===== SOTERIOLOGIA ===== (in. Soteriology; fr. Soteriologie; al. Soteriologie; it. Soteriologià). Doutrina religiosa da [[lexico:s:salvacao:start|salvação]]. Sobre o aparecimento de tendências soteriológicas no ocidente, v. a [[lexico:o:obra:start|obra]] de F. Cumont, Les religions orientales dans le paganisme romain, 1906, 2- ed., 1909. Podemos [[lexico:a:agora:start|agora]] indagar, em termos puramente filosóficos e especulativos: existiriam outras eternidades [[lexico:a:alem:start|além]] daquela que nos foi oferecida pela [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] ocidental cristã? Cada [[lexico:d:deus:start|Deus]] ou cada [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] mundial constitui uma cena de desempenhos, atualizações e cumprimentos, um teatro de fruições e bem-aventuranças que se abre como uma [[lexico:f:forma:start|forma]] da [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]]. Na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que nos atualizamos na direção do sugerido por um [[lexico:c:campo:start|campo]] fascinante-divino, nos imortalizamos nos valores e realizações dessa diacosmese. O realizável, o atualizável, como [[lexico:p:participacao:start|participação]] na eternidade, é em cada caso diverso; a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] de possibilidades eternas é [[lexico:f:funcao:start|função]] da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] idiomática do [[lexico:d:divino:start|divino]]. Se na vertente da tradição ocidental-cristã e em sua abertura [[lexico:s:singular:start|singular]] só as [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] espirituais e o [[lexico:c:cogito:start|cogito]] imaterial, como variedade de um transcender, nos implantam, nos instalam num além [[lexico:e:eterno:start|eterno]] e na [[lexico:v:vida:start|vida]] eterna de Deus, mutatis mutandis, outras perspectivas mundiais-divinas poderiam transportar-nos para outros espaços soteriológicos, para outras dimensões do salvável e salvado no [[lexico:h:homem:start|homem]]. Os [[lexico:d:deuses:start|deuses]], portanto, abrem campo a efetuações existenciais eternizantes, que pertencem ao seu âmbito interno de possibilidades atualizáveis. “Os deuses”, afirma Walter [[lexico:o:otto:start|Otto]], “manifestam-se [[lexico:n:nao:start|não]] só nos fenômenos naturais e nos acontecimentos históricos, mas também enquanto promovem a [[lexico:i:interioridade:start|interioridade]] humana e determinam sua [[lexico:a:atitude:start|atitude]] e [[lexico:a:acao:start|ação]]”. Os deuses são a própria [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] do nosso transcender. Desde o [[lexico:m:momento:start|momento]], portanto, em que pomos entre parêntesis o nosso [[lexico:t:tipo:start|tipo]] inconfundível de transcender noocêntrico, isto é, desde o momento em que des-materializamos o nosso [[lexico:c:corpo:start|corpo]], o nosso [[lexico:s:ser:start|ser]] se desdobra como uma árvore de gestos. O nosso corpo e o nosso ser-fenomênico ainda não-materializado e corporificado pelo ir-além do kyrion espiritual, é um [[lexico:p:puro:start|puro]] campo [[lexico:v:virtual:start|virtual]] expressivo, organizável segundo diversas hierarquizações cósmico-divinas. Eis que [[lexico:e:esse:start|esse]] nosso ser interpretável ou pré-mundano pode traduzir, em sua dramática vital, diversas dominações expressivas, ou ainda diversas delegações significativas. O [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:h:hegemonico:start|hegemônico]] de nossa [[lexico:c:conduta:start|conduta]] e as virtudes ou operações prestigiosas são modalidades do transcender, oferecidas em cada caso pelas potências projetivas instauradoras. A orientação do nosso [[lexico:c:coracao:start|coração]] e da nossa [[lexico:m:mente:start|mente]] já representam o alto-relevo [[lexico:t:tangivel:start|tangível]] da consignação de desempenhos próprios do campo fascinante. Ora, outros desempenhos culminantes “mais divinos e preciosos” que as operações noomórficas podem [[lexico:r:representar:start|representar]] o nosso coração e a nossa mente, abrindo-nos domínios imortais e imortalizantes. As cenas eternas do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], que constituem o [[lexico:u:universo:start|universo]] prototípico dos deuses, surgem, convocando-nos e convidando-nos para as diversas moradas indestrutíveis. Em cada caso, a [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre o efêmero, o mortal, o acidental e o [[lexico:s:substancial:start|substancial]] e eterno no homem alternam-se decisivamente, de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com