===== SISTEMA ===== (gr. [[lexico:s:systema:start|systema]]; in. System; fr. Système; al. System; it. Sistema). 1. Uma [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] dedutiva de [[lexico:d:discurso:start|discurso]]. Essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]], desconhecida neste [[lexico:s:sentido:start|sentido]] no período [[lexico:c:classico:start|clássico]], foi empregada por [[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]] para indicar o conjunto formado por premissas e conclusão ou o conjunto de premissas (Pirr. hyp., II, 173), e passou a [[lexico:s:ser:start|ser]] usada em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] para indicar principalmente um discurso organizado dedutivamente, ou seja, um discurso que constitui um [[lexico:t:todo:start|todo]] cujas partes derivam umas das outras. [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] chamava de sistema o repertório de conhecimentos que [[lexico:n:nao:start|não]] se limitasse a ser um [[lexico:s:simples:start|simples]] inventário, mas que contivesse suas razões ou provas e descrevesse o [[lexico:i:ideal:start|ideal]] [[lexico:s:sistematico:start|sistemático]] da seguinte maneira: "A [[lexico:o:ordem:start|ordem]] científica perfeita é aquela em que as proposições são situadas segundo suas demonstrações mais simples e de maneira que nasçam umas das outras" (Méthode de la certitude, Op., ed. Erdmann, pp. 174-75). [[lexico:w:wolff:start|Wolff]], por sua vez, dizia: "Chama-se de sistema um conjunto de verdades ligadas entre si e com seus [[lexico:p:principios:start|princípios]]" (Log., § 889). A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de sistema moldava-se assim na de procedimento matemático. [[lexico:k:kant:start|Kant]] subordinou-a a outra [[lexico:c:condicao:start|condição]]: a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] do [[lexico:p:principio:start|princípio]], que fundamenta o sistema, pois ele entendeu por sistema "a unidade de múltiplos conhecimentos, reunidos sob uma única [[lexico:i:ideia:start|ideia]]"; afirmou que o sistema é um todo organizado finalisticamente, sendo portanto uma articulação (articulatió), e não um amontoado (coacervatio); pode crescer de dentro para fora (per intussusceptionem), mas não de fora para dentro (per appositionem), sendo, pois, [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] a um [[lexico:c:corpo:start|corpo]] [[lexico:a:animal:start|animal]], cujo crescimento não acrescenta nenhum membro, mas, sem alterar a proporção do conjunto, torna cada um dos membros mais forte e mais apto a seu [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] ([[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da Razão Pura]], Doutr. do [[lexico:m:metodo:start|método]], cap. III). Com base nisso, Kant [[lexico:f:fala:start|fala]] de "unidade [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], da qual as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]] tentam aproximar-se" (Ibid., [[lexico:d:dialetica:start|Dialética]], cap. II, seç. I). A unidade do sistema, ou seja, sua [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de derivar de um [[lexico:u:unico:start|único]] princípio, é a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] que determinou o [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]] dessa noção na [[lexico:l:literatura:start|literatura]] filosófica romântica. Constitui o ideal da [[lexico:t:teoria-da-ciencia:start|Teoria da Ciência]] de [[lexico:f:fichte:start|Fichte]]: "Se não deve haver somente um ou vários fragmentos de sistema, nem mesmo vários sistema, mas um sistema único e [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] [[lexico:h:humano:start|humano]], então deverá haver um princípio fundamental absolutamente primeiro e supremo. E embora, a partir dele, nosso [[lexico:s:saber:start|saber]] se expanda [[lexico:p:por-si:start|por si]] em tantas séries, das quais procedem outras séries e assim por diante, todas essas séries devem unir-se num só elo, que não está preso a [[lexico:n:nada:start|nada]], mas se mantém e a todo o sistema por sua própria [[lexico:f:forca:start|força]]" (Über den Begriff der Wissenschaftslehre, 1794, § 2; trad. it., p. 19). Na filosofia romântica é lugar-comum considerar o sistema como [[lexico:f:forma:start|forma]] da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], que supõe um princípio único e [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. A [[lexico:o:origem:start|origem]] disso é o ideal matemático, no qual Leibniz, Wolff e o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Kant se haviam inspirado; mas [[lexico:e:esse:start|esse]] ideal acaba por voltar-se contra a própria [[lexico:m:matematica:start|matemática]] e sendo reivindicado exclusivamente para a filosofia. Shelling dizia: "Admite-se em [[lexico:g:geral:start|geral]] que à filosofia convém uma forma especificamente sua, que se chama de sistemática. Pressupor tal forma não deduzida cabe a outras ciências, que já pressupõem a ciência da ciência, mas não a esta, que se propõe como [[lexico:o:objeto:start|objeto]] a possibilidade de semelhante ciência" (System des transzendentalen Idealismus, 1800, I, cap. I; trad. it., p. 27). [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] só fez sancionar o mesmo [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista: "A ciência do Absoluto é essencialmente sistema, porque o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]], como [[lexico:c:concreto:start|concreto]], é tal apenas na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que se desenvolve em si, se reúne e mantém em unidade, vale dizer, como totalidade, pois só pela [[lexico:d:diferenciacao:start|diferenciação]] e pela [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] de suas diferenças são possíveis a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] destas e a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] do todo" (Enc., § 14). Hegel acrescenta que "um filosofar sem sistema não pode ser nada científico" porque expressa um [[lexico:m:modo:start|modo]] de sentir [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]]; e em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] às doutrinas românticas irracionalistas ou fideístas ele impõe a exigência sistemática. Essa mesma exigência manteve-se e foi valorizada nas filosofias idealistas. [[lexico:c:croce:start|Croce]] dizia: "[[lexico:p:pensar:start|pensar]] determinado [[lexico:c:conceito:start|conceito]] [[lexico:p:puro:start|puro]] significa pensá-lo em sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] de unidade e [[lexico:d:distincao:start|distinção]] com os outros todos; assim, o que se pensa nunca é realmente um conceito único, mas um sistema de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], o Conceito" ([[lexico:l:logica:start|Lógica]], 4a ed., 1920, p. 172). O ideal de sistema como [[lexico:o:organismo:start|organismo]] dedutivo baseado num único princípio continuou sendo patrimônio da filosofia, que o cultivou mesmo quando — a [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] de Kant — declarou que esse ideal era inatingível pelo conhecimento humano. Contudo, esse [[lexico:t:termo:start|termo]] foi e é empregado também sem relação com este [[lexico:s:significado:start|significado]], para indicar qualquer organismo dedutivo, mesmo que não tenha um princípio único como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]]. É o caso dos sistema de que hoje se fala em matemática e lógica. Os sistema hipotético-dedutivos, abstratos, axiomáticos, etc. não são sistema por terem um princípio único; aliás, os seus princípios, que são os axiomas, devem ser independentes entre si, não devem poder ser deduzidos um do [[lexico:o:outro:start|outro]] (v. [[lexico:a:axioma:start|axioma]], axiomatização). São chamados de sistema unicamente por seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] dedutivo, e no mesmo sentido fala-se de sistema numérico e, às vezes, de "sistema de axiomas" para indicar um simples conjunto não contraditório de proposições primitivas (cf. M. R. [[lexico:c:cohen:start|Cohen]] E. Nagel, "The Nature of a Logical or Mathematical System", em Readings in the Philosophy of Science, 1953, pp. 129 ss.). Isso significa que o [[lexico:u:uso:start|uso]] dessa palavra perdeu o significado forte ou elogioso de discurso dedutivo. 2. Qualquer totalidade ou todo organizado. Neste sentido, fala-se em "sistema solar", "sistema nervoso", etc, e também de "[[lexico:c:classificacao:start|classificação]] sistemática" ou, mais simplesmente, de sistema em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de classificação, como fez Lineu, quando quis insistir no caráter ordenado e completo de sua classificação (Systema naturae, 1735). Desse ponto de vista, às vezes se faz a distinção entre o sistema como conjunto [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] de partes que têm inter-relações diversas e a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] ou a organização que os componentes dele podem assumir em determinado [[lexico:m:momento:start|momento]] (W. Buckley, Sociology and Modern System Theory, 1967, p. 5). 3. Qualquer [[lexico:t:teoria:start|teoria]] científica ou filosófica, especialmente quando se quer ressaltar seu caráter escassamente [[lexico:e:empirico:start|empírico]]. No séc. XVIII falava-se de "sistema do [[lexico:m:mundo:start|mundo]]" para indicar as teorias cosmológicas (cf., p. ex., d’Alembert, (Euvres, ed. [[lexico:c:condorcet:start|Condorcet]], pp. 165 ss.). Leibniz chamava de sistema suas teorias sobre a relação entre a [[lexico:a:alma:start|alma]] e o corpo ou entre as diferentes [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] (Système nouveau de la nature et de la communication dessubstances, 1695). Baumgarten chamava de sistema psicológicos as "opiniões que parecem aptas a [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a relação entre alma e corpo" (Mel, § 76l); no mesmo sentido, mas de maneira depreciativa, os iluministas falavam de sistema e de espírito sistemático. [[lexico:d:diderot:start|Diderot]] dizia: "Chamo de espírito sistemático o [[lexico:c:costume:start|costume]] de traçar planos e [[lexico:c:criar:start|criar]] sistemas do [[lexico:u:universo:start|universo]], para depois pretender adaptar-lhes os fenômenos, pela [[lexico:r:razao:start|razão]] ou pela força" (Oeuvres, p. 291). D’Alembert falava igualmente de sistema como "sonhos dos filósofos" (cf. p. ex., OEuvres, ed. Condorcet, p. 234). Hegel queixava-se desse uso dos filósofos franceses, para os quais, segundo ele, sistema coincidia com unilateralidade ou o [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]] ([[lexico:g:geschichte:start|Geschichte]] der Pbilosopbie, I, cap. III, seç. I, B, 4; trad. it., II, p. 293; I, cap. III, seç. III, E; trad. it., III, 1, p. 29). Esse uso manteve-se na França mesmo no séc. XIX (cf. E. [[lexico:b:bernard:start|Bernard]], Introduction à la medicine expérimentale, 1865, I, II, § 6). É a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de conhecimentos articulados segundo uma ideia de totalidade. Nem um conhecimento isolado, nem muitos conhecimentos desconexos constituem um sistema. Este nasce só por conexão e ordenação segundo um comum princípio ordenador, por [[lexico:m:meio:start|meio]] do qual se atribui a cada [[lexico:p:parte:start|parte]], no todo, seu lugar e [[lexico:f:funcao:start|função]] impermutáveis. Toda ciência procura sistematizar seu material de saber. O princípio, segundo o qual uma [[lexico:m:multidao:start|multidão]] de conhecimentos é ordenada, ou se baseia nos próprios objetos, ou brota da [[lexico:e:especie:start|espécie]] de seu conhecimento, ou é, finalmente, trazido desde fora aos conhecimentos. Neste [[lexico:u:ultimo:start|último]] caso temos só um sistema em sentido impróprio (ou sistemática). A mera sistemática não aclara o objeto, mas serve com frequência para mais facilmente nos orientarmos numa grande multidão de conhecimentos. Pode ser levada a [[lexico:e:efeito:start|efeito]] por muitas vias (cf. a sistemática das plantas, organizada segundo característicos não essenciais). Se os conhecimentos não foram adquiridos independentemente uns dos outros pela [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] ou pela [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] imediata, mas por [[lexico:d:deducao:start|dedução]], mantêm entre si uma relação de fundamentação, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que todas as proposições ou são deduzidas ou não o são (sistemas de fundamentação; p. ex., matemática, [[lexico:l:logistica:start|logística]]). As proposições não deduzidas (inteligíveis por si ou pressupostas) chamam-se axiomas ([[lexico:p:principios-do-conhecimento:start|princípios do conhecimento]]) as proposições deduzidas, teoremas ou teses. Partindo