===== SER E VALOR ===== A [[lexico:p:palavra:start|palavra]] [[lexico:b:bondade:start|bondade]], vem de [[lexico:b:bom:start|Bom]], que tem [[lexico:b:bem:start|Bem]]. Há a bondade absoluta e a bondade relativa. A primeira funda-se na [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]]; a segunda, na sua [[lexico:r:relacao:start|relação]]. [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:e:ente:start|ente]] tem bondade (relativa). Há ainda a bondade em si e a bondade para [[lexico:o:outro:start|outro]]. A [[lexico:u:unidade:start|unidade]] é a [[lexico:c:coerencia:start|coerência]] da [[lexico:t:tensao:start|tensão]] e revela uma bondade em si, podendo apresentar bondade, segundo os planos (bondade relativa). Modernamente se substitui o [[lexico:t:termo:start|termo]] bondade pelo de [[lexico:v:valor:start|valor]], que o contém. Na "[[lexico:a:axiologia:start|axiologia]]" veremos que o [[lexico:s:ser:start|ser]] é valor, e o valor é ser, apesar das inúmeras opiniões contrárias e diversas. Mas a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de valor é também análoga, pois o valor é unívogo e também [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]], sem ser exclusivamente nem um nem outro, portanto é [[lexico:a:analogo:start|análogo]]. Todo ser tende a realizar o seu bem, o seu valor. É ele, intrinsecamente, um valor que realiza valores. Daí os escolásticos dizerem [[lexico:e:ens:start|ens]] et bonum convertuntur, ser e bem (valor) são convertíveis. Como poderia o bom ser bom sem ser? Todo ser é um valor na proporção que é, e desejável segundo a sua perfeição. Valor e ser, que se identificam dialeticamente no ser, se distinguem, porém, porque o valor [[lexico:i:intrinseco:start|intrínseco]] do ser será o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ser, enquanto valerá ante outro, extrinsecamente, segundo a desejabilidade que provoca ou satisfaz; mas tal desejabilidade já implica a anterioridade do valor que o provoca, como veremos na "axiologia". Segundo [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de valor, o [[lexico:p:problema:start|problema]] do bem e do [[lexico:m:mal:start|mal]] se tornará mais claro, e [[lexico:n:nao:start|não]] teremos [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de escamotear a positividade do mal para explicá-lo, reduzindo-o apenas a uma [[lexico:p:privacao:start|privação]] de ser, que nos leva, muitas vezes, se tivermos cuidado, a cair numa escolaridade do ser, enquanto tal, o que nos põe ante as mais difíceis situações aporéticas. Se todo o ser é bom, como surgiu a mal? Neste caso, o mal seria uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:n:nao-ser:start|não-ser]]. A solução excludente leva a privar a [[lexico:p:presenca:start|presença]] do que embaraça. Por não serem dialéticos, muitos filósofos caíram na [[lexico:a:aporia:start|aporia]] do mal, que os enleou, de tal maneira, que este problema, um dos mais importantes da [[lexico:t:teologia:start|teologia]], exige um tratamento todo especial, o que faremos em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] oportuno. Em [[lexico:s:suma:start|suma]]: todo ser é valor. O conceito de valor pode converter-se no de ser e vice-versa. Mas o Ser, como valor supremo, é um valor [[lexico:i:incondicionado:start|incondicionado]], enquanto os entes são valores condicionados. Demonstremos: O ser é o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] de todos os [[lexico:p:predicados:start|predicados]] e o [[lexico:p:predicado:start|predicado]] de todos os sujeitos. É ser tudo quanto é sujeito de um predicado, é ser tudo quanto é predicado de um sujeito. Os entes (que são todos também ser) enquanto ser, o são em si ou em outro. Mas tudo pode ser considerado em si ou em outro, pois tudo tem como [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]] final o ser (todo existente tem sua subsistência próxima ou remota no ser). A condicionalidade do [[lexico:e:existir:start|existir]] implica a condicionalidade do valor. Todo existente é um valor condicional, e apresenta tantas quantas possibilidades relacionais, condicionais, etc. Só o ser supremo é incondicional e incondicional também como valor. Todo o ser revela um valor condicionado a outros, tanto em sua [[lexico:i:imanencia:start|imanência]], como valor das partes componentes de uma tensão para com a unidade tensional, como desta em face das estruturas a que pertença ou das estruturas com as quais se antagoniza. A variabilidade do valor condicionado segue paralela a condicionalidade do existir, e as duas se