a orientação da [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]]. Entretanto, são os vórtices de Eternidade que se abrem como teatros da transcendência. O [[lexico:e:essencial:start|essencial]] em nós, o kyrion de um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de desempenhos é que se patenteia como forma eterna de vida no [[lexico:c:ceu:start|céu]] de uma epifania divina. Internamo-nos numa floresta [[lexico:u:universal:start|universal]] de gestos e advertimos a nossa radicação no imemorial e indestrutível de um Weltaspekt; estamos junto a Deus, vivemos a vida eterna. O que efetuamos na linha de uma dada perfectio, inspirados por um deus, pertence de [[lexico:d:direito:start|direito]] à [[lexico:b:bem-aventuranca:start|bem-aventurança]] eterna suscitada pela sua proximidade. O nosso coração revela-se, então, em sua [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]], como uma chispa do coração selvagem do divino e nele estamos e permanecemos para sempre. Evidentemente que uma [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] exaustiva das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] que estamos desenvolvendo supõe uma [[lexico:s:superacao:start|superação]] das representações monopolizadoras do homem como [[lexico:a:alma:start|alma]] e corpo ou como [[lexico:e:espirito-e-materia:start|espírito e matéria]]. Devemos aprender a desmaterializar o nosso [[lexico:p:proprio:start|próprio]] corpo. Devemos convencer-nos precisamente que as [[lexico:c:categorias:start|categorias]] físicas e metafísicas que empolgaram o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] ocidental-cristão são em última [[lexico:i:instancia:start|instância]] constituídas e “desenhadas”, em seu ser, por um poder projetivo-desvelante e são portanto tributárias de uma [[lexico:g:genese:start|gênese]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]. Isso, quanto ao que diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] aos [[lexico:p:primeiros-principios:start|primeiros princípios]], às formas informantes dos seres e, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], à própria [[lexico:r:razao:start|Razão]]. [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], pelo contrário, identificou a [[lexico:n:nocao:start|noção]] essencial do divino com o [[lexico:e:ente:start|ente]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], com o [[lexico:l:logos:start|Logos]], com a [[lexico:e:entelequia:start|enteléquia]] dos astros, acrescentando que só assim poderia ser interpretada a tradição mitológica. Lemos com [[lexico:e:efeito:start|efeito]] no Livro XII da [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]]: “Nossos antepassados, desde as mais remotas idades, transmitiram uma tradição em forma mítica, segundo a qual os corpos celestes eram deuses e que o divino abrangia a totalidade da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. Se separamos esse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] das adições posteriores e tomando-o isoladamente, isto é, supondo que afirmavam que as [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] primeiras eram deuses, devemos reconhecer nisso um [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] inspirado”. Desde o momento em que as representações inteligíveis dos astros, as formas primeiras dos corpos celestes são equiparadas equivocadamente com o momento “[[lexico:a:aparente:start|aparente]]” dos deuses, com o Imaginatio Divina, o [[lexico:p:principio:start|princípio]] hegemônico do homem está selado na atualização única de sua forma inteligível. A eternidade é a eternidade dessa escala entis e da supremacia da [[lexico:e:essencia:start|essência]] imaterial do Logos. Acreditamos, pelo contrário, que os deuses são [[lexico:o:origens:start|origens]], poderes desvelantes primordiais que comandam a irrupção de um teatro de significados, representações e desempenhos. A primazia do [[lexico:m:mito:start|mito]] sobre Logos implica a precedência da Abertura do Ser sobre a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] total do inteligível, do cognoscível sobre o conhecer. O Logos nos ata ao já-oferecido, o Mito nos transporta para o domínio desvelante primordial. Unicamente superando a hipostasiação do ente [[lexico:h:humano:start|humano]], na consuetudinária [[lexico:r:representacao:start|representação]] de espírito-matéria, podemos vislumbrar uma nova experiência, um novo [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] para os homens. [VFSTM:186-188] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}