de qualquer [[lexico:t:teorema:start|teorema]], devemos poder chegar, passando por um [[lexico:n:numero:start|número]] [[lexico:f:finito:start|finito]] de passos, a um axioma (= proibição do regressus in infinitum), porque, de contrário, o teorema careceria de fundamento; pois que toda [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] intermédia só fundamenta, na medida em que é fundamentada num axioma. — A articulação de conhecimentos que exprime a ordem [[lexico:e:essencial:start|essencial]] existente nos objetos, dá origem a um sistema [[lexico:n:natural:start|natural]] (p. ex., o sistema periódico dos [[lexico:e:elementos:start|elementos]]). O sistema é uma exigência da razão que em toda multiplicidade busca unidade e ordem e, na [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] metafísico, é também uma exigência do ser e da [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. O empenho em organizar um sistema natural da realidade é o anelo [[lexico:c:capital:start|capital]] da filosofia. — [[lexico:b:brugger:start|Brugger]]. A [[lexico:d:definicao:start|definição]] de sistema como conjunto de elementos relacionados entre si e harmonicamente conjugados não é suficiente para uma dilucidação filosófica. Antes de tudo, põe-se a [[lexico:q:questao:start|questão]] de saber se tais elementos são entidades ou se trata de conceitos ou enunciados. Em segundo lugar, não tem a mesma [[lexico:s:significacao:start|significação]] um sistema se é um sistema [[lexico:o:organico:start|orgânico]] ou um sistema [[lexico:m:mecanico:start|mecânico]]. Na significação que os estoicos davam ao termo, significava primariamente ordem, quer dizer, ordem do mundo segundo a qual não só todo o [[lexico:r:real:start|real]] estava submetido a uma [[lexico:l:lei:start|lei]], como, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] seguia a lei da ordem sistemática. O sistema conceptual era por isso, uma [[lexico:t:traducao:start|tradução]] do sistema real. A questão da relação entre o sistema e a realidade implica sempre uma certa ideia do que é o sistema. Costuma-se considerar três formas de relação: 1. O sistema conceptual deriva do real. 2. O sistema real é [[lexico:p:produto:start|produto]] de uma ordem imposta pelo conceptual. 3. sistema real e sistema conceptual são paralelos e, por alguma razão, coincidentes. É óbvio, além disso, que à medida que se acentua a concepção da [[lexico:e:espontaneidade:start|espontaneidade]] do pensar se tende a examinar o [[lexico:p:problema:start|problema]] do sistema do ponto de vista da ordem dos conceitos. Assim aconteceu no idealismo, que pela primeira vez precisou e ainda, com Hegel, exaltou a ideia do sistema, e em [[lexico:p:particular:start|particular]] a ideia da filosofia como sistema. Na Dialéctica [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], Kant retomava a sua ideia do sistema como um todo do conhecimento ordenado segundo princípios. Daí a definição: “por sistema entendo a unidade das formas diversas do conhecimento sob uma só ideia”, donde a ideia é o conceito [[lexico:d:dado:start|dado]] pela razão. No entanto, o sistema da razão era, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], resultado de um [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]]. Com maior radicalidade, em compensação, sustenta Hegel a ideia - real e conceptual - do sistema. Embora apenas o total seja verdadeiro, e embora o parcial seja não verdadeiro ou, melhor dizendo, momento [[lexico:f:falso:start|falso]] da [[lexico:v:verdade:start|verdade]], esta será essencialmente sistemática, e a realidade e verdade de cada parte apenas terão sentido em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da sua [[lexico:r:referencia:start|referência]] e inserção num todo. Daí que, como diz no prefácio à [[lexico:f:fenomenologia-do-espirito:start|fenomenologia do espírito]] “a verdadeira [[lexico:f:figura:start|figura]] dentro da qual existe a verdade não pode ser senão o sistema científico desta verdade”. A verdade seria, portanto, de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com isto, apenas a articulação de cada [[lexico:c:coisa:start|coisa]] com o todo, e o próprio todo que a exprime o sistema desta articulação. Desde Hegel pode falar-se, portanto, com pleno sentido, de sistema da filosofia, não porque estes sistemas não tivessem existido já antes, mas porque apenas desde Hegel ressalta e adquire maturidade aquela sistematicidade dos sistemas. Até há pouco considerava-se o pensamento tanto mais filosófico quanto mais sistemático era, e viu-se a [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] como uma [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] de sistemas. No entanto, surgiu um modo de pensamento no qual não apenas se quebrou o sistema mas, o que mais importa para o caso, chegou-se à plena [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de um novo modo não sistemático, essencialmente fragmentário, inclusivamente aforístico, adoptado pela filosofia. Este modo tem sido considerado por muitos autores como não filosófico. Outros têm visto, em contrapartida, nele o anúncio de um novo modo [[lexico:p:possivel:start|possível]] de filosofar, ao qual deixaria de ser sistemático na medida precisamente em que deixaria de se ater às [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] racionalistas que, através de múltiplas e díspares formulações têm persistido ao longo da [[lexico:h:historia:start|história]] da filosofia do ocidente. Esta ideia conduziu a uma [[lexico:d:discussao:start|discussão]] a fundo do próprio problema do sistema. Esta discussão seguiu duas vias: por um lado, a análise do sistema como [[lexico:s:sistema-formal:start|sistema formal]]. Por outro lado, o exame da relação entre [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]] e sistema. Alguns autores indicam que a [[lexico:p:propensao:start|propensão]] sistemática não é em si mesma nociva; [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] perigoso é, em seu entender, aderir-se a um sistema dado (como o de Hegel) em vez de propugnar um sistema [[lexico:a:aberto:start|aberto]] que, sem perder nenhuma das vantagens da ordenação sistemática, seja capaz de acolher os novos problemas e de se modificar continuamente. O [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de sistema aberto aqui referido é o adoptado pela ciência nas suas construções teóricas e pode ser considerado como extremamente fecundo