). Essas determinações pertencem estritamente à [[lexico:m:metafisica-aristotelica|metafísica aristotélica]]. Mas o que importa é o sentido [[lexico:g:geral|geral]] do termo: sujeito é o objeto [[lexico:r:real|real]] ao qual são inerentes ou ao qual se referem as determinações [[lexico:p:predicaveis|predicáveis]] ([[lexico:q:qualidade|qualidade]], [[lexico:q:quantidade|quantidade]], etc). Este é também o conceito de sujeito dos estoicos, que o consideraram como objeto [[lexico:e:externo|externo]] ao qual se refere o significado, ou seja, como a [[lexico:d:denotacao|denotação]] do significado ([[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], Adv. Math., VIII, 12). Os epicuristas empregaram esse termo com o mesmo sentido ([[lexico:e:epicuro|Epicuro]], Epístola, I, pp. 12, 24, Uesener). É com essa tradição que se relaciona o uso gramatical do termo, que começou no séc. II d.C.; Apuleio já chamava de subjectiva ou subdita a parte do discurso que os antigos chamavam de [[lexico:n:nome|nome]], e de declarativa a parte que os antigos chamavam de [[lexico:v:verbo|verbo]] (De dogmate Platonis, III, p. 30, 30; cf. Marciano Capela, De nuptiis, IV, 393). Esse significado de "sujeito" permanece inalterado através de longa tradição. Os escritores medievais adotam as determinações de Aristóteles: chamam a substância de subjectum ou suppositum porquanto a ela inerem as qualidades ou as outras determinações (cf. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], [[lexico:s:suma-teologica|Suma Teológica]], I, q. 29, a. 2; Duns Scot, Op. Ox, II, d. 3, q. 6, n. 8; [[lexico:o:occam|Occam]], In Sent, I, d. 2, q. 8, E). O significado desse termo não muda quando por sujeito é entendida a [[lexico:a:alma|alma]] como substância à qual inerem determinados [[lexico:c:caracteres|caracteres]] ou da qual emanam determinadas [[lexico:a:atividades|atividades]]. [[lexico:h:hobbes|Hobbes]] diz: "O sujeito da [[lexico:s:sensacao|sensação]] é o [[lexico:p:proprio|próprio]] senciente, ou seja, o [[lexico:a:animal|animal]]" (De corp., 25, 3). [[lexico:l:locke|Locke]] chama o sujeito neste sentido de substratum ou suporte (Ensaio, II, 23, 1-2). É com esse mesmo sentido que [[lexico:h:hume|Hume]] se vale desse termo: "Eis que aparece [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] a dizer-me que só há modificações e que o sujeito ao qual elas inerem é simples, não [[lexico:c:composto|composto]] e indivisível" (Treatise, 1, IV, 5, ed. Selby-Bigge, p. 242). Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, esse mesmo significado mantém-se até mesmo no [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] alemão. [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] pretende conservar o significado tradicional de sujeito (Nouv. ess., II, 23, 2) e, ao [[lexico:f:falar|falar]] de disposições "que vêm a subjecto, ou da própria alma", está falando de disposições que vêm da própria substância da alma (Remarques sur le Livre de l’origine du [[lexico:m:mal|mal]], em Op., ed. Erdmann, p. 645). Por sua vez, [[lexico:w:wolff|Wolff]] define o sujeito como "o [[lexico:e:ente|ente]], enquanto dotado de [[lexico:e:essencia|essência]] e capaz de outras [[lexico:c:coisas|coisas]] [[lexico:a:alem|além]] dela" (Ont., § 7 11). No mesmo sentido, Baumgarten diz que o sujeito é o ente, determinado na matéria de que é constituído (Met., § 344). Aliás, o próprio [[lexico:k:kant|Kant]] recorre a essa [[lexico:n:nocao|noção]] tradicional de sujeito. Diz: "Há tempos observou-se que, em todas as [[lexico:s:substancias|substâncias]], o sujeito propriamente dito, aquilo que fica depois de retirados os acidentes (como [[lexico:p:predicados|predicados]]), portanto o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:e:elemento|elemento]] [[lexico:s:substancial|substancial]], nos é desconhecido" (Prol, § 46). 