===== SOCIAL ORIGINÁRIO ===== O [[lexico:p:problema:start|problema]] sociológico, propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]], pelo menos tal como o coloca a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]], antes de [[lexico:s:ser:start|ser]] um problema de [[lexico:m:metodo:start|método]], é um problema de [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]]: apenas uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] [[lexico:e:eidetica:start|eidética]] adequada do [[lexico:s:social:start|social]] permite uma aproximação [[lexico:e:experimental:start|experimental]] fecunda. Isto [[lexico:n:nao:start|não]] significa, como já observamos a propósito de outros assuntos, que seja [[lexico:u:util:start|útil]], elaborar [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] uma "[[lexico:t:teoria:start|teoria]]" do social, nem forçar os dados científicos até exprimir conclusões concordes com a eidética. Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] essa eidética indispensável deve construir-se no curso da exploração dos próprios fatos e também após. Ela é uma [[lexico:c:critica:start|crítica]] mas, como dizia [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], toda crítica revela já sua outra face, sua positividade. Ora, a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]], fundamental para [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:s:saber:start|saber]] antropológico e de que acabamos de [[lexico:f:falar:start|falar]], exprime minha [[lexico:r:relacao:start|relação]] fundamental com o [[lexico:o:outro:start|outro]]. Em outros termos, todo antropólogo projeta a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] daquilo que ele estuda. [[lexico:e:esse:start|esse]] sentido não se reduz a uma [[lexico:f:funcao:start|função]] de [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], ele só pode ser definido corretamente se é referido ao [[lexico:h:homem:start|homem]] ou aos homens estudados; há portanto em toda [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] humana o "[[lexico:p:postulado:start|postulado]]" [[lexico:i:implicito:start|implícito]] da compreensibilidade do homem pelo homem; por conseguinte, a relação do [[lexico:o:observador:start|observador]] com o observado, nas [[lexico:c:ciencias-humanas:start|ciências humanas]], é um caso da relação do homem com o homem, do [[lexico:e:eu:start|eu]] com o tu. Portanto, toda [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] e especialmente a [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]], contém em si mesma uma [[lexico:s:socialidade:start|socialidade]] originária, se procurarmos entender com isso essa relação pela qual os sujeitos são dados uns aos outros. Essa socialidade originária, enquanto solo de todo saber antropológico, necessita de uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]], cujos resultados poderão em seguida ser retomados a [[lexico:f:fim:start|fim]] de iluminar a própria ciência social. "O social já está presente quando o conhecemos ou o julgamos. . . Antes da [[lexico:t:tomada-de-consciencia:start|tomada de consciência]], o social existe surdamente e como uma solicitação " (Fenomenologia da [[lexico:p:percepcao:start|Percepção]], 415). Rememoremos a elaboração teórica do [[lexico:p:problema-do-outro:start|problema do outro]], já esboçada a propósito de Husserl: como é [[lexico:p:possivel:start|possível]] que eu não perceba o outro como um [[lexico:o:objeto:start|objeto]], mas como um aiter [[lexico:e:ego:start|ego]]? A [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] clássica do [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] [[lexico:a:analogico:start|analógico]] pressupõe que ela devia [[lexico:e:explicar:start|explicar]], como o demonstra [[lexico:s:scheler:start|Scheler]] (Essence et forme de la sympathie). discípulo de Husserl. Pois a [[lexico:p:projecao:start|projeção]] sobre a [[lexico:c:conduta:start|conduta]] de outrem das vivências que correspondem para mim às mesmas condutas implica de um lado que o outro é tomado como ego, isto é, como [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] apto a experimentar vivências para si e, por outro lado, que eu mesmo me apreenda como visto "de fora", isto é, como um outro para um alter ego, uma vez que tais "condutas", às quais assimilo as condutas do outro que eu observo, como sujeito só posso vivê-las e não apreendê-las do [[lexico:e:exterior:start|exterior]]. Existe portanto uma [[lexico:c:condicao:start|condição]] fundamental para que a compreensão do outro seja possível: é que eu mesmo não sou para mim uma pura [[lexico:t:transparencia:start|transparência]]. Esse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] foi estabelecido a propósito do [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. Se, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], se insiste em colocar a relação com outrem no nível das consciências [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]], é claro que só se pode se instituir entre essas consciências constituintes um [[lexico:j:jogo:start|jogo]] de destituição ou de degradação recíprocos. A [[lexico:a:analise:start|análise]] sartriana do para-outro, feita essencialmente em termos de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], detém-se no que [[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]] denomina "o ridículo de um [[lexico:s:solipsismo:start|solipsismo]] entre vários". O outro, escreve [[lexico:s:sartre:start|Sartre]], como olhar é apenas isto: minha [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] transcendida" (O [[lexico:s:ser-e-o-nada:start|Ser e o Nada]], 321). A [[lexico:p:presenca:start|presença]] de outro traduz-se por minha vergonha, meu medo, meu [[lexico:o:orgulho:start|orgulho]] e minhas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] com outrem podem ser tão-somente no [[lexico:m:modo:start|modo]] destitutivo: [[lexico:a:amor:start|amor]], [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]], [[lexico:m:masoquismo:start|masoquismo]], indiferença [[lexico:d:desejo:start|desejo]], ódio, sadismo. Mas a correção feita por Merleau-Ponty a essa [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] nos