para o conhecimento. Com efeito, podem admitir-se certas estruturas teóricas suficientemente amplas e tentar alojar nelas os novos fatos que se vão descobrindo. Deste modo, os fatos modificam o sistema, mas não o mudam de cada vez completamente. (do gr. systhema, conjunto). a) [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de entidades ou dados que são relacionados uns aos outros por [[lexico:i:intencao:start|intenção]] ou interdependência. b) Grupo de teorias ou doutrinas que constituem os princípios fundamentais de uma concepção unitária dentro do [[lexico:c:campo:start|campo]] de uma ciência ou do conhecimento em geral. Na Gestaltheorie é a totalidade fenomênica ou real, em que as suas partes ou aspectos são partes conexionadas ao todo. Vide gestalt e [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]]. No uso comum matemático, aplica-se a palavra "sistema" a qualquer conjunto de fenômenos cujos diferentes "estados" sejam descritos por um número razoavelmente grande de variáveis. Por exemplo, imaginemos o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] de duas partículas, uma maior com certo movimento de translação e outra menor girando à volta da maior. Se fixamos um referencial, a cada momento precisaremos de seis números para caracterizar o sistema destas duas partículas: três números (três coordenadas) nos darão a [[lexico:p:posicao:start|posição]] da partícula maior; três outros números, a posição da partícula menor. O sistema das duas partículas é, assim, caracterizável por seis variáveis a cada momento; num tratamento [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] podemos, em vez de considerá-lo como um sistema de duas partículas se movendo num [[lexico:e:espaco:start|espaço]] de três dimensões, considerá-lo como uma partícula movendo-se num espaço de seis dimensões. O espaço de seis dimensões, é, evidentemente, não desenhável- A [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] [[lexico:f:fisica:start|física]] fica sacrificada, mas ganha-se, com esta [[lexico:s:substituicao:start|substituição]], uma certa facilidade no manejo do algebrismo. As propriedades da [[lexico:e:entropia:start|entropia]] termodinâmica, para um sistema de muitas partículas, são deduzidas com certa facilidade utilizando-se o espaço pluri-dimensional associado. Com o surgimento da [[lexico:c:cibernetica:start|cibernética]], a noção de "sistema" passou a ser confundida com a noção de "estrutura". Nesta deformação (ou ampliação) de seu sentido, chamamos sistema a qualquer conjunto entre cujos elementos possam ser definidas, ou encontradas, [[lexico:r:relacoes:start|relações]]. Assim, no [[lexico:e:estudo:start|estudo]] de uma companhia, o organograma que a descreve é o exemplo de um sistema de tipo especial — um grafo — muito utilizado na análise de grupos sociais. Costuma-se aplicar o termo "sistema" sobretudo em relação a modelos geométricos ou matemáticos com uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] física ou sociológica imediata: a [[lexico:d:distribuicao:start|distribuição]] das tarefas num [[lexico:p:projeto:start|projeto]] é um "sistema" com estrutura de grafo de tal espécie. A palavra "estrutura" diz das regras matemáticas que se aplicam ao "sistema" em [[lexico:c:causa:start|causa]], conforme os modelos que dele fizemos. (Francisco Doria - [[lexico:d:dcc:start|DCC]]) A palavra sistema, em sentido amplo, significa um conjunto ou uma totalidade de objetos, reais ou ideais, reciprocamente articulados e interdependentes uns em relação aos outros. Na definição de sistema, encontram-se, pois, três noções ou ideias fundamentais: a de totalidade, a de unidade e a de interdependência das partes ou elementos constitutivos. Essas noções, que integram o conceito de sistema, correspondem, em parte, às [[lexico:c:categorias:start|categorias]] da [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] (unidade, [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] e totalidade), tais [[lexico:c:como-se:start|como se]] encontram na classificação de Kant. A noção de pluralidade, no entanto, não corresponde à de interdependência, que não se encontra nas categorias da quantidade, mas nas da relação, [[lexico:s:substancia:start|substância]] e [[lexico:a:acidente:start|acidente]], [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] e dependência e "[[lexico:c:comunidade:start|comunidade]]", quer dizer, [[lexico:a:acao-reciproca:start|ação recíproca]] entre o [[lexico:a:agente:start|agente]] e o paciente. A noção de totalidade sistemática, portanto, não é puramente quantitativa, uma vez que implica, além da ideia de unidade, a de "comunidade", de [[lexico:a:acao:start|ação]] recíproca entre os elementos que a compõem. Uma biblioteca, por exemplo, é um conjunto ou uma totalidade de livros, mas não é um sistema. Essa totalidade, puramente quantitativa, inclui a unidade e a pluralidade dos elementos que a constituem, os livros, mas exclui a "comunidade", como diz Kant, ou a interdependência recíproca desses elementos. A biblioteca é um [[lexico:a:agregado:start|agregado]], uma coleção, que consiste na justaposição, no mesmo espaço, das partes ou unidades que, acrescentadas umas às outras, constituem a [[lexico:s:soma:start|soma]] ou a totalidade. A unidade desse conjunto, no entanto, não é interior ao próprio conjunto, mas [[lexico:e:exterior:start|exterior]] a ele, porque os elementos ou partes que o constituem não estão interiormente ligados uns aos outros, sua unidade sendo meramente exterior e [[lexico:c:contingente:start|contingente]]. A circunstância de achar-se determinado livro antes ou depois de outro, não resulta da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do próprio livro, mas do [[lexico:c:criterio:start|critério]] adotado para a sua classificação. A distribuição das partes no todo não é, portanto, necessária mas contingente, pois seja qual for o critério adotado na classificação e arrumação dos livros, o seu conjunto será sempre uma biblioteca. O exemplo mostra, com suficiente clareza, que embora a ideia de totalidade seja uma das ideias integrantes da noção de sistema, nem por isso coincide totalmente com essa noção, pois nem toda totalidade é sistemática. A [[lexico:e:essencia:start|essência]], ou "sistematicidade" do sistema não consiste apenas em ser um conjunto ou uma totalidade, pois, como se acaba de [[lexico:v:ver:start|ver]], há totalidades puramente quantitativas que não constituem sistema. A