convertem. Por haver condicionalidade do existir, há condicionalidade do valor, por haver condicionalidade de valor, há condicionalidade do existir. Todo valor é assim, no [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:e:existencial:start|existencial]], variável, como o existir é variável, sem que o ser o seja. O ser subsistente, e subsistência de tudo quanto existe, enquanto tal, é incondicionalmente valioso. E essa subsistência final é a superessencialidade do ser supremo, que é um valor incondicionado, por isso é [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] de todo existir. A [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] e das distinções entre o ser e o valor só pode ser exata até o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] em que não se confunde o ser com o [[lexico:a:atual:start|atual]]. Parece-me que tal confusão vem de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]: segundo Leibniz, o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] não é o ser, mas o [[lexico:p:possivel:start|possível]], porque o possível é mais do que o ser, abrange [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] e o que pode vir a ser. Mas isto é uma concepção que confina o ser ao atual; que supõe que o possível ainda não é ser, mas apenas [[lexico:c:condicao:start|condição]] de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] [[lexico:l:logica:start|lógica]]. Ora bem, alargadas as bases desta condição de possibilidade (que também se estenderá ao a-lógico) ela se tornará o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] dos valores; e esse mundo dos valores será visto, não como distinto, mas como separado do ser, isto é, do atual. — Esta [[lexico:t:tese:start|tese]] poderia ser facilmente refutada pelo [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] aristotélico sob o justo [[lexico:a:argumento:start|argumento]] de que ela se funda na [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] de que o ser não é só o atual, mas também o possível. Suponho que uma filosofia de [[lexico:t:tipo:start|tipo]] aristotélico não está particularmente aparelhada para acolher uma teoria dos valores, porque o [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]] leva a identificar, no [[lexico:c:contingente:start|contingente]] e no [[lexico:r:relativo:start|relativo]], o valor com o ser. O valor se apresentará como [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] ou [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] do ser, (ou antes, nos quadros da filosofia [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]], o valor se apresenta como relação de conveniência entre o sujeito e a cousa valiosa; o valor não é o bem na teoria escolástica, como facilmente se poderia julgar. O bem é o ser como portador de valor e o valor é a própria relação de conveniência; o valor em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:e:estrito:start|estrito]] é a [[lexico:r:ratio:start|ratio]] boni, ou a [[lexico:r:razao:start|razão]] [[lexico:f:formal:start|formal]] da bondade; o valor é uma relação, nos quadros da escolástica, mas uma relação [[lexico:r:real:start|real]], não uma [[lexico:s:simples:start|simples]] relação de razão. Onde não houver uma relação real, também não haverá um valor real. É o caso por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] da relação de [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] entre duas moedas, citado pelos teóricos do valor. A relação de igualdade entre duas moedas é uma relação fundada no real, porque pode haver também duas moedas que não sejam iguais. Entendo portanto que nem todos os argumentos que se têm lançado contra o aristotelismo e o [[lexico:t:tomismo:start|tomismo]] na teoria dos valores, são igualmente válidos.) — Em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] e em [[lexico:s:santo:start|santo]] Tomás o ser não é só [[lexico:a:ato:start|ato]], mas também é a [[lexico:p:potencia:start|potência]], graças à qual o ato se realiza. Quando se diz que os valores são [[lexico:p:principios:start|princípios]] condicionais, pode-se também entender esta [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] no sentido de que os valores são potências tendidas para o ato, de que os valores dão a configuração, os limites e a possibilidade de sua própria realização no existente atual; e, uma vez realizados, ou convertidos em atos, são como formas que dão [[lexico:s:significado:start|significado]] à [[lexico:m:materia:start|matéria]]. — O argumento anti-aristotélico parece que se