reorienta na [[lexico:p:problematica:start|problemática]] do outro: "na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] o olhar do outro não nos transforma em objeto a não ser que ambos nos retiremos no fundo de nossa [[lexico:n:natureza:start|natureza]] pensante, nos convertamos em olhar inumano, se cada um sentir suas [[lexico:a:acoes:start|ações]] não como retomadas e compreendidas mas observadas como as de um inseto" (Fenomenologia da Percepção, 414). É [[lexico:n:necessario:start|necessário]] descer abaixo do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] do outro e reencontrar a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de uma relação originária de compreensão, sem o que o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] de [[lexico:s:solidao:start|solidão]] e o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de solipsismo não teriam igualmente nenhum sentido para nós. Deve-se por conseguinte descobrir anteriormente a toda [[lexico:s:separacao:start|separação]] uma [[lexico:c:coexistencia:start|coexistência]] do ego e do outro num "[[lexico:m:mundo:start|mundo]]" [[lexico:i:intersubjetivo:start|intersubjetivo]] e em cujo solo o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] social ganha sentido. É precisamente o que nos ensina a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] da criança que é já uma sociologia. A partir de seis meses a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] do próprio corpo da criança se desenvolve. Wallon, ao concluir suas observações, [[lexico:n:nota:start|nota]] que é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] distinguir na criança um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] introceptivo (coenestésico) de seu corpo e um conhecimento "de fera" (por exemplo pela [[lexico:i:imagem:start|imagem]] num espelho, ou imagem especular); o visual e o introceptivo são indistintos, há um "transitivismo" pelo qual a criança se identifica com a imagem do espelho: a criança acredita ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que está ali onde se sente e ali onde se vê. Assim também quando se trata do corpo de outrem, a criança se identifica com o outro: o ego e o alter são indistintos; Wallon caracteriza esse período pela [[lexico:e:expressao:start|expressão]] "sociabilidade incontinente" e Merleau-Ponty, retomando-a e prolongando-a designa-a por sociabilidade sincrética. Essa indistinção, essa experiência de um inter-mundo onde não há perspectivas egológicas, se exprime na própria linguagem, [[lexico:b:bem:start|Bem]] depois que a [[lexico:r:reducao:start|redução]] da imagem especular e uma "imagem" sem realidade foi operada. "As primeiras palavras-frases da criança visam condutas e ações que pertencem tanto ao outro como a si mesma" (ibid.). A [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] de sua própria [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] enquanto [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] absolutamente original só aparece tardiamente e de qualquer [[lexico:f:forma:start|forma]] o eu só é empregado quando a criança compreende "que o você pode dirigir-se tanto a ela mesma como a outrem" e que todos podem dizer "eu" ([[lexico:o:observacao:start|observação]] de Guillaume). Por [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] da crise dos três anos Wallon observa alguns comportamentos que caracterizam a [[lexico:s:superacao:start|superação]] do "transitivismo": [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de agir "completamente só", inibição diante do olhar de outrem, [[lexico:e:egocentrismo:start|egocentrismo]], duplicidade, atitudes de [[lexico:t:transacao:start|transação]] (especialmente no dar e tirar brinquedos). Wallon demonstra que, entretanto, o transitivismo não é suprimido, que se prolonga [[lexico:a:alem:start|além]] desse distanciamento do outro; e é por isso que Merleau-Ponty se opõe à [[lexico:t:tese:start|tese]] de [[lexico:p:piaget:start|Piaget]], segundo a qual por volta de doze anos a criança efetuaria o [[lexico:c:cogito:start|cogito]] "alcançando as verdades do [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]]". "É realmente necessário que as crianças tenham [[lexico:r:razao:start|razão]] contra os adultos ou contra Piaget, e que os [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] bárbaros da primeira idade permaneçam como uma aquisição indispensável, inferiores as da idade adulta, se é preciso haver para o adulto um mundo [[lexico:u:unico:start|único]] e intersubjetivo" (Fenomenologia da Percepção, 488). Merleau-Ponty mostra que, na realidade o amor por exemplo, constitui uma expressão desse [[lexico:e:estado:start|Estado]] de indivisão com o outro e que o transitivismo não é abolido no adulto, pelo menos na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] dos sentimentos. Vê-se a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] que há entre isso e as conclusões de Sartre. "A [[lexico:e:essencia:start|essência]] das relações entre consciências não é o Mitsein, é o conflito", escrevia o autor de O Ser e o [[lexico:n:nada:start|nada]] (502). Uma análise fenomenológica parece mostrar, ao contrário, tendo por base as ciências humanas, que a [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] da relação com o outro, tal como a colocamos a título de problema [[lexico:t:teorico:start|teórico]], ganha sentido numa [[lexico:g:genese:start|gênese]] do outro para mim: os sentidos do outro para mim são sedimentados numa [[lexico:h:historia:start|história]] que não é primeiro a minha, mas uma história de vários, uma transitividade, e na qual meu ponto de vista se distingue lentamente (através do conflito, evidentemente) do inter-mundo originário. Se existe social para mim é porque eu sou originariamente social, e as [[lexico:s:significacoes:start|significações]] que eu" [[lexico:p:projeto:start|projeto]] inevitavelmente sobre as condutas de outrem, se eu sei que as compreendo ou que devo compreendê-las, é que o outro e eu fomos e continuamos a [[lexico:e:estar:start|estar]] compreendidos numa rede única de condutas e num fluxo comum de intencionalidades. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}