2) O segundo significado desse termo, como o eu, a consciência ou a capacidade de iniciativa em geral, teve início com Kant, que certamente teve em [[lexico:m:mente|mente]] o significado que a [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] e [[lexico:o:objetivo|objetivo]] assumira em alguns escritores alemães, seus contemporâneos. Para Kant, sujeito é o eu penso da consciência ou [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]] que determina e condiciona toda [[lexico:a:atividade|atividade]] cognos-citiva: "Em todos os juízos sou sempre o sujeito determinante da [[lexico:r:relacao|relação]] que constitui o [[lexico:j:juizo|juízo]]". "Para o eu, para o ele ou para aquilo (a coisa) que pensa, a [[lexico:r:representacao|representação]] é apenas de sujeito [[lexico:t:transcendental|transcendental]] dos [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]], = x que só é conhecido através dos pensamentos que são seus predicados e dos quais, à parte estes, não podemos [[lexico:t:ter|ter]] o menor conceito" ([[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]], Dial. transcendental, II, cap. 1). Nessas [[lexico:p:palavras|palavras]] de Kant pode-se reconhecer a passagem do velho para o novo significado de sujeito. O eu é sujeito na [[lexico:m:medida|medida]] em que seus pensamentos lhe são inerentes como predicados: este é ainda o significado tradicional do termo. Mas o eu é sujeito na medida em que determina a união entre sujeito e [[lexico:p:predicado|predicado]] nos juízos, na medida em que é atividade sintética ou judicante, [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]] cognitiva, portanto consciência, autoconsciência ou [[lexico:a:apercepcao|apercepção]]; e este é o novo significado de sujeito. A tradição pós-kantiana atém-se exclusivamente a este segundo significado. Para [[lexico:f:fichte|Fichte]], o sujeito é o Eu, que é "sujeito [[lexico:a:absoluto|absoluto]], não representado nem representável", que "não tem nada em comum com os seres da [[lexico:n:natureza|natureza]]" (Wissenschaftslehre, 1794, § 3, d). Segundo Fichte, a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre a Substância de Spinoza e o Eu Absoluto consiste no [[lexico:f:fato|fato]] de que Spinoza não concebeu a substância como sujeito (Ibid., trad. it., pp. 78 ss.). [[lexico:s:schelling|Schelling]] fala no mesmo sentido de [[lexico:i:identidade|identidade]] ou [[lexico:u:unidade|unidade]] do sujeito e de objeto na Autoconsciência Absoluta (System des transzendentalen Idealismus, 1800,1, cap. II; trad. it., p. 34). Por sua vez, [[lexico:h:hegel|Hegel]] dizia: "Tudo depende de se entender e expressar o Verdadeiro não somente como Substância, mas de maneira igualmente decidida como sujeito (...) A substância viva é o ser, que na [[lexico:v:verdade|verdade]] é sujeito ou — o que dá na mesma — é o ser que na verdade é [[lexico:e:efetivo|efetivo]], mas somente na medida em que a substância é o [[lexico:m:movimento|movimento]] de pôr-se a si mesma ou é a [[lexico:m:mediacao|mediação]] do vir a ser outra consigo mesma" (Phänomen. des Geistes, Pref., II, 1). No mesmo sentido, Hegel afirma que a [[lexico:i:ideia|ideia]] Absoluta é unidade de [[lexico:s:sujeito-e-objeto|sujeito e objeto]] (Enc., § 214). E acrescenta: "A unidade da ideia é [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]], [[lexico:p:pensamento|pensamento]], infinidade, e portanto deve ser distinguida essencialmente da ideia como substância do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:c:como-se|como se]] deve fazer a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre essa subjetividade domi-nadora, esse pensamento, essa infinidade e a subjetividade unilateral, o pensamento unilateral, a infinidade unilateral, à qual ela se rebaixa ao julgar e definir" (Enc., § 215). Logo, a subjetividade como "subjetividade infinita", ou seja, não intelectual, prevalece sobre a [[lexico:o:objetividade|objetividade]] na "unidade [[lexico:s:sujeito-objeto|sujeito-objeto]]" que é a Ideia ou o Absoluto. Mas Hegel também viu no sujeito como tal a capacidade de iniciativa ou o princípio da atividade em geral. "O sujeito é a atividade da satisfação dos impulsos, da [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] [[lexico:f:formal|formal]], vale dizer, é a atividade que traduz a subjetividade do conteúdo (que