ideia de unidade, por sua vez, embora seja indispensável à elucidação da ideia de sistema, também não constitui a sua essência. O sistema é, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], uma unidade, mas nem toda unidade é sistemática. A biblioteca, para voltar ao exemplo, é uma unidade, porque é uma e não várias bibliotecas, conjunto de livros justapostos no mesmo espaço, mas não é um sistema. A unidade da biblioteca é puramente exterior e [[lexico:f:formal:start|formal]], pois os elementos que a constituem são independentes uns dos outros e podem ser separados e redistribuídos em espaços diferentes sem deixar de ser o que são. A biblioteca não é uma unidade "em si", mas apenas para o bibliotecário. A unidade desse conjunto não é interior e necessária, mas exterior e contingente, pois a posição de seus elementos, uns em relação aos outros, não é determinada por sua natureza ou essência, mas por um agente exterior, podendo ser outra, diferente da que é. As ideias de totalidade e de unidade não bastam, consequentemente, para caracterizar e definir o sistema. A totalidade una, ou a unidade total, é sistemática quando os elementos ou as partes que a compõem são reciprocamente articulados e interdependentes uns em relação aos outros. A "sistematicidade" do sistema consiste, pois, nessa conexão, nesse relacionamento, ou melhor, nesse interrelacionamento, ou nessa interdependência dos elementos que o constituem. Os elementos, ou as partes, não podem ocupar, na totalidade, qualquer lugar, mas apenas aquele que é determinado pela função que desempenham no conjunto. A sua própria estrutura é determinada pela função que exercem no sistema, o que equivale a dizer que o sistema, enquanto totalidade, está presente em todas as suas partes, determinando a estrutura e a forma de cada uma. Se as partes têm determinada forma é porque devem exercer uma função também determinada, e se devem cumprir essa função e não outra, é porque a [[lexico:e:economia:start|economia]] geral do sistema a exige e dela necessita. Embora também se encontrem justapostos no espaço, como no caso dos sistemas físicos ou naturais, os elementos do sistema estão ligados uns aos outros em relação de dependência recíproca, porque só são o que são na medida em que desempenham a função que os caracteriza, e o exercício dessa função depende do exercício simultâneo das funções dos demais elementos do sistema. Todos os elementos, por sua vez, estão previamente determinados e configurados pela ideia da totalidade, que explica o lugar que cada um ocupa e a função que desempenha no conjunto do sistema. Ao contrário do que ocorre com o agregado ou a coleção, as relações entre os membros do sistema não são, como se disse, exteriores e contingentes, mas interiores e necessárias, não sendo possível, sob [[lexico:p:pena:start|pena]] de destruir o sistema, alterar arbitrariamente o lugar ocupado pelos seus elementos, nem substituir uns pelos outros na função que desempenham. A totalidade que se unifica no sistema não é, pois, a unidade exterior e formal, meramente quantitativa, a "pluralidade considerada como unidade", na [[lexico:e:expressao:start|expressão]] de Kant, mas uma totalidade complexa e diferenciada, cujos membros, embora sejam estruturalmente diversos e cumpram funções distintas, são membros de um mesmo todo, e dependem todos uns dos outros, porque se acham interna e reciprocamente articulados, na medida em que concorrem todos para o exercício de uma função comum, a manutenção ou o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] do sistema como tal. A caracterização sumária do sistema permite entrever que a sistematização das unidades totalizadas, ou das totalidades unificadas, pode ocorrer, e de [[lexico:f:fato:start|fato]] ocorre, em três planos ou esferas diferentes: o [[lexico:p:plano:start|plano]] da natureza, o da história e o do pensamento. **A natureza como sistema.** Depois de Hegel, tornou-se clássica a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] da realidade em natureza e história. A natureza corresponde à totalidade do real, com [[lexico:e:excecao:start|exceção]] do [[lexico:h:homem:start|homem]], e a história ao que resulta da [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] da natureza pelo homem, e do homem por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. Em termos hegelianos, a natureza seria a [[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]] do espírito no espaço, e a história a objetivação do espírito no [[lexico:t:tempo:start|tempo]]. A ideia de natureza corresponde, assim, à ideia do conjunto ou da totalidade dos seres naturais, os quais, por diferentes que sejam, apresentam a característica comum de não terem sido produzidos ou fabricados pelo homem, e a de serem o fruto ou o resultado de um princípio comum que os gregos chamavam de [[lexico:p:physis:start|physis]]. Excluindo as teogonias e as cosmogonias, que têm [[lexico:i:interesse:start|interesse]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] mas não têm [[lexico:v:valor:start|valor]] propriamente científico, os gregos já atribuíam à natureza o duplo sentido que até hoje conserva, o de conjunto de objetos naturais e o de principio interno que faz que as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] sejam o que são. Natureza significa, portanto, em primeiro lugar, [[lexico:k:kosmos:start|kosmos]], expressão que, além de mencionar o conjunto de objetos naturais, inclui também a ideia de ordem, em oposição à ideia de [[lexico:d:desordem:start|desordem]], ou de chaos. A natureza não é, pois, qualquer conjunto de seres naturais, mas o conjunto ordenado desses seres. Já no século VI antes de Cristo, os [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]] consideravam o mundo natural impregnado de razão, de [[lexico:l:logos:start|Logos]], quer dizer, de [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]] e de ordem. Essa ordem ou essa regularidade, ou [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]], que a convertia em kosmos, tornava a natureza cognoscível ou [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. A natureza, portanto, não era concebida como um conjunto desarticulado, uma justaposição desconexa de elementos ou de partes, mas um sistema, entendido frequentemente como um grande organismo, ou um enorme animal, não só com [[lexico:v:vida:start|vida]] própria mas também com razão, à [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] do