===== SOFÍSTICA DA LINGUAGEM ===== No interior do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:p:pre-socratico|pré-socrático]], a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] se torna um [[lexico:o:objeto|objeto]] de [[lexico:i:interesse|interesse]] [[lexico:e:explicito|explícito]] para os [[lexico:s:sofistas|sofistas]]. Nós os conhecemos através do seu adversário [[lexico:p:platao|Platão]], o que [[lexico:n:nao|não]] favorece a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] de suas doutrinas. O [[lexico:m:movimento|movimento]] [[lexico:s:sofista|sofista]] abarcou assuntos bastante diferentes, de uma [[lexico:a:atitude|atitude]] [[lexico:g:geral|geral]] diante da [[lexico:e:educacao|educação]] e da [[lexico:r:retorica|retórica]] até teses metafísicas ultra-relativistas, e especulações de [[lexico:f:filosofia-politica|filosofia política]] sobre a [[lexico:n:natureza|natureza]] do poder. [[lexico:a:alem|Além]] disso, suas teses só foram conservadas sob [[lexico:f:forma|forma]] de fragmentos. Enfim, uma [[lexico:m:moda|moda]] absurda quis reabilitar e vingar os sofistas, embaralhando ainda mais uma [[lexico:q:questao|questão]] já complexa. Assim, é [[lexico:i:impossivel|impossível]] discernir uma [[lexico:s:sofistica-da-linguagem|sofística da linguagem]]. Entretanto, pelo menos um [[lexico:t:texto|texto]] conservado, de [[lexico:g:gorgias|Górgias]], manifesta explicitamente uma [[lexico:i:interrogacao|interrogação]] sobre a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] da linguagem, ou do [[lexico:d:discurso|discurso]], de dizer o [[lexico:s:ser|ser]]: *Pois se existem seres visíveis, audíveis e universalmente sensíveis, e de uma [[lexico:e:existencia|existência]] que nos é [[lexico:e:exterior|exterior]], desses seres, os visíveis são percebidos pela vista, os audíveis pelo ouvido, e esses sentidos não podem trocar os seus papéis. Assim sendo, [[lexico:c:como-se|como se]] poderá revelar a outrem esses seres? Pois o [[lexico:m:meio|meio]] que temos de revelar é o discurso; e o discurso não é nem as [[lexico:s:substancias|substâncias]] nem os seres: não são pois os seres que nós revelamos àqueles que nos cercam; nós só lhes revelamos um discurso que é diferente das substâncias. Assim como o visível não pode tornar-se audível, ou o contrário, assim também o ser que subsiste exteriormente a nós não poderia tornar-se nosso discurso: não sendo discurso, ele não poderia ser manifestado a outrem. Quanto ao discurso (...), sua [[lexico:c:constituicao|constituição]] resulta das impressões vindas dos objetos exteriores, isto é, dos objetos da [[lexico:s:sensacao|sensação]]: do encontro com o seu sabor nasce em nós o discurso que será proferido com [[lexico:r:relacao|relação]] a essa [[lexico:q:qualidade|qualidade]], e da [[lexico:i:impressao|impressão]] da cor, o discurso [[lexico:r:referente|referente]] à cor. Se é assim, o discurso não manifesta o objeto exterior; pelo contrário, é o objeto exterior que se manifesta no discurso.* Podemos resumir assim a [[lexico:a:argumentacao|argumentação]] de Górgias: a) [[lexico:n:nada|nada]] existe; b) se [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] existisse, não se poderia conhecê-la; c) se se pudesse conhecê-la, não se poderia comunicá-la. É [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:p:ponto|ponto]] que nos interessa aqui. A argumentação pela incomunicabilidade do ser — supondo-se que ele exista, já que para Górgias nem o ser nem o [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] são — é a seguinte: o discurso não é a [[lexico:s:substancia|substância]]; assim, o discurso só pode revelar a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. A [[lexico:r:razao|razão]] é que a incomunicabilidade do ser no discurso é [[lexico:s:semelhante|semelhante]] à [[lexico:s:separacao|separação]] dos diferentes registros sensoriais: o ser é tão incomunicável quanto o visível é diferente do audível. A constituição do discurso resulta das impressões sensíveis; a cada impressão proveniente de um [[lexico:s:sentido|sentido]] corresponde um [[lexico:t:tipo|tipo]] de discurso [[lexico:r:relativo|relativo]] a essa impressão. O discurso é pois incapaz de [[lexico:a:apreender|apreender]] uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] geral comum a esses diferentes campos sensoriais; ele é não só dependente das impressões, mas também dependente das separações entre os gêneros de impressões. Ele é [[lexico:p:passivo|passivo]]: "é o objeto que se revela no discurso". Um último [[lexico:a:argumento|argumento]] consiste em que, mesmo se o discurso fosse um ser [[lexico:s:substancial|substancial]], seu [[lexico:m:modo|modo]] de ser seria radicalmente diferente das substâncias dos corpos sensíveis. N. Kretzmann observa que esse argumento lembra a [[lexico:c:conduta|conduta]] dos liliputianos nas viagens de Gulliver: eles não transportam as [[lexico:c:coisas|coisas]], em [[lexico:l:lugar|lugar]] das [[lexico:p:palavras|palavras]]? O argumento sofista da incomunicabilidade do ser, e logo da incognoscibilidade da [[lexico:r:realidade|realidade]], repousa sobre uma doutrina da incomunicabilidade dos gêneros. Veremos que a comunicabilidade dos gêneros é, ao contrário, uma [[lexico:t:tese|tese]] mestra de Platão. Por isso, poderíamos concluir, com P. Aubenque: "A [[lexico:t:teoria|teoria]] e a prática sofistas da linguagem não supõem apenas uma [[lexico:o:ontologia|ontologia]] errônea: elas acarretam a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de toda ontologia"? Afinal, existem ontologias relativistas e céticas, e talvez até ontologias niilistas. O que a [[lexico:s:sofistica|sofística]] impede é uma ontologia científica, uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] geral do [[lexico:u:universal|universal]], mas esse é um tipo de ontologia e não um traço [[lexico:n:necessario|necessário]] e [[lexico:e:essencial|essencial]] de toda ontologia.