sob esse [[lexico:a:aspecto|aspecto]] é [[lexico:f:fim|fim]]) na objetividade em que o sujeito se conjuga consigo mesmo" (Enc., § 475). Assim como Fichte, [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]] insistia na [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de [[lexico:r:representar|representar]] o sujeito: "Aquele que tudo conhece e não é conhecido por ninguém é o Sujeito. É ele, pois, que tem o mundo em si; é a [[lexico:c:condicao|condição]] [[lexico:u:universal|universal]] e sempre pressuposta de qualquer [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], de qualquer objeto: porque o que existe, existe para o sujeito" (Die Welt, I, § 2). É quase supérfluo observar como o [[lexico:i:idealismo-contemporaneo|idealismo contemporâneo]] abusou dessas noções, especialmente o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] italiano. Gentile dizia: "A [[lexico:r:realidade|realidade]] espiritual objeto do nosso conhecimento não é espírito e fato espiritual, mas pura e simplesmente espírito, como sujeito. Como tal, ela só é conhecida na medida em que sua objetividade se resolve na atividade real do sujeito que a conhece" ([[lexico:t:teoria|teoria]] generale dello spirito, 1920, 11, § 3). [[lexico:c:croce|Croce]] emprega a [[lexico:p:palavra|palavra]] sujeito para indicar o Espírito do Mundo, a [[lexico:r:razao|Razão]] ou a [[lexico:h:humanidade|humanidade]], que é o princípio criativo da [[lexico:h:historia|história]] (Storiografia e idealità morale, 1950, p. 21). Ficaram poucos sinais dessa pesada [[lexico:m:mitologia|mitologia]] no restante da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea. Por um lado, as correntes do [[lexico:n:neocriticismo|neocriticismo]], ao insistirem no aspecto lógico-objetivo do conhecimento, relegaram para segundo [[lexico:p:plano|plano]] a [[lexico:f:funcao|função]] do sujeito; aliás, evitaram empregar seu conceito e o próprio termo em suas análises explicativas. Por outro lado, o sujeito como eu (ou o eu como sujeito) simplesmente desaparece em algumas filosofias contemporâneas porque desaparece a função diretiva e construtiva que ele deveria exercer. É o que acontece, p. ex., na filosofia de [[lexico:m:mach|Mach]], em que o eu se torna simplesmente um conjunto de sensações, de [[lexico:e:elementos|elementos]] cognoscitivos, e não tem mais função como sujeito (Analyse der Empfindungen, 1900,1, 12). Em sentido [[lexico:a:analogo|análogo]], [[lexico:w:wittgenstein|Wittgenstein]] diz que o sujeito "não existe. Se eu escrevesse um livro ‘O mundo como encontrei’, deveria falar também de meu [[lexico:c:corpo|corpo]], e dizer quais as partes dele que obedecem à minha [[lexico:v:vontade|vontade]] e quais não, etc, o que seria um [[lexico:m:metodo|método]] de [[lexico:i:isolar|isolar]] o sujeito ou de mostrar que, em sentido importante, não há sujeito. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], não se poderia falar dele sozinho nesse livro" (Tractatus, 1922, 5.631). O sujeito não existe porque "o sujeito não pertence ao mundo, mas é um [[lexico:l:limite|limite]] do mundo" (Ibid., 5.632), no sentido de que, assim como o olho, vê tudo mas não se vê a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], e portanto se resolve inteiramente nos objetos vistos. Não é muito diferente o significado da [[lexico:t:tese|tese]] de Santayana, de que "o espírito não existe" (Scepticism and Animal Faith, 1923, cap. 26). Mas mesmo quando se reconhece a [[lexico:e:existencia|existência]] do sujeito, sua função é reduzida ao mínimo pela corrente realista. Ao afirmar que "sujeito e objeto são sempre correlativos um ao outro e por isso inseparáveis", N. [[lexico:h:hartmann|Hartmann]] está reduzindo a função do sujeito a "[[lexico:i:imagem|imagem]], representação ou conhecimento do objeto", excluindo inclusive a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de que ele modifique a natureza deste (Sistematische Philosophie, 1931, § 10). Finalmente, mesmo quando não excluída, a função do sujeito não é considerada incondicionada ou criadora, mas submetida a limites e