homem. Assim como os gregos, os pensadores do [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], sem [[lexico:f:falar:start|falar]] nos teólogos cristãos para os quais o mundo é [[lexico:c:criacao:start|criação]] de [[lexico:d:deus:start|Deus]], também consideravam a ordem natural uma expressão da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], com a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de que, para os gregos, essa inteligência era interior ou [[lexico:i:imanente:start|imanente]] ao kosmos, e, para os renascentistas, era exterior ou [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]. Concebiam a natureza, além disso, não como um organismo mas como uma [[lexico:m:maquina:start|máquina]], quer dizer, como uma engrenagem de peças articuladas, em vista de determinado [[lexico:f:fim:start|fim]], por uma inteligência estranha e [[lexico:s:superior:start|superior]] à máquina. Na concepção renascentista da natureza, é visível a herança cristã, a ideia de criação ex-nihilo, do mundo por Deus, a partir do nada. Embora a concebam orgânica e não mecanicamente, os pensadores da [[lexico:r:renascenca:start|Renascença]] também concebem a natureza como sistema, totalidade ordenada, inteligível, que pode ser [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] e conhecida pela razão. A ideia cosmológica dos gregos fundava-se na [[lexico:a:analogia:start|analogia]] entre o homem, [[lexico:m:microcosmo:start|microcosmo]], e a natureza, [[lexico:m:macrocosmo:start|macrocosmo]]. A concepção renascentista pressupunha a analogia entre a natureza, [[lexico:o:obra:start|obra]] de Deus, entendido como artífice supremo, e a máquina, obra do homem. O que se poderia chamar de concepção [[lexico:m:moderna:start|moderna]] da natureza baseia-se na analogia entre os processos naturais e os processos históricos. À concepção orgânica e cíclica dos fenômenos naturais, característica do pensamento [[lexico:g:grego:start|grego]] (com exceção do [[lexico:a:atomismo:start|atomismo]] de [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]] e de [[lexico:e:epicuro:start|Epicuro]]) e à concepção mecanicista e racionalista (no sentido cartesiano) do Renascimento, substitui-se uma concepção histórica da natureza, que a concebe como [[lexico:e:evolucao:start|evolução]], transformação, desenvolvimento e [[lexico:p:progresso:start|progresso]]. A natureza deixa de ser uma grande máquina, ou um conjunto de máquinas, cujo funcionamento pode ser explicado mecanicamente, para tornar-se um [[lexico:p:processo:start|processo]] [[lexico:a:analogo:start|análogo]] ao da história, no qual a [[lexico:c:categoria:start|categoria]] de substância se resolve na categoria de função e a ideia de causalidade [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] ou eficiente é substituída pela ideia teleológica da causalidade final. A concepção organicista e mecanicista é substituída pela concepção dialética da natureza, que assim a incorpora à [[lexico:v:visao:start|visão]] histórica da realidade. Nas três hipóteses, a natureza é entendida como sistema. As duas primeiras, concebendo-a por analogia com o organismo e a máquina, a concebem como totalidade, unidade e interdependência recíproca dos elementos que a constituem. De fato, nenhuma realidade ilustra melhor a ideia de sistema do que o organismo ou a máquina. O organismo não é um agregado ou uma coleção de membros esparsos, membra disjecta, mas uma totalidade, cujos órgãos, aparelhos, membros, etc. dependem todos uns dos outros, e desempenham funções definidas que se entrosam no [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] global do conjunto, que, embora os transcenda, se acha presente em todos eles, como seu sentido e sua razão de ser. Na máquina, por sua vez, a forma e a função das peças são determinadas pela [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] do conjunto, que, preexistindo, como totalidade, às partes que o compõem, assegura a sua racionalidade, sua sistematicidade. Não fosse a natureza um sistema, o systema naturae, de que nos fala Lineu, uma totalidade ordenada, um conjunto de fenômenos que obedecem a normas e a leis, um kosmos, e não um chãos, e o [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]], quer dizer, metódico e sistemático da natureza, seria [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], e impossível também seria a [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] que se funda nesse conhecimento e nos permite dominá-la e transformá-la. A natureza é cognoscível cientificamente porque é [[lexico:r:racional:start|racional]] e, sendo racional, constitui um sistema, um conjunto articulado de fenômenos, de processos, que não ocorrem arbitrária ou caprichosamente, mas, ao contrário, em [[lexico:o:obediencia:start|obediência]] a regularidades, a repetições, a leis. Se a sistematicidade das concepções orgânica e mecânica da natureza nos parece evidente, não tão clara parece ser a da concepção histórica ou dialética, na qual a ideia de sistema, entendida como totalidade fechada e finita, seria incompatível com as noções de processo, desenvolvimento e progresso, que caracterizam a história. Tal [[lexico:i:incompatibilidade:start|incompatibilidade]] desaparece a partir do momento em que se verifica que nenhuma totalidade é fechada, e que todas as totalidades parciais se acham inclusas na totalidade última que é o universo "em expansão". **A história como sistema.** Na introdução de suas Lições sobre a [[lexico:f:filosofia-da-historia:start|filosofia da história]], Hegel escreve que ao abordar a história a única ideia trazida pela filosofia é a ideia da razão, "a ideia de que a razão governa o mundo e que, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], a [[lexico:h:historia-universal:start|história universal]] também se desenrola racionalmente". Alguns anos antes, referindo-se ao [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] cartesiano, que exprimia a essência "como unidade do pensamento e da [[lexico:e:extensao:start|extensão]]", propunha-se considerá-la "como unidade do pensamento e do tempo". Ao empreender a [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] da história partindo do [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] de sua racionalidade, Hegel completava conscientemente a obra de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], procurando [[lexico:a:apreender:start|apreender]] pela dialética a estrutura