===== SER E SABER ===== A [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] socrática é assim, em [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:p:proprio|próprio]], uma «[[lexico:e:experimentacao|experimentação]]». E, tal como modernamente o investigador interroga a [[lexico:e:experiencia|experiência]] com vista a conhecer o que ela dá a experimentar, assim [[lexico:s:socrates|Sócrates]] interroga, [[lexico:a:agora|agora]] literalmente, a experiência dos experimentados , para que deste [[lexico:m:modo|modo]] possa participar do seu [[lexico:s:saber|saber]]. Todavia, no decorrer deste [[lexico:p:processo|processo]] em que se ausculta a experiência para se saber a [[lexico:e:excelencia|excelência]], está já [[lexico:n:nao|não]] só o óbvio [[lexico:s:suposto|suposto]] de que a excelência é «sabível», não apenas o suposto mais refinado de que só a experiência pode ensinar tal saber, quanto o suposto verdadeiramente decisivo de que tal experiência é [[lexico:e:esse|esse]] saber mesmo, posto que ainda mudo e irrefletido. A grande [[lexico:r:revelacao|revelação]] do [[lexico:d:dialogo|diálogo]] [[lexico:s:socratico|socrático]] não será, portanto, nenhum destes supostos (que, enquanto tais supostos, não se encontram abertos à [[lexico:d:discussao|discussão]], nem circularmente se transfiguram em conclusões), mas aquela [[lexico:d:descoberta|descoberta]] sutilmente distinta —e, como tal, sutilmente sugerida— de que a própria excelência é um saber. E será este, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], o permanente [[lexico:p:paradoxo|paradoxo]] e o permanente foco de [[lexico:a:aporia|aporia]] do diálogo, uma vez que é justamente quando a excelência vem a mostrar-se um saber que os interlocutores, que presumivelmente a sabiam na experiência, vêm igualmente mostrar que afinal a não sabem. Todavia, para que haja paradoxo, é precisamente [[lexico:n:necessario|necessário]] que, ainda perante a conclusão, os supostos se mantenham (o que as [[lexico:p:palavras|palavras]] finais do Lísis patentemente demonstram: «Os que se vão embora dirão que nós julgávamos [[lexico:s:ser|ser]] amigos uns dos outros, mas nem sequer fomos capazes de descobrir que [[lexico:c:coisa|coisa]] é o amigo»). E daí a persistência, agora [[lexico:a:aporetica|aporética]], dos três vetores da [[lexico:i:investigacao|investigação]] socrática: o [[lexico:p:primado|primado]] da [[lexico:q:questao|questão]] «[[lexico:o:o-que-e|o que é]]»; a [[lexico:s:suposicao|suposição]] de uma prévia experiência, pela qual o interrogado acerca da excelência deve ser já, de algum modo, excelente; e a exigência da verbalização. Destacam-se desta [[lexico:f:forma|forma]] duas articulações diferentes entre o saber e a questão «o que é». Por um lado, o saber está vinculado a esta questão, pois busca, pela sua própria [[lexico:d:determinacao|determinação]] intrínseca, o que é a excelência, descobrindo que isso que ela é consiste afinal num saber; por [[lexico:o:outro|outro]], [[lexico:t:todo|todo]] o saber surge outrossim determinado por um [[lexico:h:horizonte|horizonte]] de ser, em que o que se busca saber deve ser sempre já «sido», de tal modo que a [[lexico:p:pergunta|pergunta]] por «o que é» aponta o «é» que se é, configurando antecipadamente a centralidade futura do «conhecer-se a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]». A primeira articulação esboça o saber como um «[[lexico:d:dar-razao|dar razão]]», i. e., como um distinguir fundamentado da [[lexico:n:natureza|natureza]] da coisa a saber: e, neste [[lexico:p:ponto|ponto]], dir-se-ia que o saber consiste para [[lexico:p:platao|Platão]], nestes primeiros [[lexico:d:dialogos|diálogos]], num dar [[lexico:r:razao|razão]] ou, mais simplesmente, num dar conta do que é a excelência ou uma das suas partes. Mas, desde logo, atendida aquela outra articulação que configura o saber como um dar razão do que se é, para que se possa ser melhor o que se é, a [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] platônica deixa de ser agora tão-só o dar conta do «melhor» (i. e., da excelência), para se assumir como um [[lexico:e:efetivo|efetivo]] «tornar melhor». Ora esta [[lexico:o:observacao|observação]] permite situar o saber platônico a uma outra [[lexico:l:luz|luz]]: é que ele não simplesmente busca dar conta do «melhor», mas, nesse dar conta ele busca tomar melhor o que assim discorre e busca. O saber é, deste modo, o que toma melhor e que toma melhor justamente ao procurar o que é «o melhor» ; e, portanto, o saber não partilha apenas de uma [[lexico:d:dimensao|dimensão]] especulativa, mas possui uma dimensão irredutivelmente vivencial . Só que, para que possa tornar melhor, é necessário que o próprio saber seja «o melhor», i. e., é necessário que ele próprio seja a excelência ou o seu polo de articulação fundamental. E deste modo reaparecem, de um novo modo, os três planos acima relevados: o saber procura o que é a excelência; o saber torna excelente; o saber é a excelência. Em todos eles, numa explicitação e num adensamento progressivos, encontramos esta [[lexico:n:nota|nota]] constante: saber a excelência é sê-la; saber é ser. O que, na [[lexico:f:formula|fórmula]] lapidar do [[lexico:g:gorgias|Górgias]], se converte: ò τὰ δίκαια μεμαθηκῶς δίκαιος, «o que aprendeu a [[lexico:j:justica|justiça]] é justo» (460b). Esta [[lexico:n:nocao|noção]] — de uma intrínseca circularidade entre o ser e o saber — é aquela a que por ora devemos dar mais [[lexico:a:atencao|atenção]], porque a reencontraremos sob muitas formas ao longo do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] platônico. Ela é ao mesmo tempo, precisamente por isso, a charneira que nos pode guiar numa iniciação à doutrina de Platão, através dos primeiros diálogos. [MesquitaPlatão:52-54]