condições, negando-se em todos os casos que ele possa valer como substância ou [[lexico:f:forca|força]] autônoma. [[lexico:h:husserl|Husserl]] diz: "O [[lexico:e:ego|ego]] constitui-se [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo na unidade de uma história. Ao se dizer que, na [[lexico:c:constituicao|constituição]] do ego, estão contidas todas as constituições de todos os objetos que existem para ele, imanentes e transcendentes, reais e ideais, é preciso acrescentar que o [[lexico:s:sistema|sistema]] de constituições em [[lexico:v:virtude|virtude]] das quais tais objetos existem para o ego só é [[lexico:p:possivel|possível]] no quadro de leis genéticas" (Cart. Med, 1931, 37). Desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, o sujeito é uma função, não uma substância ou uma [[lexico:f:forca-criadora|força criadora]]. [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] disse: "Se para o ente que nós somos e que definimos como [[lexico:s:ser-ai|ser-aí]] for escolhido o termo sujeito, poderemos dizer: a [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] implica a essência do sujeito, é a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] fundamental da subjetividade. Não que o sujeito exista antes como sujeito e depois, no [[lexico:m:momento|momento]] em que alguns objetos se revelem presentes, ele possa até mesmo transcendê-los. Ser sujeito significa ser existente na transcendência e enquanto transcendência" (Vom [[lexico:w:wesen|Wesen]] des Grundes, 1929, II; trad. it., p. 30). É preciso lembrar que, para Heidegger, transcendência é relação com o mundo; portanto, o sujeito é por ele identificado com essa relação. De modo mais [[lexico:e:empirico|empírico]], [[lexico:d:dewey|Dewey]] ressalta o [[lexico:c:carater|caráter]] puramente [[lexico:f:funcional|funcional]] da subjetividade: "Uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]], ou — mais genericamente — um [[lexico:o:organismo|organismo]], torna-se sujeito cognoscente em virtude de seu empenho em operações de [[lexico:i:investigacao|investigação]] controlada" (Logic, 1938, p. 526). Admitir que existe sujeito cognoscente [[lexico:i:independente|independente]] da investigação e anterior a ela significa supor algo que é [[lexico:i:impossivel|impossível]] verificar empiricamente e que, portanto, não passa de preconceito metafísico. Essa ideia fora exposta por Dewey já em Studies in Logical Theory, de 1903 (cf. também Experience and Nature, 1926, cap. VI). O espírito que conhece, contrapondo-se ao objeto que é conhecido; num sentido [[lexico:p:pratico|prático]], o sujeito da ação é o autor, o responsável por uma ação. — A distinção entre o sujeito e o objeto, entre o autor de uma ação e o conteúdo de sua ação supõe a [[lexico:r:reflexao|reflexão]]: pois no conhecimento [[lexico:n:natural|natural]], o sujeito e o objeto estão intimamente ligados (vejo um objeto ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] que tenho consciência de vê-lo). As filosofias do sujeito (Kant, Fichte, [[lexico:l:lagneau|Lagneau]], Husserl) são filosofias reflexivas, cujo objetivo é aprofundar o "[[lexico:a:ato|ato]]" de conhecer (atividade do pensamento), ou de agir (ato de querer); atingem naturalmente a um idealismo, até mesmo a um [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]], que reduz toda a realidade a uma atividade "de constituição", de natureza espiritual. — As filosofias do sujeito contrapõem-se às filosofias do [[lexico:t:tipo|tipo]] marxista, que definem o sujeito a partir de seu [[lexico:e:engajamento|engajamento]] primordial no mundo e na história. Em [[lexico:s:suma|suma]], as filosofias do sujeito são teorias do conhecimento; contrapõem-se ao [[lexico:r:realismo|realismo]] das teorias da ação. (do latim subiectum: que está por debaixo significa, etimologicamente "o que foi posto debaixo", "o que se encontra na base"; daí sua afinidade semântica com substrato (sub-stratum — "o espalhado debaixo") e com substância ("o que está debaixo"). A este sentido etimológico corresponde, as mais das vezes, o significado [[lexico:o:ontologico|ontológico]] do