do tempo, assim como a [[lexico:g:geometria:start|geometria]] [[lexico:a:analitica:start|analítica]] havia apreendido a estrutura da extensão. A história deixava de ser o mero [[lexico:r:relato:start|relato]] ou registro dos fatos, em sua sucessão cronológica, para tornar-se uma explicação do acontecido, a partir do mesmo pressuposto que permitira a instauração e o êxito surpreendente da física matemática, a racionalidade de seu objeto. Se o real enquanto natureza, como já se observou, fosse [[lexico:i:irracional:start|irracional]], incoerente e [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]], não poderia haver ciência do mundo natural, pois a ciência postula a regularidade, a invariância, a lei. O mesmo se poderia dizer em relação ao real enquanto história. Se o que chamamos de história fosse irracional, sucessão desordenada e inconsequente de acontecimentos, sem [[lexico:c:coerencia:start|coerência]] nem lógica interior, também não seria possível uma [[lexico:c:ciencia-da-historia:start|ciência da história]], quer dizer, o conhecimento metódico e sistemático das leis que regem o seu desenvolvimento. O domínio da história seria o domínio do capricho, do [[lexico:a:acaso:start|acaso]], da surpresa, e o imprevisível sua única lei. Assim como a fundação da físico-matemática seria de decisiva importância na [[lexico:h:historia-das-ciencias:start|história das ciências]] da natureza, propiciando o surto de desenvolvimento científico e tecnológico que deveria caracterizar o mundo [[lexico:m:moderno:start|moderno]], assim também o descobrimento da razão dialética, entendida como mola propulsora da história, seria de decisiva importância na instauração e no progresso das ciências do homem, a economia, a [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]], a [[lexico:p:politica:start|política]] e a própria história. O pressuposto da racionalidade e a utilização da dialética, entendida não apenas como método, mas concebida como estrutura objetiva da realidade histórica, permitiu, em um primeiro momento, assentar os fundamentos e estabelecer as condições de possibilidade de uma filosofia da história e, em um segundo tempo, com a teoria da [[lexico:p:praxis:start|praxis]], de uma ciência da história. Em que sentido a história, como a [[lexico:c:ciencia-natural:start|ciência natural]], é também sistemática? Poder-se-ia imaginar, como já se observou, que, por ser processo, transformação e desenvolvimento, inauguração constante do novo, advento do inédito, a história fosse retrataria ao tratamento sistemático, [[lexico:c:caracteristico:start|característico]] das ciências naturais e matemáticas. Sempre inconclusa, aberta em relação ao [[lexico:f:futuro:start|futuro]], à mercê do acaso e da liberdade humana, como poderia a história ser reduzida a um conjunto sistemático de normas e de leis? As noções de história e de sistema não seriam contraditórias em seus próprios termos? Já se observou que o essencial, na ideia de sistema, além das noções de totalidade e de unidade, é a ideia de articulação, de interdependência necessária entre os elementos ou partes que o compõem. A história, portanto, só poderá ser sistemática se apresentar, também, essa característica, que torna possível o sistema da natureza. A substância da história é o tempo, não o tempo matemático, mas o tempo humano, [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de si mesmo, que implica a [[lexico:m:memoria:start|memória]] do passado, a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] do presente e a [[lexico:p:projecao:start|projeção]] do futuro. Embora inclua essas três dimensões, às quais correspondem três dimensões simétricas da consciência, o tempo é contínuo e [[lexico:i:irreversivel:start|irreversível]], constituindo uma totalidade que, embora seja movediça e fluente, nem por isso deixa de ser rigorosamente articulada em seus elementos constitutivos. Assim como na vida individual sucedem-se as idades, infância, mocidade, maturidade e [[lexico:v:velhice:start|velhice]], assim também, no plano da história, sucedem-se as épocas e as fases, que, por serem sucessivas e irreversíveis, como as idades do homem, implicam-se umas às outras, em rigorosa e sistemática articulação. A [[lexico:s:situacao:start|situação]] [[lexico:a:atual:start|atual]] do ser humano, na segunda metade do século XX, por exemplo, é o resultado de alguns milênios de vida pretérita, e só pode ser compreendida e explicada à [[lexico:l:luz:start|luz]] dessa história e de todas as épocas e fases que a constituem. Do mesmo modo que o organismo é mais "sistemático" do que a máquina, a história é mais sistemática do que organismo porque as suas partes constitutivas, que são as épocas e as fases, estão sempre implicadas umas nas outras, não no espaço, como as peças da máquina, ou no espaço e no tempo [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]], como os membros e os aparelhos do organismo, mas no tempo consciente de si mesmo, quer dizer, na memória. Porque não é possível separar os momentos do tempo nem substituí-los uns pelos outros, fazendo do futuro passado ou do passado futuro, por exemplo, o tempo apresenta uma estrutura rigorosamente unitária, na qual a [[lexico:i:implicacao:start|implicação]] das épocas e das fases não é exterior e contingente, mas interior e necessária, o que caracteriza a implicação sistemática. Acrescente-se que, na história, essa implicação, além de interior e necessária, é consciente de si mesma, o que faz da história o processo de autognose e [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] do espírito. Sob a égide e a [[lexico:i:influencia:start|influência]] do [[lexico:h:hegelianismo:start|hegelianismo]], a teoria da praxis assentou os fundamentos e estabeleceu a [[lexico:m:metodologia:start|metodologia]] da ciência que, permitindo o conhecimento metódico e sistemático da história, torna o homem capaz de dominá-la, deixando de ser por ela dominado, como até então acontecia. **Ciência e filosofia como sistema.