===== SONHO DE ER ===== Esta é a historia do valoroso Er, armênio de Panfília. Morto na [[lexico:g:guerra:start|guerra]], seu cadáver incontaminado foi recolhido após dez dias. A pira estava pronta, quando no décimo segundo dia despertou e contou o que havia visto no [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Depois de abandoná-lo, sua [[lexico:a:alma:start|alma]] encaminhou-se com outras até um [[lexico:l:lugar:start|lugar]] onde havia dois buracos na [[lexico:t:terra:start|Terra]] em frente a dois que estavam no [[lexico:c:ceu:start|céu]]. Dois juízes pronunciavam as [[lexico:s:sentencas:start|sentenças]]; os justos se encaminhavam ao céu, pela direita, e os injustos à terra, pela esquerda. Quando viram Er chegar disseram-lhe que seria mensageiro entre os homens de tudo o que ali ocorria, e que prestasse [[lexico:a:atencao:start|atenção]]. Pelo outro buraco da terra saíam almas sujas ou empoeiradas; pelo outro do céu, almas inteiramente puras. Pareciam chegar de uma longa viagem. Reuniram-se na pradaria e, como velhas conhecidas, as da terra perguntavam pelo céu, e as do céu pela terra. Umas choravam os seus padecimentos de um milênio; outras exaltavam sua [[lexico:b:bem-aventuranca:start|bem-aventurança]]. Cada alma sofria por dano cometido, outro dano dez vezes maior, durante cem anos ([[lexico:t:tempo:start|tempo]] da [[lexico:v:vida:start|vida]] humana). As almas piedosas recebiam pelas boas [[lexico:a:acoes:start|ações]] prêmios igualmente maiores. Uma das almas perguntou pela [[lexico:s:sorte:start|sorte]] de Ardieo, tirano de Panfília mil anos antes. Outra respondeu que [[lexico:n:nao:start|não]] o tinha visto. Ardieo havia assassinado seu velho pai e seu irmão mais velho; para os que pecavam contra os [[lexico:d:deuses:start|deuses]] e contra os pais, os castigos eram piores dos que os mencionados. De repente Ardieo e outros grandes pecadores emergiram do buraco. A abertura fechou-se e bramiu, e uns seres selvagens envoltos em [[lexico:f:fogo:start|fogo]] precipitaram-nos no [[lexico:a:abismo:start|abismo]]. Amarraram os pés de Ardieo e o esfolaram e mutilaram de encontro aos espinhos. Para os condenados, porém, o mais atroz de tudo era o bramido. As almas descansaram sete dias na pradaria; no oitavo saíram em marcha. Depois de [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] dias viram uma coluna de [[lexico:l:luz:start|luz]] [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] a um arco-íris, porém mais brilhante; em um dia mais chegaram até ela, que ocupava [[lexico:t:todo:start|todo]] o céu e a terra. Viram as correntes do céu; a luz era o laço que unia toda a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] celeste. Ali estava, aumentado, o fuso da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] que permite girar todas as esferas, e se percebiam os oito céus concêntricos, cada um deles encaixando no outro, como potes côncavos, cujas bordas, de diferentes cores e brilho, formam um mesmo [[lexico:p:plano:start|plano]]. Giram com diferente velocidade e no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] inverso do fuso, que atravessa a oitava esfera [[lexico:b:bem:start|Bem]] no centro. Cada céu era presidido por uma sereia, que emitia um som [[lexico:u:unico:start|único]], de tom invariável; as oito vozes formavam um conjunto harmônico. Equidistantes e em seus tronos, se achavam as Parcas, filhas da Necessidade; Láquesis, Cloto e Átropo. Acompanhavam as sereias em seu canto; Láquesis lembrava os tempos passados, Cloto falava nos presentes e Átropo previa os futuros. Ao chegar perante Láquesis, as almas foram informadas por um adivinho que empreenderiam uma nova etapa em um [[lexico:c:corpo:start|corpo]] portador de [[lexico:m:morte:start|morte]]. "Elegereis vós mesmas a vossa sorte, e permanecereis irrevogavelmente unidas; como a [[lexico:v:virtude:start|virtude]] não tem dono, cada uma a possuirá conforme a honre. A divindade é inocente." Cada uma elegeu um [[lexico:n:numero:start|número]] de [[lexico:o:ordem:start|ordem]], menos Er, e de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com a precedência, elegeram um [[lexico:m:modelo:start|modelo]] de vida. Havia modelos de tiranos, de mendigos, desterrados, necessitados; prestigiosos por [[lexico:b:beleza:start|beleza]], por vigor, tenacidade, progénie ou prosápia. Havia também, para homens e [[lexico:m:mulheres:start|mulheres]], vidas sem qualquer relevo. [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]] e [[lexico:p:pobreza:start|pobreza]], saúde e [[lexico:d:doenca:start|doença]] se misturavam. O perigo era grande; necessitava-se de discrição e [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] para escolher bem. Disse o adivinho: - Mesmo para a última que escolher haverá boa [[lexico:f:fortuna:start|fortuna]] se for sensata; não se descuide a primeira, nem desanime a última. A primeira precipitou-se e optou por [[lexico:s:ser:start|ser]] tirano: seu [[lexico:d:destino:start|destino]] incluía devorar os próprios filhos. Quando o soube lançou a [[lexico:c:culpa:start|culpa]] na sua má sorte e nos deuses, e amaldiçoou a todos menos a si mesma; era uma alma que vinha do céu e que em toda a sua vida havia exercido a virtude. As que provinham da terra eram experimentadas no [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]] e escolhiam com mais cuidado. Por não ser gerado por mulher, por aversão ao [[lexico:s:sexo:start|sexo]] feminino e porque se lembrava de sua morte, Orfeu escolheu ser cisne. Tâmiras decidiu reencarnar como um rouxinol, e algumas aves como seres humanos. A vigésima alma a escolher, quis ser leão: era Ajax. A seguinte optou por ser águia: era Agamênon, que, como é sabido, odiava a [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]]. Atalanto decidiu ser atleta e conquistar honrarias; e Epeo resolveu ser artesã. Entre as últimas estava a de Tersites, revestido da ridícula [[lexico:f:forma:start|forma]] de um símio: decidiu ser Ulisses, cuja alma permanecia afastada e esquecida por todos. Ulisses, por sua vez, havia optado por uma [[lexico:e:existencia:start|existência]] obscura e sedentária. Terminada a eleição, cada alma recebeu de Láquesis o seu [[lexico:g:genio:start|gênio]] tutelar; Cloto confirmou os destinos e Átropo tornou-os irrevogáveis. Junto com seu respectivo gênio tutelar, cada alma (que já não podia retroceder) passou diante do trono da Necessidade e se dirigiu à planície do [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]], onde não havia árvores nem [[lexico:n:nada:start|nada]] do que a terra produz, e onde o calor era atroz. Ao entardecer foram até o rio da Despreocupação, cuja água nenhum recipiente consegue reter. Aí, os que beberam demais, perderam a [[lexico:m:memoria:start|memória]]. A meia noite, todas as almas dormiam. A terra rugiu e moveu-se, e as almas foram lançadas no [[lexico:e:espaco:start|espaço]] como estrelas diferentes do seu nascimento anterior. A Er não foi permitido beber; reencarnou em seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] corpo, ergueu os olhos para o céu, viu que era madrugada e encontrou-se sobre sua pira. [Platão, A República] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}