vocábulo "sujeito", segundo o qual, sujeito (1) é a realidade que está na base, que "sustenta", o "sustentador", o "portador"; denota, pois, essencialmente uma relação a outra realidade que "descansa sobre ele", que é "sustida" por ele, realidade que, de algum modo, depende da realidade sustentadora como [[lexico:d:determinacao|determinação]] e ulterior aperfeiçoamento de seu ser e que, em sentido muito lato, se chama forma. A dependência da forma em relação ao sujeito não é, enquanto tal, a de efeito relativamente à [[lexico:c:causa|causa]]; portanto a forma não é produzida necessariamente pelo sujeito. O que se pretende [[lexico:e:explicar|explicar]] com as expressões gráficas de "sustentar", "receber", só nos é [[lexico:d:dado|dado]] originariamente, de modo [[lexico:i:imediato|imediato]], na relação de nosso eu com seus atos e estados. O fato [[lexico:v:vivido|vivido]] de que o eu "tem" os atos como seus atos, de que os atos estão "nele", exprime-lhe filosoficamente, denominando o eu como sujeito dos mesmos atos. Embora o sujeito que (como o eu) não é, por sua parte, determinação de outro, mas existe em si mesmo, receba preferentemente o nome de sujeito, todavia a relação de sujeito e forma deve ser concebida com maior amplitude que a de substância e [[lexico:a:acidente|acidente]]. Com efeito, prescindindo de que a substância não é necessariamente sujeito de acidentes ([[lexico:d:deus|Deus]] é substância, mas não é sujeito de acidentes), pode também um acidente ser sujeito de ulteriores determinações acidentais (sujeito [[lexico:p:proximo|próximo]] da velocidade é o movimento, o qual, por sua vez, é acidente do corpo), e, por outro lado, a "forma", recebida no sujeito, não é necessariamente forma acidental, mas pode ser também forma substancial (o corpo como sujeito da alma e, em geral, a matéria como sujeito da forma; [[lexico:h:hilemorfismo|hilemorfismo]]). Um caso [[lexico:p:particular|particular]] do sujeito ontológico é o sujeito [[lexico:p:psicologico|psicológico]], o eu, enquanto sujeito de seus atos. Na medida em que estes, como atos intencionais, visam um objeto, por eles o eu é também contraposto conscientemente a outro, precisamente ao objeto. O eu recebe, então, o nome de sujeito, enquanto situado em face do objeto; deste modo, o vocábulo "sujeito" recebe um segundo sentido, distinto do primeiro. Nesta acepção, o sujeito (2) é o eu enquanto se volve para um objeto, conhecendo, apetecendo ou sentindo. Assim se origina o conceito de sujeito, em [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] a objeto. Em tal caso, concebe se como sujeito, quer o "sujeito psico-físico", isto é, o [[lexico:h:homem|homem]] [[lexico:t:todo|todo]] composto de [[lexico:c:corpo-e-alma|corpo e alma]], quer unicamente o "sujeito psicológico", ou seja, o eu [[lexico:c:consciente|consciente]] de si mesmo, que é, de fato, a alma, apreendida como sujeito. — A [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] ([[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]]), principalmente, põe no centro das discussões a oposição de sujeito (cognoscente) e de objeto (conhecido). Nessas discussões, o "sujeito epistemológico" é, por vezes, contraposto ao sujeito individual, psicológico, como algo essencialmente distinto (assim ocorre sobretudo no [[lexico:n:neokantismo|neokantismo]]). Tudo o que no sujeito psicológico há de individual é tido como fazendo parte do objeto, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que, como sujeito epistemológico, não permanece senão uma "consciência em geral", indeterminada, supra-individual. Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], é possível abstrair do eu individual um [[lexico:c:conceito-universal|conceito universal]] de um sujeito cognoscente; podem igualmente considerar-se no sujeito individual só as condições do conhecimento universalmente válido; mas, em derradeira [[lexico:i:instancia|instância]], o sujeito realmente pensante e cognoscente é sempre um eu individual. E se se afirma que este [[lexico:u:ultimo|último]] sujeito não pode, em caso algum, tornar-se em objeto, contradiz-se a essência do espírito, uma das propriedades do qual consiste precisamente em volver-se ou dobrar-se sobre si mesmo. Uma ulterior acepção do termo "sujeito", igualmente conexa com a [[lexico:o:ontologica|ontológica]], é a de sujeito [[lexico:l:logico|lógico]] (3), em oposição a predicado. Via de [[lexico:r:regra|regra]], no juízo enuncia-se, de um ente, sujeito real, uma determinação (forma) que lhe convém. Pelo que, dá-se também o nome de sujeito ao conceito que designa o objeto que se determina mais minuciosamente por [[lexico:m:meio|meio]] do predicado. — De Vries. Sujeito é: 1. do ponto de vista lógico, aquilo de que se afirma ou nega algo. O sujeito chama-se conceito-sujeito e refere-se a um objeto que é 2. do ponto de vista ontológico, o objeto- sujeito. Este objeto-sujeito é [[lexico:c:chamado|chamado]] também com frequência Objeto, pois constitui tudo o que pode ser sujeito de um juízo. As confusões habituais entre sujeito e objeto, os equívocos a que tem dado [[lexico:l:lugar|lugar]] o emprego destes termos, podem ser eliminados mediante a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] de que ontologicamente todo o objeto pode ser sujeito de juízo, quer dizer, mediante a advertência de que sujeito e objeto podem desempenhar dois aspectos do objeto- sujeito. Com efeito, este último pode não ser exclusivamente a primeira substância, o ser individual, mas pode ser qualquer das realidades classificadas pela [[lexico:t:teoria-do-objeto|teoria do objeto]]: um ser real, um ser [[lexico:i:ideal|ideal]], uma [[lexico:e:entidade|entidade]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]], um [[lexico:v:valor|valor]]. Do ponto de vista gnoseológico, é o sujeito cognoscente, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] definido como sujeito para um objeto em virtude da [[lexico:c:correlacao|correlação]] sujeito-objeto que se dá em todo o fenômeno do conhecimento e que, sem negar a sua mútua [[lexico:a:autonomia|autonomia]], torna impossível a exclusão de um dos elementos. Do ponto de vista psicológico, o sujeito psicofisiológico, confundido às vezes com o gnoseológico quando o plano transcendental em que se desenvolve o conhecimento foi reduzido ao plano psicológico e até biológico. Poderia acrescentar-se a estas diversas acepções de sujeito o sujeito gramatical, diferente do conceito-sujeito, porque é a [[lexico:e:expressao|expressão]], mas não o próprio conceito-sujeito, o qual é exclusivamente lógico e não gramatical, gnoseológico ou ontológico. Deve diferenciar-se assim o sujeito em que o termo é empregado e em particular deve distinguir-se entre as acepções lógicas, gnoseológicas e outras, que são confundidas com grande frequência. Talvez o emprego das expressões “conceito-sujeito”, “objeto-sujeito” e “sujeito cognoscente” pudessem evitar alguns dos equívocos atrás citados. Para Aristóteles, devemos conhecer ao mesmo tempo, relativamente ao sujeito da [[lexico:d:demonstracao|demonstração]], que ele é, an est, e o que ele é, [[lexico:q:quid|quid]] est. Se por um lado, com efeito, no início de uma [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] científica, não se coloca a [[lexico:q:questao|questão]] da existência do sujeito cujas propriedades se desejar conhecer - ela é pressuposta - por outro lado, deve-se conhecer a natureza desse sujeito, o que ele é, sem o que jamais se poderia conhecer a natureza do termo médio, e em [[lexico:c:consequencia|consequência]], não se poderia jamais proceder à demonstração. A determinação de uma [[lexico:p:propriedade|propriedade]] pressupõe, portanto, que seja pré-conhecida a existência e a natureza do sujeito ao qual ela pertence. É o que afirma Tomás de Aquino (11 Anal., 1, 1. 2, n. 3): "O sujeito, por sua parte, tem uma [[lexico:d:definicao|definição]], e seu [[lexico:e:existir|existir]] não depende da propriedade, uma vez que ele já é conhecido anteriormente ao existir de sua propriedade. Segue-se que é [[lexico:n:necessario|necessário]] previamente [[lexico:s:saber|saber]] do sujeito "o que ele é" e "que ele existe".