** No primeiro livro da [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]], [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] distingue três formas ou modalidades de conhecimento: o [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], que apreende o particular e o contingente, o empírico ou "[[lexico:e:experimental:start|experimental]]", que nasce da memória e "das numerosas recordações de um mesmo objeto", e a [[lexico:a:arte:start|arte]], ou [[lexico:t:techne:start|techne]], que aparece quando "de uma multidão de noções experimentais surge um único [[lexico:j:juizo:start|juízo]] [[lexico:u:universal:start|universal]]". O objeto da ciência é, portanto, o universal e não o particular, como já ensinava [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]]. Mas não é apenas a universalidade do objeto que caracteriza o conhecimento científico e o distingue do [[lexico:c:conhecimento-sensivel:start|conhecimento sensível]] e empírico, mas também o método, que permite procurar os objetos que se pretende conhecer e ordená-los depois de conhecidos. Do conhecimento metódico do universal, gêneros, espécies, leis, etc, resulta a terceira característica da ciência, a sistematicidade. Um agregado, ou uma coleção de conhecimentos, mesmo que de conteúdo universal, não é ciência, porque entre esses conhecimentos não há ligação ou conexão necessária, mas mera contiguidade ou justaposição. Os conhecimentos passam a constituir ciência a partir do momento em que, além de serem [[lexico:u:universais:start|universais]], articulam-se organicamente, em um conjunto coerente, no qual revelam a interdependência e a conexão necessária em que se encontram uns em relação aos outros. A ciência é, pois, um sistema no qual todos os conhecimentos decorrem necessariamente, ou dos [[lexico:p:primeiros-principios:start|primeiros princípios]], axiomas, postulados, definições, etc. como no caso das ciências dedutivas, ou da experiência e da universalização dos seus resultados, como no caso das ciências naturais. Nas duas hipóteses, o que confere cientificidade a um conjunto de conhecimentos, não é somente a universalidade do seu conteúdo, nem o fato de terem sido obtidos mediante o emprego deste ou daquele método, mas a articulação racional, a unidade lógica, o sistema em que se acham estruturados. O caráter sistemático do conhecimento científico é o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] fundamental da racionalidade, ou da coerência, ou ainda, da unidade da razão, que consiste na exigência de relacionar, de ligar, de descobrir ou estabelecer conexões entre as coisas, reduzindo a multiplicidade à unidade. A geometria de [[lexico:e:euclides:start|Euclides]] é uma ciência, e não um agregado de conhecimentos desconexos, porque é um sistema, no qual os princípios, as definições, os teoremas, as proposições, os corolários, etc, constituem um todo, coerente e [[lexico:l:logico:start|lógico]]. O mesmo se poderia dizer da física newtoniana na qual as diversas leis induzidas da experiência se articulam e unificam em função da lei da gravitação universal. No prefácio da [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] do Espírito, Hegel escreve que "a verdade é o todo (ou a totalidade)", acrescentando, logo em seguida, que "o todo é apenas a essência realizando-se a si mesma em seu desenvolvimento", o que o leva a observar que "o absoluto é essencialmente resultado", pois "é somente no fim que é o que é em verdade, nisso consistindo sua natureza de ser [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]], [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] ou [[lexico:v:vir-a-ser:start|vir-a-ser]] de si mesmo". A [[lexico:t:tese:start|tese]] é exemplificada com as proposições a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] de Deus, nas quais se diz que Deus é a [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]], o [[lexico:a:amor:start|amor]], etc. Nessas proposições começa-se com a palavra Deus que, em si mesma, é apenas uma palavra, um som sem sentido. Somente o [[lexico:p:predicado:start|predicado]] dirá o que Deus é, constituindo a explicitação do seu conteúdo e seu sentido. "O [[lexico:c:comeco:start|começo]] [[lexico:v:vazio:start|vazio]], diz Hegel, só se torna um saber efetivo nesse fim (conclusão)". O saber efetivo, consequentemente, só poderá ser apresentado como ciência ou como sistema, pois "a verdade é efetiva unicamente como sistema". A verdade filosófica não será, pois, o conhecimento metódico e sistemático de uma parte ou parcela do real apenas, como ocorre com as ciências particulares, mas o conhecimento metódico e sistemático do real considerado em sua totalidade. O real, como já se observou, se divide em dois grandes domínios, o da natureza e o da história. E do mesmo modo que na natureza todos os fenômenos e processos dependem, próxima ou remotamente, uns dos outros, constituindo sistemas incluídos em outros sistemas, na totalidade do universo, na história, as épocas e as fases que a constituem correspondem a momentos de um mesmo e único processo que, embora permaneça sempre aberto e inconcluso, nem por isso deixa de estruturar-se na forma do sistema. A verdade filosófica é a revelação da totalidade através do logos, a totalidade enquanto natureza e história. E como o logos é transparente, e a natureza e a história são sistemáticas, a sua revelação através do logos será também sistemática. As filosofias irracionalistas que pretendem negar a racionalidade do real, e recusam o sistema, sob a alegação de que o conceito não esgota a realidade, a rigor não são filosofias, porque além de incorrer na [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] de pretender negar a racionalidade por meio de discursos racionais, negam a própria possibilidade de negar a racionalidade, ao invalidar a exigência racional de coerência que tornaria seus discursos persuasivos. A [[lexico:n:negacao:start|negação]] da racionalidade, na natureza e na história, a pretexto de que incluem contradições, coincide com a defesa de posições conservadoras que, direta ou indiretamente, contribuem para a negação das mudanças e a manutenção do presente. O espírito, no entanto, não se resigna à contradição, como diz Hegel, e aspira à unidade, pois "o mundo é a realização da razão e é apenas na superfície que reina o [[lexico:j:jogo:start|jogo]] dos acasos irracionais". A filosofia é sistemática porque a realidade é racional e a filosofia é a consciência da realidade. Processo, no duplo sentido de [[lexico:a:atividade:start|atividade]] que se efetua no tempo e de [[lexico:j:julgamento:start|julgamento]], a filosofia, como diz Hegel, é uma totalidade, um sistema, a evolução do pensamento que se torna consciente de si mesmo, o trabalho, a [[lexico:l:luta:start|luta]] da razão que procura encontrar-se no mundo natural e construir-se na história. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}