funda aqui numa confusão do ser com a sua [[lexico:e:existencia:start|existência]] efetiva, confundindo-se então o ser com o simples ser fático. É comum a muitos filósofos confundirem o real com o [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], o ser com os seus acidentes, ou com o que está sujeito às determinações de [[lexico:e:espaco:start|espaço]] e [[lexico:t:tempo:start|tempo]]. Mas uma [[lexico:n:nocao:start|noção]] assim restrita do real empobrece extraordinariamente o real, reduzindo-o ao que é petrificado e morto e deixando escapar exatamente o que é mais real do que a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] espacio-temporal, isto é, deixando escapar o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] metafísico do real. Toda a teoria que não afirmar a plena realidade do valor no [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] incorrerá numa [[lexico:s:separacao:start|separação]] incabível entre o ser e o valor; é [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que não falarão em separação mas em [[lexico:d:distincao:start|distinção]]; e todavia, tratarão a distinção [[lexico:c:como-se:start|como se]] fosse separação; a confusão entre distinção e separabilidade, que vem de Duns Scott e que foi consagrada por [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], tem longa [[lexico:h:historia:start|história]] na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]]. E por isso é que muitos teóricos, ao dizerem que o ser e o valor são apenas distintos, em verdade os tratam com separáveis e separados. Ora bem, depois das sutis elaborações da filosofia escolástica, que soube claramente [[lexico:v:ver:start|ver]] o que é distinção e o que é separação, podemos dizer que o ser e o valor são distintos, mas não são separáveis. A [[lexico:e:essencia:start|essência]] e a existência são distintas mas inseparáveis; e essa distinção mesma desaparece no absoluto, onde o valor se identifica com o Ser. E nunca se deve esquecer que, mesmo para os filósofos augustinianos, a distinção entre [[lexico:s:ser-e-valor:start|ser e valor]] é de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] lógica, não de ordem [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]], e menos ainda de ordem [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Toda separação entre ser e valor vem da [[lexico:n:negacao:start|negação]] da [[lexico:t:transcendentalidade:start|transcendentalidade]] do ser, tal como essa transcendentalidade foi compreendida pelo [[lexico:r:realismo:start|realismo]] tradicional. Desde que a filosofia [[lexico:m:moderna:start|moderna]] negou a transcendentalidade do ser, impôs essa absurda separação entre valor e ser. Se o valor está separado do ser, o ser não é [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], em sentido metafísico, porque o ser então não abrange tudo, não abrange o valor; e não abrange o valor, porque o valor é concebido, não só como separado do ser, mas também como [[lexico:i:irreal:start|irreal]]. São numerosas as teorias que afirmam a irrealidade do valor. E resultam de uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] que isola necessariamente o valor e o ser e que poderia ser criticada como arbitrária sob vários pontos de vista: porque os valores, mesmo puros, não estão separados do ser. No Absoluto o valor e o ser são uma só [[lexico:i:identidade:start|identidade]], e, no [[lexico:c:concreto:start|concreto]] [[lexico:i:imediato:start|imediato]], o valor só se manifesta quando aderido a um ser, quando um ser se torna seu portador, ou a sua [[lexico:e:expressao:start|expressão]]. Ou ainda, se é segundo os valores, ou os modelos externos que a realidade se faz, então os valores são mais que reais, porque é segundo eles que a realidade se faz. São proto-formas ou proto-tipos do real. São a realidade do real. O [[lexico:b:belo:start|belo]] modelar é mais real que o belo sensível, porque é segundo ele que o belo se realiza no sensível. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, se o valor é irreal, não se vê como possa ser [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] e [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], exceto no sentido duma transcendência idealista, uma transcendência posta pelo próprio [[lexico:h:homem:start|homem]]. Ora, suponho, a partir da realidade do valor, que é o Transcendente que põe o homem e não o homem a transcendência. Uma transcendência posta pelo homem não tem nenhum alcance metafísico; torna-se mero sinônimo de [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]]. A separação entre ser e valor, juntamente com a confusão entre separação e distinção, vem de uma [[lexico:a:atitude:start|atitude]] que rejeita a existência do absoluto e portanto a possibilidade de fundar o valor no Ser Absoluto. Ora, se o valor não se fundar metafisicamente no Ser Absoluto, ele se torna [[lexico:i:imanente:start|imanente]], torna-se uma [[lexico:p:projecao:start|projeção]] da [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]], de base lógica ou psicológica. Novamente se cairá numa confusão inevitável entre valor e [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] do valor. Abolida a transcendência metafísica, a imanência do valor se torna irremediável; e a [[lexico:v:vivencia-do-valor:start|vivência do valor]] não se explicará sequer a si mesma, porque não saberá como é que, sendo imanente, se sente a si mesma como em contato com a transcendência. Negado o Absoluto, será inútil evitar o [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]] e as insuficiências da subjetividade, eliminando o arbítrio da consciência individual, para transferi-lo à consciência de uma [[lexico:c:cultura:start|cultura]] ou à consciência do homem em [[lexico:g:geral:start|geral]]. A consciência do homem em geral, ou a consciência de. um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] [[lexico:s:social:start|social]], é tão subjetiva como a consciência do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] [[lexico:p:particular:start|particular]]; porque, afinal, a consciência do homem coletivo é apenas uma [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] operada sobre as consciências individuais. A consciência coletiva é uma comunhão de consciências individuais, que não têm suporte, nem realidade fora destas últimas. — O valor é qualitativo e inespacial, exatamente como a consciência, e, por isso mesmo, o qualitativo e o inespacial do valor, não excluem, [[lexico:p:por-si:start|por si]], a subjetividade do valor, nas teorias que negam o Absoluto. Objetivo não é sinônimo de supra-individual. A única verdadeira [[lexico:o:objetividade-do-valor:start|objetividade do valor]] só se pode por com a [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] e a transcendência do Absoluto, entendidos estes termos fora de qualquer [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]]. Os grandes teóricos do valor, que foram Max [[lexico:s:scheler:start|Scheler]] e Nikolai [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]], (este [[lexico:u:ultimo:start|último]] apesar do seu [[lexico:o:ontologismo:start|ontologismo]]) revelaram suficientemente que, numa teoria dos valores que queira torná-los objetivos, o indivíduo particular ou geral que os avalia não tem importância fundante. Os valores são metafísicos e meta-humanos. São princípios modelares que se fundam no Ser Absoluto e permanecem [[lexico:i:indiferentes:start|indiferentes]] à [[lexico:c:corrupcao:start|corrupção]] das cousas em que se exprimem. Em suma, parece-me que as meditações axiológicas a que se têm entregue os pensadores deste século, mostraram a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de conciliar a realidade dos valores com qualquer subjetividade antropocêntrica. A [[lexico:f:filosofia-dos-valores:start|filosofia dos valores]], para fundar os valores, teve que transpor os limites do [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]], do [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]], do [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] e do idealismo. Teve que afirmar o [[lexico:e:espirito:start|Espírito]], sem o qual os valores são inexplicáveis. Teve que restaurar a [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]] da [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] [[lexico:e:emocional:start|emocional]] no [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] de certas realidades, que a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] por si não pode [[lexico:a:apreender:start|apreender]]. Teve que afirmar a existência do Ser Absoluto, sem o qual não se poderia [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a unidade metafísica do valor e do Ser. Por isso disse Johannes Hessen: "Uma filosofia dos valores que não procurasse achar a relação que existe entre os valores e o Ser Absoluto, ou aquela realidade última a que as religiões chamam [[lexico:d:deus:start|Deus]], seria incompleta". — E seria também [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], acrescentamos. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}